<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2428384760209611812</id><updated>2011-07-29T15:34:30.233+01:00</updated><title type='text'>As minhas memórias</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2428384760209611812/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Pedro da Fonseca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17891369761169059436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>39</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2428384760209611812.post-3565550553978920958</id><published>2011-07-29T15:33:00.000+01:00</published><updated>2011-07-29T15:34:30.336+01:00</updated><title type='text'>Memórias 39</title><content type='html'>Manteigas  \\  17-3-1972&lt;br /&gt;Em Viagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; A automotora desliza em carris, girando apressada, rumo à capital. No corredor, arrumam-se a custo, alguns impacientes, cujos olhos se distendem, ao longe e ao perto, devorando a via, em miradas frequentes. Aqui e além, bocejam alguns, sondando o relógio e procurando boas relações. A mesma finalidade os torna solidários.&lt;br /&gt; Agora, sou eu que me levanto, demandando a frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                  &lt;br /&gt;9-4-1972   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Grande surpresa hoje me colheu, ao bater das 8! Como há duas torres, na vila de Manteigas, ouvi 15 anos o soar das horas, nos dois relógios. Entretanto,  não  eram  simultâneas,  coisa, por certo, que ninguém admira:  à maneira das cabeças, também os relógios se dão a extravagâncias! É conhecido o velho prolóquio: cada cabeça, sua sentença!  Havendo paridade, cada relógio seu tempo diferente! Mas não era isso que, na verdade, me surpreendia, pois que o mesmo sucede, em qualquer outra parte. O assunto, agora, é bem diferente! &lt;br /&gt;Se não, vejamos: um dos martelos ia sempre adiante e fazia-o por sistema. Julguei até que era por acinte ou por causa ignorada! Pensando algumas vezes, s obre o caso entre mãos, imaginei também tratar-se apenas de um acto simbólico. Ia sempre adiante o relógio de S.Pedro! Figuraria, talvez, o avanço notável da freguesia, sobre a outra  rival – a de Santa Maria?! Simbolizaria a indústria florescente e o progresso deslumbrante, concretizado em obras  que  maravilham quem passa?!&lt;br /&gt; Hoje, porém, ao sair de casa, voltou-se-me a atenção para Santa Maria, em cuja torre soavam as 8! Acto contínuo, levanto os olhos para a torre de S.Pedro, esquadrinhando ali, no mostrador a posição dos ponteiros. Não eram ainda as 8 da manhã! Podia lá ser?! Veriam bem estes meus olhos?! Estive quase para não crer, mas era verdade, pois , volvidos instantes, chegou, até mim, a voz esperada. Apesar de tudo, foi motivo de espanto!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-4-1972&lt;br /&gt; Ontem, nevou, com grande espanto! Já tinha aquecido, ficando a impressão, ficando a impressão de que a neve findara. As contas, porém, saíram furadas e vá de aguentar! Lá está ela, sobre a montanha, dando a esta a cor do linho! Estou saturado, vendo-a sempre: ao invés dos turistas, vindos de longe, para regalar-se, na alvura da serra, fico deprimido, assim que a descubro.&lt;br /&gt; A prima Cristina, que nasceu em Lisboa, julga-se desditosa, por não haver jamais contemplado a neve! Para mim, então, é suprema desventura, vê-la constantemente enregelar-me o corpo e tornar a minha vida quase insuportável! Creio, no entanto, ser este o final! Vou fugir para longe do medonho Covão, onde vivi sempre enregelado porlongos 15 anos! Boa parte da vida, certamente a mais válida, ficou disseminada, por estas escarpas, onde a vista morria, para nada mais poder alcançar&lt;br /&gt; Agrada-me, pois, o belo pensamento: jamais verei neve, que dos 39 anos, aos 54, foi alvo constante de meus olhos magoados! Dei já início ao plano da mudança , pois que esta, a rigor, envolve  mil coisas! Serão todas arrumadas, segundo a importância. Ontem, varri a garagem, metendo os papéis na mala mais velha, que vai permanecer como recordação! Cismo a toda a hora no que devo fazer, para arrancar, já sem retorno, a este vale tão fundo!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-4-1972&lt;br /&gt; Hesitei, a princípio, mas depois resolvi. Era, na verdade, uma ideia obsediante, importuna, definida: ir à Covlhã dispor as minhas coisas, no Banco do Atlântico e tudo preparar, sem demora nem empate. Haviam sido j á três  as minhas tentativas, mas todas infrutíferas: fechavam-me as portas, quer dizer, atendiam aqui as aspirações que noutro lugar satisfariam. Ilusão e nada mais, pois noutro lugar haveria erguido obra mais válida, preen- chendo  aspirações de outra natureza. Agora, porém, é já tarde para isso! “ Burro morto, cevada ao rabo”!&lt;br /&gt; Passou, de facto, a ocasião e, nesta data, era uma vez…Entretanto, alguma coisa se lucra, ainda agora: passar em calma os últimos anos, sem zangas nem ruídos! Esta gente nova é quase insaciável Que a aturem e aguentem os que assim a puseram! Desenfreada, importuna e leviana, arrogante e mal criada! Vem isto de há pouco, nas já me saturou!&lt;br /&gt; Trabalhei bastante: 27 anos  é já suficiente para arruinar um homem qualquer, fazendo como eu. Importa agora transferir o dinheiro, do Sotto Maior e da Caixa geral, para o Português do Atlântico, onde intento guardar o fruto ganho pelo meu trabalho! Não chega a 5oo contos! O que isto representa de lidas e canseiras só Deus o sabe! Não há palavras humanas que traduzam bem as privações, esforço e noitadas, subtraídas à vida, para amealhar tão fraco pé-de-meia! &lt;br /&gt; Este facto deplorável fornece razões de sobra, para que eu odeie o Capitalismo! Arruinar-se a existência, para juntar migalhas que já não podem servir, por falta de saúde ou espaço de existência&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-4-1972&lt;br /&gt; Nada assentei com o nosso Director, sobre o ano escolar, que vai ter início, como é habitual, após as férias grandes. Basta preveni-lo até fins de Julho: equivale a dizer, com dois me ses de férias. Apesar disso, fá-lo-ei com mais espaço, havendo assuntos pendentes, que é preciso tratar. Procedo em tudo como se, na verdade, houvesse decidido, por forma incontrastável!&lt;br /&gt; Penso eu: ninguém logrará, por mais que tente, desviar-me de sair, dadas as circunstâncias que tomaram já corpo. Acabou-se de uma vez o lugar de privilégio, coisa aliás que me reteve, durante vários anos: correram-me também do velho hospital e fui substituído. &lt;br /&gt;Os provedores de agora têm de impor-se, com grande rompante, Só agem de outro modo, se forem lisonjeados e objectos de culto. Fora deste clima, eliminam decerto os capelães. Nem se lembram, às vezes, que acima deles está o Prelado. Riscam, tiram e põem como ditadores! Lá virá ocasião de baixarem a grimpa! &lt;br /&gt;Além do mais, a disciplina, dentro do Colégio, morreu de vez! Indisciplina, altivez e preguiça, eis as características dos novos estudantes. Claro! Há sempre excepções! Como ficar?! Nasceu outro sol: é forçoso que me eclipse, nestas paragens. Deixá-los-ei sossegados, ainda àqueles que vieram atravessar-se, no meu caminho, sem o mínimo respeito de franca lealdade!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-4-1972&lt;br /&gt; Iniciei já o arranjo das malas e dispus as coisas para a grande arrancada. Saturam-me estes ares! Pesam-me estes montes! A própria água me causa dano! Há muito já eu devia ter partido. Quem obstou, afinal, a que eu o fizesse?! Nem sei, precisamente! Que pedido me fez a mãe extremosa, antes de morrer?! “ Não fiques aqui, meu filho! Vai-te de cá embpra!&lt;br /&gt; Decorreram 15 anos, de 1957 a 1972, absorvendo a minha vida, entre os 39 e os 54. Aqui passou a idade, em que o homem rende mais e tira maior fruto da sua actividade, intelectual. Envelheci assaz precocemente e a solidão das serras tornou-me pesado, algo tristonho. meditabundo. Jamais vi deslumbrado um radioso alvorecer ou dolente pôr de Sol! Altivas escarpas, adrede alongadas, guardam ciosamente a colmeia humana&lt;br /&gt;Acontece, pois, que nem céu luminoso nem rasgado horizonte é dado contemplar! Quase sempre nevoeiro, a jeito de capacete, cobrindo porfiado a área triste e exígua  que habitamos no fundo! Como é pequeno e harto acanhado o chão que pisamos, assim também o espírito se encurta e amesquinha, por influência do meio!&lt;br /&gt; Deprimido como estou, de vista limitada e espírito ensombrado, conseguirei novamente ressurgir e viver ou será irremediável a minha situação?! Fujamos daqui, o mais breve possível!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-4-1972&lt;br /&gt;Dando hoje uma mirada àqueles preparativos, que antecedem a abalada, noto com agrado haver já feito bastantes diligências: arrumei a garagem; fui â Covilhã: separei os livros que hei-de levar, a caminho de Lisboa; pus em ordem os papéis. Deito-me sempre, fazendo planos e levanto-me depois, para efectuá-los. Agora, uma ideia; logo, outra diferente. Se fosse mais novo, era coisa facílima. Hoje, porém, tudo obscuro; tudo molesto! Começar é difícil, após os 45. Que eu, realmente, não intento fazer isso, mas sempre é mudança!&lt;br /&gt;Aposentar-me e dar explicações, originaria, estou certo disso, uma vida tranquíla. Tarefa já leve, para a minha experiência! Um número reduzido não exige esforço! Turmas enormes como estas são, cansam e moem. Sendo atendido, ao requerer a aposentação, irei receber modesta quantia: a Caixa de Previdência para os docentes de Ensino Particular f oi criada apenas em 1962, não interessando os anos de magistério, referentes ao passado. No entanto, exíguo que seja o prémio mensal, ajudará, certamente, a fazer face aos gastos necessários &lt;br /&gt;Vivendo em Lisboa, complicam-se as coisas, mas há também recursos , que a Província não tem. Deus ajudará, que é nossa Providência e Pai amoroso de todos os filhos, principalmente os mais espezinhados! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-4-1972&lt;br /&gt; “Finis coronat opus” É este um velho provérbio que, por ser latino, granjeou reputação. Vale também a sua antiguidade. Apesar de tudo, assalta-me a dúvida, perante o sucesso do Colégio fe Manteigas. Com surpresa enorme para o Corpo Docente, vimos no Jornal “ Ecos de Manteigas, uma informação que diz o seguinte: “ Por motivo de doença do seu fundador, proprietário e director, vende-se, arrenda-se ou aceitam-se ainda novos sócios”&lt;br /&gt;Emocionante o momento, por várias razões. como tal é óbvio: não sabermos de nada; ninguém nos falar particularmente, acerca do caso; não haver aí uma prova de atenção, para quem tem sido, ao longo dos anos, tão sacrificado como estes professores! A quem mais interessaria a solução imediata do grava problema? Eu, então que trabalho como galego,, há já 15 anos! É bem certo que nem sempre o fim coroa a obra! Às vezes, deslustra-a Nem sempre o remate é lustre do arquitecto!&lt;br /&gt;Se bem vemos este caso, não podemos, certamente, deixar de senti-lo: revela nitidamente falta de compreensão, manifesta desconfiança, profunda ambição e propositada ânsia de ferir e molestar! N! !em uma palavra! Nem uma insinuação! É bem verdade que, de alguns homens só isto se espera! Jáo sabia, que nasci Há muito, mas isso, bem entendido, não impede o choque!&lt;br /&gt;Triste sina, afinal, que o trato humano cave tais fossos, abra tais feridas, origine protestos e cause decepções! O senhor D; António, bispo de Coimbra, disse uma vez a um colega meu: 2Nemo bónus, nisi probetur”. Isto assim, não obstante a Moral dizer o contrário.”Nemo malus nisi probetur&lt;br /&gt;A Escritura regista: “Omnis homo mendax” Sendo estes os factos, não devia estranhar! Entretanto, os factos provocam choque.&lt;br /&gt;Mamteigas  \\  16-4-1972&lt;br /&gt; Não é bom nem sensato prender-se a gente seja ao que for, neste mundo volúvel.,&lt;br /&gt;Manteigas   \\     18-4-1972&lt;br /&gt; Os meus preparativos encontram-se agora na ordem do dia. Radicou-se em mim esta ideia absorvente, nada havendo já que possa absorvê-la! Sair de Manteigas, abandonar para sempre este Covão sombrio, em que estive sepultado ao longo de 15 anos! Fugir, de uma vez, à  perpétua escuridão, que me envolve há tanto! Tentei-o, de outras vezes, nunca o alcançando, por motivos estranhos!&lt;br /&gt; Agora, no entanto, amadureceu esta ideia feliz. Custou, na verdade, mas logrei despedir-me. Os motivos graves do meu coração dissiparam-se já, e nada me resta senão largar.  Desde Outubro passado, foi suficiente, para tomar a grave decisão. Decepção e amargura tudo se coligou, para resolver-me! Desenraizado como estou já, desapareceram as grandes causas --  as que gera o coração e guarda avaramente; os meus livros diários, os meus alunos, as pessoas amigas, estes lugares , tudo o que perfaz o mundo da alma e enleva também o nosso coração! &lt;br /&gt;Já tudo perdeu a cor,  superficialmente.  A isto levaram desconsiderações e até aleivosias,  embora subsista nos recessos do peito . Por tais razões, vou dispondo as coisas, no sentido que importa: desligar-me de tudo, procurar outros céus, desfrutar mais espaço, fugir para sempre à intranquilidade, evitar de vez, aborrecimentos que, a toda a hora, não pude esconjurar.&lt;br /&gt;Quase tudo arrumei já, servindo-me de malas e sacos plásticos. Chegado  o momento,  disponho as coisas, no carro particular e eis-me lançado na estrada de Lisboa, com Deus por companhia. Será provavelmente o meu entardecer Só Deus o sabe! Agora, é só partir,para nunca mais!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-4-1972  Um Crime abominável!&lt;br /&gt;Ocorreu há pouco, na cidade X, ficando tão gravado, que não consigo esquecê-lo!  Estremeço, horrorizo-me, de trazer à memória esse caso horripilante ! A mãe desnaturada rebenta a filhinha, de 3 anos apenas! Uma sova tremenda pôs fim à existência da pobre criança! Haverá punição que seja bastante?! Encontrarei palavras que possam traduzir a minha indignação e revelar, e  de igual passo o meu grande furor?! É tão melindroso este caso lastimável que, segundo julgo, nem devia ser lembrado!  &lt;br /&gt;Qual foi o crime dessa inocente, para deixar a vida amada, antes de vivê-la)! Brincar descuidada, jogando à péla, frente ao televisor, cujo vidro partiu! Exprimir-se de ste modo ser á crome nefando)! Jogar à péla merece punição, estrangulamento e banho de sangue(! Eu vejo, nesta hora,  a mãe ensandecida,  arrebatada já por enorme furor e tomada ali pelo mesmo diabo, arremessar-se  irosa , qual demónio vivo, à criança indefesa, cujo grande crime era apenas viver a vida! E aquela que a gerara, devendo a todo o transa defender-lhe a existência, atirou-se brutalmente, arrancando-lha impiedosa! Bateu , bateu e, no fim,disse à pobrezinha: “ Agora, de castigo vais para a cama!”&lt;br /&gt;Lá vai a inocente, a muito custo já, rebentada pelo ventre! Eu não posso descrever! Sinto a minha alma em grande convulsão e o peito dorido em funda agonia! Chega o pai, à noite e, uma vez informado, vai lançar-se à criança, para castigá-la. Nisto, uma débil vozinha, quase já do outro mundo, suplica tremente: “ Paizinho, não me bata, que estou cheia de chichi!”&lt;br /&gt;Era sangue, às golfadas, pois fora rebentada! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-4-1972 &lt;br /&gt; É feliz neste mundo quem senta prazer naquilo que faz, Estarei neste caso?!  Para ter deleite naquilo que empreendo, necessário se torna que que seja de minha escolha. Profissão e trabalhos, preferências e folgares hão-de vir do meu íntimo, como se fora um ventre a ger´-las para a vida. Sendo fruto de alguém que se ingeriu importuno e actuou levianamente, já se se não casam, por certo, com o meu temperamento! Nesse caso, iriam dar gosto a outra pessoa, mas não a mim!.&lt;br /&gt;Havia uma coisa que me dava prazer, mas agora dissipou-se, ante a vida insana que vai pelo mundo: liberdade sem freio, egoísmo feroz, importância desmedida, espírito iconoclasta, planeamento de igualdade em profissões e misteres. Nem tudo se aprova!Que se espera daqui?! &lt;br /&gt;A amargura somente e coisas semelhantes! Sendo isto assim, os alunos não trabalham, atirando para os Mestres,  co um fardo in suportável! São altivos e grosseiros, insubordinados  e bastante reles! Quem vau aguentar?! Só as novas gerações . Os que seguem a rigor, princípios antigos, de modo nenhum se acomodam já!&lt;br /&gt;Quem irá então, por via segura?! Deus é quem sabe, mas creio não ser difícil achar a resposta.  Convencido estou, pois, que outra barreira se vai erguendo já, para desprender-me deste lugar É tão pouco, afinal, aquilo que me prende!  Minha irmã e os filhos, por amor dela? De meu irmão também gosto, mas não tenho a certeza se ele de facto, é amigo verdadeiro! Oxalã eu esteja enganado! As acções o dirão!&lt;br /&gt;Fora deles, nada há certamente que me prenda â vida., cá neste mundo!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-4-1072&lt;br /&gt; A nossa Guida escreveu de Angola. Foi grande o alvoroço, no meu coração , de tal modo e feitio, que dormi agitado, acordando precisamente, às 4 da manhã. “Tive aborrecimentos com um Furriel, natural de Guimarães.”Quem me dera em Silva Porto, para medir-lhe um pau, ao longo das costas! O tal menino havia de saber como é que se dança o famoso fandango! Vai incomodar a nossa pequena e fazê-la sofrer ? Oh!  Veículo talvez de asquerosas doenças ! Quem te deu liberdade, para indispores a nossa menina?! Descuida-te lá, que eu te direi!&lt;br /&gt;Só queria apanhar-te, quando for daqui em férias grandes! Ficarias sabendo quem é o tio da estudante, acabando-te a farsa, em menos dum credo! Não te sacudas nem armes à importância, que pode sair-te o gado mosqueiro! Aproveita agora o tempo da vida, dispondo as coisas, ordenadamente, que a hora é incerta! Um esquecimento é, às vezes, fatal Quantas lamúrias, por falta de sensatez! Quantos desaires, por se  armar à importância! Ainda é tempo, magala! Afasta-te prudente, para não teres graves dissabores!&lt;br /&gt;Segue o meu conselho, preparando as malas, que é tempo azado! Se me deixas alcançar-te e perco a cabeça, não imagino o que pode suceder! Coisa boa não é!Diz o o povinho: “ Quem nos avisa, nosso amigo é!” Isto, exactamente é o que eu estou fazendo! No meu coração, há já ressentimento! Não vou ter mão, que está fora de alcance! De modo nenhum quero ver prejudicado o futuro da miúda que vai perdendo anos, por motivos fúteis! devidos a ti!&lt;br /&gt;Doloroso se torna presenciar tais factos, em gente do meu sangue!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-4-1972&lt;br /&gt; O tempo agora afasta-se lento, pesado, molesto! Com ar matreiro, não apressa marcha! Este período, na faina escolar, parece interminável e, há pouco iniciado, afigura-se haver muito. Nunca assim aconteceu! Por um lado, a saudade dos meus; por outro, a saturação imensa que me vem deste meio. Não sei, a  rigor, como isto há-de ser. Quando tenho muitas aulas, tudo vai bem e de nada me apercebo! Absorvido nas matérias, roda o tempo veloz, sem deixar vestígios na alma atribulada! Quando, porém, há tempo de lazer, a coisa é mais séria! Bocejo e reviro-me, penso e vem a náusea.&lt;br /&gt;De quê?! De mim e dos outros, de tudo e de nada! Que me prende ao mundo e suas vaidades) Se não houvesse na planta zona copada , abundante em ramos e folhas diversas, que seria dela?! Tombaria, por certo. Isto é o que vai suceder-me. Efectivamente, desenraizado como estou, já nada me segura. Acompanho cegamente o rodar fatal da vida presente,: nem amo já nem sou amado! Por esta razão, ninguém me quer a mim nem eu quero a ninguém! Alheios em tal grau, ignoramo-nos de todo, ao cruzar de nossos passos. &lt;br /&gt;Como ser então feliz, rodeado como estou de ambiente adverso?! Terei eu paz? Terei ventura?! Albergarei no meu peito a chama do amor?! Só, gelo me cerca.  Que outras mais surpresas virão ferir-me ainda?!&lt;br /&gt;Manteigas  11  24-4-1972  Ensino de hoje&lt;br /&gt; Ao longo de 4 anos, esboçou-se claramente uma situação deveras lamentável, que desacredita o nosso Ensino e leva o país à ruína mais trágica. A princípio, era simples amostra; depois, foi tomando vulto,, para atingie, em seguida, formas colossais. Ando surpreendido, e escandalizado! O aluno de agora não quer esforçar-se. Ora, sabido é que vontade e esforoço estão na base de qualquer projecto.  “ Labor omnia vincit”O esforço vence tudo.  Nada aí há que lhe ponha obstácilos, com eficiência ou crie dificuldades quase insuperáveis! Ao contrário, podemos afirmar, de modo igual; sem trabalho, nada se consegue. &lt;br /&gt;Para onde caminha um povo infeliz, cujos filhos e filhas deixam de esforçar-se?! Se  é do trabalho que vem todo o bem, , a danosa preguiça origina, ao invés todo o mal possível. Sendo isto verdade, --  ninguém o contesta  --  esboça-se já, no futuro incerto desta geração, uma nuvem espessa, que porá estremeções , no coração dos mortais. Habituados há muito, a nada fazer, criando só vícios e nutrindo paixões, os jovens do nosso tempo serão amanhã elementos perigosos de sociedades quase agonizantes.. &lt;br /&gt;Virão povos mais fortes , em que a disciplina seja norma de viver e o esforço pessoal uma norma constante da sua existência. Perante eles que são vigorosos e preparados para o sacrifício, estas gerações moles e indolentes são pasto cobiçado para vistas estranhas. A perda de liberdade virá logo em seguida, sendo necessário um elemento estranho , para logo pôr cobro a desmandos e atropelos, que vicejam e alastram por toda a parte. Antolha-se bem mau o cariz dos novos tempos”&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-4- 1972 Cont,&lt;br /&gt; Entre as vergonhas do século presente, encontra-se medrando a do Ensino escolar. cá em Portugal. A corrupção lavrou por todo o sítio, alcançando prestes o cerne das almas. Princípios  basilares  que eram sagrados,  hábitos inconcussos, maneiras  respeitáveis e tra- dições, harto venerandas, estão sendo votadas ao negro ostracismo, vendo assim nós, de braços cruzados e amargura no peito, o desabar estrondoso de alta civilização. &lt;br /&gt;É, de facto, a sepultura do que foi uma glória. Nada se respeita! Iconoclastas há-os a rodos;  demolidores surgem amiúde. E tanto custou erguer e firmar este belo edifício! Derribar algo é sempre a favor; levantar, porém, é muito diferente! &lt;br /&gt; Lavrando a corrupção no dito sector, em que os patrões vão medindo tudo pelo efeito material que poderá fazer-se, para obstar à marcha?! Apenas a extinção da marcha?! Encolher os ombros ou abdicar?!  Conformar-se e aprovar?! Assim recomendam os princípios ds honra?! Para onde caminhamos?! Ainda ontem era perigoso e sujeito a punição fumar no interior ou no espaço defeso. Hoje, é isso banal e ninguém já repara! Até aqui era desonesto usar o vestido, acima do joelho; agora, porém, já o não +e!&lt;br /&gt;O que era mau, se de facto era, poderá alguma vez tornar-se bom?! A corrupção alastra a todos os sectores, incluindo o Ensino. Abdicou-se já da mesma autoridade; fez-se do sorriso uma arma de conquista e viveu-se em farsa a vida  dos alunos .&lt;br /&gt;Manteigas  11  26-4-1972 “Diz o borrachão o que tem no Coração”  &lt;br /&gt; Mais um provérbio que, em sua exiguidade, transmite coisas grandes, feitas de experiência, tempo e saber. Assemelha-se bem ao prolóquio latino: “in vino veritas”! A verdade está no vinho ou ainda: O borracho nada esconde! E bem parece que assim é realmente! De facto, pessoas discretas, recatadas e tímidas , ao calor do vinho tornam-se gárrulas e muito indiscretas. Falta ali já o forte contra-peso, que não actua na dita ocasião.  Expressam mérito, na pessoa visada?l!&lt;br /&gt;Muita coisa se encobre, na vida presente, umas vezes, por vergonha; outras ainda, por conveniência. Removido o pejo, temos a pessoa em toda a nudez! Então, cessa a compostura, não há discrição e falta o bom senso! Estas amarras terão utilidade? Melhor diria; serão causa de virtude? Por motivos humanos perdem desde logo o seu valor moral! Efectivamente, se eu  me coíbo , para não ser vexado, ou por outra razão meramente humana, que valor, afinal posso eu ter ,aos olhos de Deus?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  30-4-1972         Como é grato e bom ver o tempo escoar-se , não me lembrando sequer que tal l   correria me aproxima da morte! O que seduz neste facto o meu êxodo! Voltar as minhas costas ao grande Covão e fazè-lo para sempre! Que bom! Deixar o fundão , onde envelheci, durante 15 anos, por falta de luz, é grata aspiração que revolve a alma e alvoroça o peito!&lt;br /&gt;Por que razão me gastei aqui, obscurecido e mal medrado, entre gentes remotas, num clima agreste, rigoroso e molesto? Por que deixei passar 15 anos tão belos, em que podia luzir, rumo à ventura?! Gostosa miragem que , que durante algum tempo logrou enfeitiçar-me, para seguidamente  ficar imerso  em mar de pranto! A gora é tarde, bem sei! Não obstante iisso, almejo vivamente por sair daqui! Voltar as costas à sombra , procurar horizontes, dilatados e sãos, em que sinta afago a alma desnudada, na corrida breve pela existência!&lt;br /&gt;Ver sorrir lealmente, ouvir uma voz meiga que se julga amiga, receber o calor de alminhas inocentes, ser enleado por bracitos débeis, sejam eles de sobrinhos! Mas há neste mundo  tão pouca verdade! Quanto adoro a amizade e estremeço ao vivo, só de nela pensar! Deserdado já, em verdes anos, sentir-lhe a falta, de muito jovem. Que fazer agora?!&lt;br /&gt;Se ao menos achasse alguém que logo me acarinhasse, desinteressado! Sem o belo conforto dum afecto sincero, não é possível a vida! Irmã ou sobrinha, de cabeça no lugar, partilhando alegrias, dores e desaires, com o tio já velhinho! Seria bem pouco, mas bastaria!&lt;br /&gt;Manteigas   \\\  1-5-1972  Barreiras &lt;br /&gt; Lá para os mares da remota Ausrália, existe há muito, a Grande Barreira, constituída por corais, numa extensão, que orça pelos 15oo quilómetros. Os corais, por sua vez, aglomeram-se ali, formando assim obstáculo forte para a navegação. Quanto a mim, a grande barrira +e muito diferente! Ninguém adivinha, mas eu dou ajuda, para evitar maçada! O mês de Maio, com dias tão longos, sendo ele tão extenso, é para mim a grande barreira!&lt;br /&gt;Trinta e um dias, férteis em labor, e fecundos em em canseiras! Exames de alunos, aprontamento de coisas, em vista da saída, esse arranque fantástico, pelo qual suspiro, e a que visam os meus actos, por mais insignificantes! Quem há-de transpô-la com tanto a arrumar e tanto a largar?! Quando se é jovem, faz-se grato mudar e é bastante fácil a adaptação.  Agora, porém, tudo corre diferente! O mais leve obstáculo avoluma-se demais, transformando-se logo em alta montanha!&lt;br /&gt;Pôr as contas a limpo, essas contas malditas, que nunca estão em dia! D e sde Setembro, em férias de contas! É quanto basta, para me tirar a doce paz! Eu, então nunca administrei o que é dos outros, a não ser que o pedissem! A mim, porém, ninguém se dirigiu, pedindo autorização em tal sentido! É forte desgraça a cair-me em cima! Nunca saber de quanto disponho! Julgarão até que me fazem favor! Sei lá! Não digo nada! Vêm-se coisas! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-5-1972          Vai por toda a parte enorme surto de vida, o que em mim faz espanto e me deixa perplexo .Algo bem diferente se passa comigo, pois não me encontro em boa sintonia. Serei eu neste mundo excepção à regra?!  Andarei alheado e tã0 solitário, que leve a rigor, existência diferente dos outros mortais?! Mas isso é estranho, deveras excêntrico e muito danoso.  Constituir, por mim só um mundo àparte! Mas porquê?! Em nome de quê?! Ideal nobilitante?!Fui eu, na verdade, que o gerei no peito?!Saiu do coração, onde lavra, há muito,  deceppção e desacordo?!&lt;br /&gt; Fruto averdungado, cuja planta foi torcida, debato-me no vácuo,, onde gemo angustiado. Mas que valem meus ais, se ninguém os escuta?! Sim admito isso a quem vão interessar, neste mundo egoísta , em que vale quem tem e dá com abundância. &lt;br /&gt;Chilreiam à volta alegres avezinhas, esvoaçando lépidas e fazendo trejeitos, que parecem amorosos. Zurrem bem forte, por vales e montes, jumentos asquerosos, que sentem conforto na alegria de viver. Um pouco de erva tenra e família em sonho é quanto basta, para  serem felizes. Que dizer da Natureza?! Essa então de nada carece, anunciando prodígios e obrando maravilhas que deslumbram meus olhos, tristes, apagados!&lt;br /&gt; Percebo em toda a parte, sorriso e promessas e descubro sempre, mas fora de mim, sólidas esperanças.  Só em minha alma lavra há muito, o verme da solidão e se instala com firmeza esta negra sombra que não me deixa sorrir nem jamais ser contente! Como vou libertar-me desta situação, horrenda e maléfica?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-5-1972         , &lt;br /&gt;Esbatidas pelo tempo, que não perdoa a ninguém nem pass a em vão, chegam até mim&lt;br /&gt;llembranças melífluas, que entornam breve, no peito gemente, o perfume da saudade. É amargo também, mas isso não importa,, que transmite à alma sensações deleitosas. Remonto ao passado, que dista, ao presente, já 4º anos ou coisa no género, e eis-me de novo no doce paraíso, que era a minha aldeia. Absorvido por cuidados, que a minha alma nutria, a eles me dava todo, sentindo-me feliz!&lt;br /&gt; Era o jogo da péla e outros passatempos, que me faziam vibrar, dando cor à vida. Sacrificava-lhes tudo! Por eles daria a vida, na grata reflexão, que a idade justifica. De ninguém me queixava, porque era todo eu, em corpo e alma, acção e afecto, a viver a minha vida, a preferir sempre o que dava prazer, a gizar, de facto, a realidade que muito amava. Ser eu tal qual, viver inteiramente as doces ilusões, cultivá-las com esmero, sem intervenção, entregar-me a elas! Sonhar… sonhar! &lt;br /&gt; Eram peões e baraças, a péla e o rapa, bicho e salsa-verde … Disseram-me depois ser aquilo danoso, intentando substituí-lo por outras acções, ditas construtivas. Aceitei, de bom grado, porque era inocente e, julgando então que sabiam eles bem mais do que eu, deixei-me levar, qual manso cordeiro, embalado por um sonho que outros geraram .&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-5-197         Dissipou-se em meu peito essa voz feiticeira, que me trazia sempre ilusões e desenganos. Melhor diria, talvez, a única verdade que me é grato lembrar. O dia de Santa Cruz, em que eu vibrava forte, passou uma vez mais, deixando resquícios de melancolia, que a saudade agridoce persiste em manter. Essa voz maviosa que põe no meu peito alvoroço e júbilo, ! Essa meiga presença que, embora distante, inda alerta a minha alma!&lt;br /&gt;Que força maravilhosa a erguer das ruínas um peito amargurado! Vem comigo. ó saudade, faz-me companhia e nunca te afastes! Vive comigo, senta-te a meu lado, para logo dizeres o que a minha alma adora! Não te vás para longe! Tem pena de mim, que não posso com a vida, por ser-me tão contrária! Afugenta de meu peito estas sombras medonhas e difunde luz, que brote a jorros, dissipando a escuridão! Dorme comigo e segue-me depois a todo o lugar, não mais largando quem te rende culto e presta homenagem! Sê doce companheira, nesta amarga solidão,  que tristeza a minha, nesta solidão em que vivo mergulhado e vela a toda a hora, pois desfaleço, na longa jornada!&lt;br /&gt; Ai, meu Deus, que tristeza a minha! Tão só na na vida! Ludíbrio de todos! Escárnio atroz da vil sociedade! ninguém  me defende, no medonho torvelinho! Ninguém me ajuda, nas horas adversas!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-5-1972&lt;br /&gt; Fim-de-semana? Dizem que sim. Até afirmaram alto que são maravilhosos tais dias de repouso! Comigo, porém, acontece ao invés. É então que mais sofro, por notar que ando só!De facto, a solidão é um dos males da vida presente e o maior da existência. E então com este feitio! Imperioso, egoísta, sensual e afectivo! É na verdade, o cúmulo da miséria, o grau mais alto da infelicidade! Aqui me cerro, pois, horas a fio, como se, na verdade, fosse um criminoso, expiando suas faltas. Mas é detestável! Onde é que está o fim-de-semana?! &lt;br /&gt;Por que é que naou como os outros mortais, que aproveitam ensejos, a fim de arejar, aliviando o espírito?! Por que não saboreio, durante os lazeres, o prazer inefável de tudo esquecer, entregando-me em seguida, aos puros afectos, que inebriam a alma?| Sim! Mas, afinal, em companhia de quem?! Acaso as paredes falam dialogando?! Ou os móveis do quarto, mudos, estáticos?! Os demais objectos que, a toda a hora me cercam e olham?! Gemem eles, por ventura, compartilhando na minha dor?! &lt;br /&gt; Onde está, pois, o meu fim-de-semana?! Escolhi eu, por ventura, esta forma de viver?! Encontro-me isolado incompreendido e já sem ninguém. Mas isto não era, de facto, o que eu desejava! Atiraram-me cedo para esta liça! Não fui eu para lá, de espontànea escolha! Não me foi sonegado o sério da vida, jogando então com fantasias?!&lt;br /&gt; Aos 20 anos, é fácil crer e dizer que sim, quando rogado! É-se generoso, sendo levado pela imaginação! A dura realidade surge mais tarde, quando sérios problemas, de variado aspecto, requerem solução. Unicamente, os “chamados” por Deus e não pelos homens, são capazes de haver-se com dignidade, brio e valentia! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-5-1972&lt;br /&gt; Daqui a um mês, é já final de luta, que muito me constrange! Anseio vivamente por esse tempo saudável, que vai logo tirar-me vãs apreensões, restituindo-me a paz. No entanto,  ainda hoje, no 4º ano, houve um caso revoltante. Interrogando, a propósito, o maioral da turma, assim como outrtos, de certo nome, veio em resposta, o silêncio total! Já não posso com isto!  Fiquei horrorizado e, por bem pouco não perdi a cabeça É demais para mim!&lt;br /&gt;Que fazer, nesta hora, sem meios de repressão?! Poderá conceber-se alguma sociedade, deixando cada um entregue a si mesmo?! Só de loucos varridos! Há-de haver incentivo!  Requeremos, sim, que haja intervenções! De outro modo, não temos sociedade nem  progresso nem ordem! &lt;br /&gt;Ao que pode chegar-se! Não quero alongar-me nem devanear, descobrindo causas e descendo a porquês! A verdade, porém, é tornar-se amesquinhante esta situação. Efeitos e sintoma do capitalismo?! Responda-me agora quem souber fazê-lo! Interrogo a Fátima. A mesma coisa! Todos emudecem, como por acordo: a Joaquina e o Rui; a Conceição e o Mário! Reina o silêncio, na aula de Inglês! É um silêncio pesado, importuno, indigesto!&lt;br /&gt; Abandonar a aula?! Desatar ao soco?! Estou peado: quero actuar, mas não vejo  saída! Braços caídos! Só a violência que muito desamo e desaprovo! Desçam outros, pois, à raiz do mal, quando eu partir.  Tenho saudades; não posso olvidar esses tempos ditosos, em que os nossos alunos eram cumpridores, tendo por norma serem gentis e querendo, a valer tornar-se alguém!&lt;br /&gt; Mudaram os tempos ou fui eu que mudei?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-5-1972&lt;br /&gt; Foi há pouco ainda, na aula do 2º ano. Interrogando, nas Ciências Naturais, verifiquei, muito surpreendido, que não tinham estudado. Eram revisões de Pontos corrigidos, Aquilo, realmente, deu-me no goto! Safa! Não posso aturá-los! Já imitam os maiores, passeando pelas ruas e acordando a calçada! Era segunda-feira, mas que valia?!O fim de semana ‘e para estúrdia! Ano de exame, lá na Covilhã?! Isso não conta! Gozar a vida, namorar, em nsso tempo  e distrair, não viver preocupado, mandar os outros à fava, não prestar atenção!&lt;br /&gt;A lei suprema da vida, em nosso tempo, é o desejo de cada um. Vai ele de encontro  ao sentir geral? Opõe –se à  tradição? Levanta problemas? Nada importa! Vendo, pois, tais empregos, gaiatos e gaiatas apressaram-se a imitar; cigarro e bola, meninas e gozo! Caí das nuvens! Apronta reacção levantou-se, desde logo, a tomar providências. &lt;br /&gt;Secamente, disse à turma: vem a mesma lição! Cá vos espero, na quarta-feira! Admitindo, no entanto, que algum soubesse , procurei certificar-me. Responde tu, Fernando! Moita! Teixeira! Nada! Um silêncio de chumbo! As orelhinhas hão-de aquecer-vos! Isto atura-se?! Olho ainda para o Zé da Rosa, fixo o Viegas, o Melo e a Ção bem como a Cristina. Têm cara de espanto e receiam, a valer, pelo seu futuro! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-5-1972&lt;br /&gt; É erro grave que se paga bem caro, sepultar-se alguém num meio pequeno. À  semelhança de porco exíguo, que pouco ou nada vale, já feito em postas, também esses meios debilitam o ser, limitando a actividade e até impedindo se valorizem. Este apego à matéria  este aferro aos vizinhos,, este sentimento dde funda nostalgia, à maneira de sapa, vai actuando, por modo subtil, , havendo como efeito a perda de valores.&lt;br /&gt;Sair e expor-se, trocar impressões, comparar e atirar-se! Que infinita margem não vem oferecer um meio populoso, para alguém se erguer e lançar na vida! Ali, há tudo  a &lt;br /&gt;rodos! Somente aqueles que não querem trabalhar é que vêem o mundo seguir e escapar-se! Escolas e oficinas, convívio selecto, bibliotecas públicas e grandes arquivos, Universidades e Institutos, nada aí falta! É aldeia ou vilória?! Pobres habitantes!&lt;br /&gt; Encontro-me agora no Colégio da vila, tendo à minha frente lá mesmo no cimo, a Fraga da Cruz. Para fixá-la, esgargalo-me todo, ficando para logo o pescoço em ferida! Onde posso encontrar dilatados horizontes, em que a vista repouse, auferindo neles raios de luz?!Tudo, neste fundo me foi vedado luz e calor, o céu e o mar, terra e Primavera, nascer e pôr de Sol.&lt;br /&gt;Quanto havia aproveitado, se aos 20 e poucos anos, em vez de enterrar-me exercesse a actividade, num meio citadino?! Oh! se fora em Lisboa! Tiraria o Curso de Conservatório.&lt;br /&gt; Foi um tempo morto, em que vegetei, mas nãoi vivi. É certo e provado: a estreiteza de um lugar, seja este ou outro, acanha-nos a alma, que torna pequena, mesquinha, inválida! Se tirarmos a toupeira do lugar, em que vive, não quer a luz e prefere voltar, Se abrirmos um buraco, na sua galeria, procura em breve, tapá-lo a rigor!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-5-1972&lt;br /&gt; Primavera total! Aqui, porém, só temos vislumbres desse tempo risonho! Faltam 10 para as 9, em manhã de Maio. Que vejo eu, no entanto, em quadra maravilhosa, na qual a vida borbota, canta e sorri, por toda a parte?! Ligeiro assomo de vegetação, em que sobressai o –verde-escuro, tão carregado, que põe luto na alma! Céu escasso e distante, sendo ele, com efeito, vasto e colossal!&lt;br /&gt; E gorjeios de aves? Não sabem elas, já por instinto, onde a beleza se acha instalada?! Não procuram ansiosas lugares amenos e assaz deleitosos, para entoar sdeus hinos?! Como ouvi-las cantar, onde a mãe-natureza não passou de madrasta?! Onde a Fraga e o Fragão, num desdém  humilhante,  escarnecem  dos homens,  postos que são, em trono impérvio. E eu quedo-me em silêncio, impotente e humilhado, ocultando ânsias no peito que sofre!&lt;br /&gt; É um sorriso alvar, grotesco, sandeu , que põe na alma , entrada em agonia, convulsões de arrepiar! Que fazer então aqui?! A vida é assim?! Oh! não! Nada disso! Há vales, por aí fora, que me inundam de gozo, e montanhas solenes que elevam para Deus!  Aqui não! Tudo é prosaico, envolvendo-nos logo em malhas e pregas.&lt;br /&gt; Fugir, fugir é o que logo se oferece! Fugir quanto antes! Já não posso com isto! Sinto a alma acabrunhada, quando olho a natureza!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11.5-197&lt;br /&gt; Foi há poucos dias, além precisamente, nas traseiras da Câmara. Chovia bastante e eu olhava então através da janela, no velho presbitério. Já foi ruidoso aquele vulto decrépito, em que eu moro com os ratos. Estes, afinal, mais senhores que pr´prio! Podem eles, na verdade, afirmar que o são! Tanto barulho e à descarada nunca eu fiz, durante a vida. Às vezes, figura cavalgada em que a morte é rainha. &lt;br /&gt;Outras muitas, risada macabra, retouçando hilariantes,  espí Agora é quase uma ruína: ritos de outro mundo! Isto que digo é sempre a horas mortas, sem respeito algum pelo sono de alguém que se encontra ali, um pouco abaixo!  Agora, é quase uma ruína: paraíso de aranhas, ratazanas e ratos! Um homem infeliz a tudo se expõe! Ninguém diga jamais: “ Desta água não beberei!&lt;br /&gt;Pois ali me gastava, passando momentos, ingratos e negros, à espera, talvez, que o jantar me chamasse! Nisto, depara-se um quadro, a que presto atenção: uma criancinha, de 3 anos apenas, quando muito alguns 4, seguia à frente do avô, em ziguezagues contínuos. Cada um, já se vê, empunhando um guarda-chuva, seguia pela estrada. O velhote paciente olhava embevecido, girando à direita e logo à esquerda, ora trotando, ora em passo lento. &lt;br /&gt;A criança era tudo, nesta cena encantadora! Subia o guarda-chuva, encobria-se  nele , atirava-o para o chão e batia-o nas pedras. E os meus olhos seguiram-no até findar a rua, largando-o somente, à esquina dos Direitos, pois mo ocultou!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-5-1972&lt;br /&gt; “ É solitário andar por entre gentes” Este verso de Camões, que outrora me não quadrava, percebo-o hoje, à maravilha, como se fora, realmente, coisa muito minha. Aos 20 anos, é-se desapegado, crente, generoso e bastante crédulo. Aos 50 ( já antes) acredita-se em Deus, mas descrê-se dos Homens. A razão é evidente: diziam uma coisa, mas faziam outra! Ensino desta ordem é factor decisivo na desgraça de alguém e depõe altamente contra o falso educador! Com efeito, pregar uma coisa e alijá-la de si não é ser probo nem amar a verdade nem temer, de algum modo as responsabilidades. &lt;br /&gt;O ideal a atingir consiste exactamente em ser, por fora, o que é por dentro, pintando a vida como ela é, não dando nunca imagens retorcidas. Enquanto assim não for, teremos sempre, volta de nós, elementos revoltados, que serão, mais tarde nossos acusadores,  de jeito implacável. E com razão! Educar é, sim, preparar para a vida, ministrando a incipientes a dose de saber que o Mestre acumulou, em diversos ramos, focando distintamente o bem e o mal, encarando a existência por todas as faces; insinuar levemente,  apontando os contras; deixar aos outros a escolha espontânea; respeitar a pessoa e o sentir do educando. &lt;br /&gt;Jamais, porém, ocultar manhosamente  aspectos anegrados, salientando apenas os mais lisonjeiros. Tem um nome acomodado esse mister, quando vem desfocado: vigarista sem perdão ou outro do género, pois a língua mais rica não cria jamais um termo adequado, para exprimir, a rigor, tamanha baixeza. &lt;br /&gt;Nunca impor um destino ou até sugeri-lo, com habilidade e persistência, pois é crime hediondo e caminho seguro de ruina total. Que importa gostarmos, se os outros não gostam?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-5-197&lt;br /&gt; Visitei, na sua casa os prezados compadres.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-5-1972 “ Já não ri, quando eu falo”&lt;br /&gt; Alguém entre nós proferiu tais palavras, que logo registei, pelo que têm de interessante e significativo. Por esta razão, vou já debruçar-me, durante minutos, sobre o conteúdo. Achar graça expressiva ao que outrem diz, reagindo logo, por forma invulgar, denota algo mais que originalidade ou mero improviso.&lt;br /&gt;Psicologicamente, o assunto é denso e demanda, por isso, alguma penetração. Efectivamente, que singularidade poderá existir, numa criança qualquer?! Ela faz apenas o que outras já fizeram, por modo igualou até diferente, repetindo-se as maneiras e os processos habituais. Apesar disso, os pais deliram, e até se espantam. “Nunca se viu coisa assim! Nem escapará tão arguta criança!”” Seria sorte demais!&lt;br /&gt; Estes desabafos, repassados de surpresa, é muito frequente ouvi-los aos pais! Correspondem eles à pura realidade?! Bem longe disso! Comparam eles, sem haver medido; fazem o paralelo, sem atentar! Outras partes ainda, igualmente curiosas, no seu parecer e que são excelentes, geram espanto e admiração. Porquê? A razão do facto está precisamente em haver interesse !No que toca aos pais, o caso processa-se: a criança á deles; exprime a sua vida e concretiza a de ambos! É, com efeito, a exacta projecção de suas mesmas almas; um prolongamento do seu próprio ser; reprodução fiel, viva e operante!&lt;br /&gt; Como não amar aquilo que é seu?! O que não se distingue dos próprios pais! Idiota seria aquele que o fizesse! Isto, no tocante aos pais e filhos respectivos! Em paridade, quer dizer, em ligações amorosas, dá-se o mesmo fenómeno. Se alguém ama outrem, encontra-lhe graºa, nas mínimas coisas. Não exprimisse, em alto grau, a perfeição do ideal!&lt;br /&gt;“ Já não ri, quando eu falo” significa a derrota, o morrer de um sonho. o poente doloroso de um sol que foi belo, mas já o não é!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-5-1972  Um Final Doloroso!&lt;br /&gt; Última celebração, na igreja velhinha de Vide-Entre-Vinhas. Foi precisamente no dia 14 . Em fim de semana, fui de longada até Celorico, na firme intenção de ver a minha aldeia. Meu dito, meu feito! Realizava-se aqui a festa do Colégio, mas sendo na véspera da minha abalada, perdia o interesse. Desenraizado como ando j+a, passo â margem do facto. &lt;br /&gt;Forte razão, para fugir daqui e mergulhar, desde logo, no ar puro da montanha, nos lugares saudosos que me viram nascer. Um banho salutar imuniza-me breve, contra os males da existência, pondo na minha alma forte vibração. Anda por ali um perfume que inebria e gera consolo, Pairam, sobre os montes e velhas moradias, vultos saudosos, imagens carinhosas de quem eu amei. Por vezes, surgem nas leiras, debruçadas e fixas, vendo correr a água, e olhando em êxtase para os batatais, já todos em flor.&lt;br /&gt;Todo este ambiente é feito de magia. Não posso resistir àquele sortilégio! Desta vez, porém, tive de ser fraco! Assumindo o encargo, que o Prior me deu, para celebrar a Missa dominical,  rogo que aceitei gostosamente, recebi esta anúncio, antes do início: Última Eucaristia, celebrada hoje, na velha igreja!”Palavras matadoras! A primeira impressão foi grata e jubilosa! Um templo novo de linhas elegantes e perfil gracioso, é melhor que o velhinho, já deesengraçado e sem conforto! Mas veio a saudade e o passado longínquo despertar a minha alma! Vieram ambos, nessa hora amarga, ateando no meu peito uma ânsia incontida e pono nos olhos um lago de pranto! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-5-1972 Cont.&lt;br /&gt; Encontrava-me, pois, a fazer a homilia.Quis então falar, referindo-me ao templo, mas a voz estava presa e o cérebro parado! Diligências empregadas nada fizeram. Era dia da Ascensão e também de tristeza. “ Partings are always sad!”assim diz há muito, o provérbio inglês. Partida de Cristo e partida eterna do velho templo. Jesus Cristo voltará, mas o templo velhinho jamais o verá! Que belas recordações nos prendem a seus muros! Que mundos cristalinos de sonho e perfume, a diluírem-se à distância, mas vivos, deslumbrantes, gravados para sempre, na minha alma saudosa! &lt;br /&gt; O nosso baptismo que a todos permitiu a entrada ai, pela primeira vez,… A primeira Comunhão de tão grata memória, associada também aos preparativos, que antecedem o acto! A marcha em ala, cantando hinos, em treino jubiloso, para a grande cerimónia, assistida no templo pelos nossos pais! O pároco velhinho, da remota infância, apontando, na homilia o caminho do Céu e os meios aptos, para o alcançar!&lt;br /&gt; Que acento e convicção ele punha nas palavras! Para nós, crianças, era como oráculo, e os seus dizeres, incontrastáveis! Dele vinha a luz e a guia segura, para levarmos uma vida honesta e agradável a Deus. Os beliscões e soquetes que as mães atiravam, por sermos irrequietos, no lugar sagrado! A reza do Terço, feita em comum, por noites aluaradas, em que apetecia dormir… dormir! A Missa da aurora, na 1ª quinta-feira de cada mês, com os olhos pesados e as pálpebras coladas!&lt;br /&gt; Meu Deus, quanto de belo me ofereceu a vida e ali decorreu vai ser apagado pela mão do progresso, que já não respeita a minha grande dor!&lt;br /&gt; As imagens estáticas, a que eu, por vezes, atribuía atitudes e certos movimentos! A catequese, onde me ensinaram as verdades da fé!&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 30-5-1972&lt;br /&gt; Há factos na vida que a sustentam e apoiam: compensação manifesta para os contras da existência!Foi o caso em 28. Como era domingo, recebi logo o convite, para almoçar, em casa amiga. Não pude recusar! Violentaria o meu coração, deixando ao mesmo tempo, mágoa funda, em alguém. Aceitar, neste caso é o que manda o peito e dita a consciência.&lt;br /&gt;O Dr. isabel, compadre e amigo, sente imenso gosto em ser prestável, sem que eu o mereça! O mesmo sucede com a senhora gentil que o Céu lhe deu. Casal modelar, honra-me em extremo, com a sua amizade e penhora-me ainda com a sua gentileza. Não sei o que me impele ou que força oculta para lá me empurra! Não posso dizer não, dando-me prazer o uso de um sim.  Se eu venho confortado, trazendo o peito mais desoprimido! Afigura-se, na verdade, um banho refrigerante, um tónico forte, na fraqueza e na aridez. &lt;br /&gt;Revelo e sinto mais gosto de viver a vida, acho-a mais bela e tenho desejo de ser melhor” Irradiam, por certo, beleza moral, que deslumbra e prende!  Como eu passei bem o que era horrível! Tardes longas, em domingo, sem aulas nem convívio! Que solidão criais em mim! Hoje, porém, foi oásis e delícia em  que o meu viver ficou embalsamado!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  31-5-1972  Casal Falcão&lt;br /&gt; Já o conhecia, pois lhe fora apresentado, em época distante! A falta de convívio  trouxera olvido, sendo na verdade como desconhecidos. Desta vez, porém, o caso referido foi mais aproveitado: houve troca de impressões e longa conversa, nessa tarde in esquecível – 28 do corrente. Impressionou-me a fundo a lhaneza encantadora de Dona Anita, senhora espanhola, de grande mérito, ligada em matrimónio ao senhor Falcão, alentejano de origem. &lt;br /&gt;Muito surda já e com visão deficiente, inspira no entanto viva simpatia e ganha confiança, ao primeiro relance do nosso olhar. Nunca mais nos deixa a vincada impressão, que se grava logo em nossas almas, a qual tem por base a sua piedade, graça e lhaneza. Contou em pormenor  seus achaques e doenças bem como os sobressaltos que as moléstias do marido lhe têm causado. Excepcional o afecto que dedica ao marido a quem muito estremece.&lt;br /&gt;Como ouve mal, pergunta e responde, evitando incómodo a seu interlocutor. Por sua parte, o senhor Falcão, estremece-a também, amenizando a conversa com anedotas e vários gracejos. Revela o senhor conhecimentos vastos, em linguagem viva, quente e expressiva. É um casal modelar que muito aprecio, Vêm-me à lembrança as palavras da Física: a matéria atrsi a matéria. &lt;br /&gt;Também aqui se aplicará?! Estou em crê-lo: mas junto uma achega de carácter ideológico: não é a matéria, mas sim o espírito que aproxima as almas.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3- 6-1972  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-6-1972  Resido  em S. Domingos l ( Bairro) &lt;br /&gt;   Regressei do Beiral, onde estive em serviço. Agora Manteigas é já “zona tórrida”, onde tenho militado, com grande esforço e valentia, ora gozando ora sofrendo. Lamento viva- mente que, havendo servido, com tanto afã, seja alvo negro de incompreensão e bode  espiatório, para culpas e falhas,  de que  eu  eu não tive culpa. Uma certeza me assiste, que é também consolação: cumpri o meu dever, com os olhos sempre fitos, no ideal que  abracei  --  contribuir, segundo me cabia, para elevar o meio, em que tenho vivido, já insinuando, já esclarecendo.&lt;br /&gt;Procurei sempre, com todo o esmero, cultivar as mentes e, ao mesmo tempo, formar a vontade, sobrepondo esta ao volúvel sentimento. Se algo obtive, Deus é quem sabe! Actuei e prossegui generosamente, não, fugindo ao sacrifício. Se mais não fiz, é que não pude! Alvo de indiferença e subestimação, há três anos já, hei sofrido bastante. Chegava muito bem a solidão,  em  que tenho mergulhado, pela vida fora, para tornar-me infeliz! Pelos homens deste mundo, não vale a pena morrer!&lt;br /&gt;Só Deus é justo e santo e merece confiança! A ele seja dado eterno louvor, pelos séculos sem fim! Aqui é zona “tórrida”: sinto a alma a escaldar! O que valeu agora, foi o banho salutar que me inundou no Beiral: o olhar puro e confiado, o belo sorriso, franco e leal, de inocentes criancinhasl, que me saudaram ali.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-6-1972&lt;br /&gt; O cerco aperta-se e oprime fortemente! Não aguento esta vida, em que tenho mergulhado, quero dizer, esta morte disfarçada, e a grande comédia viva, em que gente estranha me fez tomar parte, contra minha vontade! Não fui eu a escolher: alguém o fe z por mim ou então ainda as tristes circunstâncias, sócio-económicas, de braço dado com outros factores. Estes, afinal, embora marginais, actuaram também, sendo manobrados por critério estreito, que o meio ambiente criou e impôs. O homem humilde é vítima dele, embora tantas vezes sustente o contrário! Verdade incontrastável, se olhamos o passado!&lt;br /&gt;Constitui ele um círculo fechado, em que o ser humano gira e se revolve, impelido por factres estranhos a si. Sendo embora livre, fica escravo; inteligente, embotam-lhe a acuidade; alegre e  jovial fazem-no macambúzio; prometedor, neutralizam pronto a habilidade  e potência para agir, em nome próprio. Não lhe chamam talvez escravatura, mas em nada se distingue. Dêem-lhe, pois, o nome que entenderem! Eu, cá, chamo-lhe assim!&lt;br /&gt;Poderá haver aí renúncia maior que submeter-se alguém ao critério e apreço de quem quer que seja Se fosse ao de Deus! Os homens, em geral, são atravessados e tendem, por sistema, a calcar o semelhante, fazendo-o joguete de seus mesmos caprichos, quando não até de seus vícios e paixões. Disfarcem embora e dêem-lhe outra cor!&lt;br /&gt;Por esta razão, estúpido é confiar plenamente seja em quem for ou seguir vendado seu estreito critério. Maior estupidez  não  creio que haja aí! Ouvir pareceres, analisá-los bem, é medida prudente, mas após exane, seguir na existência um caminho próprio, de sua  escolha.  seja  ele  embora contra indicado, para os que nos cercam&lt;br /&gt;Manteigas  \\5-6-1972 &lt;br /&gt; Um revés grave deixa na alma sinal da passagem, Desta vez, realmente, cingiu o coração de tal maneira, que julgava não poder. Não sei o que era, mas andava sufocado e bastante  deprimido,  a nada achando jeito. Falavam e riam, à minha volta? Afigur ava-se  escárnio! Tudo me enjoava! As próprias noites, adensando a solidão, eram insuportáveis! Não posso descrever esse golpe inesperado, injusto e certeiro! Esvaiu-se-me a coragem,, a luz entibiou-se e o o próprio mundo pareceu vacilar!&lt;br /&gt; Agora, porém, uma luzinha surgiu: arranjei quarto e fiquei melhor. A senhora Conceição  que chamam “do Cadaval” é agora patroa. Mãe de 9 filhos, um dos quais em França, recebeu-me gentilmente. Melhor do que isto não podia ser!  Favor do Céu? Protecção de minha mãe, que tanto me queria?! Eu creio, ó Deus, na comunicação dos Santos e também dos Anjos! Ela era santa! Pois agora, já sinto alívio bastante! Fico junto ao Beiral , onde presto serviços e tomo as refeições. Parece, na verdade que me sinto aliviado: o pesadelo figura eliminado!&lt;br /&gt;A nova hospedeira vai além  dos 7º, É já viúva muito piedosa e vive do passado e de suas orações! Os retratos preciosos dos entes queridos contempla-os ela, a toda a hora, constituindo, assim o creio, a suprema fonte da sua alegria, cá neste mundo!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-6-1972  Circular- Inquérito &lt;br /&gt; Chegou-me, há dias. É muito curiosa, interessante, humana e oportuna. Em 20 séculos, apenas agora veio a lume um caso angustiante, que sempre existiu, mas ninguém tinha jus de sequer nomear! Várias perguntas ali se formulam, entre as quais as seguintes:  1. causa da falta de vocações,  religiosas e sacerdotais; 2. celibato dos padres e afectividade; 3. deficiência economia, solidão etc.&lt;br /&gt; Vê-se nitidamente que é grave a situação. Por isso, a Igreja quer acertar, concedendo ao clero os meios adequados, Ouvir cada um, privadamente, com abertura e sinceridade, é com efeito o processo razoável. Acobertar-se maneira parva, à sombra ilusor ia da hipocrisia não é caminho certo nem proveitoso. Deve usar-se de lhane za, abertura e compreensão, para sanar os males de enferma o clero.&lt;br /&gt;Em meu entender, o celibato imposto é causa primária de todos os desaires e várias quebras, já que priva o homem de todo o carinho e lhe nega assistência, não podendo bastar-se nem sequer obviar a necessidades prementes. Apenas livre e facultativo tão pesado ónus! Ele exige heroísmo, num porvir tremendo, que terá seu início, dos 30 aos 35. Irá crescendo com a própria idade, as necessidades, a incompreensão, a fatalidade na vida presente, as doenças e achaques, e a falta de amparo. Fechar os olhos a isto ´e desumano, carente de acuidade, ignorante da Bíblia e da história do clero, através dos séculos. Houve heróis, mas o heroísmo  é constituído pelas excepções, que são sempre em minoria&lt;br /&gt; Conclusão: Deus não aprova o celibato imposto!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-6-1972 &lt;br /&gt; Encontrei-os, há pouco, ao sair do Beiral (Orfanato) Pela mão um do outro, saíam confortados os dois pequerruchos. Abeiro-me decidido, para cortar-lhes o passo e conversar um pouco. Desciam a escada e ocupavam então o2º degrau. Um dos dois é magro e pálido, olhar melancólico e algo receoso. Pela estatura, avantaja-se em idade, sendo, pois, guia do mais pequeno. Este, rechonchudo e harto baixinho, jamais larga o outro, que segue a toda a parte.  Chego-me carinhoso, segundo é costume, ao tratar com petizes.&lt;br /&gt; Para onde ides vós, arrisco eu pronto? “Vamos brincar, esclarece o mais velho. Andais contentes? Acenam que sim, com um gesto de cabeça. És, então, na verdade, amigo desse menino? “ ´E meu irmão, atalha listo, enquanto se vê liado por bracitos delgados. Depois, baixou os olhitos, em que li funda angústia, juntando seguidamente, com a voz em tremuras: Minha mãe já morreu! Comovido então, sensibilize i-me até às lágrimas! Inocentes criancinhas! Ainda pequeninos e já sem carinhos! Que desventura, bom Pai do Céu! Como são incompreensíveis teus altos desígnios! Insondáveis, a rigor, os teus arcanos!&lt;br /&gt;Como te chamas? “ Aníbal”E  o teu irmãozinho? “Fernando!”&lt;br /&gt;N este momento, chega-se mais a ele,, fazendo  enternecer-me  Estava ali, de facto, quanto ele amava! Só isto falava a seu coração! Era este o seu mundo real!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-6-1972  “ Si é reles!”&lt;br /&gt; Sucedeu ontem, não longe daqui, em frente da Capela, dedicada a S. Domingos. Subira a ladeira, pela estrada poeirenta, após a faina diária, lá baixo, no Externato. Fatigado como ia, sentei-me num degrau, junto da ermida, olhando interessado para as duas petizes, que brincavam na estrada. Interrogo-as em breve, inquirindo minucioso acerca das idades, brinquedos preferidos e outras derivações.&lt;br /&gt;Fico então sabendo que a mais pequenina se chama Fatinha. Rechonchuda a valer e um tanto  desconfiada, arregalava em excesso, os olhos volumosos, enquanto ia arrastando, a grande custo, as sandálias  da outra. Ficavam-lhe folgadas, pois a sua vizinha tem 5 ou 5 anos, e ela só metade.Tudo corria bem, ganhando confiança com a minha pessoa. &lt;br /&gt;Então a mais velha desfecha, à queima-roupa , uma pergunta ousada, a que eu, então, achei imensa graça: Si é reles, não é? Só ouvindo o final, indago prontamente: o quê?!  Não houve resposta. Quem? “Si”&lt;br /&gt;Tento defender-me, alegando ali que não matava nem batia sem razão! A isto objectava, algo persistente e deveras incrédula: Já, já! Nisto, a Fatinha irrompe breve, em minha defesa, dizendo com entono; “Mas não! Vês?!&lt;br /&gt; Assim decorreu este fim de tarde, que me fez esquecer, durante momentos, agruras e pesares, que a vida me causa!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-6-1972&lt;br /&gt; Escrevo em S.Domingos, na casa nova do senhor António . Este filho dedicado trabalha em Paris . A senhora Conceição, mãe extremosa, recebeu-me gentilmente, após a sapatada que levei há dias, em paga de tanto zelo, no decurso de 15 anos, em que fui no Externato alma e  cerne, dando aulas de Português, Francês e Inglês e também Alemão, Naturais, 1º Ciclo e Canto Coral . Ninguém acredita, mas é verdade! &lt;br /&gt;Resolveram desalojar-me do velho pardieiro , em que tinha quarto, onde ratos e ratazanas faziam tropelias ,pela calada da noite. Boa recompensa a que eu mereci, não haja dúvida!  Dava eu, no Externato, 50 aulas, ao longo da semana, o que fiz durante anos, mas este número equivalia a mais, dado que em 5 do programa liceal, bastavam 4; em 4, chegavam 3, etc. Não minto, ao certo, dizendo o seguinte; eu sozinho  dava  cumprimento aos programas liceais, atinentes a matérias, que representam mais de metade, no Curso geral.&lt;br /&gt;Parece impossível! Os livros d e Ponto e o quadro de professores virão confirmá-lo! Com que denodo ali trabalhava! Diriam até ser meu o Colégio, avaliando pelo muito que então me esforçava! Pois não era meu! Pertencia a outrem&lt;br /&gt; Não é bom trabalhar assim! Cumprir o dever e não ir além! É que, fazendo ao contrário, deve recear-se tremenda vergastada! Abstenho-me agora de expor as razões que podem ser múltiplas. &lt;br /&gt;Só Deus é grande! Que Ele me ajude, nesta provação! Vim agora da garagem, onde arrumei, um pouco melhor, trastes e malas. Antes de ir embora, carrego eu tudo, sem olhares indiscretos, partindo, por madrugada, a caminho de Lisboa.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-6-1972&lt;br /&gt; Com o 10 de Junho, ponto final! Acabaram as aulas, tendo início as férias. Sensação de alívio me invade todo, após a canseira, extenuante e agitada, que trouxe para logo o ano lectivo. Nunca assim me custara chegar ao final! Aborrecimentos, ansiedade, angústia! Nunca mais chega o fim, ruminava eu, harto desorientado! Mas, como tudo acaba, acabou também o malfadado ano, que julgo ser o último! Vou desligar-me do Ensino Particular e não quero mais obedecer a ninguém!&lt;br /&gt;Estou saturado, já de caprichos, já de fantasias como também de recalcamentos e arbitrariedades! Ao menos, sejam em paz os anos derradeiros! Aturei já muito! Foi a vida inteira! Sempre a obedecer! Sempre a imitar, a fazer o que não queria! É já pouco tempo, mas quero aproveitá-lo, a fim de opor-me àquilo que fiz, permitindo a estranhos dispusessem de mim e tomando seu aviso! Que devia o meu destino à vontade alheia?!Que tinham comigo, fosse eu rico ou pobre, casado ou solteiro?! &lt;br /&gt;Arvoraram-se em mentores que bem dispensava! Fizeram-se tutores, que abusaram de mim! Levantaram-se em mestres, que não fizeram luz; em pedagogos, que me torciam e reviravam&lt;br /&gt;logo, a bel-prazer.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              Renego de tais obreiros e peço a Deus me faça justiça, pois eu, a rigor, não sou já como ele me fez! Ficaram as marcas impressas na alma e não logro apagá-las.&lt;br /&gt; Requer-se agora um pouco de energia,  para ultimar  as actividades, que me prendem ao Colégio: provas escritas, a que seguem as orais; processos vários que não aprovo e logo baniria, se o caso referido estivesse na minha mão. Querendo Deus, cessarão no porvir, as tais incumbências, ao menos, assim julgo, como são praticadas.&lt;br /&gt;Levarei obscuramente vida mais autêntica . Obedecer a outrem é sempre difícil! Quem nos garante sua boa intenção?! Quem nos assegura haver realmente  a  prudência necessária e recto pensar?! Quem fica inteirado  de  que é seguro o critério?! A própria obediência, nomeada virtude, tem de ser livre, acolhida e amada : caso contrário, logo degenera, dando, a rigor, em escravatura! &lt;br /&gt;Disseram-me em tempos: quem obedece nunca se engana, por fazer desse modo a vontade de Deus. Hoje, rio-me disso e tenho pena imensa de haver acreditado. Renunciar o indivíduo à personalidade é tal aberração, que a julgo desde logo inqualificável! É um dom do Céu, uma prenda sagrada: por isso, inalterável! Só a Deus pertence e a mim, como utente. Quem me garante que a vontade humana é também a vontade celeste?!&lt;br /&gt;Quantas vezes, na verdade, são caprichos  humanos  de seres endeusados, acção velada e assaz manhosa , para lograr determinados fins?! Estes, por serem humanos, jamais ultrapassam as barreiras da existência! Para que foi então que Deus-Providência  me deu a liberdade, o entendimento  e a personalidade?! Para que os outros se divertissem melhor, mofando  de  mim  e fazendo-me baixar, na escala social?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-6-1972&lt;br /&gt; Semana cheiinha com provas escritas e treinos de exame. São os horários que se atropelam, direitos e regalias que não se respeitam, vantagens diversas, que são postergadas. O homem, por norma, é sempre o mesmo: pequenino, mesquinho e harto abusador, naquela medida, em que excede outrem e dispõe, a talante, de meios psicológicos , para se impor.  A i do infeliz, que tem os olhos fechados! Quando os abre, por fim, de nada lhe servem. Bate sempre em vão, no peito dorido, torcendo a orelha, mas qe lhe presta?! É tarde já: só lhe resta chorar!  &lt;br /&gt;Isto acontece, em duas circunstâncias:  1.quando somos inábeis para dirigir a nossa própria vida, assim permitindo ou solicitando que os outros abram a negra sepultura, em que havemos de tombar. Há-os por aí, com rara habilidade, para iludir as gentes crédulas e lográ-las, em seguida, ficando estas, apesar de tudo. em extremo reconhecidas;2.quando vivemos à parva,  em ambiente  angelical, já no lar paterno, já em casas de formação. É o caso de muitos. Não foram preparados, a fim de se integrarem na sociedadel&lt;br /&gt; Nas primeiras idades, em que somos receptivos, só obedecendo e pondo em prática o que outros impingem, em nome de Deus  e por seu mandado, é fácil e rendoso abusar de alguém, já com bom fim, já com fim perverso. Os nossos pais, mercê tantas vezes de critérios estreitos, fazem de seus filhos autênticos bonecos, em que imprimem indelével o selo da desgraça e a marca da inépcia&lt;br /&gt; Culpá-los? Sim e não. Não, por serem vítimas de velhos preconceitos e usos antiquados., que a sua ignorância não pode irradiar. A felicidade do ser humano ou a sua desgraça, tem origem no lar, sendo continuada por certos mestres e até pedagogos, a quem os pais  inadvertidos  entregam os filhos ,&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-6-1972  A Europa de outrora ( civilização cristã)&lt;br /&gt; A história do mundo confirma o dito: em tudo o que é humano, há subida  e descida. O velho continente, paladino e baluarte da civilização, que se nomeia cristã, e probo guardião de tradições veneráveis, abdicou da função, renunciando ao múnus, que já vinha exercendo, havia séculos. Defensor do Cristianismo, heróico missionário, em plagas adustas, levava a Cruz junto com a espada, de olhos fitos no ideal. &lt;br /&gt;Isto, exactamente, caracterizava as antigas Cruzadas, notando-se igualmente nas belas catedrais, que a Idade-Média  nos quis legar. Em resultado, como prova eficiente de zelo apostólico, fundaram-se logo viveiros  de  Apóstolos; erigiram conventos; levantaram-se templos; multiplicaram, grandemente, as casas de formação. Uma enorme pujança, que floria em vocações e sorria para Deus!&lt;br /&gt;Acontecera o mesmo às viçosas cristandades da Ásia Menor e do norte de África. Que resta hoje disso?! Talvez só o nome, se é que ele existe! E no entanto, andaram por ali os mesmos Apóstolos e Padres da Igreja, sendo iluminadas essas regiões por astros brilhantes de primeira grandeza. São prova do facto Santo Agostinho, Tertuliano e Orígines, e já antes deles, na Ásia Menor, os mesmos Aoóstolos, que Jesus formara. &lt;br /&gt; Que está fazendo, à data, o velho continente? Abdicaria já, da sua autoridade?! Cruzar os braços e deixar correr?! Onde não existe qualquer reacção, há morte latente! Que fez e disse o Cardial da Hungria, ao  chegar ao mundo livre?! Ser esta, na verdade, a Igreja do silêncio e não a deles! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-6-1972&lt;br /&gt; A última etapa destas paragens decorre exactamente, no bairro de S.Domingos. Embora  esfalfante,  pois me aguardam 100 degraus de escadarias, venho subindo, a fugir dos vales, onde se juntam excrescências várias e se aglomeram detritos. Ares mais lavados, companhias mais abertas, porque não eivadas de espírito burguês, malevolente e insalubre, que distingue, para lojo, determinados sectores. &lt;br /&gt;Ultimo, pois, meus últimos dias, aqui, em Manteigas, num rico ambiente, que deveras alicia, prende e lisonjeia . Pena foi, decerto não havê-lo conhecido, já muito antes. Mas, enfim, burro morto, cevada ao rabo! Agora, passa breve este mês de Junho, que hoje dá pelo meio. Outra metade e mais o de Julho, que talvez já não leve até ao final! Vamos ver no que dá a minha aposentação, que vou tentar, lá para a semana! &lt;br /&gt;Moralmente, creio haver direito, por causa das moléstias que se vão acentuando. Falarei com o Médico e logo dirá o que hei-de fazer.&lt;br /&gt;Pois em S.Domingos, situado na vertente, bairro novo e airoso, que vê, a Oeste, a Fraga da Cruz, lá muito em cima e quase na vertical, passo eu agora os meses derradeiros, em número de dois! Aprecio imenso a estadia aqui: os ares são lavados, e tudo me prende! Subir, subir, abeirar-me das alturas, dando costas aos fundos!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-6-1972&lt;br /&gt; Custou resolver, mas finalmente, decidi com firmeza. Mercê deste facto, entreguei a garagem, dizendo à Dona Ida que ficará livre, no mês de Agosto. Por isso, vou pagar em Julho 7 meses atrasados. Foi preciso fazê-lo, pois há anos já que a utilizo, guardando ali o carro e  outras coisas de uso pessoal  O Taunus morou lá 10 anos cumpridos. Já antes dele fizera assim o Fiat. Prendo-me às pessoas e também às coisas! Actualmente, a prisão é débil, salvo raras excepções, que guardarei para sempre. Demais, ninguém estranha!&lt;br /&gt; Foram já 15 anos! Se houvera aqui nascido, aferrava-me ao solo, mas tal não é o caso! Acharia tudo belo, obcecado pelo amor que votamos ao berço! Era, pois, terra de empréstimo! Trabalhei duro, alguma coisa havendo feito, em prol da promoção nas classes humildes, sem esquecer o destino eterno do ser humano. Findou o meu ciclo: outros vieram que melhor farão! Oprime-se o peito, mas é esta a vida; subir e descer! &lt;br /&gt;Continuar aqui, seria sofrer ingloriamente! Ora, fazer assim, é morrer a prestações, consumir-se na sombra, a não ser que o façamos, por amora Deus! Pelas criaturas, não dá para a pena! É coisa insensata! Vou daqui sem remorsos, plenamente convencido que fiz mais bem do que mal; o que me dá segurança e tranquilidade!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-6-1972 &lt;br /&gt; Inicia a Covilhã suas Provas temíveis! Chamo-as assim, porque foi, na verdade, um ano tremendo, fértil em namoros, rico e farto em devaneios. Raros serão hoje os que não andam aos pares! Parece uma comédia! Foi o ano lectivo mais desgostoso que já tive na vida, não obstante ser boa a matérai-prima! Raramente consegui percentagem tão alta, em qualidade e número. Mas, que acontece a um povo, em regime democrático, não estando os cidadãos preparados para isso e, por outro lado, bem mentalizados?! Vem a anarquia, o poder popular, a inconsciência das massas, o abuso e a desordem! &lt;br /&gt;Detesto fascismo, odeio a tirania, amo a liberdade, mas amo, de igual passo, um mínimo de ordem, respeito e acatamento, para que o Ensino se torne eficiente. De outro modo, caem os braços e vem a ruína! Vou sair, é verdade, mas não queria, por modo nenhum, deslustrar o meu nome, que sempre caprichei em manter dignificado, à custa d e esforço! Entretanto, se atendo um pouco à falta de interesse, que noto à volta, quase perco o alento, escasseando-me desejos!&lt;br /&gt;Cá os deixarei. Que fiquem em paz e realizem com brilho aquilo que eu, nas actuais circunstâncias, não posso levar a cabo. Vai soar, em breve, a hora maravilhosa da libertação! É um pesadelo viver assim! Não presta a ninguém! Passar a vida inteira sujeito a horários! Que horror!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-6-1972 &lt;br /&gt;Lá por S.Domingos, corre a vida serena. Tem um quê de familiar, que eu não conhecia, há 27 anos! Acho aquilo interessante e deveras humano, acolhedor e afável. A minha solidão quebra-se em parte, devido ao tacto de excelente mulher, que, por ser devota, honesta e simples, é adorável, para companhia. Recordo saudoso o último serão. Chegara do Colégio, algo aborrecido, como sempre acontece, nos últimos tempos, metendo-me no quarto, logo de entrada. &lt;br /&gt;Liguei a escalfeta ou melhor dito, o capacho eléctrico, adquirido em Franca e, sentado na cama, ia remoendo sinistros pensamentos. Estava só, imergindo a valer, na minha solidão., a que fazia cortejo o apagado silêncio. Debruçado e nervoso, desamparado e longe de mim, sem algum coração, que vibrasse a uníssono, consumia-me de espaço, qual haste vergada, cheia de seiva, que não pode extravazar. Apagar-me deste modo, aparentando vida, não é viver, certamente!  &lt;br /&gt; Nisto, ouço uma voz, lá do corredor: “ Se quiser aquecer-se, já tenho ali uma rica braseira! “Escusado é dizer que fui, sem detença, para a cozinha! Alguém pensara em mim, procurando com empenho, tornar a minha vida um tanto agradável”. Fiquei, desde logo, sensibilizado, confessando-me ali extremamente grato ! Depara-se-me então uma rica braseirae, junto dela, risonha velhinha&lt;br /&gt;Logo em seguida, vieram suas netas, para animar o belo serão! Desta maneira, a vida é já outra.  Razão teve Deus, no Paraíso Terreal, quando olhou para Adão, que estava sem ninguém: “ Não é bom que o homem esteja só!” Demais Eje sabia que é fonte de tortura  e origem de todo o mal &lt;br /&gt;Manteigas  \\  23-6-1972&lt;br /&gt; Decorreu ontem a Prova de Ciências. Se não me engano muito, há bons resultados, pois acho acessível a Prova Escrita, e os alunos, por seu lado, conheciam a matéria. Mais inocentes, não estão viciados. Insisti bastante, ao longo deste ano, sobre questões que surgiram agora. Fiquei satisfeito, à primeira mirada, através do questionário, que abar ca globalmente 29 alíneas. Uma dentre elas, é muito curIosa, mas receio bastante que alguns estudantes a não tenham alcançado.&lt;br /&gt;O esperto AlexaNDRE, NO DIZER DO PAI, VIU LOGO O CASO. TRATA-SE, AFINAL, DE UMA CAMPâNuLA, ASSAZ AVANTAJADA, em cujo interior, fechado hermeticamente, se  encontra um  ratinho e uma planta verde.  Logo de entrada, perguntamos nós por que é que não morre, pois ali perto encontra-se morto um companheiro seu, também no interior de uma campânula igual.&lt;br /&gt;Com o outro, porém, não se deu o mesmo: acha-se bem  disposto e vê-se escorreito. A VERDADE INEGÁVEL É QUE  a planta verde, exposta ao Sol, consome o gás carbónico e liberta oxigénio. Sendo isto assim, está o caso resolvido, porquanto o ratinho liberta  gás  carbónico e precisa oxigénio. É um jogo de tal ordem, que denota certamente um bom ordenador. &lt;br /&gt; O facto impressiona, enquanto implica decerto uma relação +intims  e profunda entre plantas e animais. Também o Viegas respondeu acertado, segundo ele disse, expondo logo os motivos. Aguardo com ansiedade os resultados finais, embora tencione deixar o Colégio.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-7-1972&lt;br /&gt;Vou já esgueirar-me para o Fundão. Indo pela serra, é apenas uma hora, para galgar o breve  percurso : 47 quilómetros. Há muito já, que não vejo, com demora, o amável compadre  de velhos tempos, o que  deixa saudades. Hoje, pois, tenciono matá-las! A velha amizade é preciso cultivar-se: flor mimosa e delicada, necessita amparo e frequente desvelo. Tudo o que existe carece de alimento:  de outra maneira, sucumbe, por certo, e acaba por morrer! Que é que alimenta a verdadeira amizade, qual nós a vivemos!&lt;br /&gt;Não anda apoiada em vão interesse nem coisa semelhante! Encontros  amiudados, troca sincera de gratas impressões, em que a alma se expande e a gente se realiza! É tão pouco, neste mundo aquilo que satisfaz! Vale a pena intentar o que alenta a alma e faz rejubilar o nosso coração! A amizade verdadeira opera sempre autêntico milagre! &lt;br /&gt;No meio do desvairo, em que as gentes actuam, como se, realmente, fossem inimigas, sabe a divino dar as mãos com firmeza e abrir o nosso peito, sem qualquer refolho que seja impenetrável! Fico bem-disposto, prelibando já o gozo inefável da bela companhia, em cuja presença é grato permanecer.&lt;br /&gt; Relembro, a propósito, o conselho amigo, sincero e avisado, que o finado saudoso, pai do meu compadre, um dia me lançou: “ Juntem-se mais vezes, confraternizando! A vida é curta, urgindo aproveitá -la .Quando menos pensamos, já somos de outro mundo! Avistem-se pois com mais frequência, fazendo expandir corações e almas, em troca de impressões, lembranças e gracejos, que logo aviventam e dão prazer! O velho pai, Salvado assim falou um dia.&lt;br /&gt;Tinha razão! Quem nos garante o dia de amanhã?! Por outro lado, a vida é tão amarga! São tão  breves  e escassos os momentos de prazer!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-7-1972&lt;br /&gt; Lá fui ontem ao Fundão, a que me ligam velhas recordações, umas gloriosas, outras humilhantes.  O que não desmerece é a sólida amizade, que une dois compadres, ambos achacados e a braços também, com vários  problemas. Uma vez chegado, certifiquei-me logo de que hsvis uma folga na barra da direcção , o que fez encaminhar-me ao Café Portugal.  Aguardei paciente, com padre Duarte, velho amigo também e, por volta das 14, aparece o compadre, risonho, acolhedor, não obstante a doença, que fundo o acabrunha e  retém, a espaços.  &lt;br /&gt;Após os cumprimentos, efusivos, prolongados, que já são habituais, há quente diálogo,e recurso ao passado, cujos episódios  outrora vivemos, , em franca expansão.  Quem dera Senhor, que esse tempo voltasse! Nem eu nem ele +éramos enfermiços! A vida intensa, que emanava das almas fazia reverdecer os dias da vida! Infelizmente, porém, mão pesada e severa impeliu o ferrolho. que  jamais desandou!&lt;br /&gt;Há riso franco e amplos comentários, enquanto os àparte adornam sempre os episódios, tornando-os  chistosos. O tempo, assim, decorria veloz, importuno e furtivo, pois não atendia às nossas exigências. Correr, correr sempre, dizendo sem pejo: “ São horas de largar! Que fazeis aqui, mergulhsdos na paródia?! É isto a vida?!&lt;br /&gt;Ouvi a censura e caíram-me os braços, com tanto arreganho!  No entanto, aproveitei ao máximo, reservando apenas uma hora e um quarto, para ingressar na vila de Manteigas. Vim por Belmonte, o que alongou o percurso mais 13 quilómetros. Por outro lado, segui lentamente, para evitar sérios desaires. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-7-1972.&lt;br /&gt; “Julgava eu que era a cadeira!”  Aguardando a minha vez, para para encontrar-me com o Especialista, surgiu uma velhinha , que audou os circunstantes, empunhsndo linhas e uma aglha pequena. Entrando na sala, corta a direito e toca levemente no ombrode uma jovem, aquém solicita imensa desculpa, alegando em defesa que via mal e muito mal! Seguidamente, pede com empenho lhe prepare a agulha. Preciso dar uns pontos, esclarece a velhinha.&lt;br /&gt;“É às apalpadelas”, na expressão queixosa, tremebunda e incerta da pobre mulher. que de modo nenhum ostentava impaciência. Seria talvez como aquela das “ Viagens! descrita por Garrete? Mas essa, afinal, tinha uma neta, que voltava o novelo! Esta, porém, assim desamparada, tendo só por companhia a solidão e o silêncio,apareceu-me àquela hora,, sustentando com firmeza haver neste mundo quem seja, na verdade, muito mais infeliz! Foi uma lição, eloquente e profunda , a que tirei nessa tarde, que não vai muito longe !&lt;br /&gt; Como iriam ficar tais pontos ao calha?! Se tem famílis, por que não acorre, aprestar-lhe auxílio?! E se a não tem, por que não aparece uma alma caridosa , que no brilho intenso de se us olhos sadios, concsda generosa uma réstia de luz à pobre mulher?!&lt;br /&gt; Pudesse eu ajudar-te, velhinha santa mulher infeliz (quem sabe?) desditosa e triste!&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 10-7-\972   &lt;br /&gt; Chegou, finalmente, a hora decisiva. para dar mais um passo, em 15 anos sucessivos, tentara-o já, pelo menos duas vezes,  sem efeitos práticos.  Não lhe pegara, de modo eficiente nem as próprias circunstâncias eram semelhantes. Foi só anteontem  que me avistei decidido com o Director, pedindo a exoneração.&lt;br /&gt; Quanto isso me custou! Meses e meses foi ideia constante, que ora repelia ora aconchegava.  Hesitante e perplexo, já desde Novembro, em que o Esteves se valeu de seus poderes e grande autoridade, para lançar-me do Hospital, onde era Capelão, urgiu decidir-me , &lt;br /&gt;apresentando  o caso em termos claros. Assim aconteceu em 8 do corrente! Decorreu o pedido, na velha secretaria  do Colégio  novo.&lt;br /&gt; Eram 9 e 30 de manhã enevoada, bem diferente de outras, em que o Sol escaldava. Se tudo muda, como podemos nós fugir à regra?!&lt;br /&gt; Acho-me, pois, liberto de Manteigas e do cargo pesado a que votei as melhores  reservas do meu espírito! É um sonho tudo isto, em em que pareço não acreditar! Velhos e bons  amigos , embora poucos em número, deixam-me saudades; os meus alunos e alunas; estes montes altaneiros;  suas íngremes escarpas; o arvoredo frondoso, em que o verde macio apresenta sempre tons bem diversos; enfim, as paredes e os muros tão familiares, e  estes  ares serranos…tudo em breve ficará longe de  mim!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-7-1972&lt;br /&gt; Iminente e destravada, punha alvoroço em nossos corações! As ruas da vila estavam desertas e os próprios animais haviam debandado para os seus abrigos. Desgarrada pessoa  esgueirava-se furtiva, ao longo do caminho, enquanto olhava, receosa , escutando assustada.  Os raios fulminantes cortavam, o céu, riscando-o vivamente de prata e fogo. Instantes depois, vinha imponente o ribombar do trovão, dilatando o ar e provocando assim embates fantásticos.&lt;br /&gt; Aproximava-se em breve a hora de jantar.  Nem visos de melhoria! Detido na farmácia, olhava  fixamente  os  beirados  vizinhos  e media os segundos, entre o raio e o trovão. Tinha  de ir ainda para S.Domingos, pois como no Beiral Mas quem dava passada, sem um guarda-chuva?!Por outro lado, com sapatos de Verão, penetrava a água dentro do calçado! A que posso recorrer? Quem é só não tem recurso, porque não é lembrado! Lá diz o provérbio latino: Ai de quem ´só!&lt;br /&gt; Foi este o prémio de ser levado por conselhos de outrem, sem tomar em conta o meu ideal Se eu pudesse recuar! Isso, porém, já não é possível Que me resta, pois, de tal situação?! Esperar em Deus, que nunca se engana e me há-de compensarda triste solidão em que fui lançado por gente ingénua, ignorante ou mal formada&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-7-1972&lt;br /&gt; Enorme cuidado me toma, nesta hora, motivado por ‘contas’. Dizia D.Domingos:”Primeiro, Cristo; depois isto” . Acompanhava o dito com gesto leve, em que actuava o indicador e o vizinho polegar. Efectivamente, o aspecto económico não é subestimável &lt;br /&gt;Como fazer face às despesas correntes?! Para todas as coisas, é preciso dinheiro e, sem o vil metal, para nada servimos, em face do mundo. Daí o rifão: Diz-me o que tens: dir-te-ei quanto vales ”Nada tens, nada vales! Quanto tens, quanto vales! Como outros provérbios, tem na verdade a sua filosofia, que o saber dos povos estilizou, sumariamente.  &lt;br /&gt;Por esta razão, foi a vida atarefada, realizando economias e trabalhando quanto podia. A dureza da vida me ensinou eficazmente. Aprendi logo cedo, na escola da provação. Aida em princípio, sem dinheiro nem valia, vi-me logo a braços com sérias dificuldades: o descolamento da minha retina Que fazer então?! Que faz um indivíduo, sem dinheiro e sem valor?! &lt;br /&gt;O tempo correu e, ao passar por mim, embranqueceu-me os cabelos, Agora, encontro-me já nos 54: muitas doenças, mágoas sem fim, desilusões, assaz acabrunhantes! O que apurei, que afinal era bem pouco, reservo-o, já se vê, para a velhice. Como será ela?! Deus é quem sabe! Pelo que me toca, devo prepará-la Por tais razões, ando apreensivo, mercê de contas, algo atrasadas, que outros esqueceram, mas lembram a mim. &lt;br /&gt;Eu, afinal tanto me preocupo, se devo dinheiro! Acaso será defeito, exigir o que é nosso e não abdicar?! Será digno de censura, aguardar inquietado qoe nos tragam à mão o fruto e a paga do nosso labor?! Não é desconfiança, pois sei que vem, mas estou com pressa! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-7-1972&lt;br /&gt; Decorrem pausados  em tédio constante e funda amargura, os dias longos do mês de Julho.  Desde que raia a bela aurora, até que o manto de treva cinge o Covão, quantos bocejos, e miradas furtivas, com olhar reprovador!! Mas quê?! Apresso eu, por ventura, o rodar compassado, em que vou agonizando e até me consumo?! Desterrei-me há dias, para S.Domingos, onde há, sem dúvida, belas companhias. Apesar disso, poderei na verdade preencher a brecha., que a vida actual abriu em mim?!&lt;br /&gt;Desolado e triste. fixo amargurado o cume dos montes, seguindo no horizonte, a linha irregular, que  fenece em breve.  Trago os olhos aguados, pois há muito não vêem o que eles mais desejam: rostos amigos, afáveis e lhanos,  olhos que me fixem, dardejando carinhos; dedicações bem firmes, que o tempo não destro; afectos que dão cor, interesse e relevo à vida presente! E onde estão eles? Não vivo eu sozinho, imerso na tristeza, em que a sociedade me lançou um dia?!&lt;br /&gt;Seduziram-me habilmente, em anos imaduros, quando fui atirado para a amarga solidão, que detesto e repilo! Luto em vão, bem sei, qual náufrago perdido que as ondas vomitaram , enquanto um sopro de vida  lhe sustenta o alento! No imenso fundão, em tudo semelhante a uma tumba mortuária, deixei os meus valores, para receber em troca, o dinheiro vil, que não dá vida, amargas desilusões que fundo me torturam!&lt;br /&gt; Valeu a pena?! Deus o sabe! Lutei denodado, mas não colhi o que mais desejava!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-7-1972&lt;br /&gt; À data de hoje, chegou o tédio a seu auge! Sem aulas nem Pontos, esperando somente que tudo se ajuste, em véspera de abalada, que longo, profundo e hórrdo enjoo! Precisamente o assunto que mais ralado me te, provocando tantas vezes, horas de angústia, aquilo efectivamente, que  amargura a minha alma , e ela vê tão distante!&lt;br /&gt;!. Saturado de tudo, alheado de quase todos, não apetece a leitura nem sequer o convívio!&lt;br /&gt;Só mudando o ambiente, cessarão os meus males! Entretanto, a roda fatal avança morosa! Sua marcha lenta desafina-me os nervos, pondo estremeções no íntimo peito. A rabulice humana é tão requintada, que me faltam palavras, para descrevê-la! Haverá motivo ou não de protestar vivamente, se adverti alguém , acerca dos meus planos?! Foi já no dia 8! E disseram-me “ em breve!” &lt;br /&gt;Aguardei penosamente, sofri horas infindas, vivi momentos cruciantes, em que a vida estagnava, deleitando alguém, de maneira cruel e gozando a delícia de ver outrem penar!  Serei eu o veneno ou reside, à minha volta?! Esperar humanidade é o mesmo que enforcar-se  renunciar à existência! Será grato fazer isso?! Admitiria, vá lá, certo grau de maldade, mas tanta e do quilate, andava eu longe disso!&lt;br /&gt;Só a fuga tresloucada , sem olhar para trás! A mulher de Lot, se bem me lembro, de olhar para trás, foi logo transformada em estátua de sal Comigo ia suceder a mesma coisa; Toca de andar, olhando só em frente!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-7-1972  A Flor da Gratidão&lt;br /&gt; Bela virtude, mas tenho para mim&lt;br /&gt;!MEMÓRIAS 39 I CONT&lt;br /&gt;Lx. Alcântara  \\  3-1-1982 Quem tem Inimigos&lt;br /&gt; Não vamos julgar que é desventurado! Não os ter é maior desventura! Qual é, afinal, a causa deles? Ninguém o ignora: valer alguma coisa; fazer-lhes sombra;constituir obstáculo â sua ambição; impor-se a todos. Claro! Desperta inveja! Daqui se vê, pois, que a raiz do mal reside na ambição, Querer ombrear ou ir mais além, mas ser impedido por outro mais hábil é, geralmente, causa bastante de inimizade. Outras vezes provêm de afirmações, que fazem estarrecer: verdades que ferem, pois são opostas à maneira de pensar, agir e proceder! &lt;br /&gt; Descobrimos sempre, no fulcro inimizade, algo de travão à nossa vaidade ou empecilho. que se ergue em frente e nos leva a pensar que ficamos em baixo. É o que origina a falta de humildade e puro cristianismo!&lt;br /&gt;Será desprimoroso ter inimigos? Revela isso quebra de princípios, na pessoa atingida?! Creio facílimo responder à pergunta. Não os teve Jesus Cristo?! Julgo até honroso, nobre e excelente haver inimigos, por estas razões! Não têm fundamento! Se é, na verdade, o valor pessoal, a integridade moral, e o carácter impoluto, que originam esse facto, só motivo de orgulho isso deve causar! O que há desequilibrado medra por fora: não dentro de nós|&lt;br /&gt;Lx.Alcântara  \\  4-1-1982  Ensino Oficial ou Particular?&lt;br /&gt; Sendo os próprios pais a educar os filhos, não há problemas. Não podendo fazê-lo, por qualquer razão, escolhem eles o tipo de Ensino, que melhor se adapte e mais convenha aos seus princípios. Surgem, por vezes, grandes obstáculos, que se opõem tenazmente, sem deixar caminho, para escolher. Assim, por exemplo, a falta de meios ou de experiência, a fim de julgar e bem resolver.Impede-o também a carência de tempo ou grande absorção, em dado mister.&lt;br /&gt; Removidos, pois os vários obstáculos, supondo nós que se encontram ao par, qual dos Ensinos devem escolher?! É algo difícil a resposta geral. aplicável, sem detença, em todos os casos. Imaginemos agora, que o Oficial é algo suspeito, no campo moral, tecnológico ou social. É dever dos pais evitar a desgraça, que impende sobre os filhos. Não havendo obstáculo de qualquer natureza, tendo só em vista o aspecto pedagógico, prefiro de sde logo o Oficial, vivendo os filhos na casa paterna. Este convívio é muito necessário a uns e outros.Tal processo afigura-se o melhor&lt;br /&gt;Há, no entanto, Colégios-modelo que são de aproveitar! Fugir, a bom fugir, de Colégios pequenos. Sendo pagos pelo Estado, o caso já muda! Seria óptimo um Colégio bom, com semi-internato, vivendo os filhos, na casa paterna!&lt;br /&gt;Lx. Alcântara  \\  7-1-1982  À Frente goza, torturando outrem!&lt;br /&gt; Há dramas ao vivo qie ninguém conhece! Os seus protagonistas são ignorados, vivendo no martírio, sem braço amigo Triste situação que o nosso bem-estar procura desconhecer! Por que razão não abrir os olhos, levando aos outros um pouco de luz?! Por que não desentranhar-se em actos de bondade, que a outros afligem, por nossa causa?!&lt;br /&gt; Abeiremo-nos um pouco, seguindo com interesse quem vai pela rua. É mesmo em Alcântara. À frente de mim, um jovem fumador rompe açodado, investindo contra o vento. Uns passos atrás, já um tanto alquebrado, caminha alguém, de face constrangida e olhar reprovador! &lt;br /&gt;Não fuma! Sente repulsa ao cheiro nauseabundo que exalam os drogados: ter de ingerir o fumo irritante.Sofre imensamente, por dupla razão: não poder ultrapassar o drogado rapaz, que os anos fazem ágil; ter de ingerir o fumo irritante, que detesta ao máximo. No entanto prossegue, na mira de alcançá-lo, enquanto eu sofro, no meu coração&lt;br /&gt;Olho aterrado o agir do rapaz, que goza e se deleita, amargurando assim o dito ancião!, Por que é que não fumou, quando estava em casa?! Por que lança no ar espirais de fumo, que tudo penetram, causando agonias’! Tenho pena do segundo que  agoniza e se dói, enquanto o primeiro mergulha na droga, atolando-se em fumo, que nutre o prazer!&lt;br /&gt;Alcântara  \\  8-1-1982   O 25 de Abril&lt;br /&gt; Alguém perguntou:” Gosta, acaso, do 25 de Abril?!&lt;br /&gt;Calmamente, assim respondi: como posso eu gostar, se apenas amargura daí se originou para o meu coração?! Gostar, afinal, é o mesmo que sentir, de maneira agradável; dar-se a prazer; amar alguma coisa! Ora bem! O 25 de Abril, em vez de alívio, paz e amor, trouxe hecatombes, que dele brotaram, no solo de além-mar, as quais por desgraça, ainda continuam!&lt;br /&gt;A guerra civil! Espancamentos e assaltos na rua; violações e pilhagens; ruína total de milhares de famílias de famílias; casais desfeitos; atentados à honra; traumatismos em barda, que não cessam jamais! Apenas a morte os pode terminar! Para mim, está ele manchado com tons abomináveis! Não posso gostar dele!&lt;br /&gt; Por estar demorando, tentaram encostar-me, com esta objecção: Isso, afinal, ´e o que está pensando, mas o seu juízo não é, certamente, o do povo português! &lt;br /&gt;Atalho eu prestesmente: discordo, por inteiro!&lt;br /&gt;-- Apresente as razões!&lt;br /&gt;--Nada mais fácil! Recorro às palavras de António José Saraiva: A prova certa de que o povo português não ama o PREC reside no facto de entregar à AD o governo da nação. PREC significa: processo revolucionário em curso. Nada mais claro! A mim, pessoalmente, deu isso prejuízo, tanto em Angola como em Portugal! Se fora só a mim, beneficiando todos os ouyros!&lt;br /&gt;Revendo melhor a minha posição, distingo ainda o 25 de Abril, da sua realização. Esta, sim, é que foi detestável, pois veio causar o que atrás enunciei. A abertura foi boa. Talvez a intenção tenha sido esplêndida, mas o agir posterior amargurou o País, lançando-o na ruína!&lt;br /&gt;Alcântara  \\  10-1-1982 Casamento a sério ou Insensatez?!&lt;br /&gt; Alarmam-se as gentes, de tantos divórcios, conflitos e discórdias, entre os casados. Ao fim de alguns anos, se não poucos meses, começa a tragédia. Dissenções, a montes; esfriamento de atitudes; ausências prolongadas; silêncios pesados; insinuações, algo aleivosas; ditos picantes. &lt;br /&gt;Abriu-se o pélago! O plano inclinado torna-se um perigo! Resvaladiço como se apresenta, não trava a corrida! Só a favorece, possibilitando a marcha acelerada. Agora, pois, só palavras que ferem! Provas de amor, espírito alto de sacrifício e compreensão deixam de existir! É já o caos!  Horizontes novos se estão esboçando! A vista alonga-se, para fora do lar! Jogam-se ali os interesses mais santos, como os dos filhos. Deus e o Céu, e a vida eterna já nada pesam!&lt;br /&gt;Interessa apenas o gozo da vida! Dispor, sim, enquanto é possível! Eu interrogo: terá o homem consigo a razão sa existência?! Poderá sensatamente derrubar a lei moral, que o próprio Deus fez?! “ Não separe o homem o que Deus uniu!” Fala Deus assim, na Escritura. &lt;br /&gt;Não será esse caso rematada loucura?! Como foi preparada essa tal união?! Acto canino de mero encontro, sem nada mais?! Tem o pobre homem o destino dos cães? Onde mora a consciência?!&lt;br /&gt;Alcântara  \\  15-\1-1982  Impudor nas Ruas&lt;br /&gt; O 25 de Abril trouxe o desplante! Liberdade total, não importando em quê! Acções e reacções, palavras e atitudes! O que era proibido tornou-se legal ou já permitido! Temas de alcova ou grande intimidade passaram para a rua, com grande pasmo e surpresa das gentes sensatas. Interpretação errada, quanto à liberdade?! Esta, afinal, +e sempre limitada Aonde vai terminar?! Eu digo já! Onde vai começar a liberdade alheia. &lt;br /&gt;Ora, se o meu bem-estar fica afectado e me sinto oprimido, com tais exibições, para onde foi a minha liberdade?! A nada se atende! +E o campo do egoísmo! Olhar para si e nada mais! Conveniências? Desaprovação, em ordem aos outros?! Moral tradicional?! Compostura e decência?! Respeito às crianças?! Tudo naufragou!  Entretanto, o Evangelho é eterno e veio do Céu!&lt;br /&gt;O único enhor, que nos há-de julgar, não se desdisse nem jamais cancela preceitos e ordens! O homem não é Deys e tenta parec^-lo! Fique be claro: somos criaturas e não temos, de facto nenhum outro Deus, que permita desaforos, toleimas e riscos!&lt;br /&gt;Alcântara  \\  16-1-1982  Soltura de Língua&lt;br /&gt; Sendo criança, jamais eu ouvi palavras escurris, grosseiras ou obscenas. No lar, nem uma! No exterior, jamais às mulheres e rsro aos homens! Hoje, porém, o quadro mudou! E é grande pena! A delicadeza, quanto a sentimentos, fica muito bem a todas as pessoas e quadra à maravilha a todos os tempos e suas viragens. Linguagem decente, limpa e sensata é clar o sinal de peito lavado! Não é a linguagem espelho da alma e fiel instrumento da sua expressão?!&lt;br /&gt;Atendendo, porém, ao que ouço, na rua, às próprias crianças, fico horrorizado! No entanto, os Livro sagrados dizem claramente:”Certas palavras nem sequer se pronunciem!”&lt;br /&gt;Efectivamente, elas são portadoras de mixórdias e baba, que salpicam as almas. A mulher portuguesa, que foi em todo o tempo modelo de contenção e nobres sentimentos, está sendo agora ( há honrosas excepções) alvo de atenção, pelo seu impudor! Língua sebenta a voltear na boca imunda, remexendo o entulho que enlameia as almas, é digna de censura! Esta mulher, educadora e mestra da grande comunidade, para onde caminha?!&lt;br /&gt; Guerra ao palavrão, escurril e baixo, que traz a desonra e dispõe as amas para chafurdar Campanha mais nobre não creio que haja&lt;br /&gt;Alcântara  \\  19-1-1982         O que eu preciso agora, já regressado a Portugal, não é demasiado, pois a minha aspiração está confinada. Entretanto, um mínimo há que eu julgo necessário, para levar a existência, adequada ao homem: casinha modesta, mas confortável; carro utilitário; televisão e rádio; biblioteca a meu gosto e um bom acordeão. Aceitaria ainda, provavelmente, lições particulares, mas não em salões de qualquer instituição. Neste ambiente, iriam decorrendo os anos derradeiros, servindo a Deus, em paz e amor. &lt;br /&gt;Viveria parcamente, segundo o costume; ajudaria os famintos de pão e ensino; rezaria concentrado as minhas orações. Também era grato escrever o Diário, vindo a publicar o que trago em mente. Baila no meu espírito uma ideia sedutora: visitar ainda os Lugares Santos do próximo Oriente; a Roma papal e suas maravilhas , dando um salto a Nápoles, Veneza e Turim e também a Milão; depois, à Grécia, ao Egito fabuloso; reconhecer o Brasil, dando breve giro pelos Estados Unidos.&lt;br /&gt;Será demasiado o que trago em mente?! Acho que não, mas supõe com certeza uma boa economia, para que as migalhas permitam bom êxito. Cauteloso no vestuário; sóbrio no comer, moderado em tudo, haveria que bastasse, para ajudar os pobres e, ao mesmo tempo, distrair um pouco, utilizando as viagens como fonte de progresso, quer espiritual, quer ainda  artístico. &lt;br /&gt;Após a carreira, à luz de Deus, havendo combatido pelos nobres ideais, iria feliz, para o seio do Pai! Da vida presente, nada mais quero. De momento, o supremo desejo é fixar-me em Portugal, onde tudo me fala, encanta e sorri Não é ele, de sempre a terra bendita de Santa Maria e do santo Sacramento?! Não foi ali que surgiram as raízes profundas de todo o meu ser?! &lt;br /&gt;Lx, Alcântara  \\  20-1-1092  “ Agora, sim, é que vê, de facto, o cu à carriça!&lt;br /&gt; Se bem me recordo, foi â mana Agusta que primeiro o ouvi. Achei graça ao rifão, pelo seu realismo, poder evocativo e crueza de forma. A carriça é uma ave minúscula, tímida e furtiva. Como tal, seria dificultoso avistar-lhe o traseiro, que deve ser miniatura! &lt;br /&gt;de enredos ou pôr em ordem os seus negócios. No mesmo dia também, diz Carlos Almeida, na Agência Funerária!”Batista Filho: Ontem, vi-me da cor das mélroas pretas”&lt;br /&gt;--Então porquê?!&lt;br /&gt;--Nãp imagina! Cinco funerais! Uma carga de trabalhos!&lt;br /&gt; --Bom! Ouvi, registei e pus-me a discorrer! As ditas mélroas são todas pretas., segundo eu jujulgo! Acha-se a mais o dissílabo ‘pretas’! Enquanto imaginava, tentando acertar, vem-me logo à ideia outro rifão, Sado na minha aldeia – Vide-Entre-Vinhas: “ Vi-me da cor da abelha!”&lt;br /&gt; O sentido é igual, variando apenas a cor preferida. Vem a dar no seguinte: Vi-me em aperto! Há, pelos vistos, enorme semelhança, de carácter ideológico, nos três anexins.&lt;br /&gt;Lx. Alcântara  \\  21-1-1982  Matrimónio de Prostitutas?&lt;br /&gt; Nada  existe na fantasia que n~so seja provável! Algumas prostitutas foram arrastadas pela necessidade, quando não seduzidas. Por vezes, são as próprias mães que as lançam no abismo! Desemprego e mau exemplo, abandono e desprezo, fagueiras promessas, cargos invejáveis, chorudos vencimentos, ambição e luxo. Não são responsáveis por tanta desgraça, no campo moral?!&lt;br /&gt; Seja como for, é sempre de esperar a conversão de alguém! Deus atua, intervindo amiúde sobre as criaturas. Criou o ser humano para a felicidade. Jamais abandona a obra de suas mãos. É possível a emenda, porque o Céu nos ajuda. Um momento breve de reflexão. um conselho amigo, uma boa leitura, inêxito forte e desilusão tudo são caminhos para Deus agir, influindo nas almas. &lt;br /&gt;Ora, neste caso, dada prostituta, já recuperada e temente a Deus, com princípios firmes de grandeza moral e desvio do pecado, pode ser, na verdade uma boa esposa. Não podemos negar que muitos se convertem, iniciando vida nova, tanto ne ste campo, como noutros ainda &lt;br /&gt; Apesar de tudo, eu faço restrições! Se qualquer meretriz não for temente a Deus, garantindo a um homem que o ama intensamente e por ele dá a vida, não creio nisso. Ao surgir pele frente alguém que a deslumbre, terminará decerto as promessas juradas . &lt;br /&gt;Requer-se a religião como único penhor e base essencial de compromissos tomados mais tarde-&lt;br /&gt;LX. Alcântara  \\  28-1-1982  Limpeza Importuna&lt;br /&gt; Afigura-se dislate o cabeçalho da página?! Pois não é tal, como passo a dizer. Nestas andanças, de Belém para Alcântara e daqui para lá, vejo muita coisa, a que dou atenção, fazendo meus juízos Entre os factos observados, deparam-se quadros, nem sempre louváveis ou dignos de apreço. Aquele que viso, no momento presente, é dos mais asquerosos&lt;br /&gt;Limpar o nariz, durante a viagem, à luz do Sol, na presença do próximo, não é de louvar Fazê-lo em casa, logo pela manhã. no ato de lavar, é recomendável Agora, como vejo, durante o dia, fica a impressão de que se trata de ‘pesca’! na qual vários dedos tomam posição! Já o tenho dito, em Diários passados, mas este caso é deveras singular!  &lt;br /&gt;Ambas as fossas foram pesquisadas, utilizando para o facto diversos dedos, com muita insistência. O que vi desusado e mais repelente foi o que segue: arrastada a ‘massa’ para o exterior, penetrava o dedo na boca receptiva, onde era depositada e logo recolhida pela acção dos lábios. Nunca vira tal! Bem diz o povinho: Aprender até morrer!&lt;br /&gt; Pois foi, realmente, a nojenta acção que serviu de tema para este Diário Que mais haverá que eu não tenha visto, ao longo da existência?! Mais asqueroso ainda não vira , mas só Deus é que sabe o porvir ignorado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lx. Belém  \\  30-1-1982.  Porta Fechada&lt;br /&gt; Nada como isto! Evitamos assim tremendas sltuações: lixo e poeira ficam de fora; os indiscretos e assim mexeriqueiros ignoram decerto o que vai no interior. Por estas razões, surgiu o rifão: “ Se queres viver em paz, teu vizinho louvarás; tua porta fecharás!”&lt;br /&gt;O que vai lá por dentro não há-de transpirar!  A nossa porta com as paredes hão-de ser barre , impedindo contactos. De outro modo, tudo corre mal!&lt;br /&gt;Veio isto a propósito duma coisa diferente. Deu-se ontem no eléctrico. Regressando a casa, juntamente com a mana, abancámos ambos no 27, auto-carro laranja. Havendo alguém pressa, não temos igual, exceptuando o Metro. Este, porém, não vai a toda a parte: apenas Sete Rios, Entre Campos e Rossio bem como Alvalade.  O resto é servido por vias diferentes. &lt;br /&gt; Pois à nossa frente, cismava a findo certo macróbio que abria, de vez em quando, uma boca dilatada. Contra a minha expectativa, mantinha-a bem aberta, oferecendo espectáculo que era digno de lástima! Nem a mão em frente! &lt;br /&gt;Lx.  \\  31-1-1982  Cabeça amarrada&lt;br /&gt; Lá por tardinha, entrara no eléctrico. O Sol declinava, mas no interior havia animação e bastante à-vontade. Parecia Abril, tão macio e doce, acariciador, com ar imponderável! Uma vista de olhos, com certa discrição, põe-me logo ao corrente. Lugares devolutos já não existem! Há várias crianças adultos  e velhos, emergindo a cabeleira de senhoras caprichosas.&lt;br /&gt;Faz-me impressão o arranjo dos cabelos e, bem assim, a cor e o tamanho! Estando ao fundo, olho pelas costas e noto somente o contraste das cabeças! Deste conjunto, salientam-se à primeira, dois arranjos diferentes. Enquanto as de outrem se elevam no ar, com grande presunção e ostensividade, avisto duas, amarradas com lenços, evitando olhares e fugindo ao contacto &lt;br /&gt;Impressiona-me o caso. Porquê?! O que para umas é causa de orgulho, torna-se para outras razão de vergonha?! Pode a gente envergonhar-se daquilo que tem?! Q ual o motivo?! Reparo melhor e tento fixar os vultos em causa. Eram duas negras, qie se criam diminuídas, em presença das brancas. Dei-me em seguida a longo cismar, não achando explicação para tamanho cuidado! Por isso. aqui vai um conselho: &lt;br /&gt;envergonhai-vos,sim, de acções condenáveis e actos desonrosos. O exterior não é realmente o que mais importa! Se o vosso agir for digno e honrado, todos vos querem, estimam e aceita. O que é preciso é cuidada limpeza, maneiras gentis e prestabilidade, ficando o exterior como espelho do íntimo.&lt;br /&gt;Lx. Belém  \\  1-2-1982&lt;br /&gt; Findo Janeiro com 31 dias, chega Fevereiro só com 28! É o mais pequeno entre os 12 meses. Além disso, é também frio. Hoje exactamente, está desagradável, se bem comparo a temperatura com a do mês passado. Seja como for, havemos de suportá-lo  Eu digo fracamente: nenhum mal desejo ao mês em questão. É que foi nele que eu vi primeiro a luz deste mundo!&lt;br /&gt;Por esta razão, muito lhe quero e, embora seja frio, não tomo em conta esta anomalia.  Desejo, porém, seja mais benigno que o mês de Janeiro! Se hoje, na verdade, faz excepção, tenho para mim que vai ser outro, nos dias que seguem. Que o meu desejo se concretize, para que o dia do meu aniversário decorra em boas graças. A 19. Caem 64! Figura isto  um sonho! Uma história de fadas! Um engano voluntário! Não sei que dizer!&lt;br /&gt;Como é que rodaram assim tão velozes os anos da existência! Onde vai a infância, a minha adolescência como a juventude?! Fui de longada, pelo mar da vida, em frágil barquinho, pensando, iludido que era sempre dia, com sol radioso! Quanto me enganei! Desfez-se a ilusão e, abrindo os olhos, mal tive ensejo de vislumbrar, já longe, o passado tão querido! Ai! Dias saudosos que jamais voltastes! Quem foi que mos levou para lugares distantes?!&lt;br /&gt;Não poder alcançá-los na marcha veloz, que esbate o meu sonho!&lt;br /&gt;Lx.  \\  2-2-1092  Crise de Autoridade&lt;br /&gt;Para ninguém é segredo este facto geral: haver, em nossos dias, crises a rodos,, ocupando, sem dúvida lugar proeminente a crise de autoridade. Ante o caso inegável e de efeitos lastimosos, conveniente se torna averiguar-lhe as causas, para de algum modo se barrarem excessos, evitando anomalias.&lt;br /&gt;Sem autoridade, não há bem-estar, falta o progresso, destrói-se a ordem. Para tudo correr bem, há-de haver quem mande e quem obedeça. Assim foi, na verdade. ao longo dos séculos. Entretanto, os desmandos lastimosos, gerados nas cúpulas, originaram revolta nas camadas de base. Por outro lado, o homem do nosso tempo, cioso de seus direitos não tolera nem sofre que estes sejam ignorados. Uma vez neste passo, origina-se a discórdia. &lt;br /&gt;Para solucionar o grave diferendo, importa sumamente que as partes se entendam, chegando a um ponto em que haja humanidade, compreensão, amor e respeito, baseando-se tudo na diina autoridade e obedecendo os homens, com os olhos em Deus. Só esta, de facto, é via segura. Fora de tais normas, apenas violência, retaliações, grande mal-estar, o inferno em vida! Alguém terá gosto, vivendo assim?!&lt;br /&gt;Sem Deus em nossa vida, como tudo é reles, baixo, vil e nauseabundo! Lembra-me a propósito, a frase de Herculano:” Criou Deus o homem e pô-lo num paraíso de autênticas delícias; ; a sociedade tornou a criá-lo e colocou-o breve nun inferno de tolices”&lt;br /&gt;Citei de cor. Se houve falta, releve quem me ler.&lt;br /&gt;Lx.  \\  3-2-1982  Cont,&lt;br /&gt; Sem nenhum diálogo nem compreensão, não vejo saída para o magno problema. Com efeito, as partes em luta arrogam-se direitos, que pecam pela base. Se não vejamos. Aquele qie manda não se convence do grande princípio: respeitar a liberdade, pessoa e consciência de quem obedece. A razão e a base de todo o poder encontram-se em Deus. Ora, este não abusa: é santo e justo; amigo sem igual; equilibrado e paciente. Por consequência, o poder emanado para toda a criatura há-de revestir as mesmas características. De outro modo, surge a revolta, a que segue a desordem., geradora do caos!&lt;br /&gt; À outra parte – os subordinados -  impõe-se também moderação e respeito, obediência e diálogo. Esta obediência há-de ser voluntária, pronta, geral e harto consciente. A Religião eleva a obediência à categoria de bela virtude. Obedecendo, pois, ao legítimo poder é a Deus que se obedece! Efectivamente, nenhum poder existe que não venha de Deus! &lt;br /&gt; Disse Jesus a Pôncio Pilatos:”Nenhum poder terias, sobre a minha pessoa, se não te fosse dado lá do Alto Céu!” Destrua-se, pois, de uma vez para sempre, o fakso conceito de liberdade total bem como a aspiração de poder ilimitado! Independente só Deus o é!. A nossa liberdade termina exactamente, onde vai começar a liberdade alheia.&lt;br /&gt; Quando tais princípios forem reconhecidos, de una parte e uutra,, vida nova teremos, com paz e harmonia, vincado progresso e alta venrura.&lt;br /&gt;Lx. Belém  \\  4-2-1982  Aniversário da Morte&lt;br /&gt; Ocorreu o passamento de um grande amigo, em 1942. Faz hoje, portanto, 40 anos, que o bom padre Zé Maria se foi de longada. Como o tempo se escoa! Nem advertimos! Nessa altura, faltava só um ano, para eu acabar os estudos teológicos. Em 1943, finalizava o meu Curso, para fazer-me presbítero, em princípio de Agosto. &lt;br /&gt;Anunciara-lhe o facto, algum tempo antes, convidando-o logo para assistir e ser meu padrinho. Acolheu-me sorridente e disse que sim. A morte, porém, não deixou realizar o meu vivo desejo, que era tê-lo presente, no acto festivo. Encheu-me de tristeza o facto ocorrido, mas tenho a certeza de que ele se alegrou e viveu a fundo a minha ordenação. Havia-me baptizado e seguira-me de perto, ao longo da vida. &lt;br /&gt; Saudoso padre, José Maria Martins! Como ficas já distante! Mal te vislumbro, na imensa lomjura, que me separa de ti! O teu exemplo, no entanto, é luz, que me alumia! A semente que lançaste no meu peito de criança, e o teu patrocínio agora, lá no Céu, produzem seu fruto, que eu guardo com amor!&lt;br /&gt; O Senhor te galardoe, nessa Pátria imortal, onde és tão feliz!&lt;br /&gt;Lx.  \\  5-2-1982&lt;br /&gt; Quinze minutos para as17! Encontro-me, à data, no quarto de Belém rua do Embaixador, capela das Dores. Uma tarde amorosa, com luz e calor! Nem parece Fevereiro! Choveu muito, no passado, mas o final de Janeiro ( os últimos dias, foram divinais! Por esta razão, vi eu no jardim, pessoas descuidadas: umas, passeando, como no Verão; outras, lendo sentadas, em bancos de espaldar.&lt;br /&gt; Pois eu estou só!Já me habituei, ao longo dos anos. Mercê deste hábito, é mais suportável Para isso contribui a luz a jorros, que entra pelas janelas: dá-me conforto e boa disposição. Com ela, de facto, sinto-me bem e vivo melhor. Já escrevo e leio, utilizando o tempo e voando no espaço das minhas preferências. Os outros inquilinos mourejam, a seu modo.&lt;br /&gt; O cunhado Martins lá está para os Jerónimos; a mana Agusta passou a ferro, e foi-se até lá, para dar uma ajuda; o Carlos Alberto luta com os livros, na cidade invicta, onde é universitário; o Isaías agarra-se com alma, na véspera dos Pontos; a Maria Regina faz a mesma coisa, para triunfar. É isto a vida, até que a morte nos acolha benigna e Deus carinhoso nos tome à sua guarda.&lt;br /&gt; Após tanto revés, há-de ser grato habitar, no C+eu, onde tudo é belo e nada nos falta de quanto desejamos! Compensação bem larga de tanto desaire, logração e tortura!&lt;br /&gt; Lx. \\  Belém  9-2-1982  Sorriso de Primavera&lt;br /&gt; É cedo ainda, para falar de tal assunto, pois o início exacto da jovial estação vem cair somente a 21 de Março. Entretanto, mercê do clima, já hoje pressenti que a Primavera vem perto, ou pelo menos, que não dista muito. Fiquei alvoroçado A rigor, não me convencia! Podia lá ser! Que foi o que eu vi?! Uma coisa bela, na mata de Monsanto: amendoeiras em flor! Que surpresa agradável! Brancas, puras e belas! Em pleno Inverno, de ano chuvoso,  rejubila a ama e deleitam-se os olhos, ao surgir das flo res! Não são de jardim nem mesmo de estufa!  &lt;br /&gt;Serão elas, de facto, amendoeiras autênticas? Podem não ser, mas isso não conta! O que importa, realmente sãs lindas flores que meus olhos, deliciados, contemplaram em êxtase! Que magia de encontro! Trago na alma o sortilégio da cor, o vaporoso da sua figura, o alvoroço da funda surpresa!&lt;br /&gt; Cheguei a Belém e já tenho saudades, Queria voltar, saudando em Monsanto as graças e prodígios da Primavera! Quando será?! Oxalá não tarde, para que o meu peito, ansioso de encanto, amor e beleza, possa rejubilar e sentir-se jovem!&lt;br /&gt; Vem até mim, gentil aparição, infundindo em meu seio ardor sem fim! Sexagenário embora, sob o teu amparo, ainda sinto arder o fogo da paixão. Reconheço agora que vibro a valer, quando tu me sorris.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2428384760209611812-3565550553978920958?l=pedrofonseca1918.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/feeds/3565550553978920958/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/2011/07/memorias-39.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2428384760209611812/posts/default/3565550553978920958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2428384760209611812/posts/default/3565550553978920958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/2011/07/memorias-39.html' title='Memórias 39'/><author><name>Pedro da Fonseca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17891369761169059436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2428384760209611812.post-8224663043369027523</id><published>2011-07-29T15:31:00.000+01:00</published><updated>2011-07-29T15:32:48.451+01:00</updated><title type='text'>Memórias 38</title><content type='html'>Manteigas  \\  10-1-1971  Final Amarguradol&lt;br /&gt; Morreu no Albergue. Facto banal! Por demais repetido, já não faz mossa, em peitos duros! Entretanto, o lugar do facto bem como as circunstâncias, em que ele decorreu, forçam agora a demora do exame. Era mãe como outras e tinha vários filhos, a quem sacrificava o melhor do seu tempo. Banhada em amor, sentia-se feliz, pois via em redor aquilo que chamava, orgulhosamente “ fruto amoroso do seu coração”.&lt;br /&gt;De modo especial, depositava fé no filho celibatário. que  n viveu embalada n guardaria sempre para sua mãe as formosas primícias do seu coração, o melhor da sua alma! Decorreram os anos. A ilusão vingou, cresceu, fortificou-se! Que mais a desejar?! Bastante ciosa do amor se seu filho, em que via espelhadas todas as promessa e concretizados os sonhos de outrora, viveu embalada , por tempo longo, sem prever jamais que os últimos dias seriam desditosos!  &lt;br /&gt;O que ela não fizera nem jamais faria, porque muito amava, iam fazer-lho, impiedosamente,  atirando-a  viva, para a cova aberta -  um Asilo citadino. Ali viveu, cismou e sofreu, com a alma a sagrar! Pobre  mãe!  Ela que pedira e tanto suplicara! Este grito, porém, não havia de ter eco e, contra a expectativa, acha-se em breve, na companhia chorosa de outras infelizes, para deste modo curtir suas mágoas e chorar amiúde lágrimas ardentes. Sepultada viva por aquele mesmo filho a quem dera a vida, acabou seus dias, abençoando talvez! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-7-1971&lt;br /&gt;  Mãe e jovem  apertava ao seio um bem inestimável! Vi-a passar e quedei-me extasiado! Cansaço ou fadiga não eram com ela! A sombrinha airosa, o pequeno fardo  que pendia do braço, em nada perturbavam a serena alegria, que sempre irradiava do rosto juvenil! Se a visse, de novo, não ia reconhecê-la! Ignoro sinceramente de quem se tratava Uma coisa, porém, é mais que sabida e tanto me basta, para distingui-la, entre multidões: é mãe, por certo e ama a valer o filhinho adorado&lt;br /&gt;Segui-a longamente, à maneira dum feitiço, que prende e arrasta. Não pude afastar-me! Comentários ao lado? Isso não contava! Fui-me inteirinho, após tal visão, pondo no acto a alma sensível e embrandecida. Ao dobrar a esquina e me quebrar o encanto, imensa tristeza se apode rou de mim. Haviam-me furtado poderoso sortilégio que infundira no peito agradável sensação. Voltei-me para o lado exclamando enternecido:  veja só o que é ser mãe! Se os filhos pagarão, embora de rastos, carinhos e extremos como a gente vê! &lt;br /&gt;Ouvi, nessa hora, o breve comentário do bondoso Padre Neves:”Os filhos haviam de  beijar os sulcos do caminho, onde ficam vestígios das pisadas maternas!” Fiquei emocionado, com dizeres tão suaves, eloquentes e ternos, meditando longamente, sem poder esquecer-me! O quadro passou, ficando só a imagem, que a moldura do tempo esconde sumiu! Entretanto, não pôde obliterar, na minha retentiva , as linhas basilares  da visão sem igual! Ficará para sempre gravada no meu peito, e enquanto vir a luz, jamais a perderei. Vê-la-ei acordado e a dormir também! Será um lindo sonho, convertido em realidade! Evocação do passado  que adormenta  mágoas,  refúgio acolhedor, onde é grato ficar!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-7-1981&lt;br /&gt;   “ Conforme semeares, assim colherás”&lt;br /&gt;               “Quem semeia ventos colhe tempestades!” “ Quem não quer farruscas não vai à queimada!” “ Quem trabalha vence” Estes rifões vieram a ideia, pelo momento de enorme ansiedade, que está decorrendo! Aguardam-se para já as notas do 5º ano. Impaciência e nervosismo vão de mãos dadas, n este dia fatal! Docentes e amigos pais e alunos inspiram compaixão, esperando, a toda a hora, o desfecho cruel!&lt;br /&gt;Que trará, por fim, este dia nublado, em que o Sol já não brilha nem desponta o sorriso?!Que  tremenda agonia se desenha , em cada rosto! Que fundos ais se levantam de peitos amargurados! Promessas não faltaram nem votos aos Santos! Mas, afinal, quem é que vai descobrir o que o futuro reserva?! Interrogação medonha se esboça, no horizonte, avolumando-se mais com o tempo que não passa?!&lt;br /&gt;Inquietação, grande mal-estar não se afastam jamai ,  seguindo pela mão a estrada sombria Nada há que distraia ou enleve o pensamento! Foge galopando, se queremoa travá-lo! Da Covilhã se espera o alívio nesta hora ingrata, em que o alento escasseia, soçobrando o espírito. Veio agora a trovoada, para cenário macabro, pondo medo nas almas, já cansadas de esperar!&lt;br /&gt;Que moldura foi esta que tudo enegreceu?! Ironia das coisas ou prenúncio  de amargura?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13 -7-1971&lt;br /&gt; Chegaram, por fim, os nossos resultados e com eles também a desolação! Tantos sonhos  destruídos, tanta esperança gorada! É assim a vida humana, sobre a Terra que habitamos! Jamais alcança o homem aquilo  que pretende nem vê realizado quanto imagina! Reprovações em barda, na parte de Ciências e, no geral, notas de tangente! Nada aí há que não tenha uma causa. Descoberta, pois, a raiz do mal, é então por aí que se deve  atacar  Se não me engano, o motivo basilar reside, como é óbvio, no forte desinteresse, por parte dos alunos. Passam aulas inteiras, alheados do assunto, magicando em tudo, excepto no dever! Postas assim as coisas, claro se torna já, que não pode haver bom êxito! Fora das aulas, acontece o mesmo. Habilmente dispersos, andam todos eles à mercê de ninharias: futebol e radio; televisão , Imprensa, etc.&lt;br /&gt; Coisas sem valor, assuntos banais! O resto não interessa! Aspirações  fúteis é que não&lt;br /&gt;faltam! Comer bem, sem cuidados! Triunfar sem esforço! Dizer aos outros que trabalhem. &lt;br /&gt;Como extirpar este desinteresse?! Como levar certeiro o machado à raiz? A Direcção do &lt;br /&gt;Ensino  e  os pais dos alunos vão ser chamados, em qualquer tempo,  a desempenhar um &lt;br /&gt;papel  de relevo. Por outro lado, importa, na verdade, tornar as aulas alegres, interessantes&lt;br /&gt;e  atraentes. A propósito ainda, vem o Cinema, a figura e os mapas, manequins e o mais &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-7-1971&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O romance português tem sido muitas vezes alvo de censura, pois, sendo Portugal &lt;br /&gt;um  país da Europa, não  criou ainda um romance próprio, isto é, que seja revelador do &lt;br /&gt;homem  português, versando temas nossos,  exraídos  já se vê, da realidade lusa. &lt;br /&gt;Descontentes e críticos norteiam-se todos, como é sabido, pelo romance inglês, francês e&lt;br /&gt;alemão, juntamente com o russo, em que sempre a análise ocupa, de facto, um lugar &lt;br /&gt;primacial. &lt;br /&gt; A verdade, porém, é que, tendo embora alguma razão, não a têm cabal. O nosso &lt;br /&gt;romance  jamais seguirá na esteira dos outros, uma vez que o povo luso é muito &lt;br /&gt;diferente  dos postos em jogo. A meiguice proverbial, o ambiente luminoso, a doçura do &lt;br /&gt;clima, e o ameno da  paisagem lançam-no breve  fora de si. Ora, a &lt;br /&gt;extroversão  não é propícia à chamada análise. &lt;br /&gt;Por outro lado, no aspecto social e bem assim cultural, não somos, na verdade, um povo já &lt;br /&gt;velho, sendo certo e recebido que tal característica é harto necessária, para uma análise &lt;br /&gt;pausada  e fria. &lt;br /&gt;Nunca haverá, entre portugueses , um romance como aqueles, porque, nesse  &lt;br /&gt; caso, não éramos  nós a figurar nos livros  O grande mal consiste a rIgor, em o nosso romancista  aferir, geralmente, a realidade lusa pelo figurino, talhado lá fora. &lt;br /&gt;Imitamos, pois, em vez de criar. &lt;br /&gt;Camilo, julgo eu, deverá ser o modelo, embora aprofundado e sujeito a ampliações De &lt;br /&gt;facto, foi ele  quem melhor revelou o homem português.. Partindo desta base, a coisa afinal &lt;br /&gt;não surge tão feia nem o mérito  real se afigura despiciendo!  &lt;br /&gt;   &lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-7-1971&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Em apêndice breve àquilo que disse, no Diário anterior, acerca do romance, apraz-me  &lt;br /&gt;ainda  anotar o seguinte: somos um povo demasiado emotivo, para nos entregarmos a uma análise fria. Seria, na verdade, tentar o impossível! O sentimento avassala a razão e obstrui-lhe os caminhos. Por outro lado, nem sequer lhe dá tempo de aprofundar os motvos. Irrefle xão e sentimentalismo, impulsividade, precipitação e bastante cegueira! Não nos fazemos a nós! &lt;br /&gt;Deus é que nos fez! Tais quais somos é assim mesmo que temos de figurar, no romance em questão. O homem do Norte, acossado pe bruma, interioriza-se logo, pois foge ao contacto da Natureza rude, para se acolher ao seio da família. Ali, pois, estuda o semelhante e nele se revê. Tem assim, na verdade, ambiente adequado a uma análise fria, total e objectiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem da estepe e em larga extensão, descai amiúde em sonhos longos que o&lt;br /&gt;interiorizam, ao passo que o luso prefere agir a pensar. Entretanto, desde logo, em comunicação com a própria Natureza, que o atrai e seduz, extroverte-se pronto , dando&lt;br /&gt;largas amplas à sua fantasia. É, pois, um Artista: pensador, não! Será um defeito? Não &lt;br /&gt;entra isso em causa!. Cada um é como é! Temos defeitos e também qualidades!&lt;br /&gt;Saibamos empregá-las devidamente, abandonando já o figurino estrangeiro! O fato de An-&lt;br /&gt;tónio é muito natural que não convenha a João! Nem isso admira, pois cada um  tem  a sua&lt;br /&gt;estrutura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 16 -7-1971    Mais um Problema &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Um abcesso nos dentes é coisa vulgar e, como tal, nada representa! A ,pesar de tudo, o caso em foco reveste importância, quando somos nós que o temos, de facto! Que &lt;br /&gt;Que horas longas de tédio e que noites arrastadas em infinda amargura! Ouvir soar as horas, na vizinha torre da igreja de S. Pedro , verificando sempre que elas são morosas,&lt;br /&gt;intermináveis! O corpo dorido, vira-se e revira-se, não achando apoio nem lugar de repouso!&lt;br /&gt; Vem, finalmente, o Sol do novo dia, mas falta a vontade, escasseia o desejo! Foge-se ao convívio, desfazemos encontros, deseja-se até o próprio isolamento! Como não ser?!&lt;br /&gt;Alguém suportaria o nosso mal-estar?! Que interessa a outrem a nossa amargura?! Ela só dói a quem ama e sente! Passar dias e noites, em extremo desconforto! Podia morrer, que ninguém dava conta! Houve, sim, alguém que sofreu comigo! Já foi no passado! A morte&lt;br /&gt;jevou-os , para longe de mim, proibindo impiedosa qu jamais nos encontrássemos, cá neste mundo!&lt;br /&gt; Oh! queridos pais, quanto éreis dedicados e como vos choro! Sem vós fiquei só, que não tenho ninguém: nem esposa nem filhos, cujo sangue estuasse. em minhas veias!&lt;br /&gt;Desta solidão, ergo para já minha voz enfraquecida, para chamar em apoio os que a morte levou!&lt;br /&gt;  \&lt;br /&gt;17-7-1971  Em Viagem&lt;br /&gt; Fui à minha terra, exígua aldeia, não muito longe de Celorico da Beira. Coisa banal, ``a primeira vista, mas que, na verdade, assim não é! Para outrem, não passa de trivial, se não despicienda, mas é outra para mim, que lá nasci e me criei! Cada vez que os meus olhos se poisam gulosos, em algo que lhe respeite, todo o meu ser estremece e goza. &lt;br /&gt;Plantas já decrépitas, erguendo a custo seus ramos debilitados, ao verem-me passar, ainda longe do sítio, esboçam desde logo um ar de magia! Quanto eu lhes quero e como estou grato ! A sombra amiga e assaz deleitosa que prontas me ofertaram, em horas de repouso, e o prazer inefável do gorjear embalador, orquestrado pelas aves, tudo isso lhes devo! Agora o recordo, com viva saudade! Sempre que volto, avivam-se as cores e todo o passado se torna presente!&lt;br /&gt; Ai! Paredes velhinhas a que hera viçosa se apegava com amor! Paraíso das aves, éreis de igual passo, campo deleitoso para cabras famintas! Se elas vos procuravam, cheias de pressa e ansiedade! Humildes casitas e velhas choupanas, casais envergonhados, arribanas e casebres, palheiras e cabanas o que vós me não lembrais, se adrego de passar!&lt;br /&gt;E eu entendo a linguagem que me dirigis , sorrindo,  enquanto  alongo  os  meus  olhos , sem poder abandonar-vos! Vivo assim embalado por mostras eloquentes, que ninguém ouve nem vê, mas que eu entendo, amo e conheço, por serem da minha terra!&lt;br /&gt;Vide-Entre- Vinhas  \\  18-7-1971    Um Domingo de Julho&lt;br /&gt; Na igreja velhinha, que ameaça ruína, estivemos reunidos, para adorar o Senhor.  Estava  tão  cheia, que mais não podia. Foi-me grato ali presidir à função, onde Cristo Jesus é, ao mesmo tempo, sacerdote e vítima. Acção rememorada, sempre igual e formosa, em que muitas gerações tomaram parte ao vivo! Só o tempo variava, sendo outras as personagens, embora em suas veias corresse o mesmo sangue! Semelhantes pedidos, súplicas ardentes; a mesma fé viva, pua e sincera; cantos vibrantes , que me embala ram fundo! Que grata emoção alvoroçou ainda a minha alma saudosa, evocando t empos idos, em em que eu ali cantava, cheiinho de fervor!&lt;br /&gt; Era criança, â data, mas tinha a ventura de possuir os meus pais, a quem sempre acompanhava, para rezarmos juntinhos! Horas inesquecíveis desse tempo formoso, como outro não vivi, embalai-me, ainda agora, que sinto o peito já desfalecer! Não resisto, claro está, a sensação tão melíflua, que todo o meu peito vai cedendo arroubado&lt;br /&gt; Ouvi, enternecido assas vozes cristalinas e escutei no silêncio, as que ouvi, há muito já! Não morreram, não, que ressoam para sempre, na gasosa imensidade, indo e vindo prontamente a deleitar meu ouvido! Jamais vos dissipeis, vozes meigas do passado,, em que o meu coração mergulha velozmente,  para ali afundar-se  inebriado e rendido.&lt;br /&gt;Vide  \\  19-7-1971&lt;br /&gt; Conversar amiúde com gente da serra, é prazer inefável, que não se descreve! Ao voltar de uma esquina; à sombra acolhedora de velha árvore: biforcado ainda em pedras, já poídas, ei-los interessados, perguntando já por mim, já por meus familiares!” Como está, Senhor Padre? E a obrigação ficou bem?”Desfaço-me ali em pronta cortesia, tentando ser amável, para corresponder a tamanha gentileza.&lt;br /&gt;Fazem, desde logo, referências ao passado, já pelo canto, já pelo sangue que me estua nas veias. São pessoas rudes, mas não enganam:  o que têm na boca vai no coração. O verniz social ainda se não usa! A velha sinceridade é posta à prova, com o sim-sim ou o não-não!. Aparências  mentirosas,  atitudes balofas e subterfúgios é artigo que se não passa.&lt;br /&gt;Este povo sadio, à maneira do granito, é duro, impenetrável, mas é o que é! Não tem  misturas  e apresenta-se ainda como ele seria no estado nativo. A  conversa desliza, o assunto desdobra-se, e a mesma paciência tem visos de infinda!&lt;br /&gt;Como é bom estar ali! Já eu não tinha, sinceramente o digo, desejo de partir! Apaisagem humana e a pureza destes ares dominam a tal ppnto, que não é fácil virar-lhes costas!&lt;br /&gt;Vide-Entre-Vinhas \\  20-7-1971&lt;br /&gt; Hora da abalada para a minha terra! Molesta saudade ronda-me já o peito, não chegando a serenar! Tudo nesta hora, me parece mais belo, atraente, sedutor! Que  manhã  tão  suave! Há-de vir, naturalmente, um dia sem par! Tudo, neste mundo, quer bons princípios. Acicatado agora pelo vivo chilreio das avezinhas, levanto-me prestes e assomo à janela. Um deslumbramento!&lt;br /&gt;Do cimo do ‘castelo’( prédio esguio) vislumbro prestes a mancha  anegrada, imponente e gigantesca do Penedo Gordo!  Que bela estância granítica, onde, a capricho, se podia brincar, tendo à nossa roda panorama  sem  igual!  Será, como dizem, palácio  antigo  de moura encantada?! Que pena, se é! Há tantos casos, para cumprimento de um destino cruel! Que vontade é essa que os deuses impõem, não cessando de actuar?! Ou será de  preferência um tesouro valioso, que ali está guardado?! Há quantos séculos ?!&lt;br /&gt; Mil ideias se atropelam, mas dar no 20, isso é que não! Bastião derradeiro e forte inexpugnável da soberba resistência, que os Gigantes opuseram ao Padre Júpiter? Eu sei lá bem o que vem a ser! Os meus olhos prendem-se: não há força, por maior, que os arranque dali! Um feitiço? Algo de celeste, que me tem desnorteado e não logro desvendar)&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-7-1971&lt;br /&gt; De correm os exames, na Covilhã. Em visita breve, fiquei logo inteirado, sobre os meios que utilizam, para classificar. O homem é, de sempre, fraco e venal! Qualquer nada o prende e faz desviar do caminho que se impõe. Justiça humana, quanto és falaciosa! &lt;br /&gt;Afortunados e grandes, a quem não faltam recursos valiosos nem manhas escasseiam, trazem consigo a chave do triunfo! Comprando e subornando, a mentir e dar presentes, operam o milagre! Os pobres, porém, que a sorte enjeitou; aqueles, de facto, que a ninguém intereressam, porque nada possuem, esses infelizes, que só Deus aprecia, vêem-se postergados, quando não esquecidos. Quem lembra o seu nome?! Quem lhes vai ao encontro?!&lt;br /&gt;Alguém se apieda ou comove, de seu grande mal?! Que tragédia imensa o viver humano, sobre a face da Terra! Um opíparo jantar, aquentado  pelo vinho e, ao mesmo tempo, salpicado de sorrisos, opera maravilhas! Como pode o homem, pequenino e baixo, vender a consciência, calcando aos pés, os princípios mais sagrados?! Por que ignora o ditoso aqueles que nada valem, por nada terem de seu, ajudando exactamente os que a sorte bafejou)! &lt;br /&gt;Onde vigora a nobreza de rectos sentimentos, a delicada consciência, o espírito nobre de bem-fazer?  Não somos, por ventura, filhos do mesmo Pai, que por nós morreu, na árvore da Cruz?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-7-1971&lt;br /&gt; Acabam hoje as as provas orais do 2º ano. O Pedro Viegas  é quem finaliza, pois  a letra alfabética assim lho exige. Em 33 alunos, candidatos às provas, nem 1 houve que fosse excluído. Justiça rigorosa, feita ao Externato, em que foram preparados, ao longo do ano? Provas brilhantes ou significativas? Admito,  na verdade,  que  grande  número  deles  estivessem à altura, mas todos em globo é coisa dura, que não me entra na cabeça! Nem 1 exclusão,  para amostra do pano!&lt;br /&gt;Não sou tão vaidoso nem levo a insensatez ao ponto de ver nisso a prova inequívoca  de  competência docente!  Contra  mim falo. Houve, sim, proteccionismo, levado ao extremo, pois alguns deles, embora poucos, mereciam raposa! Mas enfim tanto pior para eles! Vão para o 3º constituir, sem dúvida, fonte de amargura, para mestres caprichosos! Coitados deles, uma vez  que  os seus  ombros  carregarão animosos fardo tão ingrato! &lt;br /&gt;Em 35 alunos, só duas reprovações, verificadas na escrita! E é porque, realmente, se tratava de exemplares que, por serem  destituídos,  outra coisa , de facto, não era esperada.  Por que não fazem justiça, passando somente quem esteja habilitado?! Q eu sociedade vamos preparando, em que pululam insuficientes a dirigir um povo rude?! Um pobre ceguinho a conduzir outro cego, que pode suceder-lhes?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  23-7-1971&lt;br /&gt; O tempo corre mau e ouço queixumes. Mau ano agrícola, previsão de fome e tédio sem  igual!. Interroga-se aflito o pobre lavrador, angustiado e incerto:Terei, para viver?!Virá o  suficiente, da labuta dos campos?! Sua voz é lastimosa, e os olhos inquietos alongam-se, desmedidos,  para além da serrania.&lt;br /&gt; Pobre agricultor! Como ele se dói e sofre imensamente, comunicando alarmado que um quilo de batata se vende em Lisboa por 9 tostões! Ninguém ajuda nem acorre prestes, estendendo a mão a quem revolve a terra! E, no entanto, seria feliz, com um mínimo razoável , que bastasse aos de casa! Ambição e poderio não têm lugar, no seu coração! Unicamente o pão de cada dia! De que presta o seu lamento, se vê tanto, no fim do ano, como tinha no princípio?!&lt;br /&gt;No Céu apenas, será ele ditoso, pois cá na Terra já descrê afinal que haja bondade ou surja interesse pelos humildes! Ao pensar que assim é, e que nada vale, neste pobre mundo, uma sombra de tristeza lhe anuvia a fronte. Não tem ele iguais direitos àqueles que o rodeiam e se dizem portugueses, por nascerem, no país?!&lt;br /&gt; Choro com eles o imenso infortúnio, a que a sorte os condenou, pedindo  ao  bom Deus  que alivie a sua dor!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-7-197&lt;br /&gt; Consegui ler, sem enfado nenhum, muitas páginas curiosas das Ciências Geográficas. É este um assunto que deveras me interessa, pois tem relação com as Ciências Naturais, de sou professor. Percorri agradado a Cosmografia, detendo-me, em seguida, nas causas variadas, que sempre modificam a temperatura. Entre elas, ocorrem as seguintes: altitude e latitude, vizinhança dos mares, cobertura vegetal, a mesma exposição, ventos e correntes, natureza do solo, as horas do dia, as próprias estações e, para remate, a espessividade, existente na atmosfera. Estão em causa os fumos, as poeiras, etc. &lt;br /&gt;Por 180 metros que subamos na atmosfera, a temperatura baixa 1 grau. Por cada quilómetro, devia baixar proporcionalmente. Isto, porém, é que não acontece. A causa do fenómeno está, decerto, na subida de ar quente e descida de ar frio, provocada pelo vento ou  pela temperatura. A razão fundamental de a temperatura ir sempre baixando, à medida que subimos, reside nisto: o vapor de água vai sempre diminuindo; o ar agita-se mais, diluindo assim o possível calor; a fonte principal do aquecimento, que vem a ser a Terra, depois de aquecida, fica mais distante; há maior transparência. &lt;br /&gt;À medida exacta que nos elevamos, vão predominando os gases mais leves. Assim: a 80 quilómetros, o mesmo hidrogénio já iguala o azoto; a 90 quilómetros, ocupa, se não erro, 90% do ar atmosférico&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-7-1971&lt;br /&gt; Foi ontem, exactamente, pelas 21 horas. A noite ia caindo, medonhamente, ao passo que o Sol se afastava já, para além das montanhas, pressuroso e gentil, oferecendo os seus préstimos às gentes mais distantes. De vez em quando, um chuvisco molesto assomava à janela,, enquanto no alto se ostentava agressivo um nevoeiro indiscreto , aborrecido e pesado&lt;br /&gt; Hesitava em sair, mas era tão cedo! Noites longas, morosas, intermináveis infundem terror! Para a cama, não! Trabalhar, com má luz também não dá jeito! Nesta indecisão, alguém sorriu triste, convidando-me a sair. Não resisti! Aquilo, afinal, tinha de ser! É ponto assente! Quando ela quer, não tenho vontade própria! Impõe-se de tal modo, pede ou suplica, de maneira tão fervente,  que  não há resistir-lhe !&lt;br /&gt;Simples volver de olhos, um gesto esboçado, algo indefinível, mas que  eu adivinho , é quanto basta, para eu a seguir, não opondo jamais qualquer resistência!  Também se dá o invés, Sendo eu a convdá-la, faz exactamente o mesmo que eu. Feitos um para o outro, ajustamo-nos logo perfeitamente! Fundidos, amalgamados, não há dois seres, mas um somente! Como não querer-lhe?! Só com ela me entendo! Ela só ,me acmpanha e sorri,  bondosamente, embora o faça, com imensa tristeza!&lt;br /&gt; Como é gentil a amarga solidão!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-7-1971&lt;br /&gt; Oito horas a dar, na torre de S. Pedro, e eu em marcha, rumo ao Fundão. Não me largava a ideia obsidiante, por isso, resolvi hoje dar-lhe cumprimento. Retocavam-me o Tau –nus, que já anda lastimoso e visitava Alcaria, decorrendo assim um ou Góis dias, agradavelmente. Meu dito, meu feito! Largo pressuroso, direito à Covlhã, onde finalizam os temidos exames, sem que ali me detenha. Amanhã, talvez! É coisa a pensar!&lt;br /&gt;Às 9 e 30,já eu estacionava o pressuroso veículo, pouco antes de Alcaria. O “paraíso terrestre” é algo tentador! Vive-se ali, por mero gosto! Na verdade, o local é bonito, pois ficando situado, na Cova da Beira, outra coisa, realmente não era de esperar! Por outro lado, o rio Zêzere , que já vai alentado, contornando graciosamente a pitoresca aldeia, empresta à paisagem um ar inconfundível. Paira, nesta zona de remota origem, a lembrança nostálgica de povos fatalistas. Efectivamente, as palavras portuguesas , começadas por “al”entroncam geralmente em palavras árabes. Trata-se, afinal, do artigo semita, facto ocorrente em outras palavras como Alcaide, Alcongosta  e  outras ainda. Prova este facto a influência dos Árabes, na Cova da Beira. Entretanto, aquilo que para mim a torna sugestiva é, na verdade ´”o paraíso terrestre”e a presença ali de pessoas amigas, a quem me cingem, há muito já, vínculos estreitos que o tempo não rompe.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-7-1971  # Paraíso Terrestre”&lt;br /&gt; É uma casa recente, exposta e arejada, a 500 metros do povoado vizinho e rente ao comboio  oza de privilégoos, que raramente se encontram pelo menos em conjunto! Estância tranquila, emldurada ali de tenazes oliveiras, dá gosto viver lá ou passar alguns dias. Airosa e simples, na sua estrutura, a casa do “paraíso” exprime,  ao vivo, a alma dos moradores. Nem deixam as aves de entoar ali suas belas canções, alegrando o sítio, onde parece, facto,viver a paz e einar a ventura. &lt;br /&gt;Os inquilinos são poucos, mas acolhem gentilmente, ao gosto português. Na verdade, oferecem aos amigos o melhor que possuem. A propósito, não faltam, nesta época, as vagens tenrinhas, que é um gosto comer! A fazer coro, vêm também as favas grandes e ervilhas saborosas, não faltando em redor, para completar o belo quadro, imensa variedade de manjericos  e cravos, abundando, para mais  toda a espécie de flores&lt;br /&gt;É bom chamar ali, que surgem para logo, bondosos amigos, oferecendo seus préstimos. Permanecer algum tempo, nomeio do arvoredo, é enorme prazer, sendo com tristeza que de lá nos afastamos! Como seria grato viver tranquilamente, num lugar assim, aonde não chegasse o ruído molesto nem a confusão que indispões e aturde! Ainda há, neste mundo parcelas invejáveis! Mas o tempo é cruel, pois nos leva sempre o que mais prezamos!Por isso, vou-me embora, mas já me acompanha a ideia de voltar. &lt;br /&gt;É o Padre José Duarte a alma do “Paraíso!”&lt;br /&gt;Alcaria \\  28-7-1971&lt;br /&gt; Já me encontro distante. Cinquenta quilómetros ou coisa no género, tal é o espaço, que medeia, na verdade, entre a moura Alcaria e a vila de Manteigas. Não é muito, de acordo, mas parece-me bastante. Que haverá, no local, a prender-me assim, atraindo os meus olhos?! Três presenças apenas e uma bela paisagem! A velha mãe, com 83 anos, é relíquia preciosa dum passado longínquo. Apesar de viúva e um tanto gasta, acumula energia que me causa surpresa!. Habituada ao trabalho, só a morte, decerto a fará render.&lt;br /&gt; De muito longa data, viveu ela ocupada, numa linha de honradez, que é o orgulho da família. Enviuvou muito nova, o que lhe trouxe desgostos, barreiras e trabalhos. A sua coragem com tudo arrostou: venceu barreiras; transpôs obstáculos. Admiro e prezo esta mulher varonil, que viveu na minha aldeia, onde levou, aproximadamente, um quarto de século. Em 1937m iniciava eu já o meu 4º ano e, passando na Guarda, recebo a notícia: “ A tua aldeia vai ter novo pároco”. Quem é? - pergunto logo insofrido. “ É o senhor padre Duarte, natural de Alcaria”. Tinha eu 18 anos, a esse tempo recuado. Quem dera retornar!&lt;br /&gt;Mas não! É preferível seguir o caminho, que o Senhor traçou a cada um de nós! Caminhar sempre, animoso e confiado, evitando o que é mal e dando-me ao bem. É, pois, o  padre Duarte  a alma operante daquela estância. Sem ele, realmente, nada ali haveria. Assim reina consigo a bondade em pessoa, aliada ao bem-fazer! A terceira presença é da mana Maria. que sempre o ajudou e lhe fez companhia.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-7-1971   Rescaldo. Uma Reunião                      &lt;br /&gt; Iniciada às 9 horas, quer dizer, às 21, teve o seu termo, ao fim deste dia. Assuntos de importância foram debatidos, mas tenho para mim que o proveito foi nulo! A vidade ferida e o orgulho abatido servem-se de tudo, na mira de explicar o insucesso da vida., seja ainda a beliscar o nome de alguém ou até a insinuar processos condenáveis. que segundo o seu critério, estariam na base do enorme pesadelo!&lt;br /&gt;Uma reunião de todos os docentes devia ser, em verdade, um elo de união, para estreitar amizades sinceras, incrementando a bela harmonia. Jamais, por ser realizada, no fim do ano lectivo. Tal, porém, é que não sucedeu. Atribuir a outrem as causas dum fracasso, é desculpa, a meu ver, bastante pueril, de modo especial tratando-se de colegas! Não reconhecer o mérito alheio, posto bem a claro, por obras repetidas, já é censurável, mas dizer em alta voz que o êxito alheio foi a causa real da sua humilhação, coisa é que repudio e  contesto vivamente!&lt;br /&gt; Houve 10 reprovações na secção de Ciências e 2 em Letras. Eu, por ventura, é que tive  culpa dos factos ocorridos?! Trabalhei incansável, em colaboração e na base da lealdade. Os professores de Letras é que foram os culpados?! Houve três dispensas, na secção de Letras e nenhuma em Ciências. Causou espanto e má disposição?! Quem teve culpa?! Falta de nobreza e sentimentos plebeus é, de facto, o que eu vejo! &lt;br /&gt;Vide-Entre-Vinhas  \\  8-8-1971&lt;br /&gt; Vou deixar a minha aldeia, seguindo para Fátima. Tenho já pena e sinto dor, que estes ares são meus e porque tudo me fala uma linguagem assaz diferente. Compreendo as coisas na sua nudez; elas agem por igual, no tocante a mim. Aqui não sou estranho nem me julgo sozinho! Todos sabem, na verdade, o meu passado remoto, referindo-se a ele com funda emoção. E eu deliro, escutando, porque esse passado, embora já distante,, sou eu em pessoa, desentranhando o meu ser, que se afirma e impõe. &lt;br /&gt;Relatam coisas, sendo eu menino, em tempos decorridos que a memória impotente não pode abranger! Acenam-me de longe estas plantas carcomidas, à sombra das qiais eu folguei jubiloso, em dias de Verão. Falam de segredos estas fontes rumorosas, revivendo no peito sonhos lindos que gerei. Sorriem carinhosos estes muros denegridos, ao longo dos quais eu seguia diligente, para o’bicho’(jogo) predilecto ou  para furtar-me ao olhar materno&lt;br /&gt;Acendem-me o peito estes Largos familiares, onde tanto folguei, tranquilo e venturoso! Como vou deixar tanta coisa excelente, que assaz acarinho?! E a música dos ninhos, a labuta dos campos, o murmúrio das fontes, o sibilar do vento?! E a imponência dos montes, a sisudez dos fundos barrocais, o augusto das matas, o gorgolejar dos mansos ribeiros?! &lt;br /&gt;Aih tantas coisas a integrar o meu ser, pois com ele próprio todas se confundem! Igreja paroquial e humilde cemitério! O que vós me lembrais!&lt;br /&gt;Companheiros de outras eras, vinde agora ao meu encontro, par a trazerdes, sem demora, refrigério à minha alma!&lt;br /&gt;Nazaré  \\  10-8-1971&lt;br /&gt; Manhã divinal, se algo de facto me interessa a valer! Centro de turismo e assim de pesca, não passa indiferente, perante os nossos olhos. A falésia é soberba! Majestosa e horrífica, grava-se na retina para nunca se olvidar. O funicular, então, parece irreal! Subindo quase a pique, chegamos a ter pena de seu esforço hercúleo. Mas, enquanto isto nos empalma, a fundo, um olhar à recta- guarda, faz-nos arrepiar! Se descarrilasse?! Que seria de nós?! &lt;br /&gt;Tentámos esquecer, distraindo-nos um pouco, mas foi quase em vão! Aquilo é grandioso e deveras medonho! Calafrios, alvoroço, pavor e grande frémito é coisa de toda a  hora!  Quem ali nasce já á diferente! Integrou-se no meio, afez-se a ele e perdeu, a breve trecho ,a noção do perigo! Para o forasteiro, que lá não fora ainda, yudo se avoluma, fazendo-se espantoso! O mar, por um lado; o abismo, pelo outro!&lt;br /&gt;Lá no alto, porém, reina a paz e o bem-estar! Igreja e capela mostram desde logo, o fundo religioso desta gente cristã. a Senhora antiga que chamam ‘da Nazaré’ +e já tão velhinha, que remonta, por certo, às origens do País. A legenda é que o diz e vai mais além. Trazida de Espanha, noséculo8º, permaneceu oculta no alto rochedo, até ao século 12. &lt;br /&gt;Muito venerada a imagem da Senhora, amontoam, obre ela, o que há de mais rico: pulseiras magnificas; pendentes valiosos; cordões e colares; anéis e arrecadas. Aquela Senhora não pode esquecer-se!&lt;br /&gt;Manteigas     &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;    &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amadora  \\  1-1-1980&lt;br /&gt; Gralhos e gralhas enxameiam nas ruas, abrindo impiedosos seus bicos arranhantes. Nada vale a idade nem o mister nem a probidade! Bicam e ferem, arranham, picam, seja quem for. Insensatez, impudência, leviandade campeiam infrenes. É preciso ter bossa, para assim afrontarem, rindo e provocando quem passa na rua! Quem lhes deu permissão, a fim de lesarem a liberdade alheia?! Terão, por ventura, credenciais diabólicas, para tirar o sossego a quem deles se abeira?!&lt;br /&gt; Provocar, fazendo troça, mostrar claramente que o senso lhes falta, revelar descontrolo  e carência farta de honestidade é timbre de gralhos e de lãzudos. Sucedeu o caso, logo de manhã, na rua de S. José, ao largo da Anunciada. Aguardava eu que a porta se abrisse, para entrar na igreja. Nisto, dois magarefes quebram o silêncio, dizendo irreverentes: Ó careca!&lt;br /&gt; Nem podia convencer-me fosse aquilo para mim que respeito o próximo, seja ainda uma criança! Obtida a certeza, fixo logo um deles, com barba hirsuta, cabelo sujo e desgrenhado, virando-lhe a resposta: ó peludo! Entalado e surpreso, quase emudeceu, ante a rapidez da minha reacção. Sem papas na língua, dispara-lhe o outro:  Anda, , bem feita, que levaste o troco !&lt;br /&gt; Eu, então, fiquei-me sorrindo, no íntimo da alma, enquanto juntava: você é livre? Eu também o sou! . Estamos bem pagos. Siga o seu caminho, que eu sigo o meu &lt;br /&gt;Lisboa  \\  2-1  1980&lt;br /&gt; Falava-se muito no Vale do Jamor, onde estão concentradas gentes de Timor. Era meu desejo visitar pessoalmente os pobres refugiados e ver com meus olhos a triste situação daqueles infelizes. O ensejo favorável proporcionou-se em breve, levando-me assim a conclusões. Se bem comparo a sorte deles com a minha e de outros, que saímos de Angola, por fins de Agosto de 1975, não tem paralelo, sob aspecto nenhum. &lt;br /&gt; Na zona do Catuitu, só a três quilómetros da extensa fronteira com a Namíbia, vivíamos em pleno abandono e extrema penúria. Nem balneários havia nem habitações. O céu nos cobria, espinheiras agressivas torturavam –nos o corpo. Além disso, havia decerto perigo iminente de ermos atacados ou virem as feras destroçar –nos  ali. &lt;br /&gt; Desde a negra fome, calores e poeiras, à dura enfermidade, física e moral, tudo experimentámos. Se não fosse realmente a África do Sul, o nosso destino seria bem trágico. Mas, enfim, Deus-Providência moveu os corações, para não sucumbirmos, â falta de alimento! No Vale do Jamor, estão bem melhor! Apesar de tudo, basta na verdade, o sofrimento moral, a incerteza do futuro, a funda apreensão de todas as horas, para a vida ser dura! &lt;br /&gt; Como viva expressão de tais sentimentos, aparece-nos ali certa mãe angustiada, com tosse ininterrupta. De crianças à volta, fala-nos triste, mostrando nos olhos o sinal da agonia. Doze criancinhas! Uma das miúdas encostava-se a ela, a fim de aquecer. Mal enroupada,  tremia, contorcendo-se. A mais pequenita, de chupeta na boca, tinha olhos fundos, como a dizerem que faltava o necessário, para alimentar-se! &lt;br /&gt; Chorei de compaixão, vindo-me o desejo de ser milionário, para ajudar aquela pobre gente. As minhas primas, Aurora e Céu deixaram dinheiro  e peças  de roupa.  Regressei amarfanhado, harto deprimido! É que eu, realmente, não podia ajudar!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  3-1- 1980&lt;br /&gt; Dia favorável às minhas pretensões! Ontem, 2 de Janeiro, o caso premente da minha habitação; hoje, trabalho e receita! Embora os proventos sejam limitados, foi maravilhoso! Chegar a Lisboa, em tempo de carestia, sem trabalho nem quarto. é aflitivo! Deus, porém, encarregou-se logo de abrir caminho., pois Ele é bom e vela por nós! Graças infindas lhe sejam tributadas, pelo bem precioso que me foi proporcionado,  sendo  eu  pecador e tão negligente  em  louvar e agradecer!&lt;br /&gt; Pois bem! Ao fim de 15 dias ou melhor, 18, achei um ponto em que vou firmar-me: partilho a morada com João Afonso, professor efectivo do Passos Manuel. É um bom amigo, generoso e prestável. Deus  lhe  pague  bem  e o encha  de bênçãos.  No terceiro andar, 196, rua Silva Carvalho, viveremos  juntos, por dois ou três meses . Em Março ou Abril, transfiro-me então para o lugar de Alcântara, ficando a morar com padre Alfredo, não longe do templo&lt;br /&gt; Entrega-me, ao que julgo,  o encargo das Flamengas,, ajudando na igreja, sempre que possa. Além disso, quando mo rogarem, darei explicações nas línguas habituais, Português, Francês, Inglês, podendo associar Alemão e Latim. Desta maneira, obterei o necessário para subsistir.  São estes os planos dos meses que seguem, restando-me apenas achar emprego para a minha família, retornada de Angola. Quando este sonho for realizado, ficarei satisfeito, nada mais desejando, O Céu me favoreça!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  4-1-198º&lt;br /&gt; Sete anos  depois…  Era lá em frente, no Campo Grande, 99 – 1º. No mês de Janeiro de 1973, fui ali despedir-me, Seria para sempre! Quem tal diria?! O que fora, noutros tempos amoroso e jovem e dava em 73 por Senhor Saraiva, sócio efectivo de “Mendes e Saraiva”, com automóveis para alugar, na Avenida Paris, já não pertencia ao número dos vivos. &lt;br /&gt; Esta manhã, tirei-me de  cuidados , a fim de lembrar o passado recente . Com este objectivo, encaminhei-me  breve ao Campo Grande.  Ia saudoso, alheado , pensativo! Já não veria um rosto sorridente e uns braços amigos, a estender-se para mim! Apagara-se nas órbitas o brilho de seus olhos; emudecera na garganta a sua voz carinhosa; diluíra-se nas faces a cor de magia, que a todos chamava; velaram-se os lábios que se inundavam de riso; paralisara a morte seus braços de carícia. Era isto que eu vivia, na romagem que fiz.&lt;br /&gt; Perdi mais um amigo, para juntar à lista negra dos que haviam partido. Subidas que foram as primeiras escadas, avisto a porta, um nadinha aberta, Ouço bater, desprendendo caliça e vejo no chão objectos de caiador. Muito a custo, penetro ansioso, esquadrinhando o vasto interior. e tentando encontrar objectos conhecidos . Tudo foi em vão! Nada restava do que fora morada de Francisco Saraiva.  Quadras vazias! Silêncio tumular em ordem ao passado!&lt;br /&gt;Utensílios diversos falam de reforma, alindamento, progresso em marcha! Prostrado e mudo, vou até ao final, de coração oprimido. Olhando furtivamente, ia-me esgueirando, não viessem as lágrimas irrigar-me as faces! Logo em seguida, tomei a resolução: fugir pressuroso dum lugar horrorizante!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  5-1-1980&lt;br /&gt; Amanhã, perfazem-se dois meses, que saí do Cavango, no Sudoeste Africano. Melhor diria: que deixei o Liceu, onde era professor. Ainda esperam por mim. Entretanto, resolvi não voltar. De 1946 até 80 vão a rigor, 34 anos, no decurso dos quais ministrei o ensino a milhares de jovens. Tenho para mim que já foi bastante, se tomo em conta o grau d e nervosismo do pós-revolução, em terra angolana.&lt;br /&gt; Optarei, no futuro, por lições  particulares.  Somente a penúria fará que eu altere os planos de vida. A partir de Janeiro,  tudo mudou!  Efectivamente, a África do Sul já me não paga.  Vida nova agora, em outro sector! Adaptar-me-ei? É o que resta saber! Irei tentar. Não conseguindo, volto às aulas, de novo. Ficou resolvido começar no dia 8, que é já terça-feira.  &lt;br /&gt; Espera-me assim a Capelania, lá para Alcântara. Apesar de tudo, já hoje me desloco, pelas 5 horas, uma vez que os meus préstimos foram solicitados . Ajudar quem precisa, ora por doença, ora por outra causa, está no meu sangue. Às 21 horas, há serão cultural na igreja de S. José, no Largo da Anunciada, Embora convidado, não posso tomar parte, mercê de trabalho que me foi pedido, na paróquia de Alcântara.  &lt;br /&gt; Segunda- feira, já faz três semanas, que cheguei a Lisboa, num avião gigante da SA.A. L procedente que foi de Joanesburgo. Vai já bastando para descanso e adaptação! Interessa, pois, iniciar a tarefa, que me espera na vida.  Por Deus do Céu, será levada a cabo. Urge também que retire cuidados  à família  gentil que me deu hospedagem.&lt;br /&gt;Estou grato à prima Aurora e a todos os seus, pela amabilidade, lhaneza e afecto que sempre mostraram. Deus lhes pague bem com favores celestes! Também não esqueço. o amigo Areias e familiares, de Joanesburgo, pela  sua gentileza.&lt;br /&gt;Lisboa  \\  19-1-\980   Cenários de Lisboa &lt;br /&gt; A pós Abril de 1974, pintam-se os muros e carregam-se até as mesmas paredes com palavras  e frases, alusões e desenhos, que me deixam perplexo e algo indisposto. Não quero falar nem ouso fazê-lo, de termos incorrectos e certas vilanias , que dizem bastante, sobre educação. Quem isto lançou não merece a liberdade.  Esta, de facto, é coisa sagrada, que respeita os outros, não ferindo jamais ideias ou crenças!&lt;br /&gt; Deixando àparte o lado vergonhoso, escurril e vilão de certos dizeres, que só a  baixa ralé pode esvurmar, atenhamo-nos agora àquilo que não desonra  nem envilece a campanha eleitoral Com radio prestável, televisão, jornais e revistas, folhas e brochuras haverá razão bastante, para manchar as nossas paredes, mostrando um aspecto que desola a alma?! Por que não cingir-se a meros cartazes, como pode ver-se, em países estrangeiros?!        &lt;br /&gt; Estes, por sua vez, nem devem ser colados! É de notar como ficam deveras imundas paredes de edifícios e vários cercados! Faz imensa pena que haja destas coisas, na formosa Lisboa. Usam-se tintas  que  é duro apagar, a fim de exprimirem intenções e desejos. Quando terá fim este baixo processo?! Quando acabará esta enorme vergonha, processo abjecto e nada construtivo?!&lt;br /&gt; Escrever nas paredes, seja embora doutrna, que se admite  e  aprova,  não  é  do  bom tom. Que farão as crianças, vendo isto assim, por todo o lugar?! Recordo, a propósito, o que vi, na Suíça, em matéria similar. Era o ano do Senhor, 1960. Encontrando-me ali , acompanhado, então, de um bom  amigo, tive largo ensejo de observar pessoalmente o alto civismo daquele povo admirável.&lt;br /&gt; Nem uma palavra escrita nas paredes! Limpeza modelar, em toda a parte! As próprias sentinas  constituem exemplo, que devemos imitar! Higiene do lugar e respeito ao próximo!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  20-1-1980  Cuspidores&lt;br /&gt; Por esta Lisboa, o mal vem de longe. Não foi conquista do 25 de Abril! Já antes disso, eu via constrangido, ruas e passeios cobertos de escarros. Sentia-me afrontado, às vezes receoso e sempre enjoado!  Que pena! Tão linda cidade, conspurcada e ensebada por matérias asquerosas! Quem serão os culpados?! Ignoro a resposta, mas estou em crer que sejam de fora os tristes autores de tal ousadia! Nem todos? Sim, provavelmente.&lt;br /&gt;O certo, porém, é que as ruas de Lisboa se encontram manchadas por tal imundície! Vem de toda a parte: janelas e portas, bermas e passeios, estradas e praças, jardins e assentos! Grandes e pequenos, velhos e novos, pretos e brancos julgam-se fadados para ultrajar a nossa capital, tornando-a asquerosa! Seres nacionais e mais estrangeiros perdem alento, para voltar!  &lt;br /&gt; É lastimoso que o nosso turismo, fonte inesgotável  de belas divisas, se veja diminuído e tome outros rumos. Malditos  cuspidores  a quem falta bom senso, idoneidade e até vergonha! Por que será que extravasam tantos?! Que razão os constrange a ser javardos? Por que hão-de fazer o que é reprovável em gente limpa?! Por que deitam fora o que tanto precisam?! Refiro-me à saliva, que é segregada, conforme a necessidade.&lt;br /&gt; Quanto a escarros, o facto é horrendo! Para que servem os lenços?!  Por demais é sabido quanto o facto horroriza e até amedronta! Fracos de pulmões, ou bastante afectados, lançam no ar o bacilo maléfico! Que vai suceder?! Crianças e velhinhos, doentes e anémicos, contraem, por força, a horrenda tuberculose! Há direito que o permita?!&lt;br /&gt; Acabemos, desde já com tais cuspidores que, sujos e ignóbeis, se arrogam direitos que a ninguém assistem! Abaixo  os cuspidores  e mais as cuspideiras!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  22-1- 1980   Ainda a Linguagem&lt;br /&gt; Não se trata de pronúncia ou de aspectos curiosos que o idioma apresente. É bem outro,  afinal,  o assunto em questão. Produto, já se vê, de má criação, não posso furtar-me à sua influência nem deixar o caso no rol dos esquecidos. Causa-me espanto e gera calafrios, o instinto  soez e forte  ousadia , que alguns manifestam. &lt;br /&gt;Sem  motivo  nenhum  nem discernimento  com enorme carência, já de humanidade, já de compreensão,  esquecendo  inteiramente os problemas dos outros , para mergulharem no feroz egoísmo, esvurmam do peito, onde ferve a iniquidade e flameja o ódio, vagas sucessivas de  impropérios  e injúrias. Nem a condição ou ainda a gentileza de que outrem dê prova!&lt;br /&gt;Encarnando em seu espírito o génio de Satã,  jamais  irradiam um sorriso de bondade.  Nunca    de  seus lábios  se desprende um termo que encerre ternura, meiguice, indulgência.&lt;br /&gt; Faz muita pena que a nossa capital, cidade tão linda, que outras não igualam, enxameie de víboras e feros lacraus! Não hão-de faltar, aqui por Lisboa, corações generosos  e  almas  formosas.Tenho  a certeza  de que  elas  existem , entretanto, operando no silêncio apenas por Deus, de quem esperam alto galardão, não se fazem notar! O Senhor nos valha e crie para breve uma nova sociedade, que não nos envergonhe nem traumatize aqueles que a formam!&lt;br /&gt; Onde a liberdade para aqueles infelizes que são desfeiteados, sem darem causa para tais atropelos?! Ficam humilhados, perante as gentes , que aprovam talvez o silêncio prudente! Objectos de irrisão, passam confundidos , entre as multidões, corando talvez de serem portugueses! Não há providência que ponha logo cobro a estes desmandos?!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  23-1-1980&lt;br /&gt; As pessoas de bem não viajam tranquílas.  Temendo e receando, olham de leve, não haja motivo, mesmo infundado, que origine vilezas.  Apesar de tudo, como enxameiam seres desumanos, nem a cautela serve de anteparo à vil ousadia. São gaiatos e jovens ou então já maduros, que vomitam da boca excrescências e dislates. Nada os contém: nem o sagrado nem a velhice ou respeitabilidade . &lt;br /&gt;Autênticos selvagens, interpretam a seu modo a santa liberdade. Só existe para eles: a outrem é vedada! Bela democracia de trazer por casa e tudo permitir a quem falta bom senso e a mínima  vergonha!  Não há muito ainda, preparava-me já para sair do eléctrico., julgando erradamente que só havia uma paragem, até ao final.Tenho falta de prática. só com longo tempo se tornam familiares , problemas destes. &lt;br /&gt;Aconteceu, pois, que o veículo parou, onde eu não esperava. Sendo isto assim, cosi-me estreitamente com o resguardo lateral, para facultar a saída a outrem.  Poderia acaso fazer algo mais, no caso presente?! O que estava ao meu alcance procurei realizá-lo, sentindo-me acanhado e até confundido, ao olhar o corredor, para meu governo.&lt;br /&gt; Julgará o leitor que me deixaram tranquí-lo uns olhos de fogo e lábios trementes?! Bem ao contrário! Mal se apeava um destes figurões, já entrado nos anos, mas ainda sadio olha de soslaio, encrespando a pele e esvurmando ira,: “ Estava para sair e põe –se ali, armado em parvo!”&lt;br /&gt; Ouvi consternado e guardei silêncio! Nem podia ripostar, alegando razões, porque ele se esgueirou, furtando-se à vista. &lt;br /&gt;Lisboa  \\  25-1-1980&lt;br /&gt; Para meu regalo e, às vezes, tormento fui dotado pelo Céu de excelente pituitária.: regalo, sim, quando sinto prazer em odores cativantes; tormento, ao invés, quando na verdade se depara o contrário. Jà no século transacto dizia Herculano, referindo-se ao facto, que o cheiro em causa é próprio de cada um, Vai até mais longe, atrevendo-se a dizer que também as nações o têm próprio.  Ele que o disse razões não faltavam, o que me leva a crê-lo!&lt;br /&gt; Embora um século haja passado, ando a tombos com o mesmo problema, ousando afirmar que, em nossos dias, o caso é mais grave. O progresso da Química, gosto requintado e  a mil exigências que todos conhecem  dão a este assunto um campo vastíssimo. &lt;br /&gt; Bom. Quem dispõe de nariz e bela pituitária, deve logo encher-se de muita paciência, já que o mau cheiro sobreleva ao bom. Sinto-me confuso e bastante perplexo, ao versar a matéria, Como vou explicitar e pôr bem a nu uma questão do género?! Eles são tantos os cheiros malditos, que tornam deletério o ar que respiramos. Se não é ver!&lt;br /&gt;Provêm do cabelo, que os nossos lãzudos persistem e teimam em manter como donas; anicha-se também no pêlo comprido, que ensombra o rosto e o torna simiesco; gera-se ainda na pele ensebada, que os sovacos e os pés não deixam ocultar; alimenta-se nos fundos, onde medra e se expande, com angústia de tantos, que lhe recebem prestes os eflúvios maléficos; nutre-se de urinas, que atrevidos e javardos lançam nos passeios e junto de muros. &lt;br /&gt;Que mais direi eu?! Um ror de casos me tolhe a pena, fazendo-a hesitar. Opor a estes o cheiro agradável, que se exala do perfume e vem das flores? Seria o contra-senso  ou  melhor quiçá o antídoto próprio.  Entretanto, não consigo debelar a imundície tremenda, que anda encapotada  Sucede não raro virem os cheiros todos, ao mesmo tempo, emanados, já se vê, de uma única fonte.  Percebo-os eu, bem claramente, ao ser vítima deles! Pobre do meu ser!&lt;br /&gt; O cheiro indesejável sobrepõe-se ao outro, diluindo seu efeito ou fazendo suprimi-lo, quase inteiramente! &lt;br /&gt;Lisboa  \\  26-1-1980  Mais um Cheirinho&lt;br /&gt; Associado a tantos, surgiu-me de improviso, na Rua dos Lusíadas, freguesia de Alcântara. Foi uma surpresa, harto desagradável! Faria, na verdade, esvair-se o apetite, a certas horas! Avistam-se os bichos em grupos reduzidos. ao longo das ruas, já com perícia e tento consumado. No trilho dos passeios, o caso é frequente! Passam alegres e até descontraídos esses cãezinhos que, ora de trela, ora em liberdade, gozam em delícia o 25 de Abril!&lt;br /&gt;Não lhes tenho inveja nem proponho mudança, Há, porém, um aspecto que me permito indicar e merece reparos. Respeita aos donos, que não  aos cães! Antes, porém, refiro um caso que se passou em Alcântara. Indo açodado, levanto os olhos, para ver à distância, atendendo ao tráfego. Nisto, depara-se não longe, o quadro aludido, ue me faz arrepiar, ainda agora: um cãozinho de média estatura espremia-se arqueado, tentando assim aliviar  o corpinho.&lt;br /&gt;Ao lado dele, segurando a trela, achava-se o dono, que fixava prazenteiro , indulgente e benévolo o bicho em apuros.  Nessa altura, avultavam no solo torcidas variadas, ostentando , algumas delas cores duvidosas, Pelo ar, em volta, algo subtil como fumo ténue! Claro! Emanações deletérias não fazem esperar-se! Os peões que aguentem! Ningué os chama! Ora, aqui temos, precisamente, o fulcro da quer tão!&lt;br /&gt;Não é agradável o aspecto da rua, amassada em fezes, que os bichos depositam.  Como resolver?! Não me cabe a mim dar a solução, mas a quem de direito! Lembra-me, a propósito, o que li algures, sobre caso idêntico, nos Estados Unidos. Foi ali decretado que o próprio dono fizesse a limpeza.  Para tanto, fazia-se acompanhar  do  necessário: vassoura e pá, e um saco plástico. Será, possivelmente, algo maçador, ingrato e pesado, mas quem há-de fazê-lo?! Não diz o ditado: Quem se obriga a amar, obriga-se a padecer?! Não indo por aqui,  só temos, de facto, os pacientes varredores, como ainda também os encarregados da nossa limpeza, mas estou em crer que n~ao fazem bom rosto a semelhante função! A única saída é, ao que vemos, a que deixo exposta.&lt;br /&gt;Gostam do cãozinho? Ninguém reprova isso, mas é preciso limpar o que ele rejeita! &lt;br /&gt;Lisboa  \\  27-1-1980 .&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38 D CONT.&lt;br /&gt;Lisboa  \\  14-8-1971&lt;br /&gt; Comemora-se hoje a famosa batalha, em que o povo castelhano se mostrou, à evidência, incansável corredor. Alguns  combatentes  fizeram prova farta de tanta perícia, que salvaram a vida, ultrajando, de longe, os mortos que ficavam. O mesmo Ayala  por aqui ficou, meditando na prisão, sobre os feitos negativos de seus irmãos de raça, que tencionava exaltar, na Crónica de Espanha.  Saíram-lhe as contas bastante furadas, o que sucede a muito boa gente.  Isto e o mais provam claramente que a Pátria portuguesa é inassimilável. As pátrias, afinal, são como a gente: retalhá-las alguém não é permitido nem fácil de obter!&lt;br /&gt;Deixemos, pois, falar Aljubarrota, com grande eloquência, para dizer aos novos como era, de facto, pundonorosa a gente dessa época. Que essa voz ecoe forte, para conservarmos uno o sagrado  Património  que  nossos pais nos legaram. “Integração ou morte” isso jamais! Unidade  de vistas, bom entendimento, como entre irmãos, seria maravilhoso!  &lt;br /&gt;Desaparecimento com absorção isso é que nunca! Associação e trabalho em comum – excelente coisa! Que a lição aproveite, não certamente para criar ódios ou ainda avivar animosidades.  Seja ela um clarim se radiosa alvorada que fale de amor e compreensão, mas nunca, em tempo algum, de morte real ou integração! &lt;br /&gt;Lisboa  \\  15-8-1971&lt;br /&gt; Hoje é um dia singular, por tristes recordações que me traz ao de cima! Faz 5 anos que tive um desastre, em solo francês. Seguia descontraído, pela estrada de Bordeaux, não longe de Dax. Circulando a 80, conversava animado com o Antoninho, que é meu afilhado.À nossa frente,  deslizava  uma carrinha, com grande atrelado. Havia muito já que eu a seguia, não querendo ultrapassá-la. Foi o mal que eu fiz. Inesperadamente, ela estanca na via, sem aviso prévio. Fico desvairado! Travo logo a fundo, abeiro-me  demais,  tendo a impressão de que o espaço era pouco. Antevendo colisão, decido ultrapassar, não obstante a viatura que vinha contra mim! Tentava a sorte! Embora a via não fosse muito larga, passaríamos todos!&lt;br /&gt;Assim julguei então. O lado pior é que eu não previ! Descontrolou-se o carro e, por mais que lutasse, guinou-me para a esquerda. Olho em frente e que vejo eu! Gigantesco pinheiro que me traz uma certeza: esmagar-me contra ele! Entretanto, não ia suceder, pois o carro da frente, em sentido contrário, apanhou-me de flanco, afrouxando assim a marcha do meu e evitando o pior! Gastei, nessa altura 15000$00. Mas gastem-se os anéis e poupem-se os de dos!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  16-8-1971&lt;br /&gt; Ir à outra banda, levado em barco, é já obrigatório, quando venho â capital. Habituei-me há tempos e não posso resistir! É dulcificante, nos ardores do estio, o fresquinho da água!  Deliro e prendo-me, ao ver as gaivotas, pairando sobre o ri. que ali é quase mar. Olho-as en tão, demoradamente, fazendo acrobacias , enquanto vêm desejos  se possuir uma visão igual à das aves. A maior animação ocorre sem dúvida, no Terreiro do Paço, ao atravessar a bela marginal Centenas de pessoas aguardam inquietas, esperando  ansiosas  que a polícia de trânsito sinalize a permissão. &lt;br /&gt;Ele bem se esmera, gesticulando amiúde, contudo mal se precata, a onda prossegue, envolvendo os veículos, que obrigam a parar. Motoristas impacientes, rogam ali mesmo, pragas aos turistas, enquanto  estes, alegres, cantam em seguida, a marcha da vitória. De momento, ei-los, num pronto, galgando o Terreiro, para sarem entrada no cais de embarque. &lt;br /&gt;Caminham desordenados, sempre aos tropeções e às cotoveladas, mostrando nas maneiras o inferior grau da civilização. Escarram onde apraz, cospem amiúde e não pedem licença. Qual orda  de bárbaros , entram em Cacilhas, matando logo ‘bicho’ no Café-Restaurante.  Lá os deixo, a agitar-se, enquanto  jubilosos  narram  façanhas que seus apaniguados ouvem sempre atentos .  Entrementes, as brancas gaivotas não cessam ali de fazer espionagem, olhando atentamente a superfície das águas.&lt;br /&gt;Lisboa  \\  17-8-1971&lt;br /&gt; Como em tempos de criança, vou agora correr mundo e dar-me, por algum tempo, ao gosto da aventura. Traçado o plano, meto ombros a ele. Prometido é devido! Cumprir apenas o que prometemos às outras pessoas?  Por que não cumprir, de modo igual, o que prometemos à nossa pessoa? É prova de bom gosto e depõe a favor! Aí vou eu, através da cidade! Andar, andar, subindo e descendo, uma vez por outra, cortando à esquerda, para logo em seguida, voltar à direita!&lt;br /&gt;Arranco da baixa e vou de caminho à igreja de S. José, no Largo da Anunciada. Cumprido gostosamente um dever matinal, volto logo em breve ao ponto de partida, fazendo então caras ao Terreiro do Paço, aonde me encaminho. Uma v ez aqui, rumo à esquerda, tendo por alvo a Santa Apolónia, que  não chego a tocar. Ao Terreiro do Tabaco, sondo  o arredor,  pois é ali que trabalha o Carlos.  Não descubro, mas deve estar perto!&lt;br /&gt;Subo, depois, a Santa Engrácia, explorando, curioso, esta zona citadina, para mim desconhecida! Como as pernas fatigadas se vão doendo já, descanso um pouco, ao velho Mosteiro de S, Vicente, mas não posso esperar muito, que a jornada é longa. Enfio então pela antiga rua de S.Vicente, contorno depois a linha do eléctrico e eis-me agora na Almirante Reis.&lt;br /&gt;Encorajo-me um pouco e subo ao Areeiro,  que me encara de longe, prazenteiro e inchado.  Desvio-me em seguida, para outra artéria, a de Paris e desemboco noutra, que chamam Roma, seguindo de pois, até à da igreja. Agora, corto à direita, recuando em seguida, até à Praça do Chile. Não podia mais! Percorridos, se m dúvida, uns 17 quilómetros, tomo pois, o eléctrico, para me levar à Praça dos Correeiros, onde fica a Pensão.&lt;br /&gt;Lisboa  \\  18-8-\971&lt;br /&gt; Forasteiro insatisfeito, cruzo-me na rua com milhares de peões! São vultos humanos, de alma e coração, mas nada me dizem nem eu igualmente,  em  relação a eles. Bem podia ser de outra maneira! Os nossos destinos são tão divergentes! Que me interessam eles?! Nem os conheço! Que lhes interesso eu, unidade entre tantas, desconhecido ainda no imenso tablado ?!. No entanto, somos todos portugueses, todos filhos e irmãos, ‘na casa lusitana’. Santos da porta não fazem milagres! Proximidade e contacto desvalorizam as coisas, por mais que o neguemos! O terra-a-terra  gera a ideia de posse, em que a nossa fantasia já gosta de actuar. &lt;br /&gt; Ao invés da distância, que doura e melhora, aquela é prosaica, assaz desengraçada  e bastante fria! É enorme, sim, o poder da fantasia, levando, por vezes, a enormes desatinos!  Aquilo que se possui não desperta a gente; o que se domina perde logo o brilho! Aquilo que se abeira afasta-se prestes! É lei geral da psicologia , que não sofre excepções! Por isso. caminhamos na rua indiferentes , se não apáticos, a nada ligando! Se houvesse interesse! Mas se ele não existe! Ora, onde ele não reina, por meio de aspirações, viceja a indiferença e cresce a apatia! Assim acontece, nas ruas da capital.&lt;br /&gt; No meio de tudo isto, os que vão acompanhados aparentam bem-estar; aqueles, porém, que vagueiam sozinhos , por infelizes, lamento-os eu que  avalio o seu desgosto!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  19-8-1971&lt;br /&gt; Lisboa, afinal, faz-me já tédio! É forçoso deixa-la! Dez dias somente  e já não aguento! Sempre o mesmo e sempre igual! A fêmea delambida à procura do macho; escarros por toda a parte; aceleração; encontrões a montes! Acham-lhe graça? Quem gostar que lhe preste! Pernas que horrorizam; o nu excessivo, por todo o lugar, e o descaro também! Para onde fugiu a antiga vergonha?! Será de crer que já não existe?! E se ela existe, aonde foi morar?!&lt;br /&gt;Mulheres horrorosas, de calções, à homem, julgando néscias haver chegado já, o alegre Carnaval!  Anomalias harto reparáveis? Isso que importa?! O que interessa, além de tudo, é exibir o vulto em pleno! Ancas desconformes; pernas minguadas, ao jeito de varetas; nádegas a apontar! Ao que a moda obriga e a vaidade aprova! Que nojo tudo isto e que grande javardice! Quando virá o siso, para assentar arraiais , neste mundo tresloucado, que de si o afugenta?!  Faltará muito ainda, para chegar o tal dia, em que já não coremos de vergonha e pudor ?! &lt;br /&gt;Enjoa-me  tudo! O que vejo é músculo, de espírito ausente e já sem primado! Insensatez e loucura, desvergonha e ousadia, atrevimento grosseiro, a rasar com a luxúria! Para onde caminhamos, sem bússola na mão?! Que mundo este, desvairado, sem norte por guia! &lt;br /&gt;Vide-Entre-Vinas  \\  24-8-1071&lt;br /&gt; De quantas lembranças não vem recheado o dia 24! S. Bartolomeu, Apóstolo de Cristo; dia de feira, na vila de Trancoso!  Associado  a ela um mundo de sonho, que não pode morrer! Era  nesses  tempos, que lá vão há muito e não podem voltar! Meu pai não faltava! Tivesse dinheiro ou visse-o de longe, era certo na vila e presente no mercado!&lt;br /&gt;Éguas e bois, vitelas e bezerros  faziam-lhe dar voltas ao miolo esquentado. Quando lá não fosse, no dia 21 ou então22, não podia escapar, no dia 24. Era matemático! Fazer tudo a pé e dormir no caminho, geralmente em Fiães nada importava! No entanto, de Vide a Trancoso,  hão-de ser  provavelmente uns 20  quilómetros. Mas que vale a distância, com alma enamorada?!&lt;br /&gt;Era eu pequeno: meu irmão ainda mais Como ele nos lembrava, esperávamos ansiosos o seu regresso, já pela noite. A casa do Carvalhal, com seu átrio exterior, era o posto habitual da nossa observação. Corríamos a estrada e o caminho pedregoso, julgando em cada pedra ver deleitados sua linda figura! Um veículo distante, brilhando pela noite, poderia trazê-lo, para vir mais depressa. Horas bem longas, já intermináveis, mas cheias de encanto e ansiedade!&lt;br /&gt; Que traria consigo? Uma potra formosa? Uma vitela, assaz bonitinha?! Pelo menos, o que t raria decerto, eram belas uvas, para deleitar-nos. Assim era  este pai, que a morte  levou, arrebatando-o prestes aos braços dos filhos, que tanto lhe queriam!  &lt;br /&gt;Vide –Entre- Vinhas \\   26-8-1971&lt;br /&gt; A igreja de Vide é já uma ruína! Quem a viu outrora e hoje a fixa não pode certamente esquivar-se à dor! Lugar sagrado e harto respeitável, onde todos aprendemos a amar O Senhor bem como ao próximo; donde haurimos  sequiosos  os princípios mais santos, vemo-lo agora  já esquecido,  quase abandalhado e em desalinho!&lt;br /&gt;Bem sei eu já que  projectam  novo templo , em que  o Senhor seja honrado , o qual possivelmente é de linhas harmoniosas, finas e modernas! Apesar de tudo, quem ali viveu  com  os entes falecidos as horas mais ditosas da sua existência,  não poderá jamais perdoar o arrojo  de a ver substituída. Ainda que seja para melhor estado, como tenho a certeza, afigura-se  logo  uma profanação! &lt;br /&gt;Aonde irei buscar o gradeamento do coro, já carcomido e um tanto descorado?!  Venha embora outro de ouro ou de prata, qual aí haverá  que possa , na verdade, ocupar-lhe o lugar?! Que metal, por mais válido, faz surgir na memória os tempos ditosos que não voltam mais?! Na grade velhinha pendurava-me, em criança. tendo  à retaguarda o vulto amoroso de meu querido pai. Que dizer da coxia , em que eu alinhava com  outros meninos, para cantarmos, em dias de festa?!&lt;br /&gt;E que pensar da obscura sacristia, donde o velho Cabral nos lançava impiedoso?! Os santos dos altares, na fria mudez e grave compostura, figurando ali pessoas sisudas, que infundiam medo às pobres crianças?! O sacrário humilde, o adro e seu muro?! Tantas recordações! Não quero olvidar a magia do presépio, com motivos diversos e sedutores, em honra e louvor do Menino-Deus, que sorria para nós! &lt;br /&gt;Aquelas moradias, feitas de papelão, apresentavam janelas que  fixava, curioso, esperando  que alguém  ali assomasse. Durante o dia, entrava na igreja, para observar, à minha vontade, o caso das janelas e da mulher biforcada na bicicleta. Contava surpreendê-la, usando-a no templo, em correrias, quando evacuado.&lt;br /&gt;Vide-Entre-Vinhas  \\  28-8-1971&lt;br /&gt; Dia grande para mim! Passa exactamente o aniversário da morte. Refiro-me, claro está, ao famoso Agostinho, Bispo de Hipona, conhecido vulgarmente por Santo Agostinho. Desde os tempos da Guarda, a cursar Filosofia, nunca mais o esqueci. No curso de Teologia, mais e mais se vincou a minha admiração e profunda estima ao famoso luminar que assombrou o mundo.&lt;br /&gt; Apaixonou-me o seu génio, encantou-me a doutrina, deslumbrou-me o seu exemplo. É, com certeza, uma estrela brilhante, um chamariz sedutor, um apoio resistente sobre o qual descanso, cheio de alegria. Nenhum outro santo me cativa de igual modo. Por isso, exactamente, o elegi, entre todos, não só como padrinho, se não também como advogado no Céu A sua bela mensagem tem luz meridiana: só fechando os olhos é que se desama ou não se preza&lt;br /&gt;É um santo admirável que serve de norma, pois foi pecador e amou depois a Deus, com grande paixão. O seu exemplo arrasta, e a prova de tudo isto reside nas conversões que os seus livros operaram. As Confissões, a Cidade de Deus, o T ratado sublime da Santíssima Trindade cá ficaram para sempre, atestando às gerações o que pode o intelecto e um belo coração, quando postos ao ser viço de uma causa sagrada.&lt;br /&gt;Conto, s em dúvida, com a sua protecção, o que me dá segurança e atenua o sofrimento. Após as tempestades e baixos enredos que a vida tece, é grato acolhermo-nos ao seio do Pai. Na bela companhia de seus Anjos e Santos, gozaremos face a face daquele Bem total, que não , podem roubar –nos.&lt;br /&gt;Vide  \\  29-8-1971&lt;br /&gt; É Domingo. Veste-se melhor, que é preciso ir à igreja, para louvar o Senor! Além disso, as mocinhas e os rapazes tentam insinuar-se, com vista ao novo lar. A Missa de preceito ocorre ao meio  dia, mas há pouca afluência. Galisteu já cumpriu, que a teve na capela. Por outro lado, a nossa juventude saiu para a Guarda, onde se realiza o projectado encontro de 11 freguesias, pertencentes à diocese. É como tirar a alma a um corpo animado! As ruas são pacatas: se não fora, pois, o vozear das crianças, e adolescentes, horrível pasmaceira cairia sobre Vide. &lt;br /&gt; Os mais idosos sentados pelas sombras, vão contando sisudos os casos do dia e trocando impressões que incidem, no geral, sobre o ano agrícola. Lamentações e desânimos, alvoroço e angústia! Entretanto, jamais o desespero! No seu coração, nunca tem lugar!. A conversa, por fim, termina geralmente, com estas palavras: seja o que Deus quiser! Nosso Senhor já governa casa, há muitos séculos. Só o tempo é que anda, afinal, à vontade de Deus! Ainda temos mais daquilo que merecemos!&lt;br /&gt;  É edificante a fé desta gente que, na adversidade, jamais perde o norte nem rejeita os princípios que devem informar a vida e as obras. Para afogarem magos, encaminham-se à taberna, onde esquecem um pouco a dureza da vida. Se ficam algum tempo, jogam as cartas,, o que lhes permite levar a tarde em cheio, por modo agradável. As mulheres, segundo velhos hábitos, acocoram-se às vezes em frete das casas, passando em revista os casos notáveis da velha aldeia. &lt;br /&gt;Vide-Entre-Vinhas  \\  1-9-1971&lt;br /&gt; Vou deixar a minha terra. Pensamento acabrunhante, sentimento doloroso, ideia lutuosa! Estou preso a ela: noto visivelmente que agonizo e desfaleço, mas não sei resistir-lhe. Ela é bem minha, muito mais que o dinheiro, mais ainda que a amizade, pois e stá dentro de mim ,e eu dentro dela , formando um só ente, uma só realidade! Se eu quisesse por absurdo, afastá-la de mim, intentando alguma vez esquecê-la para sempre, era isso negar-me, não ser o que sou! Ele é eu, e eu sou ela, não fazendo senão um!&lt;br /&gt;Sinto-me aqui tal qual eu sou, reconhecendo gostoso , naquilo que me cerca e dá vitalidade, uma parcela do meu próprio ser. Estes ares são meus, e este céu aliciante, cheio de encanto e funda magia, entontece-me a cabeça, refrescando o meu peito, que a amizade e o amor tornaram brasa. Se alongo os olhos pelo horizonte se m fim, logo bem perto, en frente do Terreiro, a vida ressurge e com ela de permeio, brilha a luz à distância. Estes muros derrocados, a que o musgo se abraçou; estas plantas velhinhas que os vendavais açoitaram, acenam-me todos , com infinda ternura, murmurando ao ouvido coisas de outras eras&lt;br /&gt;Humildes casinhas, firmadas em rocha, espreitando, lá de cima, em jeito familiar; fontes generosas, aguardando pacientes que cheguem homens e gados; lares dos passarinhos, que eu olhava embevecido, deixo-vos agora, com imensa tristeza! Adeus… adeus!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-9-1971&lt;br /&gt; Foi ontem o regresso. Apesar de tudo, sinto a mudança. Há na minha vida não sei quê de apagamento, que se furta à luz e não deixa olhar este céu reduzido. Obscuridade e até solidão, isolamento e nada-ser é coisa, na verdade que, se não deleita, me traz algum conforto. Entretanto, verifico, uma vez mais, ser isso contrário à própria natureza. Homem da Terra,” animal gregário”, podia aceitar-se como definição, embora incompleta. &lt;br /&gt;Quanto a mim, porém, devido certamente a causas deletérias, não tem aplicação. Habituaram-me a viver desacompanhado, e, embora eu deteste a vida solitária, já não posso levar outra! Fruto degenera do que o tempo originou, vergado por costumes e preso de tradições, objecto infeliz dum regime puritano, sofro agora, por força, os efeitos nefastos. &lt;br /&gt;Falhou inteiramente o ideal humano e deveras aliciante que um dia criara. Nem tudo se perdeu, bem sei e confesso. Aquela melhor parte, a que não renuncio, essa, bem  entendido , ninguém ma roubará: conquistar no Paraíso, um lugar de ventura. Posso dizer, com fundada razão, que nem tudo foi ao ar! Resta ainda a melhor parte, que muito prezarei, até à morte!&lt;br /&gt;Daqui para diante, vou caminhar aos tropeções, na calçada pedregosa, cruzando-me a toda a hora com gente desconhecida! Não convivo nem falo, não sorrio nem canto, porque a angústia me acabrunha e a dor é minha herança! Deus bondoso sustente minha grande fraqueza, garantindo assim, na Pátria ditosa, um lugar de eleição, a que aspiro, desde sempre! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-9-1971&lt;br /&gt;Vi-o na Guarda. Um tanto encurvado, seguia no passeio, olhando minucioso para quanto havia, como se fora, realmente, a primeira vez. Os seus 90 anos conservam-no lúcido, provocando admiração em quantos o vêem. Apoiado na bengala dá belos passeios, como tendo 20 anos! Reparando em tudo e olhando para todos, é belo passatempo aquilo que observa, fazendo o paralelo entre a era presente e aquela que viveu. Tenho para mim que não entende aquela, mas, apesar disso, não entra em protestos nem se deixa abater!&lt;br /&gt;Sem ler no presente nem tirar-lhe o sentido, passa indiferente, como se, na verdade, seguisse um filme. Que lhe interessa a ele?! Vive na Terra, mas no mundo de outrora. Esse é que ele ama , prefere e adora, porque foi seu e bem o entende! O presente é-lhe estranho e o Padre Popo, embora português e do século presente, não se sente à vontade. &lt;br /&gt;Qual relíquia veneranda, a que o tempo dá valor, precisa apagar-se, de maneira total, para que suba de preço! Ninguém o olha nem admira. Reputado velharia, é, na verdade, como um traste sem proveito, que obstrui a passagem. Olhei-o eu, no entanto, e saudei, no seu perfil, os velhos tempos, que ele tanto amou, esse mundo saudoso de eras recuadas!&lt;br /&gt;5?&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-9-1971&lt;br /&gt; Folheando hoje um livro de Ciências, melhor direi, de Zoologia, notei alarmado que lhe faltam 4 páginas. Levando o assunto, já de enfiada, fiquei bloqueado, nas minhas diligências. Defeito nato?! Consequência de maus tratos, por mim infligidos, ao estudar, na Guarda? Nada disso! Observando melhor, notei amargurado, com alta indignação, que velha tesoura ali tinha operado, conduzida, afinal, por mão assassina! Eu, nessa altura, tinha 20 anos! &lt;br /&gt;Era homem feito e, por esta razão, conhecedor da vida ou, pelo menos, assim devia ser! Que planeavam esconder-me, se não tinha escolhido o rumo a seguir e precisava de saber tudo, para fazer a escolha?! Era isto lealdade, para quem viera duma pobre aldeia e que à guisa de cera, ainda informe, ia sendo modelado, a capricho alheio, sem respeito nenhum pela minha pessoa?! Actuaram em mim, com fito oculto e pensar reservado, procurando iludir-me, para ser enganado?! Não é isto, a rigor, deturpar a vida, para educar aiguém?!&lt;br /&gt;Qualquer Instituição de formação integral leva os seus alunos a descobrir ao certo qual o rumo a tomar na vida que os espera. Esta averiguação deve processar-se  de um modo seguro, leal e profundo, jogando prós e contras, em ambiente aberto de sinceridade.&lt;br /&gt;Há certos factores que eu repudio, com toda a alma: angelização ingénua; puritanismo assaz desumano; alheamento cabal da realidade.&lt;br /&gt;Vide  \\  27-9-1971  Romagem de Saudade&lt;br /&gt; Não que fosse a Roma ou a S.Tiago de Compostela, mas ão somente a lugares velhinhos, que pisara em criança! É grato sumamente, após 40 anos, rever caminhos velhos, quase irreconhecíveis; galgar ainda informes penedos, repetindo sobre eles, ações de outras eras; descer a valeiros e trepar às colinas, achando já um tanto desfigurado o que a mão do tempo mudou impiedosa! &lt;br /&gt;Arranco do Terreiro, abordoado sempre a um pequeno sacho, fazendo em seguida caras ao Barreiro, pela estrada nova. Uma vez ali, olho com ternura a grande presa antiga, onde violentado tomei, de empurrão, o primeiro banho frio. Momentos breves e deliciosos, que me transportaram aos tempos saudosos, que não voltam mais! Subo então à Carriça e envere do pelo caminho, que meu pai, noutras eras, seguia, com os bois! Entre giestas e pinheiros, servindo o meu sacho de rico bordão, lá vou, serra acima, o que me faz transpirar!&lt;br /&gt;Vem logo a Roçada: é a primeira estação. Sentado, por força, reconheço, a custo, a pequenina boiça,  onde havia, outrora, uma parte de mata e outra de centeio. Olhando a meditar, comovo-me então. Onde a topografia, guardada no meu espírito?! Nem limites salientes nem a velha matinha nem o vulto saudoso daquele pai tão querido, auferindo do solo, a troco de suor, o alimento e a vida para os filhos que amava.&lt;br /&gt;Vide  \\  30-9.1971&lt;br /&gt; Vide  \\ 30-9-1971……………NÃO&lt;br /&gt; Embora a muito custo, deixei finalmente o penedo saudoso, por não ser ali o termo da  ‘romagem.’Outro Lameiro, ainda mais distante, que pertencia, em tempos, ao senhor José Pinto, iria rematar o passeio da saudade. Ansiava ardentemente por vê-lo também, como sendo um bom amigo! Havia muito já, que vivíamos distantes. Fora isto em criança. Mas olvidar para sempre lembranças desta época?! Impossível, na verdade! A ferro e fogo se imprimiram na alma, não estando a meu alcance extirpá-las do seio! &lt;br /&gt;Embora o Lameiro fosse então de renda, o meu passado é ele vivo e não posso olvidá-lo! Aih tempo saudoso da remota infância! Não ficou ali, decerto, enorme pedaço de alma, na companhia amada que fazia meu pai?! Há 45 anos como eu era feliz! Além é Fornos, pois é meu pai? “É”, dizia logo, fosse embora Celorico! &lt;br /&gt;Mas fiquei desiludido, assim que o avistei! Onde estão as presas grandes? Responderam acaso estes meus botões?! Muito receei, nessa hora amargosa, pois temi o pior! O Poço Santo, a Presa funda e a Poça larga, já no extremo?! Que vasto mundo de sonho, que eu teria perdido! Tinha de abeirar-me! Assim fiz, sem demora! Que desilusão! Simples miniaturas ou então arremedos, era tudo quanto via?!&lt;br /&gt;Oh, caras presas, relíquias preciosas, onde eu tomava banho, surpreendendo no lar as carriças descuidadas ! Sois vós ainda ?! Ou que sois vós, atulhadas de terra ou já sufocadas pelos fetos invasores?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;25-12 MEMÓRIAS 38 F CONT &lt;br /&gt;Manteigas\\  18-10-\971\      Camus em Foco&lt;br /&gt; Ando agora a ler um livro do famoso autor e criador Camus, argelino de origem. Descendente de Franceses, creio não me enganar, tornou-se, dentro em breve, um nome consagrado. Encheu a França de orgulho e transpôs as fronteiras, indo projectar-se no espaço fulgurante, onde brilham as estrelas de primeira grandeza! No céu constelado, onde brilham os  grandes,  refulge , poderoso,  sem  igual concorrente!  Que maravilha fez, escrevendo este livro! &lt;br /&gt;Realismo e vida, fotografia de suma perfeição, dramatismo e crueldade! Esta pintura é deveras excelente! Que diálogos vivos e que cenas chocantes! Gravam-se a tal ponto, em nossa retina, que jamais se apagarão! De interesse crescente, vamos de lés a lés, sem cansaço nem fastio! A dor e o  desforço,  o terror e o espanto, a amizade e o amor tomam proporções de  enorme altura!  Os sintomas da peste, a incerteza do porvir e o drama terrível do isolamento , na própria terra, são traços magistrais que a memória não olvida!&lt;br /&gt;Estrangeiro em sua casa, perto afinal, mas longe, dos entes que mais se amam, como é angustiador um quadro assim! Um Galeno que não cura e só decreta mortes; um mal que não  perdoa e vitima, em poucos dias; uma grande cidade, em que os vivos se confundem, misturando-se b revê com os próprios mortos.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-10-1971 &lt;br /&gt; Que dia excelente de luz e calor! O céu formoso é espelho de cristal, que encanta e seduz, ostentando a curvatura como abraço de gigante, a acarinhar toda a Terra. E como ela, deslumbrada, se deixa seduzir, cedendo aos afagos, que lhe vêm do alto! Tudo se renova, pondo no semblante um ar festival, que a todos enleva!&lt;br /&gt;Dá gosto viver com o tempo assim! Apetece, realmente ir campo fora, respirando, a capricho, o bom ar matinal. Não fossam as aulas, iria pressuroso, calcorreando sem parar, tanto montes como vales, para gozar em pleno os eflúvios deste Sol. Dilataria, a fundo, a cavidade torácica, aurindo em campo aberto o oxigénio precioso. Perante o belo Sol, o meu olhar tristonho ficaria embevecido, agradecendo, a fundo emocionado , o favor que me concede.&lt;br /&gt;Um dia assim, em Manteigas, é mais que uma bênção. Entorpecido aqui pelo frio intenso, logo os músculos retardam seu agir necessário, recusando-se à tarefa que a vida lhes impõe. Mas quando o Sol dourado, emanando raios vivos, nos aquenta diligente, remoça a humanidade, aparentando ar de festa e depondo a tristeza. Animaram-se as ruas e também conjuntamehte o rosto das gentes&lt;br /&gt;Uvas escarlates sorriram breve, nos seus parreirais, não sendo isso estranho aos figos das esteiras, postos a secar.  Saíram os velhinhos para junto da testada, onde trocam i mpressões , relanceando olhos meigos pelos netos buliçosos,  que andam cabriolando. &lt;br /&gt;Outono  reconfortante, visita-nos assim, para a vida se animar, fugindo à morte horrível!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-10-\97\&lt;br /&gt; A caminho do Hospital, deparou-se-me um quadro. assaz encantador. Às 7 e 10 minutos, subia vagaroso a rua Zero 1. O ar fino cortava, insinuando-se no peito, que gelava, a b revê trecho.  Penetrando, em se Guida, na rua Zero 2, fico deslumbrado! É agora o Nascente, que me está seduzindo! Os meus olhos rebrilham!  O coração estremece! Lá muito ao longe, recortado na montanha, surge um painel, que me atalha o passo, dando sustento à curiosidade. &lt;br /&gt;Uma placa enorme, feita de ouro e prata, reluzindo intensamente, onde os tons se combinam com graça infinita, é sedução para o meu olhar! Tenho-me ali como num sonho! Em baixo, cor de fogo; em cima, puro cristal! Mas, onde acaba uma parte, e a outra começa?!  Impossível distingui-las! Na base, a maior intensidade, para ir diminuindo, progressivamente, a caminho do topo! Aquilo só visto! Arredar pé? Não era capaz! &lt;br /&gt;Deleitando-se os olhos, mais e mais se afogueava a base do quadro, atenuando em muito  o resto da cor. Que artista exímio ali trabalhava, para alegrar meus sentidos e deixar-me extático?!.Em dado momento, aparece então ali uma brasa viva, arredondada como hóstia, no altar do Senhor! Lembrou-me a elevação, em que nós prostrados, adoramos, ao vivo, a presençdo Senhor!&lt;br /&gt; Que linda hóstia aquela, recebida com júbilo por toda a Natureza!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-10- 1971&lt;br /&gt; O lugar X ( não  é o Colégio!) tornou-se um  calvário! Repelido sem apelo, como indesejado, agonizo e sofro, num silêncio amesquinhante. Rica prenda são os homens, se a vaidade os espicaça! A sinceridade  não  conta nada e a lealdade não vale! é preciso bajular, distribuir sem medida vénias mentirosas! O mundo vive assim, alimentando s existência de hipocrisia e traição. Quem triunfa e se impõe é quem mente mais, sofra embora na honra e vacile no ideal.&lt;br /&gt;Ai do homem que se esquive, arrogando-se valor que os outros não tolerem! Se algo valemos é que outrem o permite, na medida exacta, em que apraza a estranhos! Riscar a direito, seguir a consciência e viver os princípios é cavar a sepultura! Endireitar alguém?! Quem pensa em tal coisa, se quem manda é o orgulho?! Não se pôr de joelhos, adorando a criatura, como sendo o próprio Deus,é abrir a sepultura!&lt;br /&gt;Resvalamos com +rigo, em vert ente inclinada. Nada pode aguentar-nos, uma vez neste plano! Chorar ou gemer nada já presta! Seria bela ocasião, para mofarem de nós! Como é triste a condição de quem vive sozinho, com a dor a seu lado! Oh! a voz do sangue é bem clamorosa, mas essa, há muito já que não tem eco em mim! Como dói intensamente cravar os pés nos acúleos, sem alma generosa que os venha tirar!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-10-1971  O Punhal actuou!&lt;br /&gt; Fui despedido! Mas porquê, afinal, essa grande injustiça?! ( Não  se trata do Colégio)  Só campeiam n este mundo, a doblez e a vaidade?! Somente vencerá o que o medo apadrinha?! Os valores defensáveis, n esta época má, residirão tão só na corrupção e no vazio?! Mas que seca! Isso é, na verdade, contra-senso marcado! Por que vamos no enxurro, adaptando-nos ao mundo?! Já não há idealistas que desprezem tais razões, argumentando prestes com a verdade, que é filha de Deus? A quem vamos prestar contas, no fim da jornada?&lt;br /&gt;Aos homens orgulhosos, que tudo amachucam, para eles emergirem?! ?! Asquerosidade e falácia vil, a rrojo e despotismo, at é quando vencerem?! Mais que aos homens deste mundo eu prezo o nosso Deus, não me importando, realmente, que os homens se empertiguem? O que é certo, porém, no meio do torvelinho, é ficar mal disposto, cuspido e humilhado!&lt;br /&gt; Que fazer agora, pois, se a vida é grande cruz? Levá-la paciente e recorrer ao Senhor. Que receba esta angústia, qual moeda preciosa, a fim de satisfazer minha dívida terrena. Irei assim descontando, embora de espaço, boa parte do meu débito. Aos homens que fazer? Perdoar-lhes a insânia, mas dar-lhes a lição, a fim de não voltarem, por caminhos iguais.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-11-1971  Dia de Fiéis Defuntos&lt;br /&gt; Entre os Finados, encontram-se já os queridos pais, não falando nos avós e outros ascendentes. É tempo somente de compaixão, dia inesquecível! Venerando a memória dos entes queridos, endereçamos a Deus uma prece fervorosa, para que, em breve, os tome para Si. Estarão no Purgatório, penando ali, por culpa dos filhos? Mercê talvez de incúria e desleixos ou ainda, quem sabe?, porque entraram em desmandos, sugeridos pelo amor? Neste caso, que é que se impõe, como nosso dever?! Que nos diz o coração e murmura a saudade?!&lt;br /&gt;Ficaremos insensíveis, agora e sempre,, ante seus lamentos e pedidos amorosos?! Ergamos pois ao Senhor uma prece fervorosa, a fim de que, por sua clemência, liberte essasalmas das penas que sofrem! Roguemos de início, por todos aqueles que nos são queridos,já por laços de sangue, já pelos da amizade. Além destes, por todos os pecadores, que são infelizes e esquecidos. Nada mais, em seguida? Oferecer esmolas e obras de caridade; aceitar resignados, trabalhos e aflições, pedindo ao Senhor os converta desde já, em moeda preciosa, que lhes garanta a salvação eterna! Aos mortos saudosos da Igreja Purgante dê o Senhor o descanso eterno! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-11-\971&lt;br /&gt; Dezanove horas e trinta minutos! Neste fundão, anoitece agora bastante cedo, pois o Sol há muito já, que imergiu no abismo, além da Fraga da Cruz. Quando outros felizardos continuam bafejados pelo astro amigo, já nós suspiramos, na grata expectativa de vê-lo chegar, na manhã de outro dia. Ocultado agora pela serra altaneira , alastra breve pelo Covão, uma tristeza infinita. Os macróbios da vila recolhem aos tugúrios, onde os acalenta uma pobre fogueira. Até as criancinhas, mimo de Deus e regalo da vida, com seus descantes e ingénuos bailados nas vielas sombrias. É silêncio profundo o que reina já! Não foi tudo envolvido por um manto de sombras?!&lt;br /&gt;Mas hoje, a esta hora, faz excepção o vale afundado. Entro apressado no velho presbitério e, abrindo a porta, volto-me um pouco para o lado esquerdo. Que é que se depara?! Um belo espectáculo, assaz deslumbrante! À Torre de S.Lourenço, avisto desde logo uma salva de prata  a mais brilhante e preciosa, que fora dado aos meus olhos contemplar, neste mundo!&lt;br /&gt;Redondinha e alva, como hóstia de altar, subia mansamente, por trás da montanha. Olho ali extasiado, com amor e ternura, essa meiga companheira da noite de breu!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-11-1971&lt;br /&gt; Vi-o há momentos, sulcando o espaço. Era branco, branco, da cor sedutora da prata luzente que, a um tempo deslumbra, enfeitiçando os olhos. Segui, por longo tempo, o rasto luminoso, enquanto os meus olhos passeavam deslumbrados, dum extremo ao outro do sulco brilhante. Uma réstia de quilómetros, esbatendo-se na cauda e tomando cores vivas, no ponto da cabe ça.! Tal era o seu efeito, nessa hora matinal!&lt;br /&gt;O Sol belo e radioso não assomava ainda, por sobre a montanha, mas já punha realmente caudais de luz forte, na ‘ave’ prateada. Aquilo só visto! E o aparelho seguia através do espaço, enquanto eu me quedava, saudoso e triste, por ele se afastar, com tanta rapidez! Queria detê-lo, observar-lhe os contornos, trocar impressões com as gentes felizes do seu interior, mas pobre de mim!&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38 G CONT.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;............... Iam-se os olhos, juntamente com ele, sob a cúpula imensa do céu imaculado. Depois de estar mirando, lá se esvaiu, para jamais o poder avistar. Qual brinquedo infantil, em carreira de vertigem, parecia empolgado por mão invisível! Que máquina potente e assaz admirável, para lançar-se, quase loucamente no espaço infinito! Quem me dera segui-la num trajecto sem fim e bem mais que isso, habitá-la também, durante horas e horas! Fá-lo-ei, para o Verão, se Deus quiser e aprovar os meus planos. Voarei, nessa data, sobre o mar atlântico, rumando para Angola.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-11-1971 Nuno Álvares Pereira                                          &lt;br /&gt; Neste dia., veneramos um santo que é também herói. Como iria ser o futuro da Pátria, se não fosse o Condestável?! De certo, muito outro! Nem sequer o podemos sonhar! Como é que um só homem, para mais ainda jovem, pôde tanto, com tão poucos?! A soberba castelhana é assim apeada! O rumo dos contendores, se não mesmo da Europa, vai ser já diferente. Eu não disse bem! O destino do mundo foi logo talhado por Nuno Álvares Pereira!&lt;br /&gt;Imaginemos, por algum tempo, que este herói não surgia. Sem liberdade nem paz e estímulo, quem iria fazer a travessia dos mares, cientificamente?! Adeus, pois, Escola de Sagres e quanto se aprendeu, no ramo em causa! O Infante D. Henrique, Tânger e Ceuta jamais se tornariam formoa realidade! Deste modo, o orbe infeliz continuaria nas trevas, como sempre estivera! &lt;br /&gt;Só um povo bom, generoso e dedicado, sem quaisquer ambições nem prepotência, era capaz de transportar o facho da civilização, do mar Mediterrâneo para o Oceano Índico. Tudo isso foi obra de Nuno Álvares Pereira. Garantindo a liberdade, que foi bem selada, em Aljubarrota, com o sangue generoso dos nossos homens, pôde este povo conceber altos planos e depois realizá-los, de maneira cabal &lt;br /&gt;Se não fora a sua audácia, que enfrentou prontamente um exército enorme, preparado a rigor e bem equipado, onde estaria a epopeia imortal?! Perdida a consciência, fica o homem destroçado.           &lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-11-\97\&lt;br /&gt; Faz-nos bem variar os temas, quebrando assim a monotonia. Desta vez, rumamos pronto ao género épico. É narrativo, conservando, por isso, a essência da origem.” Epos” é um vocábulo grego, que denota “narração.”Sendo assim, acode a pergunta: que tipo de narração?! O objecto da epopeia reside, em verdade, nos feitos militares, de cunho heróico. O fim  da epopeia consistis, pois, em cantar actos belos de essência militar.&lt;br /&gt;Igual fim se propôs o grande vate luso, no Canto imortal: “ As armas e os barões assinalados” Os elementos do género épico são os seguintes: assunto e acção, maravilhoso e personagem. A forma não é, a rigor de tipo clássico, pois não veio do Grego nem do próprio Latim. Efectivamente, naqueles idiomas, os elementos do verso eram os seguintes: a quantidade ( sílaba longa ou breve) e o número de pés ( grupos de sílabas, em número imposto. &lt;br /&gt; O verso preferido pelos poetas latinos era o exâmetro (verso de 6 pés). O poema de desse tempo dividia-se em cantos, mas não tinha estrofes., com arranjo e número, submetido a regras. Nas línguas românicas ou novi-latinas (derivadas do Latim) os elementos do verso elevavam-se a três: Número de sílabas, acentuação rítmica e, por fim, a rima, que não é de facto, elemento essencial. A forma do verso foi imitada, na Europa quinhentista, dos poetas italianos., como Ariosto e outros. &lt;br /&gt; É facto provado e, por isso, indiscutível, que o poeta Ariosto já tinha usado decassílabo heróico de oitava rima. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-11-1971&lt;br /&gt; O sistema rimático funcionava deste modo: abababcc. As vantagens desta rima são mais que evidentes. Nos primeiros 6 versos, verifica-se um ritmo de movimento, ao passo que nos dofs últimos, se vinca fortemente uma ideia poderosa. No concernente à acção, há que disti,guir entre  acção central e acções acompanhantes, como sucede nos próprios Lusíadas. Aquela, por sinal, é o descobrimento do caminho marítimo para a Índia remota; estas, afinal, são os feitos notáveis dos audazes portugueses, que vêm exornar a acção centra, colocando-se logo em plano de igualdade, relativamente àquela&lt;br /&gt; O herói glorioso da acção central é Vasco da Gama, ao passo que o das outras é o povo português. Aquele é individual, e este colectivo. A nossa Epopeia é de tipo clássico, em sua estrutura, exceptuando, claro está, a forma do verso. Se não, é ver: a divisão em cantos;  emprego abundante da mitologia; recurso ao sonho e à profecia, à metamorfose e alegoria; ainda às mensagens e passos idênticos (alguns versos traduzidos à letra); a tempestade, conflitos e adornos, por meio de episódios, descrições e quadros vivos. &lt;br /&gt; Vejamos os cronistas da acção central: o poeta e Júpiter, Vasco da Gama e Fernão Veloso ( primeiro e segundo, até ao 6º inclusive). Das outras acções é Vasco da Gama. Paulo da Gama, uma Ninfa, etc&lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-11-1971  Invocações nos Lusíadas.  &lt;br /&gt; São em número de 4. Localizam-se elas, bem entendido, interiormente a partes narrativas. A 1ª  I 4-5 precede o poema, em forma global; a 2ª (III 1-2),antecede a exaltação dos reis de Portugal; a 3ª ( 7º , 78), antes de exaltar os heróis do continente e do Norte de África; a 4ª ( 1º. 9), antes de exaltar os heróis da Índia. &lt;br /&gt; Quanto âs fontes dos Lusíadas, temos a considerar as de ordem estética ou ainda literária, e as fontes estéticas. Aquelas foi o vate buscá-las aos poemas notáveis da antiguidade clássica , de modo especial â Eneida de Virgílio. Terá consultado ainda o poema didáctico “As Geórgicas desse auto; Metamorfoses dos Deusas, da autoria de Ovídio.&lt;br /&gt;As fontes históricas distavam menos, no tempo e no espaço, uma vez que Fernão Lopes, Zurara, Rui de Pina, João de Barros, Diogo do Couto e Castanheda eram cronistas notáveis, que tinham já tratado os feitos heróicos dos portugueses ilustres, que se haviam distinguido, no Continente europeu, no Norte de África e também na Índia ( os três últimos).&lt;br /&gt;Quem exalta os feitos dos heróis portugueses é Vasco da Gama, no 3ºe 4º Cantos, que se ocupam, a rigor, dos reis de Portugal ( duas  grandes dinastias – primeira e segunda: Paulo da Gama, no 8º Canto, descreve ao Catual as figuras das bandeiras I heróis do Continente e vizinho Norte de África). No 10º Canto, é então uma ninfa, que apresenta com ênfase os heróis da  e seus feitos valorosos: Afonso de Albuquerque e muitos outros. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  10- 11- 1971&lt;br /&gt;Pontos marcantes da Epopeia Nacional:  Moçambique e Melinde; Ilha dos Amores e Calecute, ainda antes. Em Moçambique é, de facto, o início da acção central e um lugar perigoso para a navegação, visto que, longe da Pátria e cercados de inimigos, corríamos sério risco de de ser aniquilados. O nosso destino é urdido pelos deuses, no Monte Olimpo, decidindo o concílio permitir, finalmente, a ousada empresa. &lt;br /&gt;Em Moçambique, é tecida por Baco engenhosa cilada, que vai repetir-se em Quíloa e Mombaça, com o fim de aniquilar a gloriosa armada e apagar para sempre o nome português. Vem agora Melinde, onde somos acolhidos favoravelmente, mercê do pedido, feito a Júpiter, pela deusa Vénus. Como garantia, enviara Júpiter o mensageiro Mercúrio, acompanhado da Fama.&lt;br /&gt;Tão grande alvoroço tomou o rei de Melinde, que pediu ao Gama, com toda a insistência, lhe contasse, em pormenor, a História de Portugal. Recebemos ali apoio, ajuda e carinho. Por ser gloriosa a História do Reino, exalta o Gama, perante o rei, a notável acção dos reis de Portugal, até D. Manuel. Em Calecute, é já o remate da luta porfiada, ocorrendo ali  a exaltação brilhante dos heróis do continente, feita ao Catual por Paulo da Gama. &lt;br /&gt;Na Ilha dos Amores, são os portugueses consagrados como heróis e logo elevados ao nível de deuses, por seu enlace com as belas ninfas, símbolo do prémio que aguarda sempre os que fazem grandes coisas. Ali, é contada, finalmente, a história brilhante dos heróis do Oriente.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-11-1971 Acção Central dos Lusíadas          &lt;br /&gt; Distribui-se o feito pelos Cantos seguintes: 1º e 2º, 5º e 6º. Efectivamente, nestes 4 Cantos, é percorrida a longa rota de Lisboa a Calecute. Nesta cidade, termina, de facto, a viagem ao Oriente e o irmão do Gama conta no local, os feitos valorosos dos heróis do Continente. O 7º Canto é formado, todo ele, por contactos e visitas: Monçaide que visita a nossa armada; a recepção do Catual; encontro do Samorim com Vasco da Gama.&lt;br /&gt;Partes da viagem: de Moçambique a Mombaça: de Mombaça a Melinde; de Lisboa a Moçambique; de Melinde a Calecute. Profecias:  2º Canto, feita a Vénus por Júpiter, (após o pedido que ela) lhe endereça); Canto 4º ( pelo velho do Restelo aos ousados navegantes, já prestes a partir para a Índia longínqua; Canto 5º ( gigante Adamastor); Canto 10º ( feita por uma ninfa, na Ilha dos Amores, durante o banquete, oferecido por Rètis aos heróis portugueses. &lt;br /&gt; Intervenções de Baco, que representa, de facto, a oposição eterna do Oriente ao Ocidente: a 1ª de todas ( no encontro do Olimpo); aparição ao rei de Mombaça; 6º Canto ( aparição a Neptuno, deus do mar; 8º Canto ( aparição ao Catual , governador, na figura de Maomé, Foram, pois, 5 vezes, durante a viagem. Baco representa os interesses, que os nossos descobrimentos iam prejudicar.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-11-1971  Intervenções de Vénus     &lt;br /&gt; No 1º Canto, foram duas vezes: No Monte Olimpo e na viagem para Quíloa; 2º Canto, na viagem a Mombaça; 6º Canto, durante a tempestade;9º. para consagrar os nossos heróis. Simbolismo efectivo do Canto IX. Era costume, nos poemas antigos, serem as personagens de raça divina. Assim, o herói Eneias era de Vénus. Ora, como os portugueses provinham de simples homens, tornava-se necessário elevá-los, desde logo, à classe de deuses, em recompensa da grande bravura, heroísmo e coragem, que tinham revelado. Só podiam consegui-lo, mediante o enlace com as belas ninfas. Foi o que sucedeu, na Ilha dos Amores. &lt;br /&gt;Pelo consórcio, foram eles que subiram, ao nível de deuses, e não elas que baixaram à condição humana. Sempre o mais é que absorve o menos e não vice-versa. Chama-se profético o  X Canto, e a ninfa eloquente, que exalta ao vivo os heróis ds Índia surge nos portugueses, na Ilha dos Amores. Paulo da Gama glorifica em Calecute os heróis do Continente, em presença do Catual. Vasco da Gama narra a bela história da Pátria lusa ao rei de Melinde, na própria cidade, com nome igual. Nos Cantos 3º, 4º e 5º, é Vasco da Gama o cronista dos factos.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-11-1971&lt;br /&gt; Decorreram 7 anos. Parece muito mais! Em dia como hoje, na estação dos frutos, caiu da árvore quem me dera à luz, havia já mais de 40 anos. Foi um sonho o meu viver, enquanto ela  não partiu, mas  após a sua morte, o Oceano tranquilo volveu-se, num pronto, em Mar de tempestade! Acabado para mim o chamado “sonho belo,”depara-se logo, carrancudo e negro o tremendo pesadelo.&lt;br /&gt;Com a mãe presente, embora já velhinha, nem a dor se atrevia. Era providente sua mão carinhosa. Raio clareante seu olhar de bondade! Viração embaladora sua voz de meiguice! Muralha intransponível seu braço vigoroso, que sempre abençoava! Mas agora, coitado! À mercê da fera sorte, caminho desolado, pelos trilhos da vida!&lt;br /&gt;Em cada muro, há sombras más que, ao verem-me passar, vociferam rudes e me fazem chorar! Em cada pedra onde tocam meus pés, há bicos acerados, que se enterram inclementes na carne dolorida.  Avanço logo, mas nada ganho, pois a vida presente carece de tudo o que a fazia bela! &lt;br /&gt; Ó mãezinha, amor incomparável, como sinto, amargurado, tua longa ausência! E, no entanto, és lá no Céu, um dos Anjos do Senhor, a velar por mim, em todo o momento!                &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38 G CONT&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-11-1971 A Fúria de Mandar&lt;br /&gt; Chega, por vezes, a ser ideia fixa, qual monomania que tudo sacrifica. Ter muitos ao dispor, ordenar a subalternos, impor-se a toda a hora, para arvorar-se em deus! Com este ojectivo tudo imolam: a vida e a morte, o Céu e a Terra, a carne e o espírito! E se mais houvesse, houvesse, mais ainda jogariam na mesa fatal! Terrível sina que faz da existência verdadeira tirania, atropelando os demais, nos seus direitos sagrados. Mandar em quê?!&lt;br /&gt; O mundo inteiro e,  caso não possam, no seu mundo restrito: oficina ou fábrica, Escola ou Asilo, no campo ou no lar. Pessoas e coisas, animais e plantas! Quem alguma vez se deixou possuir deste horrível demónio, é um perigo constante, no grupo em que actua.&lt;br /&gt; Exige incenso, impõe curvaturas, demanda atenções, intenta que o adivinhem! É tirano consumado que se levanta somente, para derribar os outros semelhantes. Ai de quem não ouça ou tente fugir-lhe! Perseguido e acossado, não terá certamente, onde, onde possa abrigar-se! Num lugar qualquer, em terra ou no mar, lá terá, sem dúvida, o espectro feroz, a entenebrecer-lhe  os dias da vida! &lt;br /&gt;Pois o que se erguer contra esse homúnculo, argumentando sincero, com razões a asistir-lhe?! De nada lhe vale! Pisado e batido, como o pó dos caminhos, só lhe resta aguentar um desfecho lastimoso! Se for leal e sincero, homem impoluto de um só querer, tanto pior ainda é.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-11-\971  Uma Noite de insónia&lt;br /&gt; Quando isto sucede, é uma luta inglória! Sou lá capaz então de conciliar o sono?!  Tentei uma, duas vezes, três e quatro ainda, mas foi tudo em vão! Às 9e 30, encontrava-me no leito. Ouvia bater, com grande nitidez, as horas e as meias. A última de todas foi depois da meia-noite. Como é tremenda a nova desagradável! Qual garrote poderoso, infiltrado no pescoço, ele age fortemente, impedindo os movimentos. A gente vira-se, torna a virar-se, e uma vez mais se volta no leito, mas inutilmente! Atrair o tal amigo é que não há meio!&lt;br /&gt;O tempo ali roda moroso, não tomando em conta o sofrimento que oprime! E quando sós?! Então sim, é que a dor avassala, tomando vulto maior! As paredes não  sentem, as coisas não falam: é tudo silêncio! Unicamente a ingrata solidão por nossa companhia! Mas que pode ela, em tais circunstâncias?! Como há-de actuar?!                                            &lt;br /&gt; O pobre coração, a dados intervalos, quebra o ritmo de sempre, dando logo a impressão de que vai repousar! Que seria de mim?! Quando ele repousar, tudo está consumado! É o fim da existência, neste mundo de amargura, para início de outra vida que não mais acabará!&lt;br /&gt; O maior imprevisto ocorreu ontem, pela tardinha. Em vez de aperitivo, deram-me a beber um cális de fel! Foi já nomeado outro capelão, para o Hospital! Porquê esse imprevisto, desempenhando alguém, as ditas funções?! A quem foi pedida a substituição?! &lt;br /&gt;Arbitrariedade! Enorme injustiça!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-11-1971 Encontro a dois&lt;br /&gt;Um diálogo vivo, entre a velha ama e a minha pessoa! Este apodo é um tanto forçado, uma vez que minha mãe exercia cabalmente as funções peculiares, inerentes a seu múnus. Entretanto, como o leite não chegava, era mister socorrer-se, ao tempo, da amiga Cremilde, para obviar à notável  escassez de que estava sendo vítima. Contudo, a ama aludida, já não era jovem, embora muito lúcida e bastante saudável. Ela sozinha orientava a casa e cultivava as terras, pois o marido estava enfermo&lt;br /&gt;Um dia, em conversa, diz ela, com ênfase: “ É uma carestia que não faz ideia! Aquilo é lume! E se fosse apenas isso! Chama-se alguém, e ficamos mal servidos! Sabe, por ventura, quantas vezes, no passado, iam as mulheres à Tapada Inês levar estrume?! Nada menos de 27  hoje? Faça-lhe um cálculo!&lt;br /&gt;-- Umas 20, possivelmente!&lt;br /&gt;-- Qual história! Apenas 10! É uma dor de alma! Quando morreu o meu Agusto, gastei munto dinheiro! A urna dele 800$00; o bem de alma, soma igual; Delegado de Saúde 110$00! Uma coisa assim! Uma coisa e outra! Faz lá ideia! Quanto mais vêem a gente afogada, mais apertam a corda! Então, era preciso cá virem, para só declarar que ele estava morto?! A gente não sabia?! Uma coisa assim!...&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-11.1971 Continuação  &lt;br /&gt;De momento, a conversa, entre nós, deriva para os dentes. Ouvi com atenção os reparos divertidos que ela faz para mim, acerca do caso. Que não caísse em tal! E alongava-se então, citando muitos casos, de que tinha notícia. Aquilo só visto: “Só me lembram caveiras esses dentes malditos! (dentes postiços). Dizendo isto, fazia um desto de espanto, em que punha a alma toda! “ Uma dentuça!” rematava com ênfase. Vale muito mais comer sem ela! Eu mastigo tudo! Só leva mais tempo! Só leva mais tempo! Olha agora! Não vêm lá os Franceses! Cozendo-se bem os nossos alimentos, nada temos que recear!&lt;br /&gt;Não ponha dentes novos! Olhe que se arrepende, mas já ao destempo! Podia falar de inúmeros casos, em que certas pessoas lamentaram chorando o dinheiro empregado! E depois?! Era tarde! Tal houve, sei eu, que os meteu na mala e, quando a abria, alvoroçava-se todo, pois lhe lembrava que já estava morta! Deus que os dá, também os tira”&lt;br /&gt;Fiquei a pensar, meditando nas razões. Algumas delas provocavam-me o riso! Mas a sua convicção?! A alma que punha em quanto dizia! Guardarei tais razões para todo o sempre! Ilustrações amigas que eu, a rigor, não devia contestar, tinham na verdade um sabor especial, devido às circunstâncias, em que foram expostas. Foi no Terreiro, em Vide-Entre-Vinhas que a cena ocorreu&lt;br /&gt;A sua presença lembrou-me velhos tempos, em que a vida era bela. Quão diferente  é hje, após entalões e grandes geadas, que me aturdiram a própria cabeça, rareando os cabelos e mudando-lhes a cor!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-11-1971&lt;br /&gt; Ser professor, na época actual é ter vocação para lento martírio. Foi um prazer, em tempos idos, exercer o cargo. Hoje, porém, devido a factores, que são abundantes e muito variados, quase chego a detestar a minha profissão, pois não traz, de facto, a soma de alegria que lhe era peculiar. O que vejo, afinal, é desinteresse enorme, grande apatia e dissipação! Num ambiente assim, resta só uma coisa: aviar as malas e pôr-me ao fresco! Trabalho inglório, somente dói e muito perturba!&lt;br /&gt;Que aproveita, afinal, o nosso ardor, se não cai, para logo, em terra fértil, mas em solo ingrato e deveras sáfaro?! De que vale eu queixar-me, quando à minha volta, ressoam pronto vozes de troça?! Aproveita alguma coisa diligenciar e afanar-se alguém?! Não sabemos nós, antecipadamente, que o duro labor é de si infrutuoso?! Se ao menos alguns aproveitassem bem o esforço dispendido! Já não era tão amarga a desilusão que fundo me invadiu e harto prostrou!&lt;br /&gt;Não havendo interesse, morre a vida ao nascer! A alma da Ciência e a base do progresso residem ali, com toda a certeza. Para quê afadigar-me, roubando à existência alguns anos de vida?! Trabalhar ingloriamente, com z certeza do grande fracasso, faz cruzar os braços e perder a coragem. Uma aula de hoje é algo de frio, que logo me enregela, invadindo as profundezas de todo o meu ser! Remar ainda contra a maré? Que o façam os novos! Eu depus o remo!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-11-1971&lt;br /&gt; Transcorrido um mês, cerram-se já 9 anos, que meu pai faleceu. Parece, realmente ,que foi há longos séculos. Jamais será dado contemplar o seu rosto, cá neste mundo! A verdade, porém, é que hei-de revê-lo, na Pátria da Alegria. E le está no Céu, que Deus projectou para as almas belas. Honestidade e grande equilíbrio, sensatez e abnegação eram qualidades que nele avultavam. A saudade imensa que dele me ficou avoluma-se agora, de dia para dia, não obstante a distância, que já nos separa. &lt;br /&gt;Laços vincados, aderindo firmes, não há aí poder que os faça relaxar. Está na minha frente, representado em foto. Que pena ser única e um tanto imperfeita! Levei-a para a Bélgica, em 1965, procurando ali aperfeiçoá-la. Entretanto, não pude conseguir o que tanto desejava! O sombreado que abunda esconde o lado esquerdo, os olhos e o pescoço. Era, se bem me lembro, ao cair da tarde, num Poente obscurecido. Colocados em linha, frente ao cemitério, e voltados a Nascente, fomos alcançados pela modesta máquina do José Tiago. Corria, nessa data, o ano 44. Tinha meu pai 58 anos, e minha mãe 57. Eu andava então pelos 26 e minha irmã, pelos 17.&lt;br /&gt;Bons tempos eram esses, em que o lar integral se conservava unido. Agora, tudo foi! Como vendaval a impelir brutalmente o que lhe barrava a passagem, foi varrido o lar amigo, sem deixar para lembrança uma pedra sobre outra. Quando alguma vez tento reconstruí-lo, vejo apenas destroços, vazio, escuridão!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-11-1971&lt;br /&gt; Decorre a minha vida, sem interesses algum, em constante alheamento. Como ser de outro modo?! A vida presente apenas interessa, quando a ela nos prendem amarras poderosas. Assim, portanto, de que posso ajudar-me, em tempo desfavorável?! Qual é a tábua de pronta salvação, em que me apoie confiado?! Se tudo é venal, passageiro e volúvel! Se quem julgava amigo também se conjurou em na minha perdição! Só em Deus, realmente, eu posso descansar! Nos homens deste mundo sei que há malícia, não sendo puro o seu coração.&lt;br /&gt;Colocado assim, entre agudos espinhos, não tendo ainda atractivo poderoso, necessário se se torna que eu hesite e soçobre. Enquanto o não fizer, que profunda tristeza me invade o coração! Ouço, às ve zés, cantar e outras muitas ainda, trautear certas árias. Nesse caso, fico-me a olhar, demoradamente, como se aquilo fosse novidade! Então pergunto baixinho: Como é possível cantar alguém?! Haverá razões, neste pobre mundo, para causarem satisfação?! &lt;br /&gt;Quando tudo é proibido e ninguém sorri que não lhe calquem as mãos, pode a criatura ostentar alguma vez o rosto afável?! Assim vivo tristemente, passando as minhas horas a dialogar com a solidão. Que me vai dizer ela, para aliviar o meu coração?! Também está só e não tem amparo!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-11-1971  Encontro Amigo&lt;br /&gt; Qual oásis deleitoso, após longa caminhada, assim ele se apresenta, np meu duro viver. Por que não usar mais desta brisa suave, que logo enche a alma de bem-estar e conforto?! Porquê, afinal, encerrar-se alguém, lá dentro de si ou então de velhos muros, curtindo ali fundas penas e dores, sem que outrem o note?! A dor, assim, é mais que horrorosa. Açoitado o pobre ser, exposto e rendido aos golpes da sorte, , não tendo arrimo nem apoio sólido, que fará desprovido, uma vez escarmentado?&lt;br /&gt; Ontem, porém, houve excepção. Resolvi-me de vez, metendo em breve os pés ao caminho. Havia tanto já, que não fora a um lugar, que pedia o coração e também a saudade! Fui ao serão do Dr.,Isabel, velho amigo provado, na vila de Manteigas. Coração generoso e carácter impoluto, granjeia, em breve, estima e afectos! Venho sempre melhor, da sua companhia. As palavras sentidas, o pronto raciocínio e de igual modo, as profundas convicções, em matéria de fé e bem assim de costumes, são viva realidade, que a todos se impõe. &lt;br /&gt;Além disso, é uma alma delicada, que sofre ou se alegra, quando outrem chora ou então rejubila! Caldeado o carácter, nas agruras da serra, foi timbre nobre do seu viver conservá-lo inalterável e mantê-lo impoluto. Reagiu e actuou como bom e grande amigo, perante o caso injusto de que eu fui alvo. &lt;br /&gt; “ Compreendo o seu caso e vivo-o também”&lt;br /&gt;Mamteigas  \\22-11-1971&lt;br /&gt; Já lá vão as 10 horas desta fria manhã, no mês de Novembro. Aguardo impaciente, que venha em breve o Sol aquentar-me, batendo na vidraça. Parte ainda cedo e chega tarde, que os montes vizinhos a isso o obrigam. Antes que surja além, por cima da escarpa, vamos nós cá penando, aqui mesmo no fundo, bem geladinhos! E pela tarde? Com que saudade o vejo imergir ou melhor diria, lançar-se malhão no abismo sem fim! Direi bem? Em abismo fico eu,, tenebroso, enregelado! E le se guê triunfante a carreira gloriosa. Beneficiando o mundo que lhe fica em redor, põe na alma o sorriso, levando conforto.&lt;br /&gt; Ah! bateu agora de chapa, na vidraça da janela! Que alvoroço no peito, onde o gelo domina! Que estremeção, aqui nos meus olhos, afundados em treva! Que choque profundo, em todo o meu ser! Oh! que momento ditoso e que grande ventura! Ao fixá-lo, risonho, desviou seus raios de fogo e ouro, tentando lisonjear-me. Aonde foram pousar-se? No mais elo conjunto, que se apresenta à esquerda. Que deslumbramento e funda sedução!  Que horas de gozo! Ali se erguem mudos quantos eu amei! Já não falam nem se movem, mas o Sol complacente empresta aos ademanes jeitos de encantar!&lt;br /&gt; Bem hajas, Sol amigo, pois trouxeste a meus olhos eflúvios  repousantes, que adormentam para logo, a dureza da vida!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-11-1971&lt;br /&gt; Linguagem chula, por certo, mas colorida e bem sonora! Vinha eu do Colégio, atra- vessando a ponte, ao senhor Joaquim Pereira. Inclinada sobre o muro, que resguarda o caminho, certa mãe gesticulava, com destoantes movimentos, fazendo ouvir sua voz potente , agitada e convulsa: “ Anda, anda, que levas hoje uma puta de uma sova, que te deixo de cama!&lt;br /&gt;Foi uma surpresa, uma revelação! Tinha-a visto já, por mais de uma vez, e fazia, na verdade, uma ideia diferente! Talvez bonacheirona, mais para tolerar que para agir, com prontidão. Enganei-me! A sua linguagem, o tom de voz e os próprios ademanes eram disso prova certa! Bem diz o rifão que as aparências iludem! E, ne verdade, assim é! O substantivo plebeu é que já não sai da memória impressionada!” Uma puta de uma sova” deve ser, julgo eu. um tremendo castigo! E  eu nem sei! Talvez não fosse má! &lt;br /&gt;Passada a ocasião, os nervos aquietam-se, a razão serena e o espírito ilumina-se. A breve trecho, como é de supor, vem tudo ao normal A mãe irritada, ao chegar a casa, já talvez se não lembre! Episódio raro ou jeito especial, adquirido e conservado, ao longo do tempo. Apesar de tudo, por ser educadora, tratando-se, afinal, da própria mãe, a sua linguagem, de modo nenhum se adapta ao cargo!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-11-1971  Conversa Desabalada       &lt;br /&gt; Para quê, tamanha ansiedade?! A que vem tão ingrato penar, se a vida é já triste?! Arrumá-la sim, pôr tudo no seu lugar é medida prudente! Uma noite em peso, trocando impressões, levantando alvitres, contando amarguras, decepções humilhantes! Eram dois colegas incertos, provavelmente, sobre o rumo a tomar. Eu, por mim, acho tudo muito fácil, na idade em que estou. Já penei bastante e muito sofri. Se fosse hoje, nem sequer hesitaria! Ape sar de tudo, ainda não sei bem. Seria lá capaz de entristecer minha mãe. Ignoro a resposta! Ela era tão boa e tão minha amiga!&lt;br /&gt;Eis o grande problema, a poderosa amarra, que pesa tremenda, sobre espáduas fracas! Mas eu estou velho, e ele é é jovem! Ainda irrealizado, não aceito já pela comunidade, procuraria absorver as minhas energias, escolhendo então o que mais agradasse. Viver oprimido, sem finalidade, é não ser nada, renunciar loucamente aos direitos sagrados! Em que aplicar as fortes energias?! A que agarrar-se, cá neste mundo?! Para mim é já tarde! Sim, muito tarde!Se assim não fora, custasse embora à querida mãe, tomaria novo rumo., convencido que estivesse de não ter vocação, como a Igraja exige. &lt;br /&gt;Deus não quer opressão! O seu jugo é suave e se Ele nos deixou caminhos diversos, todos conducentes à Pátria Celeste, porquê então viver inconsolável, sem arrimo nem carinho?! Viver só, neste mundo é grande heroísmo. Absurdo lhe chamo, quando não existe a dita vocação. É tão grande o vazio, que não há palavras, para o descrever, por modo cabal! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-11-1871&lt;br /&gt; Vai grande entusiasmo, entre os nossos rapazes. Amanhã, defrontam-se as equipas de Belmonte e Manteigas, na vila famosa. Outrora, a nossa gente distinguiu-se nos mares; hoje, porém, leva a palma da vitória ( assim o julga), mas em terra firme! O homem do nosso tempo é mais trivial: volta-se para o corpo, em vez do espírito. A musculatura a sobrepor-se já ao mesmo intelecto! A inversão de valores há-de fazer sentir-se, logo que faltem elementos básicos.&lt;br /&gt;A rapaziada agita-se, inusitadamente, e todos eles são vida, movimento e cor! O sorriso espalha-se, aviltando no rosto e faiscando nos olhos. Dir-se-ia talvez que um grande evento se encontra iminente! Já vai muito longe o tempo de rapaz, em que eu, impensado e cheio de euforia, me entregava deleitado a estas efusões! Hoje, ao invés, acho-as incolores e um tanto balofas! Tanto eu mudei ou elas o fizeram!&lt;br /&gt;Que é que entusiasma, na fase presente? A que agarrar-me, se tudo perdi e nada já encontro daquilo que amava?! O que tenho não é meu, porque a minha escolha não foi espontânea!  Sugerida, sim, engenhosamente, fazendo-me da vida pintura aliciante, que não era exacta!  Abusando certamente, da minha ingenuidade, levaram-me a crer no que eu desadorava, sendo muito outro  o caminho verdadeiro.&lt;br /&gt;Acreditei cegamente, à maneira de aldeão, que não disserta nem tão pouco reflecte e aceita logo,de olhos fechados, o que lhe dão por bom.  Sendo assim, é logo de prever o triste resultado! Solidão e vazio, revolta perpétua: eis, pois, em resumo, a soturna companhia que me tem rodeado!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-11-1971  Feata Natalícia      &lt;br /&gt; Os 44 anos da única irmã que vive desterrada, em solo angolano! Quem me dera estar perto, neste dia assinalado! Infelizmente, porém, a vida é traiçoeira e com praz-se amiúde em  dar a beber um cális de fel! Um aniversário, vivido em família! Algo de sagrado e até inesquecível, de modo especial entre pais e irmãos! Que tristeza, porém, quando o mar se interpõe ou o Continente se ergue em barreira! Viver assim, à distância é ser sede e não beber, havendo água cristalina, abundante, correntia! &lt;br /&gt;Como sofro, neste dia, em que as almas se aproximam, tendo embora de manter-se, a distância infinita! O que penso e não digo! O que sinto e não revelo! O que desejo e não alcanço! Que força é esta que nos mantém separados?! Que destino ingrato acorrentou nossas vidas, para todo o sempre?! Poderá existir, neste mundo habitado, algo superior à nossa vontade, ou a ela contrário?! Haverá, por ventura, realidade tão cruel, que se erga ameaçadora, contra irmão e irmã?! Jamais para mantê-los assim afastados?!&lt;br /&gt;Existe aí no mundo, por mais grave que seja, alguma realidade que me empolgue e devore, sem visos de piedade?! A quem votei o meu ser ou dele fiz doação?! Só a Deus e mais ninguém! Por que temos, sem razão, motivos banais, que reputo, sem demora, causas infundadas, néscias e loucas?!&lt;br /&gt; Espectros maus, retirai-vos para longe, que este dia é venerando! Deixai rezar a minha alma devota, para obter da Providência vida longa e venturosa, que não torture, mas antes sorria, à  querida irmã!&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 28-11-1971  O Maior dos Horrores!&lt;br /&gt; Voltará Jesus ao mundo, para chamá-lo, uma vez mais?! Impõe-se ainda violenta Paixão, a fim de resgatar o homem perdido?! Que loucura é esta que tanto surpreende e logo assusta?! Que desatino campeia, neste mundo venal?! Que é que desdourou a pobre Humanidade, com seus actos vilãos?! Em viragem como esta, ninguém já se entende! O contraste parece lei; o absurdo figura preceito; a hediondez um grande anseio! Sinceramente confesso: não entendo ninguém, a começar de cima!&lt;br /&gt;Já não têm prestígio! Acabou até a própria autoridade: lavra a rebelião! Para onde caminhamos?! Pede-se orientação: ficamos à espera! Apontam-se anomalias: encolhem os ombros! Após isto, o caos! Remédio nos homens é coisa que não vejo! A corrupção abastardou, por certo, há longo tempo já, o carácter volúvel desta geração. Quando isto é um facto, nada se espera!&lt;br /&gt;Compreende-se lá que agora se ache bom o que dantes era mau?! Admitimos, por ventura, que certos reformadores, feitos à pressa, ergam solícitos o pendão da revolta, só para destruir?! Que esperam eles?! Que nos deram, em troca?! Demolir é fácil. Construir é mais difícil! Também eu quero reformas, algumas das quais são bem desejadas, mas não quero destruir, ao menos em globo, o património sagrado que vem já do princípio. De modo nenhum!&lt;br /&gt;Sobre o dorso do passado, limadas que sejam as arestas picantes, eu desejo, sem dúvida, estruturar o porvir.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-11-1971&lt;br /&gt; Enreda-me os passos a folhagem da rua. Como é eloquente essa dança arrítmica! Tem ela princípio, mas não finda jamais! Folhas desmaiadas, em lenta agonia, de palidez mortal! Algumas enrugadas, outras já desfeitas, surgem na via, remoinhando agressivas! Vão na minha frente, arrepiam caminho para seguir à direita e logo pela esquerda! Que fado é este da folhagem sem tino, que não sabe o que quer nem para onde vai?! Ficassem na planta, nutrindo-a de seiva! Não Tínhamos agora o quadro angustiante!&lt;br /&gt;Mas não! O seu destino é cair, desprendendo-se da vida, para morrer em breve. Redemoinham e param, voltando em seguida, a pôr-se logo em marcha; cobram alento e, às vezes, amortecem, embaraçando os meus passos. Folhas já mortas, que fazeis por aí, revoluteando sem rumo definido?! Sois a imagem da vida, que breve se afastou do seu Criador. Doidejamos loucamente, na mira da ventura, julgando encontrá-la, onde nunca fez as sento. Triste sorte, afinal, em que nos vemos lançados, buscando nossa dita, longe e fora do Senhor! À margem d’Ele, só pecados e loucuras, estonteamento!&lt;br /&gt;Se quisermos ser felizes, vamos já sem demora, ao encontro do Pai.  Procuremos o Norte, onde Cristo nos espera.&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38 H  CONT.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-12-1971 À Volta da Igreja&lt;br /&gt; O desaterro do templo velho, em Vide- Entre-Vinhas, chamou a atenção. Passei por lá e quis observar, com os meus olhos. Catarpil gigantesco armado na frente de grande embocadura, recolhia vorazmente os pedaços arrancados. Para tanto, cravava os dentes no saibro remexido, havia longos anos. À segunda vez, enchia o camião. Dava gosto olhá-lo! Os seus movimentos eram quase humanos! Avanço e recuo, arranque e paragem tudo executava, com aprumo e valentia! Se acaso falasse, teríamos então o cume da maravilha.&lt;br /&gt;Ao passo que o fitava, cheio de interesse, seguindo-lhe os movimentos, deparava-se ali, a um metro ou coisa do nível do terreno, emergindo da terra, um osso enorme que parecia um fémur. Belo achado para mim! Estremeci por ele, embora inanimado, e lamentei condoído, que se mexesse, por algum modo, no campo dos mortos. Nem após a vida nos deixam repousar! Dentro em breve, os dentes do engenho se vão ali cravar, qual iguaria, apanhada com ânsia  e logo devorada! Que importa?! Já não sente!&lt;br /&gt;Seja embora! Sinto eu por ele! A quem pertenceu aquela relíquia?! A pessoa de família, conhecidos ou amigos?!&lt;br /&gt; A cada impulso do motor potente, o osso estremecia, já meio pendurado e prestes a cair. Tive enorme receio de que então se magoasse. È que ele alvoroçava-se, devido à insistência do potente engenho! Logo ao lado, em pequeno cesto, jaziam inertes, caveiras  carcomidas, desafiando ali a minha curiosidade. A quem pertenceriam?!  Ainda quis saber qual a sua rigidez, mas esboroavam-se, qual barro desfeito e sem coesão!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-12-1971  Uma Visita   &lt;br /&gt; Foi há dias já, mas o facto não esquece. O Manuel Mendes, natural de Salgueirais, encontra-se internado, razão pela qual rumámos ao Sanatório, para o saudarmos. Aquilo só visto! Já lá fora uma vez, mas sem atenção! Desta feita, porém, assentei mais um pouco, observando melhor. Almas e corpos, ambiente, que nos gela, não obstante, já se vê, o aquecimento que baste!&lt;br /&gt;Para quê estranhar?! Não é a Guarda aquela cidade altiva e fria, que o mundo conhece?! Por outro lado, o bacilo de Kook não se desenvolve, a temperaturas, assim tão baixas, caso sejam constantes. E m tal ambiente, definha e morre! Quem quiser não se abeire! Mas o caso  era outro! Encontrando-se ali um velho amigo, o Mendes da viola, impunha o dever ir-lhe ao encontro. Por isso, avisados, já de ante mão, sobre a hora disponível, lá nos dirigimos ao Serviço 3, às 12 e 30.&lt;br /&gt; Caras novas e pasmadas a transpirar aflição, começaram a chegar, A palidez e a mesma ansiedade iam já traçando, nos rostos definhados, os sinais claros da fria morte. Entre os demais, lá surgiu o nosso amigo. Vinha sorridente, procurando ser como era noutro tempo. Mas um homem doente e, para mais, incerto do futuro, com os filhos a estudar, não consegue transmudar-se. As rugas fundas mostravam-no bem. Ia já melhor, esperando curar-se, mas voltaria a ser o que fora, no passado?!&lt;br /&gt;As brancas adensam-se, ao alto e de lado, mas a sua viola é que não falta ali. É um derivativo! Meio excelente, para esquecer! &lt;br /&gt;Manteigas  \\ 6-12-1971&lt;br /&gt; Tempo lastimoso, em que tudo nega, com descaro tal, que põe estremeções, em peitos serenos, causando arrepios! Se tudo cai, pergunto eu: que é o que fica?! Poderemos negar o que é evidente?! Acaso será lícito alguém pôr em dúvida o que as gentes creram, ao longo dos séculos?! Nada aí haverá, por mais sagrado, que seja inviolável?! Que ousadia furiosa levou alguns teólogos a contestar, insensatos, o que deve ser aceito como indiscutível?! É mais que loucura! Direi até que se trata de satanismo!&lt;br /&gt; Ensandeceu este homem que o Senhor criou, a fim de O louvar?! Criou-se ele a si mesmo?! Pobre taranta, que hoje existe, sim, e amanhã já não! Que poder tem ele, para dizer disparates?! Entre eles todos, ocorrem-me agora: “Jesus Cristo não ressuscitou. A ideia tão viva que deixara nos discípulos é que era responsável por esse caso irreal: apresentava-lho como estando vivo”&lt;br /&gt; E há tamanha ousadia, para contestar, em plena luz, o que foi incontestado e aceito como certo, ao longo de 20 séculos?!  Isto a partir do próprio tempo, em que o facto se deu! Nem o mesmo S. Paulo nem as aparições de Cristo ressuscitado a tantas pessoas, umas vezes em grupos, outras ainda individualmente ?! Se, na verdade, não foi contestado, no tempo inicial, como se atrevem agora, após tantas gerações?!&lt;br /&gt;Outro disparate, que é o número 2:”Jesus Cristo não foi gerado por influència divina mas sim por um homem” Sendo a Escritura assim tão clara, como é possível afirmar tais coisas?! Não disse a virgem:”Se eu não conheço varão?! “Negando uma coisa, nega-se tudo! Esses teólogos mereciam cautério! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-12-1971&lt;br /&gt; Era um jovem prendado, com futuro promissor. De voz maravilhosa, equilibrado e sensato, um dia chegou que lhe pôs entraves na vida corrente. Não conheço bem o caso. Sei unicamente que ele foi vítima de grande injustiça. Trabalhava, em S. Romão, onde teve desaires,  se  não mesmo ultrajes, que a fundo o magoaram. Por fim, veio então o pior! Obrigado a sair, deu logo em pensar, redundando em cisma.&lt;br /&gt;Reflectiu, meditou e ardeu em paixão. Novo rumo lje surge, que o seduz e empolga, e a sua personalidade transforma-se em extremo, de um momento para o outro. Adeus equilíbrio, adeus sensatez e gosto do trabalho! Temos outro homem: intempestivo, a roçar já pela grosseria! Ninguém o reconhece! Mal-humorado, sempre receoso e sumamente altivo, é agora antipático. A quem o vê figura-se enfermo que lavra, em toda a parte a suspeita amarga! Em cada homem, vê ele o demo em carne, interpretando seu proceder qual manobra insidiosa, para ajudá-lo a perder. Vem, por fim, o vício terrível!&lt;br /&gt;Levado então por forte desânimo, crendo-se também desamparado e em extremo sujeito a injustiças, dá-se à bebida que o domina inteiramente. Emborca diariamente um garrafão de 5 litros! Como é triste e lamentoso o destino humano! Se a cabeça não regula!...&lt;br /&gt; Inútil e mal visto, foi para o Brasil, onde se encontra, â data presente!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-12-1971  “Esteve já no Limoeiro”&lt;br /&gt; Esta frase terrível soou, no momento, qual dobre a finados! A Penitenciária – assim ceio eu – espera, de facto, os grandes criminosos! Como foi possível a um cokega me, que possuía dotes assaz invejáveis, ir ali parar! O próprio ouro também se altera, e a prata reluzente perde o seu brilho?! Sumo desatino foi aquele, por certo! Rematada loucura fez perder a cabeça a quem a tinha organizada! Mas não! Algo houve de mau que lhe transtornou a maneira de viver. &lt;br /&gt; Pede aqui, pede além, mas volta não há! O caso triste dá que falar, e os seus credores ficaram de pé atrás… desconfiados e até perigosos! Como seria, no entanto, o começo da tragédia?! Herdara uma quinta, onde em pouco tempo investiu capitais, na mira de transformá-la.&lt;br /&gt; Havendo esgotado os recursos próprios, recorreu em seguida a conhecidos e amigos, com o fim oculto de não restituir. (?) Seria assim, logo de início?!  Custa-me crê-lo, em boa verdade. Onde estão os princípios de honra, gravados a fogo na alma de alguém?!Onde também a sua consciência, meticulosa, talvez, a qual dificilmente renuncia aos hábitos de longa data?! Caiu tudo, num momento?! Julgo que não! Um abismo chama outro. Veio talvez a primeira conjuntura, em que não pôde cumprir, pelo mero facto de haver consumido o que não era seu! Impossibilitado, afez-se ao desaire, havendo por habitual o que fora episódico.&lt;br /&gt;Criara-se, pois, uma situação bastante delicada, que o poria, mais tarde, no plano inclinado. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-12-\971&lt;br /&gt; Após um feriado, vou novamente, a caminho do Externato. Há que trabalhar e fazê-lo com afinco, pois a fome é negra e o dever constante não admite infracções. Que eu gosto do trabalho, afigurando-se até como indesejável uma vida sem cuidados. Lombeira igual à que vejo tantas vezes, não dá para mim! Ao chegar ao Colégio, depara-se logo um Fiat 800 , cuja cor é verde. Já o vira muitas vezes, mas sem observá-lo, de meu vagar. Hoje, porém, foi com outros olhos! Eu era o mesmo, e o carro também., mas havia em mim um quê de novidade, que o punha diferente! Ficara ali aguardando, com ar submisso. Não ia desanimar: ao fim de 1 hora, o senhor Pelicano estaria de volta.&lt;br /&gt; A chefia da Câmara não lhe permitia descansar longamente. Olho, pois, à minha roda e acho-lhe graça! A traseira da viatura voltada para o Colégio esperava decerto a chegada breve do seu proprietário. Outros veículos se encontravam ali, que eu observei, cheio de curiosidade. Nenhum tomou, porém, o sentido prático. Fazendo caras ao nosso Externato, assim ficavam, durante uma hora, se não 3 ou 4. O Fiat é que não! &lt;br /&gt;Prontinho a marchar, com ares de quem aguarda, inquieto e preparado! Meditei no caso e logo deduzi que o actual Secretário e professor do Colégio é pessoa metódica. Um simples gesto, mera atitude lodo fazem luz, nos caminhos dos homens. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-12—1971&lt;br /&gt; Cravou-se em meu peito e não posso arrancá-lo! É um espinho acerado, harto pungente, diria lancinante! Por mais que eu tente, não há força, aí que o desarreigue ao produzir no seio a desolação e a morte! Partiu, de vez e eu não soube! Infortúnio foi este que assaz lamento e harto  deploro! Disseram que morreu! Será verdade, meu Deus?! Fiquei mais pobre que dantes era, pois agora soçobro, ao longo da via. Falta-me o apoio que há muito recebia, do seu grande afecto. &lt;br /&gt;Doutor Evaristo Franco, meu primo e bom amigo! Médico exemplar! Escritor exímio! Por que não disseste que partirias breve?! Não sabias por ventura, que ficava angustiado, chorando amargamente, na na dura solidão da minha alma enlutada?! Que me vale agora prantear a tua morte? Se ouvisses meus ais! Mas aih!  Os teus olhos fulgurantes, e o coração de bondade são pasto dos vermes, pois jazes no sepulcro!&lt;br /&gt; Como neste mundo passa ligeiro aquilo que é bom! Vitimou-te esse cancro! Bem podia poupar-te! Eras, na verdade, o encanto da vida para quantos se abeiravam da tua pessoa, humana e radiante! Disseste-me um dia, querendo eu pagar-te a grande maçada,  por causa do meu estômago: “Paga lá em cima” e apontavas para o Céu!&lt;br /&gt;Que Deus te recompense de todo o bem que me fizeste! Rezarei por ti, com muita devoção, ao Senhor do Calvário! Foi vida trabalhosa a que levaste no mundo. Aliviaste a dor e escreveste a verdade; cultivaste a virtude e execraste  o vício. Agora, recebes o prémio!&lt;br /&gt;Amortalhado, pois, em imensa dor e minado pela saudade, venho dizer-te adeus e abraçar-te de longe! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-12-1971  Esperar                                                    &lt;br /&gt; Como é doloroso viver esperando! Mais ainda, por certo, se o nosso viver é já sem esperança! Parece disparate, mas tem fundamento, que a vida o ensina! Se ela, de facto, é mestra exemplar! Tenho esperança, afinal, mas não consigo realizá-la jamais! Torcido o meu destino?! Quem ousou atravessar-se, para lançar-me na cova fria, sem cumprir ainda os meus dias na Terra?! Que o Sol escureça e a luz não aclare! Sentir de outro modo, seria demência!  &lt;br /&gt;Amar a outrem igual que a mim, é já, na verdade, esforço heróico! Somente por Deus eu o  realizo. Mas querer-lhe mais reputo isso absurdo e até grosseiro. Contra a razão e o própri o bom senso iria realmente contra a justiça, calcando o meu ser e atingindo, ao mesmo tempo , na sua marcha louca, os princípios do equilíbrio.&lt;br /&gt; Esperei inconsciente que Deus  bondoso  me trouxesse à vida, o que foi um dom  para a minha pessoa; esperei, logo em seguida, que mão carinhosa se apiedasse de mim. o que foi concedido e bastante lisonjeia. Após este princípio, foi tudo, afinal, contra a esperança. Espero pelos outros e ninguém o faz por mim; aguardo a sua chegada , mas ningu«em, realmente,  se  ocupa da minha.&lt;br /&gt; Deparam-se rosas no caminho dos outros; : o meu, por«em, apresenta só espinhos, Esperei, embalado, realizar um sonho, mas torceram-me o plano e fiquei logrado..Só me resta uma esperança que, afinal de contas, é mais importante que  a própria vida: ganhar o Para&lt;br /&gt;isso. Neste pobre mundo foi tudo um engano ou quase tudo, Se, ao menos,  realizasse a última esperança! Que Deus me ajude e ponha energia nos meus intentos! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-12-1971  Semana de Notas&lt;br /&gt;Semana de trabalho e longas canseiras! Acabei agora essa dura tarefa Pontos nas aulas, serões em casa, apuramento de notas, previsão de insucessos, esperanças mal fundadas! Perde-se a coragem, vendo tais provas! Para quê ralar-me eu tanto, perante o desinteresse, que apresenta, de facto, o jovem de hoje?! Se eles não querem, pode rei acaso levá-los a querer?! Impossível! Ainda se riem da minha pessoa! Vale mais atar as mãos e partir de vez! Efectivamente, já o teria feito, se a minha reforma fosse maior!&lt;br /&gt;Assim, tenho-me aguentado, com o fim de avolumar essa magra ração que o Céu me depara, volvidos que sejam tantos anos de labor e bem assim tantas horas de estudo.  &lt;br /&gt;Já vêm chegando as férias de Natal. Foram belas no passado! Espécie de sortilégio, verdadeiro encanto, para a minha alma, em extremo ardente, juvenil, apaixonada! Possuía, nessa altura, os queridos paizinhos, cujo rosto adorado era feito de meiguice, que apagava males fundos. Finaram-se já! Outras fortes raízes me faltaram igualmente. Hoje, estou desfalcado, vendo o meu ser em ruína total! Férias para mim!...&lt;br /&gt;Só descanso leve, para o corpo se manter. O meu espírito vai continuar deveras perturbado, inquieto e ferido, meditando a cada passo, na insegurança da vida presente e na doblez do homem actual!Princípios de honra, palavra dada, compromisso tomado, é fantochada! Não posso adaptar-me a estes enganos! Desenraizado como vivo já, da prezada família, também  o estou  da sociedade. No entanto, há excepções! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-12-1971   “O Meu Menino “         &lt;br /&gt;  Quem é o meu menino! Fiz esta pergunta, achando estranheza, pois estava à margem das circunstâncias, atinentes ao caso. “ O meu menino é meu pai, a quem eu trato e acarinho como se fora criança.”Dizendo isto, o padre Luís Leitão abriu enormemente seus olhos rasgados, enquanto dos lábios lhe voava um sorriso, assaz encantador, reflexo evidente duma alma generosa. &lt;br /&gt;Pela graça do caso, pus-me a olhar, à volta de mim., tentando ver alguém, já um tanto idoso. A princípio, nada consegui. Estaria entrevado?! Pobre velhinho! A curiosidade instigou-me a fundo e então fiz perguntas, com bastante ansiedade. Quantos anos já tem o seu querido menino?! “ Nada menos que 88!”&lt;br /&gt;Dizendo isto, apontava dois leitos, dispostos no mesmo plano. Lado a lado, bastante próximos, como foram as vidas e o bom entendimento.&lt;br /&gt; Desejei, naquela hora, possuir ainda o meu paizinho, que a morte arrebatou, já lá vão 19 anos! E, no entanto, era mais novo. Fiquei sem ele, há tanto já! Mas, afinal, para que estou a lembrar-me, sabendo que me acabrunham pensamentos assim?! Procuro então dissipar breve esta ideia funesta, entregando-me à pesquisa, até que por fim, descubro ali perto, à sombra de uma árvore, o ridente patriarca. O filho bateu palmas, na mira certeira de chamar-lhe a atenção. Não fez inutilmente, pois o bom velhinho ergueu-se logo, procurando a bengala, sua amiga, há longotempo. &lt;br /&gt;Lá vinha ele, com passo meúdo e faces risonhas. Avanço eu logo, para o saudar! Sua boca hiante é feita de sorriso Sua alma bela nada em ventura. Senti-me diferente e preso de tal modo que não queria partir!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-12-1971&lt;br /&gt;  Tive sempre amigos cuja cifra foi exígua. À medida exacta que passa o tempo, esse número reduz-se. Motivo? Uns vão morrendo; outros, porque a velhice é de si egoísta e assaz desconfiada, não fogem à regra. Quanto mais conheço os homens, tanto mais os desamo.  Avultam os defeitos, surgem misérias, notam-se manchas e aparecem fraquezas. A idade, sempre desconfiada, prende-se ao útil, como ainda ao prático, levando, pois, à fuga imediata do que é abstracto ou imaginário. De cantigas não se vive! Interessa, pois, a realidade pura, o  utilitarismo, a concretização!&lt;br /&gt;Mesmo em tempos de criança ou ainda mais tarde, na mocidade, jamais revelei, fosse a quem fosse, os mais íntimos segredos. Fui em todo o tempo, um rochedo impenetrável, permanecendo fechado. Isto é mau, no campo educativo. e péssimo também na escolha do rumo que há-de tomar-se. Abrindo a alma a pessoa sensata, ela pode ajudar-nos a solucionar os problemas graves, evitando assim escolha desacertada e caminhos espinhosos. No entanto, cada um é como é! Nada, pois, acrescentar-se! Ensimesmado e orgulhoso, preferi emudecer, para não ser enganado ou sofrer humilhação.&lt;br /&gt;Atravessei, depois, o tempo de Internato, e o meu estado conservou-se o mesmo. Fortaleza inexpugnável, debrucei-me sobre mim, sem ater-me a ninguém. Quem soube, alguma vez os meus íntimos segredos?! A quem os revelei?! Um erro cometi: deixar-me guiar, de maneira cega. &lt;br /&gt; Só tu, Diário meu, tiveste essa dita: conhecer a fundo a minha alma torturada! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-12-1971   Impressões de Inglaterra &lt;br /&gt; Regressou há pouco e falou-me do assunto. Neves Fraga delira! Eloquente, ao expor, ele empolga  o  ouvinte porque vive o que afirma. Calculado em negócios, compara o seu viver com o de outros povos. Isto exactamente é que o fez deslumbrar e, ao mesmo tempo, desiludir também. A vida em Londres! Diz ele, a propósito: “Ganha-se muito e gasta-se pouco!” Fez uma pergunta a que eu, realmente, não estava habilitado, para responder.  “ Quanto pensa que ganha, na Inglaterra, um empregado sem curso?”&lt;br /&gt;Em que actividade? – inquiro diligente. “ Na Vauxall, por exemplo!” Eu sei lá! – gaguejeu eu, mal senhor do assunto! “ Repare bem: 2600$00, por cada semana! Não acha esplêndido?!”&lt;br /&gt;Com certeza! Ouro sobre azul! Ganharão muito, sim, mas se gastarem o que ganham, não encontro vantagem. “ Qual gastar muito, meu bom amigo?! A vida, lá, é mais barata do que entre nós! Um disco tipo-grande, em microgravação, custa lá 69#oo, que é exactamente o custo de um pequeno, aqui em Portugal!”&lt;br /&gt; Ia por diante, citando outros casos, em que a diferença é bastante sensível, quando gracejei: voltou da Inglaterra menos português! Engano-me?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  16-12-1971 Dobram os Sinos&lt;br /&gt; Aqui, em S.Pedro, vizinho como estou, recebo em pleno. os sons dolorosos. Que pungência magoada! Que dores profundas, ali estilizadas! A Natureza associa-se, ocultando para logo o Sol radioso e mostrando no semblante aspecto carregado. Dir-se-ia talvez plangência cônscia, em que tudo se harmoniza, para chorar e gemer! Alguém partiu que não volta mais! Viagem inquietante, para olhar sem temer! Fim desta vida: início da outra! Como eu te aborreço e, ao mesmo tempo, te desejo e quero! &lt;br /&gt;Repugnas, de facto, pois contrarias a minha natureza e o fazes sem brandura! Separar, neste mundo, corpos e almas, destruir com violência, o que Deus uniu, substancialmente, é labor ingrato! Há-de ser abalador esse golpe fatal que os vai separar! Por outro lado, acaba o sofrimento e vai-se a angústia, pois que, servindo a Deus, aqui na Terra, há prémio seguro, na outra vida. Deus é bom e, como tal, há-de olhar, certamente, para as nossas angústias, usando  de compaixão!&lt;br /&gt;Embora pequemos, se Ele vir realmente, um coração contrito e deveras humilhado, receber –nos-á, em seus braços carinhosos, que logo se abrem, mesmo de longe. Este dia sonolento. em que a grande obscuridade se assemelha à noite, recorda sem dúvida, outro mais terrível, em que o pai querido se foi de viagem, para não voltar. De pois de amanhã, cerram-se já 19 longos anos, que ouvi, desalentado, a notícia angustiadora desse golpe tremendo! &lt;br /&gt;Afigura-se eterno este lapso de tempo, que seguiu a sua morte! Quem me dera vê-lo, ao menos de relance, mas isto, a rigor, não passa de sonho, que estou acordado! Só a morte, na verdade, abrirá suas portas, que franqueiam a passagem!&lt;br /&gt; Bendita seja ela! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-12-\971&lt;br /&gt; Chegou a seu termo o período lectivo, acabando assim a realização dum grave intento, que já perdeu interesse. Isto, afinal, só por alcançado. Anseio, desejo, vontade e não sei que mais, vêm de quê?! Quem algo deseja é que tem um objectivo, mas eu realmente não tenho nenhum ou melhor, desejo, sim, que tudo acabe, para acabar também! &lt;br /&gt;Lutaria pela vida, se ela fosse risonha, mas, ainda assim, estou preso a ela. Entretanto, nada oferece, no momento presente nem espero obter seja o que for. Passou o tempo fugaz, escoouse-me a vida e aproxima-se breve a fase derradeira. Melhor diria, talvez, afirmando agora que jamais comecei. Aquilo que finda teve princípio e todo o fim implica início. &lt;br /&gt; Eu, porém, de olhos velados por imensa tristeza, nunca vi com eles nem pensei alguma vez com a minha cabeça! Fui impedido, quase manietado, logo em criança, mercê de conselhos e hábeis sugestões, que então se faziam a minha santa mãe. Ela foi vítima e eu também, de puritanismo, que nos fez a vida bastante amargurada. Orgulhosa e crente, receando, a valer, cair no Inferno, infiltrou na sua vida como na minha, o ideal que recebera. &lt;br /&gt;Não foi crime, não, o que ela ideou. Não é tal servir a Deus! Entretanto, foi escravizantea maneira de pensar como de agir que devia ser outra! A vida é bela, porque o próprio Deus a tornou assim.Por que é que então a fazemos pesada e tão insuportável?! Por que é que lutamos ingloriamente, contra o amor, se domina a vida e a torna risonha?! Nãoé ele, afinal, criação de Deus?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-12- 1971 &lt;br /&gt; Dezanove anos se escoaram já. Em 1952, encontrando-me em Pinhel dava Português ao 3ºano, quando inesperadamente ouço o apelo frenético do nosso telefone. Importava isso algo especial?! Tantas vezes eu o ouvir! Indiferente, pois, continuo expondo, mas em breve tempo, ouço passos agitados. Alguém se encaminha, apressado e nervoso, à sala de aula. Suspendo logo a respiração, porque aguardo um sinal, bem leve que seja, no exterior da porta.&lt;br /&gt;Assim acontece. Encaro na pessoa e meço-a de alto abaixo, estremecendo todo. Não sei o que é, mas adivinho que algo de sério está ocorrendo. Irrompem a custo as primeiras palavras, que saem de lábios quase trementes, onde a emoção transparece já.  E u, por minha parte estremeço também, com forte arrepio a sacudir-me o corpo violentamente de lés a lés. &lt;br /&gt;Não capto bem os sons produzidos, É tudo confuso. Vista e ouvido não acertam no objecto! O quê?! – pergunto eu logo, quase aterrado, se não aturdido, como se o mundo  estivesse a acabar! “ Seu pai está a morrer! Vá pressuroso a Vide-Entre-Vinhas”&lt;br /&gt;Como se um raio viesse fulminar-me, da cabeça aos pés, estremeço e choro, e todo o meu ser entra em convulsão. Não posso andar! As pernas recusam-se, ignorando tal facto! e a vida para mim, perde logo o seu brilho! Meu pai a morrer! Ia realmente ficar sem ele?! Haveria poder que tal fizesse?! Não era ele meu?! Vira morrer outros, mas julgava eu que a meu santo pai jamais tocaria! D esde aquela hora, nunca mais lhe falei!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-12-1971  Natal!&lt;br /&gt;Férias de Natal? Mas, na verdade, que são elas para mim? Um simples elo, a vincular o passado ao negro porvir! Se não tenho nada que me prenda à vida, que posso realmente encontrar-lhe de belo?! Estou farto de viver e, a cada passo em frente, recresce o meu enjoo. A mim a ida saciou-me de tédio e encheu de náusea a alma atribulada.  Sou pobre de amigos e rico de amargura! Quem espera por mim, no labirinto da vida?! Ninguém!&lt;br /&gt;Caminho só, curtindo as mágoas e, se não fosse o Diário, nem desabafava! És tu que me vales, amigo fiel e assaz dedicado, a que sou devedor de inúmeros favores! Levaram-me tudo o que eu deveras amava! Removeram do meu caminho o que pudesse alegrar-me! Houve, de facto, estre la funesta, presidindo sempre à minha existência. Deus do Céu não criou s vida para ser tortura. Ele é bom e clemente: fez homem e mulher, dando filhos a ambos, para neles se reverem, prolongando-se no tempo.&lt;br /&gt;Além disso que era muito já, concedeu a liberdade, para que todos os seres pudessem realizar-se, a gosto próprio. Na minha vida, porém, jamais deu brilho essa luz divinal! Em treva constante andei sempre envolvido: não espero já Sol Desprevenido, entardeceu, no meu horizonte e, havendo finalizado esse longo sono, já não tinha remédio! Os dias belos passaram e as oportunidades, por modo igual!&lt;br /&gt;Roubaram, afinal, quanto havia de meu, torcendo-me o destino! Levaram-me a abraçar o que nunca amei. Resta-me agora uma só esperança: já que sou infeliz, cá neste mundo, Deus me conceda a glória eterna, para desforrar-me de tanta amargura!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-12- 1971&lt;br /&gt; Aproxima-se o Natal. Festa bem linda, assaz comovente. em que todos se reúnem, à volta do lar! Em belo conjunto, velhos e novos, o p assado e o presente, o porvir e seu cortejo, tudo se acalora, ao fogo da lareira! Os mais novinhos são fagueira esperança; os outros, saudade! Que misto saudoso e que doce harmonia, a percorrer então a bela árvore! Aguardam-na as crianças, com alvoroço, deveras incontido; esperam-na igualmente os próprios velhinhos, com grande emoção!&lt;br /&gt;Todos eles, por motivo diferente, andam inquietos e deveras agitados! Festa da famíla! Reunião tão esperada! Aconchego tão humano! Emoção tão profunda! Vêm de longe e chegam de perto! Acabam ódios e cessam discórdias! Olvidam-se afrontas, lembrando só a bela amizade, vencendo apenas o risonho amor! Lá vão eles caminhando! Uns de avião; outros de carro; este, de barco; outros, a pé! Segundo as circunstâncias, todos se abeiram, levando na fronte o riso da esperança!&lt;br /&gt;Há quem espere, ao longo da existência, a chegada de alguém! Os peitos alvoroçam-se, vibram as almas, todas em coro! Esperam uns; aguardam outros! Enquanto isto passa,a vida toma cor e o entusiasmo vem reinar também! Há motivo de esperança, bons sinais de alegria. “ Paz na Terra aos homens de boa vontade” Só quem a não quer é que a não terá! &lt;br /&gt;Eu queria-a também, mas a rigor, não sinto alento nem vejo caminho, para estreitá-la nos braços trementes. Jesus Menino, tem pena de mim! És tão bonzinho! Faz, desde já, que brilhe este Natal em minha alma, assim atribulada! Que a tua luz a inunde, para afastar de mim a treva que me envolve!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-12-\971&lt;br /&gt; Espreitando acaso, da vlha janela, enxergo na rua dois vultos humanos transportando caldeiros, talvez com vianda. Mãe à frente, encurvada pelo peso, e filha atrás., ostentando valentia, no corpo direito. Tenho para mim que seguem as duas o mesmo rumo, participando, naturalmente em acção comum. Alheado como ando, não advirto logo. O nevoeiro denso que a todos envolve, e a humidade crescente, molesta e constante, impedem os olhos de prontificar-se, influenciando, às vezes, a própria inteligência. Mas é ali tão perto, em frente da janela, que só cortando-se à faca, o nevoeiro impediria. &lt;br /&gt;A senhora Amélia vai açodada, não obstante o fardo, pesado e molesto. Ao vê-las caminhar, , dobrando a esquina, em ar de pressa, um mundo risonho se ergueu  do passado, começando logo a tomar vulto e cor. Que traço haverá, pois, entre o facto presente, modesto e incolor, e esse mundo distante, em que mal já diviso os próprios contornos?! Há muito, decerto, embora não pareça! Mulher assim também, por igual ocasião, trabalhava diligente na ceva do suíno. Farinhas e farelos, batatas e milho, quanto o bicho quisesse!&lt;br /&gt;E porquê tudo aquilo? Esperava alguém que era muito seu, e essa ideia brilhante enchia-lhe a alma de luz em caudais! Viriam em breve as férias desejadas, apreciando eu, por essa altura, os bons nacos de carne e deliciando o gosto com tais iguarias. Isto só, bastava, dando-lhe  incentivo, para levar com alma os trabalhos da vida. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-12-1971&lt;br /&gt; Fazendo o meu Diário, em manhã de nevoeiro, ofereceu-se à vista, sem que eu a procurasse, uma aranha enorme. Impressionaram-me os “braços”, enormes e encurvados! Muito embora, nas aulas eu falasse de aranhas, o caso agora é muito diferente. Abstracto e concreto, sonho e realidade. Pis na velha casa, ali em S.Pedro,, melhor direi, residência paroquial, moro eu com aranhas, r atazanas e ratos!&lt;br /&gt;É um mal, direis vós, que sendo o homem gregário, ama desde logo a presença de alguém e demanda-a incansável. Mas eu? Estou só, porque há férias. Os alunos partiram, e o Vigário de  S. Pedro já mora no C entro. É outra coisa! Edifício confortável companhia a toda a hora e auxílio pronto, caso seja necessário. Aqui, porém, é tudo ao invés. Mas, se não há realmente presença humana, também não faltam outros seres vivos. Em razão de estar só, quase aprecio  estas presenças. Refiro-me, é claro, aos seres brutos. Desta vez, porém, abri larga excepção! Odeio violências e detesto, por igual, perseguição. Não me cabe na alma a vil tirania nem sequer um olhar de benevolência para o despotismo! Todo eu me arrepio, à simples ideia que me lembre tais coisas!&lt;br /&gt;Mas aquela aranha representa para mim a vida e a morte, a cruel traição e a vil perfídia, o embuste e o perigo! Aguarda ali, matreiramente, que insectos inocentes passem descuidados, para logo agir, dando largas prontas à voracidade. &lt;br /&gt;Manteigas  \\ 25-12-1971  Natal!&lt;br /&gt; E Natal, diz o sino, repicando festivo! Se olho à minha volta, nada vejo que não cante. Aleluia! Natal! Esta palavra nunca a entendi!! Melhor diria, talvez que nunca foi Natal, no meu coração! Antes de” abrir os olhos”, era Natal, mas sem o saber: tudo ia manso, pela via da existência. Amor e carinho constituíam a moldura, cujo centro era eu. Embalado e feliz, avancei então pelos caminhos da vida, não pensando talvez, ao gizar o meu rumo. Segui, ao longo deles, sempre acorrentado a preceitos familiares, acordando maniqueu, que se preza e honra. Realidade e paixões só mais tarde se impuseram: nascer em aldeia, é triste condição!&lt;br /&gt;“ Abri, pois, os olhos”, já tardiamente, após o Sol-posto. Para que servem eles, se a luz feneceu?! São bons para quê?! Quase puritano que não preza outras vias, como se, naverdade, o homem fosse um Anjo, que vota seu corpo ao máximo desprezo!&lt;br /&gt;Infelizmente, porém, a realidade é outra, já que pesa assustadora sobre a pobre natureza. Fácil é, com certeza, embalar uma criança e levá-la crer em tudo o que é belo, ao nosso olhar! A ingenuidade, em casos destes, é boa de explorar, transformando o ser vivo em pessoa que o não é! Disponível e dócil por maneira extrema, abdica de si próprio, até que um dia, em forte sobressalto, acorda então para a vida real!&lt;br /&gt; Foi assim que eu perdi o meu lindo Natal!&lt;br /&gt;Mant eigas  \\26-12-1971&lt;br /&gt; Fui eu que mudei ou seria o Natal? Como tudo é outro, na pobre aldeia! Aqui passei eu meus verdes anos, imerso em ternura, com que a vida é bela e se adorna a primor! Aguardava ansioso que chegasse esta quadra! Depois, vinham logo as Janeiras, com seus mil atractivos, Beijaria o Deus-Menino, a sorrir prazenteiro, julgando inocente que Ele se animava, no barro, mal vazado!&lt;br /&gt;Os meus olhitos fixavam longamente os olhinhos de barro, à espera de um volver que me certificasse. Suas faces coradinhas, os lábios de carmim, era tudo nesse tempo, o que podia encantar-me.Mil perguntas fazia, para saber, a rigor, quanto ainda faltava, para o Natal suspirado! Vinham breve as lembranças, que aguçavam o desejo, avultando entre todas a que jamais olvidei. Eram doces e bolos, filhós e bacalhau, e uma pinga fresquinha, que, neste dia, também não faltava!&lt;br /&gt; Ao canto da lareira, crepitavam as achas, entornando, à volta, bem-estar e ventura! E o tostão desejado para o Deus- Menino?! Onde e quando mo dariam?! Vêm sonhos rosados,, atrevidos expedientes, para que nada me faltasse, nesse dia abençoado!&lt;br /&gt;E o presépio mimoso, que se erguia em frente, de casinhas tão lindas, que ostentavam janelas?! Espreitava para dentro, mas ninguém aparecia! O meu Natal querido, rodando tempo e vida, foi perdendo a graça e desmaiando na cor!                                                                                                                                   &lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-12-\971&lt;br /&gt; Fazer castelos no ar! Grata diversão, muito embora saibamos que a base «e fraca! São horas de alegria, em que vivemos o sonho como sendo realidade! Quem nunca os fez não sabe em verdade, Quanto é bela ocupação! Que importa desiludir-se?! Que vai na logração?! Foi diferente o que então adveio?! Tudo são banalidades! Afinal, que sucede, neste mundo, igual ao que pensámos?! Geralmente, o que sucede é o invés do que esperamos! Nem por isso odiamos a fagueira esperança! &lt;br /&gt;Que momentos deleitosos, vividos a fundo, ao formar planos altos, acordes, já se vê, com o nosso eu Também eu fiz os meus! Se muitos falharam, caindo gorados, nem por isso descaio em desânimo! Formulo outros novos, que meu peito gerou, o coração alimenta e doura sem entraves a minha fantasia! rês anos mais, consagrados ao ensino, pedirei sem demora a minha reforma. Chegará ela a dois contos, ao menos?! Dificilmente irei alcançar o débil montante! Andarei então pelos 57! É já idade razoável, no tempo em questão!&lt;br /&gt; Optaria, claro está, por um cursito d línguas em explicações. Reconhecidas vantagens apresentam esses cursos; menos esforço, mais eficiência, melhor compensação! E o campo de trabalho?! Nova Lisboa, talvez, com derivação para Silva Porto. A vila do Chitembo fica dali perto. Visitaria, depois, minha irmã e família, cada fim-de-semana. Para as minhas férias, escolheria a Metrópole e os países estrangeiros&lt;br /&gt;Por volta dos 70, regressaria à Europa, finalizando na terra natal.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  30-12-1971&lt;br /&gt; Aproxima-se o fim. Dar seu balanço é tarefa habitual para todo aquele que se preza de sensato. Ora, se as coisas materiais mos ocupam deste modo, que dizer então de realidades, já espirituais?! Haverá aí balança que se meça também?! Intenção que se distinga?! Quanto mais supera esta vida mortal a que vem após o fim, maior garantia vem ela dar à nossa ventura. Por isso, tanto mais irá crescer o nosso interesse por tudo o que se prende com tais realidades.&lt;br /&gt;Eu creio em Deus e no seu poder; acredito ainda na sua bondade, amor e clemência, na sua justiça, inteiramente perfeita e também igualmente na sua paciência, Vejo bem claro e distingo sem erro que a minha alma é imortal, por suas aspirações, insatisfação, e muito mais ainda pelo que me ensina a Religião Católica. Sinto realmente a presença divina em todo o ser criado, pela técnica perfeita que deslumbra  a minha mente. &lt;br /&gt;Verifiquei, historicamente, que Jesus Cristo é o Filho de Deus, centro do Universo e ponto de convergência dos factos humanos. O mistério do Além está bem presente no meu pobre ser e actua sobre mim, levando a reflectir, com ponderação: não é por temor ou mero servilismo, sim por filial sentimento, relativamente a Deus, e com alegria que tudo agradece ao bondoso Senhor. Professo tais verdades que amo sinceramente. Se não tenho vivido, em toda a extensão, pesa-me disso e rogo indulgência para as minhas faltas.&lt;br /&gt; Que Deus me perdoe, acarinhe e abençoe, não obstante a leviandade que, tantas vezes, caracterizou o meu triste viver! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  31-12-1971&lt;br /&gt; Por alta mercê do Senhor Omnipotente, mais um ano passou, que me aproxlma do fim. Fim? Não digo bem:é grande princípio! Fim imediato da vida mortal!: início já da vida eterna! Entristecer-me com isso? Não cabe decerto no meu espírito. Com efeito, abeiro-me de Deus, fonte inexaurível de quanto é belo! Por outro lado, é-me grato sumamente ir assim ao encontro daqueles que amei. &lt;br /&gt;Eu sei, por experiência que tudo neste mundo gera saudade e, por isso é duro partir. O pôr do Sol é idílico, majestoso, direi quase augusto e sublime e, embora regresse, ao outro dia, o astro promissor é sempre nostálgica a sua partida. A separação! Quanto mais risonho e assaz prometedor não é realmente, o dealbar do novo dia?! A vida, porém, é feita assim! Que me pode ligar ao mundo em que vivo?! Os bens que ganhei?! Mas isso é matéria e, como tal, de segunda ordem.&lt;br /&gt;Amigos?! À medida que avanço, rareiam mais e mais e, tão poucos são eles, que julgo às vezes, haver só um! Eu, sim, não duvido! Portanto, embora pecador, ouso pedir ao Céu, em final de ano, que reserve, lá na Pátria, um lugar para mim. Agradeço penhorado todos os benefícios que tenho recebido e todos os favores que já concedeu, sem que eu merecesse! Louvo-O gostoso, por sua paciência, bondade e justiça! Peço perdão e ajuda segura, para o futuro, que me aguarda ainda!&lt;br /&gt;Se bem reparo, a quem amo, de raiz?! Após tanta desilusão, é somente a Ele! Aqui na Terra, ainda tenho laços, mas são reduzidos e de menor alcance! Por isso, meu Deus, concedei-me longa vida, se Vós achardes bem e for virtuosa. Assim ganharei outra, mais apetecível que a vida presente.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   &lt;br /&gt;   Amadora, 23 de Outubro de 2010&lt;br /&gt;   Pedro Inês da Fonseca, aos 92 anos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38  A&lt;br /&gt;Lisboa  \\  27-1-1980&lt;br /&gt;Um Dia aborrecido, incolor e sem luz! Não fora a gripe, talvez o meu estado em breve mudasse! Assim, no entanto, a cabeça a doer, o corpo sem vigor e o pesado silêncio a amachucar-me!... Sozinho neste andar, por ser domingo, vou logo meditando no vazio da existência. Não fosse o bom Deus valer-me sempre, em tanta abunbdância, com graças e favores, que seria de mim! Soubesse aproveitá-los! Em vez disso, que é que vejo?! Frieza extrema, desinteresse, abandono  e  prostração!  Este é o dia do Senhor: portanto, mais  sociável. Comigo, porém, dá-se o contrário .&lt;br /&gt;O  próprietário  encontra-se ,em Belém, junto dos seus ; a nossa empregada saiu ainda ontem, para  o  fim  de semana. Tudo junto e o mais deu em resultado ficar eu só, num terceiro andar, solitário e frio, na rua Silva Carvalho. Que me prende aqui?! Só as amarras que sempre me apertaram, continuando seu labor de espezinhar o meu ser! Terá muita graça chegar do trabalho, encontrando no frigo almoço gelado?! Eu que detesto gelados, agora no Inverno!  Até porque em verdade me fazem mal! Isto é a vida! Acho na geleira um frango assado arroz e sopa de couves. Há mais coisas ainda, não faltando pão, vinho fruta e queijo.&lt;br /&gt;Entretanto, como eu não faço rosto a pratos gelados, no tempo frio, sucede realmente que finjo comer! Também não faz mal, que no passado, engodei demais!  &lt;br /&gt;Lisboa  \\  28-1-1980  Casalinhos  &lt;br /&gt;Vejo-os amiúde ao longo das ruas, bem chegadinhos, irradiando ternura! Revelam interesse em tudo o que dizem., olhando-se às escâncaras , nos olhos sedentos! Quando Deus quer, vejo-os sentados; outras vezes, passeiam juntinhos; ainda outras, avisto-os recuados, em ângulos e sombras, para darem expressão ao mundo que sonham.  Eu, então, fixo esta gente com muita bondade, alta indulgência e muito apreço. Gosto a valer que seja feliz todo  ser humano. As fases da vida têm exigências que fazem na verdade o mundo mais belo. Ir contra isso é ficar incriminado, não havendo censura que baste para o facto!&lt;br /&gt;Estarei enganado?! Julgo que não! A quem assiste jus, de mutilar a  existência , negando fanático o que Deus outorgou?! O que eu aprovo, defendo e acarinho não é devassidão libertinagem! É amor sincero, fonte de enlevo, oásis se paz! Não teríamos, de facto um mundo melhor, a partir desta fonte,  que  o bom Deus criou?! Se escolhem livremente, estudando seu caso, durante o namoro, que mal vem ao mundo?! Sendo bons amigos e  dando  fartas provas, mina-se acaso a base social?!. &lt;br /&gt;Já vivem em comum seus vários problemas, encarando a existência com senso e realismo? Óptimo! Procuram bastar-se, demandando trabalho, para não ser pesados a seus pesados a seus progenitores? Não é belo o programa?! Estes  casalinhos, que  parecem  felizes  e tentam acertar uma união de amor , em que tudo sejam rosas e promessas jucundas, que podem sugerir-nos, vendo-os assim, com os olhos já fitos, no grande amanhã? Um caminho acetinado, em que o trilho seduz, uma senda venturosa , em que tudo nos encanta, uma face diferente de quantas hemos visto, falando bem alto a peitos amantes&lt;br /&gt;Como isto é bem outro do que vi florescer, em meus verdes anos! Seres truncados por falsas razões e mal entendidos! Onde a razão?! Casalinhos ditosos, prossegui no amor, dizendo segredos  e  fazendo  promessas! Não desçais a vilezas! Procedendo assim, não vos barro o caminho, pois tenho para mim que rumais à ventura!  Sejam vossos beijos de enlevo e ternura, amor ter e carinho! Jamais um ósculo a depor lascívia ! Sim, daqueles beijos que se entornam da alma, com viva fragrância, a perfumar a existência!&lt;br /&gt;Respeitai-vos sempre e aguardai o momento da suprema ventura, abençoada por Deus!  &lt;br /&gt;Lisboa  \\  29-1-1980&lt;br /&gt;Apinhado  e  lento vai o auto-carro, número25. Sentados alguns, outros de pé, lá se acomodam, a bem ou a mal! Este, paciente; aquele, agressivo! Um malcriado, outro, gentil! Sucede o mesmo todos os dias. Para quebrar a monotonia, uma senhora, harto  nervosa  expõe  desalinhada, factos e razões  que muito a afligem: seu filho está preso, sem causa para isso! Enquanto manifesta o que lhe vai na alma, estremece e agita-se, vibrando a fundo, por todo o ser. Move-se frenética, volteia a cabeça, agita os braços e grita amiúde. &lt;br /&gt;Os olhos de todos viram-se para ela, escutando a sério ou fingindo  simplesmente!Em fre nte, de pé, encontra-se alguém, que vai mais ou figura ser tal. Penso deste modo, porque de vez em quando, interrompe a senhora, a fim de contar mero incidente que nada interessa.  É um diálogo, sim, mas um tanto fingido: nem uma nem outra seguem razões, que não sejam as próprias. Salva a situação a paragem do eléctrico, em devida altura! Momento de alívio para os circunstantes!&lt;br /&gt;Quando tudo acabava, surge de improviso, um cheiro nauseabundo, que os velhos latinos  chamavam ’peditum’, e os Ingleses  de agora designam  por‘winds.’Viragem  completa!  Há no silêncio grave reprovação, voltando-se os olhos, com ar de reprovação, em todos os sentidos. Quem  Se fora apenas isso! Podia lá saber-se! Aguentar, sim, e cara alegre!&lt;br /&gt;A náusea sobrevém e, do mesmo passo, grande mal -estar! Assim foi o remate duma tarde molesta, em que todos sofremos, sem haver compensação! Integrei-me, pois, no sentir dos parceiros, mas só os olhos tiveram a palavra!&lt;br /&gt;Tarde brumosa, que trouxeste, em má hora, tão fétido cheiro!&lt;br /&gt;Lisboa  \\  30-1-1980   Beijos&lt;br /&gt; Atiram-se a esmo, pelas ruas de Lisboa, que olha encantada e cheia de interesse! É a mocidade que vibra e se enternece, ante o belo sonho que espera realizar! Ainda agora no eléctrico, onde tudo é prosaico, vislumbrei deslumbrado um caso de amor! A voz do rapaz, bastante comedida: a comparsa, porém, vinha hilariante, deixando extravazar monossílabos doces.&lt;br /&gt; No ambiente de tristeza, materialismo e fundo rancor, pareceu-me o casalinho um belo canteiro de flores odoríferas. Como eram brandas as falas trocadas Como então bailavam, inquietos e gulosos aqueles olhos donzéis! Como estremecia, no peito fechado os dis corações! E os lábios frementes?! Esses então agitavam-se em volúpia, tentando aproximar-se e roçar ao de leve.  Não eram certamente beijos caninos, encharcados e lodosos, à maneira exacta do Cacá brasileiro e Júlia Matos! Destes não gosto! Arrastam consigo carrdas sd lama, que sujam e conspurcam a leveza etérea do sentimento!&lt;br /&gt;Foram aqueles, sim, ósculos etéreos, rasando em magia, para ficar a impressão dum sonho alado , que vem até nós como pena de ave, tocando-nos branda, para logo fugir! Não será este o beijo ideal?! Para que servem então contactos delambidos, em que reina a carne e alta o espírito?! Que deixam após si esses beijos porcinos, também próprios dos símios?! Nada mais, nada menos que alta decepção! Sentido claro da insignificâncla! Arrastar de excrementos que mancham. à passagem, desfigurando a Terra e tornando-a prosaica!&lt;br /&gt;Acabem, pois, esses beijos sórdidos, em que só a carne, fervendo em volúpia, impera e comanda, no ser racional! &lt;br /&gt;Lisboa  \\  1-2-1980&lt;br /&gt; Levar quase 8 anos, em terra africana, sofrendo a inclemência do Sol abrasador, não pasa em vão. Sucedeu exactamente o que era de prever! Para mais, regressei ao país na quadra invernosa. Cá estou encerrado no quarto- frigor!ífico  de um 3º andar, na rua antiga de Silva Carvalho, 106.. A muito custo, ergui-me do leito, cerca das 13, para breves arranjos. Isto, afinal, apesar dos protestos da minha cabeça. Uma dor constante, aguda e molesta havia-me prostrado horas seguidas! Achava demais, para simples gripe! E não me enganava !&lt;br /&gt; O irradiador ficou responsável, tomando eu logo a feliz iniciativa de abrir as portas . Senti a mudança. O mal-estar deixou-me em breve. Tratava-se, ao que vi, de ar viciado. Um quarto exíguo, de portas cerradas, Para agravar, horas e horas queimando oxigénio, enquanto se libertava óxido de carbono! Foi assim! Tive disso a prova clara! &lt;br /&gt; No momento presente, estou já liberto, embora a gripe se mantenha ainda, com efeitos nefastos: um tanto de febre; falta de apetite; escassez de energia! É este o primeiro dia que não saio à rua, desde o meu regresso do Sudoeste Africano! E causa-me transtorno! Os hábitos de longe inserem-se na vida, tornando-se depois complemento dela.  Não há dúvida nenhuma que a nossa capital oferece motivos que fazem esquecer: o tráfego das vias; o bulir dos peões; o movimento, algo acelerado, nos transportes modernos; a reacção a encontrões, nos carros-laranja.&lt;br /&gt; Aqiu se prova realmente a nossa bondade e mansidão! Entalando uma pequena, pediu-lhe desculpa, ao que ela respondeu: Não faz mal! Foi muito gentil a bondosa menina! Além do trajo, temos ainda, para alívio pronto, as montras garridas, com dizeres sugestivos e harto originais. &lt;br /&gt;Entre tanto, o que mais encanta, nesta Lisboa, nos deleita o olhar e dá cor à existência, é, na verdade, o ar meigo e sonhador, generoso e etéreo dos grupos a dois! Haverá na capital, alguma coisa que possa ombrear ou de longe se aproxime?! São eles, com efeito, a primavera florida, cheia de promessas e amplo conforto, no coração deste longo Inverno, que me põe doente, inseguro e triste! &lt;br /&gt;Lisboa  \\  3-2-1980  Aos Cuspidores    &lt;br /&gt;  Jamais foi meu gosto ingerir-me, a qualquer título, na vida particular, fosse de quem fosse! Entretanto, casos se apresentam a fazer excepção. Tal é, a rigor, o dos cuspidores! As suas atitudes prejudicam o público. Logo, por isso, há razão de sobejo, para este se indignar, levantando protestos e exigindo medidas! Nesta ordem de ideias, haverá, por ventura, alguém no mundo, que se atreva e abalance a lançar um escarro, na face de outrem?! Não, dizem todos, em forte uníssono!  Entretanto, não é isso o que eu vejo!&lt;br /&gt; A face de Lisboa continua ainda a ser conspurcada! Que a linda cidade tem a sua face! Jardins e ruas, praças e parques, largas avenidas e airosas alamedas que são, afinal?! Se cuspis ali, fazei-lo exactamente na face da capital! Desacato e desdém, suprema ignomínia! Impudor sem nome! Quem escarraria na face duma jovem?! E haverá no mundo jovem mais louça, fresca e adorável que a nossa capital?! Não creio, não! É por isso, exactamente, que assim me horrorizam tamanhos desconchavos! &lt;br /&gt; Venho, pois, uma vez mais, rogar aos cuspidores e a certas cuspideiras que não transbordem!  Guardem  cautelosas  aquilo  que precisam, em questão de saliva! As glândulas salivares apenas elaboram , de harmonia com os gastos! No tocante a escarros, isso é mais grave! Puxem dos lenços e, se estes não chegarem, usem lençóis. Para que servem os ditos?! Para  estar encofrados?! Deixemo-nos  já  de  tanta pieguice e sejamos realistas! Se me disserem, porém, que já tudo fizeram, nas são incapazes de furtar as nossas ruas e bermas de passeios â javarda imundície, que polui e desonra , enveredo prestes noutro sentido!&lt;br /&gt; Aí fica a sugstão, à maneira de conselho: antes de sair para as ruas da cidade, preparai-vos em casa, de maneira eficiente: cuspi, a bel-prazer, na cozinha e na dispensa; escarrai até mais não, em roupas e móveis; salpicai as divisórias, muros e corredores; ide à baixela e fazei também o mesmo. Sobejando excrescências, atirai-as a esmo, como fazeis cã fora! Não vos importeis, se caírem na panela! Onde cai, lá fica! Fazei-o sem cuidado ou leve atenção. Não regateeis nem digais nunca estar já no fim. Ninguém vos censura! Estais no que  é vosso!  Desta maneira, vireis já limpos da vossa habitação!&lt;br /&gt;Libboa  \\  4-2-1980  Alcatifar o chão?&lt;br /&gt; Alcatifem o chão, mas de outra mameira! Não vou repetir o que já escrevi: antes  quero salientar aspectos diferentes , que vejo indisposto, se passo na rua. Não é de saliva nem tão pouco  de escarros : é, sim, de beatas, cascas de frutos e bilhetes usados que desejo falar! Oh! calamidade!  Talvez alguém pense de maneira errada. Se não, vejamos! Há pontas de cigarros, em todo lugar, seja ele embora o mais incrível! Tudo fuma e se diverte, assumindo, por vezes, ares de importância. Este facto banal dá origem a cheiros e faz cuspinhar. O remate final é, simplesmente, deitar para o chão. Assim, pois, surgem beatas à direita e à esquerda, atrás e à frente.&lt;br /&gt;Vejo-as no chão, já pequenas, já grandes, lançadas a esmo. Variando no tamanho, são em tal profusão, que  impossível eu creio saber-lhes a conta. As maiores dentre elas, revelam pedantismo e desejo imenso de figurar na vida, mostrando importância, quando não resultado ou fruto imediato de pressa ou apuros. Algumas vezes, manifestam ainda apego deficiente ao vício do fumo. As de outro tamanho exprimem o contrário: vício radicado, apego ao dinheiro!&lt;br /&gt;Seja como for, as malditas beatas, jazem a montes, por todo lugar! Nada se poupa:  ruas e praças, bermas e centros, jardins e passeios; assentos e paragens, degraus e plataformas; miradouros e varandas, alamedas e vielas! Um perfeito horror! Que pena me faz! A orgânica geral dos  nossos  transportes , aqui em Lisboa, é maravilhosa e bastante acessível a todas as bolsas, mas a grande ‘sementeira’ que o público faz é que me apavora! São os bilhetes, lançados ao acaso, sem a mínima decência!&lt;br /&gt;Nenhum lugar, à superfície da Terra, pode escapar-lhes! Entretanto, onde o caso mais assusta, á na escadaria que leva ao Metro. Aí, na verdade, torna-se alarmante. Dir-se-ia melhor ‘trabalho de crianças’, tentando cada uma exceder as congéneres! Grande seca! Por que não deixá-los nos sítios designados?! Por que não atender aos pedidos insistentes, que são formulados?!&lt;br /&gt; Finalmente, as cascas de laranja! Grandes e pequenos descascam os frutos, sem o mínimo pejo de lançar no exterior o que não aproveitam! Farão a mesma coisa dentro de suas casas?! Julgo  que  não! Se acaso me engano, javardos não faltam!&lt;br /&gt;Lisboa  \\   7-2-1980  Mulheres de Primeira &lt;br /&gt; Foco, esta vez, o que é só exterior, impressionando apenas os 5 sentidos. Tenho agora em mente dividir as mulheres em várias classes, atendendo, já se vê, à maneira de vestir e atitudes assumidas, ao lidar com outrem.  Ficarão situadas no primeiro plano as que seguem geralmente o velho costume, em sua indumentária.  Admito excepções, no tempo frio,  em dados trabalhos ou quando em viagem. &lt;br /&gt;Vestir daquele modo,  com  elegância, faz da mulher um ser amoroso, com ar de mistério, algo de mágico. Quase se transporta a uma esfera diferente, onde o homem a admira e se deixa prender. Tudo  nela  é medido,  sem afectação: antes, sim, com ar natural e finura de  gosto.  &lt;br /&gt;Quase diríamos ser ela de outra espécie, levando-nos a surpresa a um mundo de sonho! Esta é, na verdade, a mulher tradicional, que fez o orgulho dos nossos maiores; a mulher ideal, que logo se impõe e harto admira, pelas suas qualidades, reveladas, no exterior, espontâneo e medido; a mulher cem por cento, que se afasta do ‘machismo’, evidenciando-se apenas por aquilo que é. Jamais lhe interessam vícios masculinos, que a tornam disforme e um ente sem graça!&lt;br /&gt; Nunca fez rosto a preferências machistas, que tanto desdizem e assaz desdouram! Vemo-la agarrada a privilégios e praxes. que não podem extorquir-lhe  nem fazem vacilar! Nem sequer fuma ou então se o faz, é tanto ao de leve e com tal discrição, que ninguém se apercebe nem fica molestado. Sempre é menos um cheiro a torturar ao vivo a pobre Humanidade!&lt;br /&gt;MEMÓRIAS 38 C  CONT,&lt;br /&gt;  Lisboa   \\  13-2-1980   Ainda  os  Cheiros&lt;br /&gt; A semana passada, vi consternado o que não desejava e, para mais, reprovo com ardor: uma senhora passeava o cãozinho, que levava de trela, junto de um  prédio.  O dito animal farejava constante, averiguando a rigor, se o local era apto para novo esguicho. Ao longo da rua, nada escapava ao olhar inquiridor, para depois cheirar, molhando em seguida. Era fatal! Focinho  em  acção,  levantar  da  perna,  esguicho  imediato!  Figurava  inexaurível  a fonte  da  urina! Este, o  facto! Ninguém ignora que é nauseabundo o cheiro das urinas! Demais, quando já retardadas e sujeitas, por força, à decomposição, é aquilo irritante!&lt;br /&gt;Ora, os cães aproveitam, como é sabido, qualquer obstáculo, para aliviar: muros de quintas, paredes  e  móveis,  pneus  de veículos , bancos e o mais.  Como vamos passear ou ainda sentar-nos ,utilizar objectos ou tocar nos móveis?! Será decente?!  Haverá deleite, absorvendo tais odores?! Sentirá paz em seu coração o pobre transeunte, que deseje repousar, de longa caminhada&lt;br /&gt;Grande porcaria! Como pode tolerar-se um abuso destes?! Os culpados, a rigor, não são os cães, mas  os seus  donos.  Querem passeá-los? Muitíssimo bem! Afastem-se no entanto de lugares frequentados, onde só gente deve passear! Respeitemos o próximo, dando outro rumo a tais digressões. Ocorre-me agora perguntar o seguinte: uma senhora não tem mais que fazer?! Não era preferível dar os seus cuidados, ternura e afecto a pobres criancinhas, que não têm ninguém?! Entretanto, se preferirem, que o façam então, em lugares diferentes!&lt;br /&gt;Tratando-se  de fezes,  e o mesmo problema, ainda agravado. Quem vai limpar jardins e passeios, ao longo dos quais se deslocam as gentes?! Há cheiros irritantes, escorregamentos, um  aspecto  horroroso  e confrangedor ! Quem deve limpar? Os próprios donos ou ainda alguém,  a  quem eles paguem, na ocasião. Trata-se de um extra,&lt;br /&gt;Lisboa  \\  14-2-1980  Fumadores&lt;br /&gt; Entre os cheiros nauseabundos, encontram-se os que vêm do tabaco e de brônquios imundos.  Tão desinteressados, alheios e estranhos, dão os fumadores a nítida impressão de que tudo é normal, em seu agir constante. Puxam do cigarro, seja onde for. A presença de outrem não lhes interessa! Aquilo, afinal, faz parte da vida e cai naturalmente como forte rotina. Algum deles se lembra de que não deve fumar-se ao pé de quem não fuma?!&lt;br /&gt;Passar-lhe -á  pela  cabeça  que torturam  os  outros  a quem deve respeito, consideração e algum amor?! Pudesse ler, nessa própria hora, o que vai de censura, reprovação  e má  vontade ,no espírito dos outros ! Quem deve retirar-se, procurando sem demora um lugar afastado? &lt;br /&gt;Os não fumadores ?! Ninguém o afirma! Os já viciados é que devem ausentar-se, pois não têm o direito de molestar os presentes! Mas não é assim! Têm de aguentá-los, ingerindo o fumo. Devem absorver o que tanto detestam. São  obrigados  então  a aspirar em cheio o hálito mefítico a exalar-se da boca! Não é isso de facto, abuso imperdoável?! Não pede correctivo, eficiente, adequado?!&lt;br /&gt;Nos auto-carros assim como no Metro, algumas vezes no próprio eléctrico, é preciso heroísmo! Ainda vêm longe, sinto já o peito enfermo e oprimido! Os danosos miasmas cruzam-se nos ares, invadem as narinas, espalham-se em torno. Quem vai suportar exalações deletérias, proximidades que são irritantes?!&lt;br /&gt;Como se não bastasse, lançam no chão as pontas dos cigarros, que atapetam caminhos, bermas e estradas, passeios e jardins. Que belo tapete. É triste conviver e falar ainda com tais fumadores! Até há pouco, eram só os homens que irritavam o próximo! Agora, porém, também as mulheres, na ânsia de amachar-se vão penduradas em cigarros e charutos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2428384760209611812-8224663043369027523?l=pedrofonseca1918.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/feeds/8224663043369027523/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/2011/07/memorias-38.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2428384760209611812/posts/default/8224663043369027523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2428384760209611812/posts/default/8224663043369027523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://pedrofonseca1918.blogspot.com/2011/07/memorias-38.html' title='Memórias 38'/><author><name>Pedro da Fonseca</name><uri>http://www.blogger.com/profile/17891369761169059436</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2428384760209611812.post-6850856737039357583</id><published>2011-07-29T15:29:00.001+01:00</published><updated>2011-07-29T15:31:32.845+01:00</updated><title type='text'>Memórias 37</title><content type='html'>Manteigas&lt;br /&gt;1-1-1971&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Fraga da Cruz  e  Fragão do Corvo dialogam entre si, relembrando agora  o seu estado glorioso de soberbos gigantes. que  a ira de Júpiter virou furioso, em apagados e humildes  rochedos. Esperam confiados que o poderoso Deus lhes levante o castigo, deixando-os viver como simples mortais.&lt;br /&gt; Fraga: Começa hoje o ano de 1971! Isto, por conseguinte, leva a reflectir Os homens, por aí, dão-se parabéns, enquanto fazem votos de mil prosperidades.&lt;br /&gt; Fragão: Quer dizer a comadre que devemos imitá-los? &lt;br /&gt; Ela: Sim! Quanto a isso, é-nos possível ou ainda tolerado por nosso mísero e cruel destino! Olhe, sabe? Tive um palpite que julgo excelente! Tratar-se-á por ventura de um encantamento? Se fora deste modo, ainda vir iam dias maravilhosos para ambos nós Que belo não seria dar corpo então àquele sonho de nós tão amado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; Ele: O tempo tudo leva e volta a trazer, como diz o rifão. Portanto, não acho impossível! Seja como for, devemos ter coragem, não perdendo a esperança. Se não pudermos realmente ligar as nossas vidas. que pelo menos elas sejam úteis àqueles que sofrem, para que a nossa  bondade escorrace do peito quanto seja egoísmo e ódio morta&lt;br /&gt; Como vamos então passar este ano, que agora tem início? &lt;br /&gt; Ele: Observando, a rigor, os acontecimentos, com vista a procurar-lhes a interpretação, de man&lt;br /&gt;  eira sensata, Para que as gentes sejam esclarecidas e não venham a correr algum risco iminente! Estejamos, pois atentos e, ao comentar os factos1, façamo-lo com argúcia e bastante discrição, tentando sempre uma crítica humana, rigorosa e construtiva&lt;br /&gt;Ela: Assim o desejo, de toda a minha alma! Oxalá o encantamento se desfaça em breve, para retomar aquelas actividades, que me eram tão caras!&lt;br /&gt;Ele: Que farias então, se eu mal pergunto, e quais os teus planos?  &lt;br /&gt;  Ela: O meu sonho tão querido, agora mais que nunca é, na verdade, a fundação de um lar&lt;br /&gt;Ele: Lá dizia já o Antero de Figueiredo: No lar, até a cinza fria aquece! &lt;br /&gt; Ela: Grande realidade, que logo me arrebata, só de pensá-lo! Como então seria amada por ternos corações, ainda infantis! Eu a ser tudo, para o meu lar! Amor e carinho, luz e sustento, e guia perene! Dando-me a eles, como a ti, por igual, seria o auge da minha ventura! Tentaria igualmente, dando primazia aos pobres órfãos ser útil a eatranhos e desamparados!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-1-1971&lt;br /&gt; Ele: Por que anelas tanto pela fundação de um lar adorável?&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela: É a voz da minha alma que o pede e reclama. Quanto de belo existe no mundo tudo nele se encontra. Só ali me sinto de facto realizada! Queria realmente desfazer o mistério, qe me tortura  e prende , e ouvir à minha roda, vagidos ténues de louras criancinhas.&lt;br /&gt;Atentando bem nos seus olhinhos, suplicantes e meigos, sentiria a minha alma inundar-se de gozo! Jamais a ambição havia de empolgar-me! Somente a verdade eu iria servir! Lutando sempre com a força do meu braço, granjearia desse modo, pão e abrigo para os filhos do meu ser&lt;br /&gt;Nem enredos nem doblez, nem hipocrisia. Como seria bom viver assim, levando também precioso bálsamo a lares pobrezinhos! &lt;br /&gt; Ele: E a teu marido que farias tu? Que papel exerceria, na vida privada?&lt;br /&gt; Ela: O pai de meus filhos seria o esteio, o braço forte e de veras amigo, a luz de todos. Comungaria também no ideal familiar, vivendo portanto ambos arroubados na mesma ventura! Havia de ser eu, pela vida fora, a companheira amada e assaz estremecida, que sempre o honraria, em todo o lugar, jamais consentindo que os meus actos de esposa originassem descrédito ou leve suspeita.&lt;br /&gt; Ele: Como estás eloquente, bela companheira, na imensa desgraça que agora nos afecta! Como gosto de ouvir-te!&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ela: Julgas, por ventura, que eu seria, alguma vez um fardo para ti?! Bem te enganavas! Pensas acaso que não sou realista e muito positiva?! Trabalharia de gosto, para ajudar-te nas muitas lidas, aliviando assim, um poucochinho a faina de teus dias.&lt;br /&gt;Reprovo, com veemência as que andam hora a hora, de montra em montra, à cata de modelos e recentes novidades, para chamar a atenção! A essas, porém, não há soma s que lhes cheguem nem abunda paciência para suporta-las!&lt;br /&gt; Ele: Tu vales muito mais que todo o ouro junto, e eu tudo farei, para ser teu marido.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Ela: O nosso lar ia ser um paraíso, um vislumbre do Céu, embora neste mundo! Desacordos e rixas, altercações bem como desarmonia, só longe de nós! Então sim, me desforraria de tantos gelos e fortes canículas que, ao longo dos séculos, aqui tenho suportado! Será possível tamanha ventura?!&lt;br /&gt;Baixasse embora de condição, ficando simples mulher, nad importaria! O que vale e importa é viver tranquila, neste mundo agitado!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-1-1971&lt;br /&gt; Ele: Sempre é verdade que não me tinha enganado! Aquela paixão, louca, absorvente, que um dia me levou a sérios desatinos, causa bem forte havia de ter! A minha única mira ( Deus  o sabe também) foi tão somente um porvir de glória, que pudesse ofertar-te!  Queria ver-te subir, emergindo breve, da condição social, em que  havíamos nascido, para um estado mais belo ainda! Subires a deusa!&lt;br /&gt; O plano falhou, porque era insano! Tirar Júpiter do Céu, para ali ficarem os temidos gigantes! Quem pudesse recuar! Mas águas passadas, não movem moinhos! Olhemos para o futuro, reparando o mal feito. Se aludi aos factos, que geraram para logo a tua desgraça e a minha também, só uma razão a isso me levou: mostrar à evidência como eu te amava!&lt;br /&gt;Arrastei-te na queda, bem o sei há muito. Quanto isso me dói!&lt;br /&gt; Ela: Não falemos agora de coisas tristes, meu bom amigo! Pressinto, desde já, que um dia vai surgir, para trazer-nos a grande ventura. Assaz invejável? Espampanante? Não importa, declaro, que seja modesta harto obscura!&lt;br /&gt; Ele: À medida exacta que a roda fatal gira solícita, mais e mais te admiro, enquanto no meu peito se vai acendendo a chama antiga. &lt;br /&gt; Ela: Eu tenho para mim que foi encantamento a situação lastimosa a que fomos reduzidos! E se não olha:&lt;br /&gt;O Gigante Adamastor, a quem alude Camões no Canto 5º foi por inveja e funda cobiça que urdiu com outros a tremenda conjura, mas aí levou-te a paixão, que já me consagravas, expressa em amor. Foi, na verdade, um pecado de amor! Pecado, sim, mas algo desculpável&lt;br /&gt;Por outro lado, e isso confirmação do que estou pensando: houve longo tempo, em que nenhum de nós tinha consciência do triste passado. &lt;br /&gt;Profunda amnésia dele nos separou, caindo para logo no estado de inconsciência Hoje, não é assim, como estás vendo, Recordamos tudo! Vivemos da esperança! Temos aspirações.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-1-1971&lt;br /&gt; Ele: Aguardemos confiados e, já que a experiência é para nós uma boa lição, saibamos aproveitá-la. No meio de tudo, uma coisa me envaidece: é que não me enganei, preferindo-te a outras. Razão tenho, pois, orgulhando-me de ti. &lt;br /&gt; Ela: Não vejo, a rigor. por que sintas orgulho! “Ele há tanta mulher!”Não começa deste modo, um belo soneto, urdido no Brasil?! Julgo que te lembras!&lt;br /&gt; Ele: Pudera não! Mas não é essa a ideia basilar que o poeta foca! Escolheu Bilac e eu também, entre muita mulher. Há belas moças, de calças â homem, que não usam bigode, porque o não têm. Pretenderão elas mudar a Natureza? Há outras moçoilas, de mini-saia , onde o pano é tão exíguo, que se afligem deveras os seus vendedores.. &lt;br /&gt;Outras ainda aparecem, justificando bem a lei dos contrastes: à mini que sobe e assaz compromete opõem a Max, que já faz de vassoura!&lt;br /&gt; Ela: Estás hoje muito azedo. Supunha-te cordeiro, mas nem por isso vou deixar-te só!&lt;br /&gt; Ele: Ainda é tempo de escolheres, a capricho, o que mais te convém.&lt;br /&gt; Ela: A minha escolha está feita: ou tu ou ninguém. Foi o Deus Magno que assim quis!&lt;br /&gt; Ele: Quantas há que não trabalham, vivendo parasitárias, à espera que os maridos transformem, dia a dia, o suor em dinheiro! Outras vão espreitando, com olho aguçado, o que as montras oferecem ou prometem, ao diante! Esta lê ávida, uma revista de modas, Anota as mudanças, mas ao decoro é que ela não olha!&lt;br /&gt;Aquela então vai já calculando o seu rendimento, pelo ano adiante. Acabado o modelo, é urgente mudar. Haja falta ou abundância, não importa o facto! Seguir a moda estritamente, é isso que interessa!&lt;br /&gt;  Ela: Não apoio a vaidade, que e insensatez: se a mulher assim faz, é para agradar. Não pode viver só, que  Deus, realmente, a  fez para amar! Não deixemos corrompê-la, que seria tremendo! Ela é fraca, bem sabemos, mas tem um dom: converter a fraqueza numa força poderosa. Em chamar a atenção põe a mira, afinal. &lt;br /&gt;Não intenta perverter: antes, sim, construir o seu lar!&lt;br /&gt;Puxar a brasa à sardinha é já velho, costumado : fica sempre bem defendê -la, que sou mulher, afinal! Mas eu concordo: no fundo, tens razão! O que ela faz ,em  geral, tem por fim atrair&lt;br /&gt;Una vez corrompida, é já o demónio, em figura de gente! Ninguém pode aturá-la, sendo então bem pior que  o próprio veneno! Respeitá-la sempre é dever sagrado que temos de cumprir Se ela falha e naufraga, a culpa é do homem!  &lt;br /&gt;Manteigas  \\   5-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Se eu bem compreendo as tuas palavras, creio teres má vontade, contra maxes e minis, Que me dizes, em resposta?&lt;br /&gt; Ele: Não andas muito longe, em ordem à verdade, pois detesto ao vivo quanto é artificial, se mostra espampanante e deveras impróprio. Não que eu seja puritano ou manga larga! Julgo estar no meio. Nem demais nem de menos! O que é elegante, prático e útil não posso condená-lo!&lt;br /&gt;Ainda sei distinguir o que é repreensível e aquilo que o não é!&lt;br /&gt; Ela: Acompanhei, a rIgor, o teu pensamento, julgando que e prático, mas não elegante o uso de calças , à maneira dos homens. &lt;br /&gt; Ele: Precisamente! Prático e útil em viagens longas; no tempo do frio, naquelas regiões, onde ele aperta!; no executar de alguns trabalhos.&lt;br /&gt; Ela: Mas donde vem ao homem que se imponha à mulher, à maneira de senhor, para a sua escrava?! Não é igual em tudo e senhora absoluta do próprio destino, para realizá-lo, segundo lhe apraz?! Será tempo já de compreender-se esta doutrina!&lt;br /&gt;Ele: Que ideia fazes tu acerca da liberdade?! Há conceitos erróneos que urge corrigir! Inteiramente livre só Deus o é! A nossa liberdade é condicionada pela dos outros. Se me apetece cantar, pela noite fora, em voz alta e sentida, aproveitando ali a bela inspiração, que sacode e agita, não devo fazè-lo, pois vou incomodar o vizinho do lado. Se fizesse de outro modo, ia pôr em risco a liberdade alheia. &lt;br /&gt;Querendo viajar e não tendo dinheiro, havia de roubá-lo ou extorquil-o, mas isto, afinal, violaria também a liberdade alheia.&lt;br /&gt;Ela: Vejo muito bem que ao teu raciocínio preside a clareza e a sinceridade&lt;br /&gt; Ele: Quando reina o amor, entre homem e mulher, cada um sente gosto em ceder à outra parte, diria até, obedecer! Mais ainda: conhecer as vontades, chegando a adivinhá-las: eis aqui o móbil de toda a existência!&lt;br /&gt;Não se amando o casal, temos o inferno, ainda neste mundo! Melhor é estar só que mal acompanhado!  Como é indissolúvel o matrimónio católico, é necessário prepará-lo bem, com toda a rectidão e  boa vontade&lt;br /&gt; Ela: De facto, está no amor o grande segredo que alenta a vida. Tudo planifica, tudo facilita; confere muita graça; dá sempre encanto àquilo que nos rodeia!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-1-1971&lt;br /&gt; Ele : Cada ser humano ficará bem, seguindo a Natureza e conformando-se a ela. Direitos iguais, perante Deus  e a sociedade! ! Há situações e trabalhos , mais acomodados  uns  que outros quaisquer&lt;br /&gt;Robusto e vigoroso, está o homem talhado para tarefas pesadas, que, de modo nenhum, conviriam à mulher. Invadir esta o domínio daquele ou vice-versa, além de irrisório, seria impossível, em parte dos casos. &lt;br /&gt; Basta para isso que tomemos em conta a estrutura complexa  do  corpo feminino. Tudo nele se encaminha à função materna. Por isso, não vejo com bons olhos , tentativas loucas  de masculinização! &lt;br /&gt; Ela: O mesmo se passa, no sector masculino, se bem comparo.&lt;br /&gt; Ele: O mesmo não direi, mas algo semelhante que  reprovo também. Há os efeminados que não são homens nem mulheres tão pouco! Se lhes tendes asco, muito mais nós! Ao homem a força; o vigor e a coragem; a protecção eficiente do seu semelhante; a humanidade; à mulher cabe, pois, a consideração; a doçura, a meiguice; a docilidade; o encanto, a beleza; a compreensão; a luz e o calor de toda a família!&lt;br /&gt; Alguém escreveu:” A mulher é o céu deste mundo!” Alves Mendes juntou, com argúcia e mimo incompa- rável” E a mãe é o sol deste céu!”&lt;br /&gt;De facto, que há neste mundo que possa comparar –se à maternidade ?! Quando a mulher se envergonha de  ser  mãe, já perdeu o encanto, naufragando a dignidade, no charco da luxúria.&lt;br /&gt; Ela: Descubro em ti uma gama rica de sentimentos nobres, que não são banais! Por que é que admiras em grau tão alto, a mulher em geral que, por vezes desce tão baixo?&lt;br /&gt; Ele: Já que me perguntas, vou responder.&lt;br /&gt;Como não querê-la assim respeitada, se nasci de uma mulher?! Não é também mulher aquela que adoro?! Não é mulher igualmente a noiva que estremeço?”E no rol dos possíveis , não vejo desde já uma filha encantadora)! Resumi com bem pouco  ideias basilares que eu muito prezo. &lt;br /&gt; Ela: Se a todos guiasse a luz da razão, o mundo venal seria bem outro!&lt;br /&gt; Ele: O caminho é este e não há fugir-lhe! Se queremos respeito, devemos guardá-lo! Querendo ser respeitados, hemos  de fazer a mesma coisa às outras pessoas! “ Não faças a outrem o que não queres te façam a ti”Não é assim que reza o provérbio?!&lt;br /&gt;Ponhamos de parte acusações infundadas; reparemos o mal, se algum houver; façamos, desde já que reine o amor, desterrando o ódio. Cada um no seu lugar, nunca fica mal. O homem no trabalho; a mulher no lar!&lt;br /&gt;A vida moderna tem exigências, que separam e  distorcem  mas o princípio mantém-se firme.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Uma vez que falámos, acerca dos novos, há outros aspectos que merecem atenção.&lt;br /&gt; Ele: Sim, não discordo! Os novos de agora serão no porvir, os guias e mentores da nova sociedade. e os grandes responsáveis , perante o futuro. Receberão de nós  o património sagrado, para mantê-lo como lhes chegou! Convém, pois, elucidá-los bem, incutir-lhes o respeito e a noção exacta da responsabilidade. Nnca  é demais o tempo gasto, ensinando a mocidade!&lt;br /&gt; Ela: Entre as belas qualidades que emergem nos  jovens,  avulta sem dúvida, a sinceridade, não é, compadre?  Há quem veja só defeitos, mas o seu a seu dono!&lt;br /&gt;  Ele: Esse predicado é, certamente, um dos melhores! Vale até, ouso dizê-lo, por muitos defeitos, em  que  abundam os jovens. Confesso para já, me cai muit bem. Nunca amei a doblez, a hipocrisia, bem como o cinismo! Sim, sim; não, não!&lt;br /&gt;Para que serve, de facto, este jogo de imposturas?! Uma vida dupla, um desdobramento de personalidade?! Fora então, com essa casca, deveras nojenta, para vestir a capa da singeleza! Um mundo de aparências e falsidade é um campo de armadilhas, onde com frequência vão soçobrando os que são mais lavados!   &lt;br /&gt; Das grandes campanhas, levada s a efeito pela juventude, é esta precisamente, uma das mais nobres! Limando no seu viver defeitos lastimosos que são comuns, nada recearemos, quanto ao futuro., pois que os nossos jovens manter-se-ão  dignos,  cumprindo  o seu  dever. Ou sim ou não! Ou branco ou preto!&lt;br /&gt;Agradar a Deus e também ao demónio, servindo ao mesmo tempo a senhores opostos, não é jogo sincero! Luta, pois, juventude, contra a mancha terrosa, para ficar em pleno brilho a genuína epiderme!  &lt;br /&gt; Ela: Folgo, de ouvir-te, sobre tal assunto, até porque eu não divirjp de ti!&lt;br /&gt; E le: Em todos os meus actos, intentarei sempre a verdade pura. Nunca eu me envergonhei de confessá-la em aberto e, ao julgar-me culpado, resolvo logo o meu caso, dando ali prestes a mão à palmatória.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-1-1971&lt;br /&gt;Ela: Além desta qualidade, que bastante aprecio, outras, por certo, exornam os jovens, nos dias que passam. &lt;br /&gt;Ele: Não duvido um momento! São mais fiéis aos altos princípios, bastante abertos e amantes da verdade. Pois não é Deus a mesma verdade?! Por que é que Jesus, em presença de Herodes , nem sequer abriu a boca? Aquele rei era de facto a doblez em pessoa, imundície abjecta, com aparência de homem.&lt;br /&gt;Ela: Isso de amar a verdade é um belo adorno! Para mim tenho eu: se alguém, de facto, ama a verdade e está fora dela, dar-se-á pressa em ir logo buscá-la!&lt;br /&gt;Ele: É lógico. Por esse caminho, outros bens surgirão  A ambição e a cobiça, que geram sempre guerras fratricidas. não são realmente, filhas da verdade. A paz do mundo fia-se dos novos,  esperando  todos  o seu contributo, que há-de ser valioso!&lt;br /&gt;O patriotismo exaltado, que leva ao desprezo dos outros povos, criando no espírito a ideia falsa de super-homens, tem sido realmente um dos cancros sociais. &lt;br /&gt; E la: A nossa juventude, julgo não me engano, vai já singrando por águas diferentes. Alguns desertores não o terão sido, por causa disso?!  Difícil apurá-lo!&lt;br /&gt; Ele: Desertor tem havido, com receio da morte! Esses, de facto, não são bons elementos! Ninguém pode fiar-se neles! Cobardia e nada mais é, na verdade, o seu lema querido! O espírito nobre de sacrifício bem como igualmente a prestabilidade são, ninguém contesta, qualidades eternas que jamais envelhecem.&lt;br /&gt;Mas admito, apesar de tudo, que alguns dentre eles, concebam a existência, de maneira diferente, rompendo breve com a ambição e tentando ser humanos. &lt;br /&gt; Ela: Os que se opõem firmes ao serviço militar e ao mesmo exército de carácter permanente, não serão eles bem-intencionados?! Seria maravilhoso esse estado de coisas! Rios de dinheiro que tomariam logo outro fim diferente. Em vez de armas e canhões, instrução geral, vestuário e comestíveis!&lt;br /&gt;Em vez  de  quartéis  e grandes fortalezas,  Escolas e Hospitais bem como Asilos! &lt;br /&gt; Ele: Em teoria, tudo bem, mas descendo à prática, não é como julgas! Se todos os povos fizessem o mesmo, estava muito certo! O perigo, no entanto, surge exactamente, quando menos se espera! É preciso estar alerta!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Chegámos agora ao capítulo obscuro, não é verdade?&lt;br /&gt; E le: De luz e sombra é feita a vida. Até no melhor pano cai, às vezes, a nódoa!” Convém indicar os prós e os contras, afim de termos, no porvir, uma chefia segura, equilibrada e justa. &lt;br /&gt; Ela: Falemos então, sobre os defeitos, para bem da Humanidade. &lt;br /&gt; Ele: Um dos maiores e mais repelentes, é, sem dúvida alguma, a auto-suficiência, quer dizer, a funda convicção de se bastarem, quando é certo e provado  que eles partem, afinal, dum falso princípio!  Efectivamente, as novas gerações utilizam  diariamente  o que outros angariaram, ao longo dos séculos, com muita paciência e rara constância. A vida humana é, na verdade, uma longa cadeia, ininterrupta, de factos e ideias, em que os elos anteriores servem de trampolim, para ajudar os seguintes. &lt;br /&gt;Se o homem agra tivesse de começar, voltando, num ápice, ao tempo da barbárie?! Ninguém, decerto se basta a si mesmo. Gregário como é, tende  a pòr em  comum os seus achados, valiosos talvez, o que, sem dúvida , lhe traz naturalmente grande incentivo, muita alegria e utilidade. &lt;br /&gt;Ela: a confiança em si próprio creio ser vantajosa!&lt;br /&gt;Ele: Não nego, comadre, mas uma coisa é isso, outra  bem vemos, ser presunçoso,  achando sempre mal quanto se fez e contando só consigo, para elevar o mundo! Este princípio, deveras arrogante, é falso na íntegra, porque a civilização não é, ao que sabemos, organicamente hereditária como a dos animais.&lt;br /&gt;Ela: Os bichos, afinal, têm civilização?!&lt;br /&gt;E le: bem vês, comadre, é maneira de dizer, à falta de expressões! A palavra usada implica inteligência , para haver progresso. Nos animais, há estabilidade.A nossa andorinha tão bem constrói o  ninho  logo  à  primeira, como depois, em repetição. O mesmo se passa com a abelha operosa, em ordem aos favos. O mesmo também, no tocante ao castor e sua  habitação. &lt;br /&gt;Ela: Bom! Estou inteirada, mas como extirpar o defeito em causa, já que é danoso à gente de amnhã? &lt;br /&gt;Compadre: Convencer os jovens de que toda a su vida mergulha no passado; que para eles trabalharam centenas de gerações. Se algo está errado, nem tido está mal! É preciso trabalhar em colaboração! Os velhos dão certamente válida  experiência ; os novos, dinamismo, vida e alento, sugestão e promessa&lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Neste passo, vem a propósito o belo rifão.” A união faz a força! As vantagens práticas são inumerá veis!&lt;br /&gt;Ele: É certo. Além disso, o tempo dos super-homens já se escoou! O orgulho rematado foi sempre enjoativo! Unir e confiar! A desunião bem como a suspeita  são fonte de mal-estar e nada vantajosas para o bem da Humanidade. Outra falha acentuada afecta os nossos jovens. Caso os deixem, nada eles fazem ou pouco realizam. &lt;br /&gt;Ela: E não  há,  por  esse mundo, excepções honrosas, que hajamos de  tomar na devida conta?!&lt;br /&gt;E le: melhor fora! Aonde iríamos ter, se realmente as não houvesse?! Intentamos, porém, uma sociedade, bastante melhorada , em que  os bons elementos sejam maioria!  O ditado latino ainda não passou! “ Labor omnia vincit” O trabalho vence tudo! O que há de belo no mundo, vale a dizer a civilização,  é fruto persistente de árduo labor, em que tomaram parte milhões de indivíduos, através dos séculos. &lt;br /&gt;Ela: As circunstâncias presentes vêm facilitar esse estado d e coisas. Hoje, tudo surge feito , desde as refeições aos mesmos programas,; dos objectos úteis aos ao  próprio vestuário. &lt;br /&gt;E le: Seja embora como diz es, hã que espevitar o amor ao trabalho, sem o qual estagnaria a civilização ou melhor ainda , recuaria muitos séculos. O progresso do mundo não tem limite ! O homem viajor é um ser em evolução, razão pela qual jamais atingirá perfeição acabada.&lt;br /&gt; A sua inteligência, prodigiosa, na verdade, continuará  sempre , mostrando dia a dia novos aspectos, descobrindo  fenómenos, jacentes na matéria. Não pode  estagnar ! É marcha permanente, a caminho do ideal&lt;br /&gt;Ela: Nesse caso, temos de pregar o amor ao trabalho, não só pelo exemplo, que é mestre ideal, mas também  com razões que sejam convincentes. &lt;br /&gt;E le: Basta observar a própria Natureza, no aspecto animal, vegetal e mineral : nada existe no mundo, que permaneça estático, pois o movimento é uma forma de energia e sinal de vida.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-1-1071&lt;br /&gt; Ela: Entre os defeitos do jovem moderno, encontra-se igualmente a danosa leviandade. Bem sei eu que é próprio da idade, facilitar as coisas, sem olhar a pormenores. Falta ainda o “calo” da vida , que é basilar. &lt;br /&gt; Ele. A prudência foi sempre, através dos  tempos , uma grande virtude.  “ Ante s que cases, vê o que fazes!” Primeiro pensar e de pois agir! Quantos pesares e fundas amarguras, quantas lágrimas inúteis, por falta lastimosa de serenidade e circunspecção! E quando se trata de coisa irrememediável?! Então, sim, que ficamos tramados!&lt;br /&gt;Mercê de irreflexão, Quantas guerras monstruosas, quantas mortes horrendas  e  danos sem conta!  &lt;br /&gt; E la: Como agir então, para evitar desgraças tamanhas?! &lt;br /&gt; Ele: habituar os jovens a pensar em calma, avaliando com tempo os graves resultados de actos à pressa! Por outro lado, esclarecê-los. devidamente , sobre a conveniência de pedir conselho ao primeiro que aparece! Deve escolher-se, agindo com argúcia!&lt;br /&gt;Para conselheiro, não serve qualquer! Há-de ser prudente, equilibrado, serviçal e amigo, e perspicaz!&lt;br /&gt; Ela: Este assunto é um pouco abstruso, não é, meu amigo?!&lt;br /&gt; Ele: Entendo que não! As coisas da vida hão-de tratar-se de harmonia, já se vê, com a sua importância&lt;br /&gt;Figuremos, por absurdo, que os mentores dos novos, eram gente desonesta., banal e fraudulenta. Que viria a suceder?! A nossa juventude se ria envenenada ao primeiro contacto. Em vez de homens bons, teríamos decerto elementos suspeitos e já pervertidos, que jamais ganhariam a confiança de alguém!&lt;br /&gt;Ela: Sem confiança, a vida neste mundo, ia ser intratável!&lt;br /&gt; Ele: O primeiro e maior de todos os males era a inquietação, e sua filha dilecta a falta de paz! Ora, não havendo paz, não há felicidade&lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Há um aspecto da vida, que me apraz focar: a religiosidade. &lt;br /&gt; Ele: Quanto a isso, não deixo, não, de reconhacer –lhe vantagens práticas. Sem religião, o ser humano é mais perigoso que as próprias feras. Acodem-me ao espírito as palavras gravea de Napoleão, antes de vir a ser um cristão praticante: “ Que os Franceses pratiquem a religião: caso contrário, jamais terei segura a própria cabeça, por cima dos ombros!”&lt;br /&gt; Ela: São textuais as ditas palavras? Sempre tive admiração pelo grande general, embora tenha invadido o meu berço natal, no século passado.&lt;br /&gt;Ele: Textuais não são, que não me lembro agora das palavras exactas, mas há fidelidade ao pensar do autor. As invasões decretadas eram, no fundo, um ataque à Inglaterra que odiava de morte.&lt;br /&gt;         Sendo nós aliados, pagávamos as favas! Na verdade, o aspecto religioso não pode olvidar-se nem ser postergado! Povo sem Deus, coisa que não existe, seria desde logo um covil de feras! Em vez de amor, entre os seres humanos, medrava a cizânia, ódio acendrado que não é, realmente, factor de paz.&lt;br /&gt; Ela: Parece-te acaso serem os jovens dados à piedade?!&lt;br /&gt; Ele: Aqueles que desertam são vítimas fatais de leituras suspeitas ou de más companhias. Por outro lado, estão mal estruturados e alguém os convenceu a abandonar seus caminhos! Muitos deles voltam mais tarde, repensando o caso, mais atentamente, sem o estuar de violentas paixões, a queimar o sangue! &lt;br /&gt; Ela: Há também campanhas, habilmente conduzidas, recorrendo à mentira e à pornografia. O Estado, por norma, apercebendo-se claro do que vai sucedendo, recorre a medidas, já de prevenção, já de repressão. Além disso, bem vês a Televisão, a imprensa e a radio, o desporto e o jogo  absorvem de tal modo que , muitas vezes chegam a descurar problemas essenciais da vida presente , como por exemplo servir a Deus e salvar a alma. Consequência fatal de outro grave defeito a que vamos referir-nos&lt;br /&gt;O jovem rapaz precisa de ser bom, para difundir a verdade e o bem, servir a Humanidade e contribuir a valer para um mundo melhor. Deus o quer. O Ser Omnipotente não é uma criação do espírito humano. Nós, afinal, é que somos, na verdade, criação divina. Precisamos, pois, de lares piedosos, que amem a Deus, habituando as crianças a privar com Ele. Pode ser isso um bom darivativo para as aspirações do nosso coração que busca o Senhor, por todo o lugar&lt;br /&gt; Apresentemos, pois, a religião como acto agradávej, excelente e belo, que sacia plenamente as nossas aspirações. O conjunto maciço se proibições e graves ameaças é sistema negativo que desdoura e afugenta, mata e destrói.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-1-1971&lt;br /&gt;  Ela: Referiu-se o compadre, se eu bem me lembro, a uma série de valores, em que, por vezes, são falsos os critérios empregados. &lt;br /&gt; Ele: Sim, também este capítulo é de levar em conta. Na verdade, o jovem de hoje liga importância àquilo que, em geral, tem valor secundário Assim, por exemplo, quando estão em causa estrelas do Cinema, actores  e actrizes,  ou  ainda jogadores ou desportistas ,,, que seu e!?  Quem não exerce tais profissões faz má figura , acompanhando-as de tal maneira, que prejudica a valer a sua profissão!  &lt;br /&gt;Muitos há decerto, que perdem o sono a tranquilidade e até a paz! Se perder alguma vez o Clube favorito, que lhes advém de funesto? Achar bem que ele ganhe, defendê-lo com alma, salientar o seu valor… tudo   é admissível!  Sacrificar o dever e as fontes de receita, em benefício dessas actividades, não cabe realmente na cabeça de ninguém!..Sendo essa a profissão,  a coisa muda logo!&lt;br /&gt;É que, nesse caso, encontra-se em jogo a própria  subsistência!  Há, na verdade, um falso critério a nortear a vida!&lt;br /&gt; Ela: É razoável, sim, estabelecer-se, a propósito, uma escala de valores e segui-la a rigor! &lt;br /&gt; Ele: Fazendo-se ao invés, é deixar o mais, para seguir o menos; seguir-se até ao que é secundário, postergando obrigações, sejam elas prementes&lt;br /&gt; Ela: Quais são, a teu ver, aquelas necessidades, julgadas superiores?&lt;br /&gt; E le: Religião e amor, dinheiro e pão. Qualquer outra, afinal, se prende a estas, buscando satisfazê-las ou garantindo plena realização. &lt;br /&gt; Ela: Todas elas em plano de igualdade! Nenhuma escala a seguir?&lt;br /&gt; Ele: A nenhuma, sim, pode o homem furtar-se, que não é possível defraudar a Natureza, no que tem de essencial, absoluto, inalienável! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Aprecio deveras o teu raciocínio, meu bom compadre Se não fosse molesta, pediria agora um arrazoado, embora não longo, demonstrando à evidência, que as tais necessidades são impressindíveis na vida humana. &lt;br /&gt; Ele: É fácil a tarefa. Ora, vejamos. A não ser que se trate de genuínos paquidermes, ninguém existe no mundo que não sinta alguma vez esbrasear-se o peito nesses desejos. São eles tão fortes, que nenhum poder humano consegue dominá-los. ou ( o que é mais difícil)  extirpá-los um dia  da própria Natureza. Sendo esta violentada, reaparece mais tarde, em momento inesperado, com requintes vorazes. &lt;br /&gt; Se o não fizer, é porque já não reage, encontrando-se acaso na via fatal da inanição!  Em tais circunstâncias, aproxima-se do fim e a própria vida nãp passa de aparência!&lt;br /&gt; Ela: Ó compadre, és enciclopédico! Onde é que hauriste, meu bom amigo, tal clarividência, a respeito dos problemas bem como a justeza dos teus raciocínios?! Creio firmemente se não trata apenas de simples admiração!&lt;br /&gt; Ele: Experiência da vida, estudo, observação! Explanando um pouco mais: o homem ajoelha e adora a Deus, contemplando as maravilhas do grane Universo e a ordem admirável que nele se verifica; sente na alma um fómite poderoso que o leva a dar-se, recebendo também; sem dinheiro, não pode obviar a prementes  exigências que a vida lhe cria, a fim de  reparar o desgaste da matéria , que a todo o momento se vai fazendo , nas células do corpo. Por esta razão, tem de alimentar-se.&lt;br /&gt; Ela; Mas há por aí quem seja ateu  e quem renuncie à própria riqueza, fazendo até votos de não possuir seja o que for.; há-os ainda que renunciam ao próprio amor, pelo voto espontâneo de castidade; outros mais recalcam também a própria vontade, pelo voto admirável de plena obediência. &lt;br /&gt; Ele: Isso é fácil de dizer, mas difícil de provar! Como esta já vai longa, será melhor talvez guardarmos o assunto para amanhã, a fim de expor claramente a opinião que sustento. Estás de acordo ou não?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Estar de acordo?! Se eu te considero e muito aprecio!  &lt;br /&gt; E le: Que haja ateus, neste mundo, não me atrevo a crer! Com efeito, a existência necessária dum ser Criador, Arquitecto e Senhor de quanto existe, é tão evidente como o o próprio Sol, em pleno meio-dia. Se alguém não quer ver esse astro amigo, sente-se obrigado a reconhecer –lhe a existência real. Donde a luz e o calor que permitem ávida, à face da Terra ?!&lt;br /&gt; Se encontro algures um relógio belo, penso logo no artista que  realizou essa maravilha! Avisto ainda um palácio grandioso, acode logo à minha mente o arquitecto emérito. É tudo assim. Que dizer do Universo e da ordem admirável que preside a tudo?!&lt;br /&gt;Olhemos, a valer, para o corpo humano. Que havemos de pensar? Por que não vemos os braços, no lugar das pernas’! Por que achamos os   olhos , no lugar mais próprio, com destino claro â visibilidade e à defesa dos mesmos?! Alguém pensou e ordenou tudo isto! Quem foi?! &lt;br /&gt;Ateus! Uma léria como outras!&lt;br /&gt; Ela: Verdadeiros, sim, ou então simulados, por certo que há! Qual será, pois, a causa do facto? Existe , julgo eu, um motivo encapotado, que deveras solicita!&lt;br /&gt; Ele: Razão, embora falsa, haver á, naturalmente. Eu tenho para mim que a raiz do facto reside por certo na consciência  manchada . Aquele cuja vida é honesta e digna, bom chefe de família, trabalhador e probo,  não sente desejo de Deus não exista! É no fundo um sinal de malícia, interesse disfarçado!&lt;br /&gt; E la: Nas isso, afinal, ! não  opera por si! Que me vai a mim, se desejo, por ventura, umas asas de águia?! Se eu as não tenho! Que importa negar eu a bondade de alguém, sendo a mesma palpável?! A própria Escritura apoda à letra quem se atreve a negar a existência de Deus. Dixit insipens in corde suo: “ Non est Deus!” Chama-lhe’ estulto’ .&lt;br /&gt;Mante igas  \\  16-1-1971&lt;br /&gt;Ela: Imagine o compadre que nada existia para além da morte! Como iria arrepelar-se o que tive se no mundo praticado a virtude, coibindo-se do mal, enquanto os malamdros iriam chacotear!&lt;br /&gt;Ele: Assiste-me o direito de virar essa hipótese em sentido contrário. Supõe ntão que para lá da morte, se depara a eternidade, a sanção moral bem como a felicidade! Em caso de dúvida, que faria, na verdade, uma pessoa sensata?!&lt;br /&gt;Ela: Optaria desde logo, pela va segura, que segundo opino, se resume em pouco; fugir do mal e praticar o bem; amar a Deus e, por igual, o próximo!&lt;br /&gt;Ele: Aí temos precisamente o caminho da prudência Por outro lado, se nada existisse, o que é absurdo, não havia decerto arrependimentos nem exaltações. uma vez que, à morte seguisse o nada! Neste momento, não posso realmente deixar de referir o que sucedeu, no caso de Remam e também de Voltaire.&lt;br /&gt;Toda a gente sabe que passaram por ateus, cuja vida e obras desonraram a Cristo e à sua Paixão! Esfalfaram-se em vida, para desacreditar as grandes verdades, em que eles próprios acreditavam a fundo, Pois, se não, que significam as atitudes, por eles assumidas, pressentindo a morte?!&lt;br /&gt;Ela: Que fizeram eles então?&lt;br /&gt;Ele: O primeiro, tomando um crucifixo, olhava-o com ternura, enquanto dizia: Senhor, tem pena de mim que pequei e te ofendi!&lt;br /&gt;O segundo pedia um sacerdote, para confissão, Onde está, pois, o ateísmo destes homens?! Quando se tomam a sério. as atitudes de alguém? É certamente à hora derradeira! &lt;br /&gt;Se quiséssemos ainda recorrer à História do nosso Portugal, encontraríamos, muito facilmente casos semelhantes. Para exemplo, basta na verdade, o Marquês de Pombal. &lt;br /&gt;Tanto se empertigou, durante a vida inteira, para depois ajoelhar na lama de Pombal, em dia de tempestade, a fim de suplicar lhe fosse perdoado o que fizera de mal a Deus e à Igreja&lt;br /&gt;NOTA: este facto notável foi presenciado pelos habitantes da vila, em dia de festa, ao receberem, triunfalmente, o representante da Igreija, que acabava de Chegar&lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-\- 1971&lt;br /&gt; Ela: No tocante à existência do nosso bom Deus, arrumou-se o caso. Um tolo, afinal, +e que pode negá-la ou ainda alguém que não tenha reflectido&lt;br /&gt;Ele: Na verdade, se a matéria de facto se encontra na origem do ser humano, o menos deu o mais, o que é inadmissível Se o homem, por seu turno, originou a matéria, agiu como tolo, pois, ainda agora não sabe aquilo que realizou. Que revelam às gengtes as Descobertas? Que manifestam os grandes inventos? Que não foi ele o autor dessas maravilhas&lt;br /&gt;Ela: Está provado. O assunto é claro! E quanto à renúncia ao próprio  amor, que diz o compadre?&lt;br /&gt;Ele: Eu tenho para mim que é impossível alguém renunciar. Acho isso absurdo! O facto notório de haver religiosos, sacerdotes e leigos que parece viverem à margem disso, não vai contra ,mim! Lá diz S, Tomás: vita cordis est amor! O coração alimenta-se de amor. Se quiseres também um autor profano, vè a propósito o que diz Garrete, no seu livro precioso “ Viagens na minha Terra”.  A ideia aproximada é como segue:  O coração alimenta-se de amor; se lho tirais, esgota-se a ele, actuamdo por força sobre a própria substância. &lt;br /&gt;Daqui não pode fugir-se! É um facto universal, que não admite excepções&lt;br /&gt;Ela: Nesse caso, eles são falsos! Aparentam uma coisa e, afinal, são outra!&lt;br /&gt; Ele: Mais de vagar, comadre minha! Vamos por partes! Como sabes, há várias espécies, no tocante ao amor: paternal, fraternal. conjugal, filial, platónico, amizade  e sobrenatural.&lt;br /&gt; Eka: De todos eles eu faço uma ideia, segundo me parece, à excepção do platónico e da própria amizade. Também esta se inclui na lista do amor?!&lt;br /&gt; Ele: À primeira vista, afigura-se que não, mas se atentas na raiz… O elemento ‘am? significa união. Portanto, se já embora diferente, nos vários efeitos e manifestações, tem o mesmo principio e fim geral. O amor platónico vem a ser uma coisa que os homens inventaram, ignorando eu se alguma vez , por acaso. ele foi praticado, a não se r , talvez por necessidade. O soneto de Camões “ Tr ansforma-se o amador na coisa amada” é significativo.  &lt;br /&gt; Ela: Cada vez, asseguro, estou mais intrigada, com esses rodeios e impossibilidades&lt;br /&gt; Ele: para nãp alongarmos, é amor à distância, o amor de bem querer .É ajgo semelhante ao dos espíritos puros. Imagina, por momentos, que não tínhamos corpo e, no entanto, amávamos. Talvez assim compreendas melhor. Amor de vontade: não exige nada que alguma vex ultrapasse as barreiras do espírito. Para ele, a matéria não conta e, portanto, não visa de modo nenhum, o prazer venéreo. Aí tens, pois, o que se oferece dizes, acerca do assunto. Não conheces, por ventura o caso de Petrarca?  O poeta famoso que deu ao soneto as  linhas moderna?!s.&lt;br /&gt; Ela: Julgo haver –se  convertido, após a leitura do livro “Confissões” de Santo Agostinho. Foi um milagre! &lt;br /&gt; Ele: Ah! Também tu conheces a Águia de Hipona, o maior génio e mais portentoso  que passou  por este mundo?!O maior Doutor da Igreja e um dos maiores Santos que habitam no  Céu!  Havemos de falar, sobre o seu valor. Agora, no entanto, voltemos a Petrarca, uma das glórias da Itália renascentista, como Dante e Bocácio. Com o primeiro, deu-se na verdade uma coisa engraçadíssima. A musa inspiradora do seu génio imortal, foi a célebre Laura , como fora Beatriz, no caso de Dante e Natércia em Camões. &lt;br /&gt; Ela: Quem foi então a criatura angélica, que dominou a sua vida inteira?&lt;br /&gt; Ele: Acode-te ao espírito haver sido esposa ou coisa no género? Estarias enganado, se tal pensasses. Viu-a apenas uma vez e creio lhe não falou!&lt;br /&gt; Ela: Ela viu-o? &lt;br /&gt; Ele: Que havia de ela ver, tendo apenas 9 anos?!&lt;br /&gt; Ela: Só  9  anos ?! E conseguiu dominar a vida dum Artista, que foi talentoso?! Uma criança! Como devia ser bela e deveras adorável!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-1-1071&lt;br /&gt; Ele: Olha, para nãp alongarmos, é amor à distância, o amor de bem querer.É ajgo semelhante ao dos esp’iritos puros! Imagina, por momentos, que não tínhamos corpo e, no entanto, amávamos. Talvez assim, compreendas melhor! Amor de vontade, não exuge nada que alguma vez ultrapasse as barreiras do espírito. Para ele a matéria não conta e, portanto não visa, de modo nenhum, o prazer venéreo. &lt;br /&gt;Aí tens, pois, o que se oferece dizer agora, acerca do assunto. Não conheces, por ventura, o caso de Petrarca? O poeta famoso, que deu ao soneto as linhas modernas?...&lt;br /&gt; Ela: Julgo haver.se convertido, após a leitura de Santo Agostinho. O livro “Confissões” operou o milagre!&lt;br /&gt; E le: Ah! também conheces a Águia de Hipona, o maior génio e mais portentoso, que passou por este mundo? O maior Doutor da Igrija e um dos maiores Santos  da Pátria Celeste? Havemos de falar, sobre o seu valor. Agora, no entant, voltemos a Petrarca, uma das glórias da Itália renascentista, como Dante e Bocácio. Com o primeiro, deu.se na verdade, uma coia engraçadíssima.&lt;br /&gt;A musa inspiradora do seu génio imortal foi a célebre Laura, como fora Beatriz, no caso de Dane e Nat+ercia  em Camões.&lt;br /&gt; Ela: Quem foi então a criatura angélica, que dominou a sua vida inteira?&lt;br /&gt; Ele: Acode-te ao espírito haver ssido a e sposa ou coisa no género! Estarias enganada, se tal pensasses! Viu.a apenas uma vez e creio lhe não falou!&lt;br /&gt; Ela: Ela viu-o?&lt;br /&gt; Ele; Que havia de ela ver, tendo apenas 9 anos ?!&lt;br /&gt; Ela: Só 9 anos?| E conseguiu dominar a vid dum Artista, que foi talentoso?! Uma criança! Como devia ser bela e deveras adorável!&lt;br /&gt; Ele: Pois aí tens um caso celebérrimo de amor platónico!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-1.1971&lt;br /&gt; Ela: Fiquei ciente do amor platónico, sendo possível realizá-lo na vida! É bastante mais puro do que eu julgava! Não achas ideal um amor como este?!&lt;br /&gt; Ele: Eu não julgo! A praticá-lo, extinguia-se logo a espécie humana. A família é na verdade, a célula básica da sociedade. Por outro lado, o ser racional não podia realizar-se. Dotado de corpo e sensibilidade, tem por isso mesmo de efectuar o seu destino, pelo modo normal que Deus lhe traçou! Ora, se o espírito do homem exige acordo e interpenetração, o corpo humano, unido ao espírito, substancialmente, demanda também contacto íntimo e presença física.&lt;br /&gt;A ideia de pureza é um tanto subjectiva. Devemos ter como puro tudo o que Deus criou. Ora, a Sagrada Escritura lá diz claramente;”Crescei e multiplicai-vos”.Se Deus assim mandou, há-de estar bem. pois que Ele na verdade, nada  faz mal, como isso é próprio da essência divina.&lt;br /&gt; Ela: Estou seguindo o teu discurso e vejo com nitidez a conveniência do processo em causa. Na verdade, pensando um pouco, achamos logo bem. O processo, a rigor, não é imundo nem reprovável! Bem natural  e  eficiente é que ele é!&lt;br /&gt; Ele: Ora bem. Quando afirmaste que há exemplo de renúncia ao amor humano, querias referir-te provavelmente ao amor conjugal mas , de facto, ainda resta muito para saciar o coração humano, Imagina agora um coração generoso, doando totalmente vida e haveres, para sustentar um Patronato. destinado a crianças. Tem havido, felizmente inúmeros  casos .Lembremos, por alto: S, Vicente de Paulo, s, João de Deus, S João Bosco, o padre Américo e outros ainda&lt;br /&gt;Estes, pois, e outros que tais não alimentam substancialmente o coração generoso?!&lt;br /&gt; Ela: Embora tais crianças não sejam, realmente, filhas naturais, é como se o fossem. Trata-se amor, já sobrenatural ou ainda caridade, o que significa amor, devotado ao próximo, por causa de Deus. Por ideal superior, sacrificam então, a família de  sangue, por outra família de tipo espiritual , &lt;br /&gt;  Ele: Chegámos, portanto a acordo perfeito!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-1-1971 &lt;br /&gt; Ela: Viver para os outros, sacrificando-se, nada recebendo, cá neste mundo, é um pouco duro, não achas?!&lt;br /&gt;  Ele: Entendo que não, pois se trata dum caminho livremente escolhido. Não temos o direito de censurar ninguém, pelo facto simples de haver escolhido este rumo ou aquele! Cada um é livre: deve realizar-se, de harmonia com o gosto! Se alguém prefere, espontaneamente, ficar celibatário, para melhor servir um ideal superior, &lt;br /&gt;só temos de louvar a generosidade e riqueza de espírito, não havendo mais razões, por dar mais do que nós!&lt;br /&gt;  Ela: E se vem, por ventura, arrependimento, algum tempo depois?!&lt;br /&gt; Ele: Tudo é possível, cá neste mundo! Imutável só Deus! Em tais circunstâncias, melhor é arrepiar caminho, seguindo a consciência e pedindo conselho a pessoa esclarecida, equilibrada, recta e prudente. É  o caso, afinal, de certos padres e religiosos, a quem, por motivos graves, que  não devemos censurar nem subestimar, a Santa Sé dispensa dos votos e encargos assumidos&lt;br /&gt; Ela: Isso, realmente, é o que tenho observado, nestes últimos anos. Aparece até quem se erga em fúria,  contra  o  celibato  e os votos em geral. &lt;br /&gt; Ele: Isso, ao que julgo,  é ir longe  demais!  O que é bom em si, não pode contestar-se e muito menos atacá-lo! O que me parece, em boa verdade, é que tais votos não devem ser perpétuos, mas renováveis! Quanto ao celibato deve ser livre. Não vai passar longo tempo, sem que haja, de facto, padres casados a exercer o sacerdócio, como foi no princípio. Podemos até dizer que já está em vigor, sendo protestantes, convertidos a Roma. &lt;br /&gt; Ela: Se já foi assim, não vejo razão para tantas barreiras! O celibato dos padres não é, realmente, de instituição divina! Também não é , igualmente de instituição apostólica. Foi o homem, a rigor, bem mais exigente que o próprio Cristo!&lt;br /&gt;Este  assunto é complicado! Só com tempo disponível se pode tratar&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-1-1971&lt;br /&gt; E le: Há quem renuncie aos bens materiais, pelo voto de pobreza., mas afjnal  deve  compreender-se  no exacto sentido. Evidentemente, ninguém há no mundo que dispense habitação, alimento e vestuário. Ora, isto requer dinheiro! Logo, tal dinheiro é  impressindível! O que se passa, de facto, é o seguinte:  não administram individualmente, bens materiais, mas sujeitam-se todos a um processo de economia , que chamam ‘dirigida’ Em vez de ser alguém a dispor de coisas suas, é a comunidade, governada então pelo Superior. Nenhum tem nada, mas têm todos o que precisam&lt;br /&gt; Ela: E donde é que vem o preciso rendimento, para obviar âs despesas diárias?&lt;br /&gt; Ele: Os membros constantes da comunidade não estão inactivos: trabalham com afinco, dedicando-se  uns ao apostolado e realizando outros funções lucrativas.&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, vivem melhor do que outros, cujos rendimentos são bem escassos!&lt;br /&gt; Ele: Não tenho eu dúvida! Até passam a existência muito mais sossegados, já que o dia seguinte os não preocupa. Assim, pois, é que deve entender-se o voto de pobreza: r enunciam, de facto, à posse individual, mas de modo nenhum à posse colectiva. A propósito, vem-me agora ao pensamento o caso dos Lazaristas, que podem administrar os bebs pessoais. É um caso interessante! &lt;br /&gt; Ela: Não exaltes demais a vida religiosa, organizada em comum, que pode suceder algum caso imprevisto. &lt;br /&gt; Ele: Não pe cebo! Dou tratos de polé à pobre fantasia, mas, a rigor, não atino agora com a resposta!&lt;br /&gt; Ela: É muito simples: acabado o ‘encanto’, posso vir a se r freira!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  22-1-1971&lt;br /&gt; Havia de custar-me, bem entendido, mas , com certeza não ia suicidar-me! Se a tua vocação for, na verdade aquela que dizes, não serás feliz em outro estado nem farás, decerto, a ventura de ninguém! Cada um de nós siga livremente a sua tendência, não cedendo a pressões de qualquer natureza. Quando os pais matraqueiam, indevidamente, seja embora com zelo e muita piedade, o ouvido de seus filhos,, ainda inexperientes cometem d esde logo, um crime nefando, pois estão a violentar destinos alheios  e a fabricar indevidamente situações encravadas&lt;br /&gt; Ela: Mas então que hão-de fazer? Não desejam os pais o bem de seus filhos?!&lt;br /&gt; Ele: Não é isso afinal o que agora está em causa; sim o processo de orientar os  filhos. Se disserem ao petiz que há-de ser marinheiro, passa desde logo a não ver senão água, a pensar em barcos, retirando em seguida os olhos da terra, como se para ele nada mais houvesse! Eu pergunto: será, de facto, verdadeira vocação?! Redondamente que não, pois saiu, toda ela, de fonte bem alheia: não do próprio, como fonte natural! À volta do petiz, foi-se criando um mundo artificial, a pouco e pouco: julgando pertencer-lhe, pode vir a  ser o caminho da desgraça!&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, seriam os pais verdadeiros assassinos dos próprios filhos&lt;br /&gt; Ele: Irrespondível! Antevendo logo, muito provavelmente, um futuro próspero no campo material, esqueceu-se então de que o homem, neste mundo, só pode ser feliz, executando apenas o que livre escolheu. Os pais devem orientar, mas não impor, já que, em tais casos se trata realmente de ‘imposição’, embora disfarçada! Dirigir, mas não forçar; guiar, sim, mas não levar, como diz Garrete, no belo Tratado da Educação&lt;br /&gt;Manteigas  \\  23-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Deduzimos, pois, a educação de uma criança é de enorme gravidade, Não basta alimentar, que o fazem os cães; nem chega também dar alimentação, que  o fazem os brutos; nem satisfaz a protecção no perigo, que vamos encontrá-la, nos irracionais.&lt;br /&gt; E le: viveremos  a  fundo  o  assunto  em  questão,  quando  houvermos  filhos  a quem temos de educar. Então verás claro a eficiência do método. Delicada tarefa vai pesar então sobre os nossos ombros. Não modelamos estátuas de pedra ou outra matéria! Bem ao invés: seres vivos, pensantes  e  livres!       Ela: Imaginas talvez que o nosso encantamento já teve seu fim?! Estás agindo, agora, como  se  nós ambos dispuséssemos, livres, do nosso destino! Quem sabe, por ventura, o tempo que restará, a fim de repararmos, satisfatoriamente, a falta de submissão?! Façamos de conta que, na verdade, o castigo já findou! Em tais circunstâncias, qual a tua ideia, acerca do futuro de nossos filhos? Que profissão irás indicar?&lt;br /&gt; Ele: Nenhuma, afinal, porque é deles, não de mim que há-de partir a escolha do mister. Porei as crianças em contacto com a vida e, pelas reacções, verei do que mais gostam ou se deixam cativar, de modo especial. Serei  todo  olhos,  ouvidos  e  paciência, para atender e logo registar!. Só depois disso é que tiro conclusões. Atenderei igualmente aos sonhos que tiverem &lt;br /&gt; Ela: Percebo, à maravilha a tua finalidade, que é bastante razoável. A pe sar disso, hás-de ter, com certeza, certas preferências. &lt;br /&gt; Ele: Olha que não! O que eles amarem é que eu amarei!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Nem sequer insinuarás o que traria mais prazer?&lt;br /&gt; Ele: Não! De modo nenhum, toma sentido, eu farei alguma vez que eles possam dizer, com sério fundamento: “ A meu pai é que eu devo, ser hoje tão infeliz! “ Interrogado, exporei então a maneira de ver; em caso de erro, manifesto e palpável, salientarei os prós e os contras; vendo hesitação, apontarei caminhos vários, de harmonia, já se vê, com os sentimentos  e aspirações de cada um. &lt;br /&gt; Ela: Original e assaz curioso, esse teu pensar! Se todos os pais agissem desse modo,  o mundo seria outro!&lt;br /&gt; Ele: A que são devidas, em grande parte, as deserções, agora frequentes,  na esfera eclesiástica? A um sistema fechado , em que a família e o próprio Seminário colaboraram juntos, a fim de de  que o neófito  só visse batinas e sobrepelizes!  &lt;br /&gt; E la: Desculpa lá, mas tenho uma suspeita: que não admiras talvez o ideal religioso e sacerdotal! Enganar-me-ei?!&lt;br /&gt; Ee: Não há dúvida, não, que te enganas a fundo e redondamente! Jamais, afianço-te, desviarei os filhos da sua carreira, seja ela o sacerdócio! A questão é que eles tenham escolhido, sentindo-se felizes! O que não quero é impor, veladamente que seja. A criança precisa realmente de contactar com a vida, pois  de  outro modo , não poderá escolher, ao chegar o momento. &lt;br /&gt;Um lar fechado… um seminário igual! Estava em uso, não há muito ainda! O educando, em tais circunstâncias, poderia escolher?! E o próprio jovem fruto do sistema, ficaria mais apto e desembaraçado?! Erro manifesto! Uma escolha livre , acertada e prudente só pode fazê-la quem leu atentamente o livro da vida, com seus problemas!&lt;br /&gt;De outra maneira, lidando só  com  livros, vendo só batinas e  tratando só com homens, a escolha está feita, mas é perigosa, incorrecta e desastrosa.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Não julgas arriscado expor a criança, naquela fase, em que, realmente, falta capacidade para discernir?!&lt;br /&gt; Ele: Expô-la demasiado não  julgo sensato nem é preciso! Aquilo que as circunstâncias forem exigindo, na justa medida! Compreendes muito bem, disso estou seguro, que os nossos filhinhos não ficam toda  a vida inocentes, ingénuos! Seria para nós um desgosto enorme! Ora, sendo assim, convém de facto elucidar as crianças, à medida que o precisem! &lt;br /&gt; Ela: Há um tanto de acanhamento, bem justificado!&lt;br /&gt; Ele: Nisso discordo! Acanhamento de quê?! De cumprir o dever?! Quem assim procede não merece, bem creio, o nome de pai! Com os olhos cerrados, para este realidade, a quem recorrerão, em suas necessidades?! Aos colegas da rua, que deturpam e malsinam?! Não serão os pais os mais indicados para tais funções?!   &lt;br /&gt;Ela:  Razão tinha, digo eu, o padre Verney, no século XVIII, para censurar, o processo de ensino. vigente em Portugal! Foi ele, entre nós, o ousado paladino da instruçãp à mulher, pois grassavam preconceitos de era preferível ficar ignorante! Sendo iletrada, como ensinar?! Não é ela, por ventura, a primeira professora se seus próprios filhos?!&lt;br /&gt; Ele: Bom! Mas hoje ninguém o põe em dúvida! O caso está arrumado, felizmente para nós! O que é preciso, em boa verdade, é responsabilizar os educadores, para não verem baldados seus grandes esforços ou serem de facto maus pedagogos&lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-1-1971&lt;br /&gt; Ela: Vê, bom amigo, como as coisas são?! Ao longo dos séculos, mudança radical se se tem operado, tendente a reconhecer direitos postergados ou não atribuídos. &lt;br /&gt; Ele: Ainda bem que assim é, para glória e proveito do género humano! Sinto nisso vaidade, porque foi um homem que lançou a campanha, a favor da instrução da mulher poruguesa!&lt;br /&gt; E la: O compadre acha justo que ela mereça ainda a consideração de tempos idos?&lt;br /&gt; Ele: Se comparar, demoradamente, a mulher de hoje com a de Moigénie, apresentada em seu livro “ A Mulher, em Portugal,” noto desde logo uma diferença. bastante profunda, Entendo, na minha que o homem de todo o tempo deve colaborar, generosamente , a fim de elevar o conceito e juízo, referente à mulher,  para ela não ser vítima de perversas doutrinas. A nossa vida mergulha, toda nela, devenndo , pois, lutar pela sua dignidade, honra e proveito. &lt;br /&gt;Ela: Por que olhas tanto para o mundo dos homens, se tu pertences à raça dos Gigantes?!&lt;br /&gt;Ele: Vítima dum castigo, que direi ‘nefando, jamais pertencerei ao mundo superior, onde tive o meu berço. Deixei-o com lagrimas, recordando isto com amargura! Mas, na verdade, que fazer agora, se é tarde em excesso?! Conformidade é o que importa! Derrotismo lastimoso, sensibilidade em grau extremo, de nada servem!  Ela: O mundo dos homens é bastante corrupto, mas tercemos armas, para melhorá-lo. A que atribuir a baixa lamentável da mulher portuguesa, olhada noutras eras como a mais adorável terna e meiga de todas as mulheres?!&lt;br /&gt; Ele: Efeito perverso de ruinosa propaganda, que nos veio de longe! Chegaram as modas e vieram também doutrinas avançadas, arejando-se as mentes, à brisa de fora.&lt;br /&gt; Ela: Por que não lançar eficientes campanhas, a fim de a repor, no seu devido lugar?! Seria obra útil e, ao mesmo tempo, nobre e honrosa. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-1-1971  Cont.&lt;br /&gt; E le: Quando todos os homens ou então a maior parte der para isso colaboração, teremos já coberto um lanço considerável.&lt;br /&gt;Ela: Tudo neste mundo requer muito esforço, espírito generoso e muita paciência. Feita a sementeira, deixemos a Deus o seu resultado , pois é Ele, sem dúvida, que governa o mundo.  Empreguemos os meios, que não há-de sair vão o nosso labor! &lt;br /&gt; Ele: Estou deveras empenhado em tal cruzada e, embora sempre aberto às novas ideias, não rejeito globalmente  o que veio do passado.. Quanto de belo e assa z proveitoso não achamos ali! Pretender construir, empregando meios, que apenas destroem, má tarefa é. Demolir não custa! Erguer melhorado é que tem os seus quês!&lt;br /&gt;Ela; Que podemos nós então ir buscar ao passado ou ainda contestar?&lt;br /&gt;Ele: Contestamos, por exemplo, o exagero abusivo, que se punha em prática, no tocante à mulher, exigindo-a ignorante, qual bicho da selva, espiada como ré, incapaz em tudo, como insuficiente!&lt;br /&gt;Ela: Entendes, pois, que fique para logo entregue a si própria, desde os tenros anos, sem jamais importar a inexperiência e a falta lastimosa de conhecimento?&lt;br /&gt;Ele: Nada disso! O meu ponto de vista é muito outro daquele que julgas! Apurei,  seguidamente,  o que vou aplicar a flhas que eu tenha!&lt;br /&gt;Ela: Querias tu filhas, antes que filhos?! Parece deduzir-se das tuas palavras! &lt;br /&gt;Ele: Não! O desejo é igual, no tocante aos dois sexos. Gostava, realmente, que o primeiro a vir fosse uma menina! Compreendes bem! Seria, de facto, a reprodução dum ente adorado, que foi minha mãe ou ainda o retrato vivo de alguém que és tu: nos dias turvos da velhice temida, o beijo suave que adormenta dores e apega â vida.&lt;br /&gt;Ela: Não percas, te rogo, o fio da meada, no plano educativo.&lt;br /&gt;Ele: Vou direito a ele, para dar-te prazer e, como hoje é tarde, espero retomá-lo na próxima conversa.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  28-1- 1971&lt;br /&gt; Ele: Prometi? Venho dar cumprimento ao que esperas de mim. Educar é tarefa delicada que exige paciência. Realmente, não se trata de impor a nossa vontade ou moldar um ser a gosto pessoal. Ali, não há destruir ou substituir-se! Para haver bom êxito, é preciso amar, observar e esclarecer. O amor verdadeiro é panceia geral que a tudo se aplica e tem, por via de regra, efeitos maravilhosos.&lt;br /&gt; Onde ele actua, a dureza embrandece; o impossível deixa logo de o ser o agreste e impérvio suaviza e planfica-se. Como fruto maduro de paciência longa, apenas o amor a pode gerar. Amar, para dar-se; amar ainda, para convencer; amar também, para conseguir. Não há voz, decerto, mais eloquente nem solicitude mais eficaz. É quase divino tal sentimento e, como tal, opera maravilhas!&lt;br /&gt;  Ela: É isso evidente, no que toca às mães! Não há filho que não ceda! Bastaria, realmente, lembrar dois casos, de que fala a História: Santo Agostinho, Bispo de Hipona e Coriolano, ilustre general. Um, da História da Igreja, foca Santa Mónica; outro, da História profana, visa afinal a famosa velhinha, de nome Vetúria. Na História pagã, não há, efectivamente, quadro mais belo!&lt;br /&gt;  Ele: Deduzimos, pois, que sem amor, não há, realmente, educação possível. Teremos, por ventura, hábeis farsantes, exímios funcionários, dóceis manequins, , animados bonecos, que atraem maldições. Perguntaram um dia. a S. João Bosco, onde estava,  a  rigor,o grande segredo para a sua influência nas camadas juvenis. A resposta breve foi a mesma de sempre-                                                                                                                                                                                                   : “ Se quiseres, a valer, modificar alguém, ama primeiro!”Este é o grande passo que, a não existir,faz gorar logo todo o esforço. Que faz o lavrador, antes de semear? Prepara o terreno, banha-o de lágrimas, visita-o amiúde,  acompanha solícita as alterações, vigia o tempo, adivinha e previne.&lt;br /&gt;Ela: É mais que certo e ninguém terá dúvida. O educador precisa dar-se e viver a fundo. os problemas alheios, ajudar a resolvê-los.  alegrar-se em comum e chorar também com o educando. É como se fora pai, mas um pai amoroso. dedicado  e so lícito, altamente generoso. &lt;br /&gt; Ele: Aí tens, pois, o grande segredo, que opera milagres e gera conversões. À margem dele, é tudo árido, terroso r prosaico; a seu  calor, um sopro vital anima a criatura!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-1-1971&lt;br /&gt; Ela: O segundo requisito vem poia a ser a observação, como disse o compadre&lt;br /&gt; Ele: Exactamente! É que, a rigor, não se trata de cobaias. às quais aplicamos esta medida ou aquela! O processo de actuar é inferido com lentidão, paciência e custo. O que está em nossa mão é, na realidade, um ser em bruto, quase insensível  e algo apático. Objecto constante do no nosso lidar, sente, pensa e reage, porque tem inteligência e vontade. Ora isto não pode esquecer-se!&lt;br /&gt;Àqele  que é dócil ne também carinhoso não vamos tratar com alguma rispidez ou severidade! A nossa obra ficaria gorada e jamais obteríamos o mínimo de tudo. &lt;br /&gt; Ela: Qual deve ser então o ponto de partida? A que atender, em primeiro lugar?&lt;br /&gt; Ele : Aqilo que importa, acima de tudo, é desde logo, captar a simpatia. Sem isto, nada feito!, uma vez que o educando permanece fechado, não se revelando. Deve, realmente, sentir-se à-vontade, não ver no Superior um ente inacessível , cuja presença, harto desagradável, é mais temida que desejada..Há-de ter desejo de encontrar-se com ele, falar-lhe a sós e expor sem rodeios os seus problemas.&lt;br /&gt; Ela: Isso que dizes não é tão fácil como parece, ao menos, julgo eu, em certos casos!&lt;br /&gt; Ele: Sim, convenho, de modo especial, tratando-se de índoles bem pouco abertas! Pessoas há que se fecham a capricho, dificultando imenso a obra educativa. À maneira exacta do simples caracol, a qualquer pressentimento cerram-se na concha, impedindo se actue, a partir do exterior.       Ela: . Até me parece que nem todas as pessoas nasceram para isso!   &lt;br /&gt; Ele: Claro que não! É dom natural e até bem raro, levar outra gente a ser aberta , sem esforço algum! Predicado inato importa descobri-lo, fazendo-o render!&lt;br /&gt;MANTEIGAS  \\  30-1-1971i&lt;br /&gt; Ela: Como proceder, em tais circunstâncias. para insinuar-se ‘&lt;br /&gt; Ele: , colaborando sempreAmar os outros é o grande segredo e a mola real, que tudo acciona É que neste caso vem tudo por acréscimo. Quando alguém se apercebe de  que  é, realmente objecto de estima, não levanta problemas nem opõe resistência. Amolda-se e actua, de do intenso. Efectivamente, é deveras penhorante, ver alguém preocupar-se com a nossa pessoa. vivendo também os graves problemas que nos afligem e, ao mesmo tempo, ajudando a resolvê-los, sem qualquer interesse. Que poder aí há que resista a isso?! Preparado o terreno, desaparecem barreiras, endireitam-se  caminhos  e  galgam-se obstáculos.&lt;br /&gt;O educando, mercê do amor, que lhe e votado, ganha confiança, desabrocha sem estorvos, e  não tenta jamais o que é frequente: ocultar o peito ou então disfarçar, fugindo a contactos,&lt;br /&gt; Ela: Santo Deus! A dissimulação  é algo de terrível, na matéria em foco. &lt;br /&gt; Ele: Em vez de formarmos um homem digno,  preparamos um hipócrita  e, possivelmente , refinado vigarista! Ora, escusado é dizer que pessoas destas são pouco desejáveis, em sociedade! O  convívio  estável entre  os indivíduos, como entre as nações, tem como base a  confiança  mútua. A suspeita é fonte natural de intranquilidade  e  origem de  mal-estar, caminho inseguro e impraticável!&lt;br /&gt; Ela: Que Deus nos livre de tais farsantes. Na verdade, ante esses mafarricos, seremos quase ingénuos, a quem aguarda um fim las imoso. Desfazer-nos deles é tarefa  que se impõe!&lt;br /&gt; Ele:  Imagina , pois, a delicadeza bem como o fino tacto, que deve possuir o bom educador! Além disso, não pode faltar perspicácia aguda e bom espírito de observação. Caso contrário, pulularão sempre na sociedade, elementos perniciosos, cuja presença nos é odiosa. Quando Deus quer, nem ensejo nos resta, que permita fugir deles. Medram nos educandos tendências maléficas, que se vão desenvolvendo notavelmente, em prejuízo de outras, que seriam proveitosas. Em vez de melhoria,  pode ter havido um jogo satânico, que serviu meramente, para afinar a maldade.&lt;br /&gt;Aqui tens o que penso, em matéria delicada como esta que versámos&lt;br /&gt;Manteigas  \\  31-1-1971111111&lt;br /&gt;  ELA: Resta somente uma terceira parte: orientação do nosso educando.&lt;br /&gt; Ele: É a parte mais difícil e até delicada  -  o remate do edifício. Não há prudência nem tacto que se digam a mais. O papel do jardineiro não vem a propósito .É que este, de facto, arranca logo e inutiliza, enquanto o educador não pode fazer assim..Mais primorosa a sua tarefa, exige  efectivamente que ele respeite  sempre  o que há no educando, já que nem pode extirpar nem destruir!&lt;br /&gt;Há, sim, que desviar em outro sentido, a propensão da criança, aproveitando logo a notória  preferência , que sempre manifesta. Essa capacidade é reserva excelente de energia vital, que pode fazer um santo ou um criminoso.&lt;br /&gt; Ela: Mas isso afinal, requer paciência bem como ideal! Creio que nem todos se orgulham de possuir esses dons excelentes! &lt;br /&gt; Ele: Há na verdade quem os possua, mas não esteja disposto a fazer uso deles! As virtualidades, também por sua vez  hão-de ser moderadas, não seja caso talvez, que se volvam mais tarde em prejuízo manifesto.  Assim, por exemplo: a criança é generosa e gosta de ser prestável. Tem de ser estudada, com toda a minúcia, pois dar tudo e nada guardar é loucura rematada. Urge, pois, moderar-lhe a tendência, para bem de si própria.&lt;br /&gt;Se, ao contrário, é avarenta, a campanha educativa leva outro rumo. Há que desprendê-la por meios suasórios e razões convincentes, de uma parte notável de bens pessoais. É eficaz e útil pô-la em contacto com a miséria, para se inteirar de que há fome na Terra e que muitas crianças morrem, de inanição Far-se-á o elogio da caridade cristã, com vista à prática de actos meritórios. É também aconselhável encarregá-la, por vezes, de missões especiais, com fins de beneficência, em que ela descubra  o imenso prazer de fazer bem aos outros. &lt;br /&gt; Ela: Até humanamente a avareza é detestável Nunca é louvado o que tudo segura, dando provas inequívocas de egoísmo sem par!&lt;br /&gt; Ele: E há razão de sobejo, para não ser prezado! Em que pode ser útil qualquer avarento?!  Aquele que se ocupa somente de si, não faz bem ao semelhante. Quem dá aos outros parece-se com Deus., quer se trate, em geral,de bens materiais, quer de bens espirituais. &lt;br /&gt;Mamteigas  \\  1.2-1971&lt;br /&gt; Ela: o facto de o avaro não ter amigos gera logo em mim acentuada suspeita , Serei eu exagerada?!&lt;br /&gt; Ele: Conclusão nova?! Creio abranger o teu raciocínio. Deduziste, por ventura, que  tem amigos quem dá, não é assim?&lt;br /&gt; Ela: Sem tirar nem pôr, mas tenho para mim que tal amizade é pouco valiosa&lt;br /&gt; Ele: E não pensas mal! De facto, sendo esse o motivo, é como edifício a que faltam alicerces! Construir sobre areia não vale a pena! Lá diz o grande Mestre da Língua Portuguesa, o mavioso Bernardes, que não tinha amigos, mas amigos do seu&lt;br /&gt; Ela: Nem isso, a rigor, é amizade, porquanto  ela assenta  em  bases mais firmes.  Não vemos nós desfazerem-se, às vezes, certas ligações e até amizades que  pareciam  eternas! Ora, como diz argutamente  o  Bispo de Hipona,:” Se a amizade acabou, é porque não existia! “&lt;br /&gt;    Ele: ele que o disse, é que tinha por certo razões para isso” Quando é verdadeira, não só ão acaba, senão que aumenta. O que a faz autêntica são os motivos que lhe dão origem: razões naturais ou sobrenaturais; com Deus do Céu ou a virtude por sólida base. Como Deus não passa e bem assim a virtude, também a amizade não pode cair, por estar firmada. Bem ao invés, se há  motivos  encobertos  e menos honrosos, logo que estes soçobrem , cai o edifício. &lt;br /&gt;Ela: No entanto, ouve-se dizer: eu tenho muitos amigos. &lt;br /&gt;Ele: Essa frase é falsa! Não diz a Escritura:”Se encontraste um amigo, deves estimá-lo pois achaste um tesouro?!” Não se trata propriamente de amigos autênticos, mas pessoas da tertúlia , parceiros habituais do copo e do cavaco. Outras vezes, é já diabólico o motivo que os une. Amigos, sim, para ferir e derribar outrem ou obter algum  empréstimo , alcançar finezas. e lograr doações; satisfazer a vaidade ou a sensualidade! Estas razões são de tal natureza, que logo se esborouam, ao primeiro embate!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-2-1971&lt;br /&gt; E la: Perguntasse alguém que vem a ser a amizade, qual seria a resposta!&lt;br /&gt; Ele: Não seja embora das coisas mais fáceis, vou tentar definição que ao menos se aproxime: uma fusão de almas que  um  dia  qualquer descobriram semelhanças,  nas duas  pessoas, pondo em comum prazeres  e dores.  por forte razão  de ordem espiritual.&lt;br /&gt; E la: Fica, pois, à margem qualquer motivo de ordem material ou então corpórea?&lt;br /&gt; Ele: Evidentemente! Se não fora assim, como distinguir a amizade e o amor?! É óbvio também que no próprio amor pode existir um motivo de ordem espiritual, mas ainda neste caso, há sinais específicos &lt;br /&gt; Ela: indica alguns deles, que aprecio ouvir-te!&lt;br /&gt; Ele: O amor, em sua génese, aparece de improviso, enquanto a amizade é fruto de convivência, efeito de observação e caminho que trilhamos, depois de observado. O amor ´e passageiro, singular e violento, ao passo que a amizade é de si constante, serena e comedida.  O amor vai subindo, na escala do afecto  e,uma vez chegado ao ponto máximo, decresce fatalmente, chegando, por vezes, a extinguir-se inteiramente&lt;br /&gt;A amizade, ao in vês, vai crescendo, crescendo, numa linha ascendente.. Aquele d´´a-se e exige necessariamente retorno sobejo, mas esta sorri  apenas e não tem exigências que se tomem por medida. O amor é ciumento e exige contactos; a amizade, porém, não se importa demasiado nem leva em conta algumas realidades como as referidas.&lt;br /&gt;Aquele é a um, jamais tolerando que outrem se incorpore, enquanto esta não olha ao número, folgando até, se encontrar no seu caminho novas amizades. &lt;br /&gt; Ela: São bem curiosas essas facetas&lt;br /&gt; Ele: Re flectindo um pouco mais, encontraríamos, segundo julgo, novas diferenças. A causa do amor é algo misteriosa. Às vezes, não sabemos, de modo nenhum, encontrar-lhe o motivo. Teoricamente, porém, descobrimos no caminho motivo que baste!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-2- 1971&lt;br /&gt; Ela: Eu tenho um fraquito por assuntos destes!&lt;br /&gt; Ele: A psicologia é, dentre tudo, o que eu mais aprecio. Penetrar fundo no desconhecido, achar ainda, para além da aparência, as causas reais, não ocupa lugar, na escala de valores! Como aparece o amor! Um olhar, por vezes, age qual faísca. Que houve entre as almas que revolveu e logo abrasou?! Força misteriosa que arranca da inércia dois que não sofriam. Agora, porém, a vida é tormenta e cada obstáculo um inimigo a vencer! Uma luta renhida , um diálogo sentido, uma unidade, assaz completa!&lt;br /&gt; Aqui o imprevisto, dominador e sempre fulminante; além, na amizade, tudo corre diferente. Sempre e em tudo comunhão total:  num caso, meditada; noutro, inesperada. Agora, sem razão aparente; agora, com motivo adequado!&lt;br /&gt; Ela Grande força é ele que dobra corações e submete vontades!&lt;br /&gt; Ele: Que admira tal facto, se leva consigo o poder criador?! Não foi Deus Omnipotente que lançou um dia no fogo do amor, a  centelha  de vida ?! Essa vida que Ele tinha e da qual é Senhor, emprestou-a generoso a toda a Humanidade,” Crescei e multiplicai-vos” assim disse o Criador. Por isso mesmo é que a centelha não pode apagar-se e vai sendo transmitida , de geração em geração.&lt;br /&gt;Algumas vezes é compaixão o veículo potente que incendeia a faísca; outras ainda, a formosura, que logo estonteia, pondo alvoroço, no peito de alguém. Sucede também impor-se com afinco a mesma virtude, que logo transparece, nuns olhos brilhantes.&lt;br /&gt; Ela: Fico elucidada, meu bom compadre. Sem a menor sombra de baixa lisonja, sinceramente confesso que foi muito agradável a troca de impressões, que levamos realizada.&lt;br /&gt; Ele: Podíamos, realmente, aprofundar ainda um pouco mais. Entretanto, julgo que o essencial fica bem  explanado. Cada um, reflectindo, encontrará certamente aspectos originais, que são de focar. &lt;br /&gt; Ela: Oxalá que aproveitem estes nossos diálogos e que o mundo se eleve ,tornando-se melhor! A ignorância, compadre, é fonte de miséria, caminho de maldição! Haja, pois, em nosso espírito, luz que vivifique, para que a Humanidade, lançada em caminhos novos, ganhe novo alento e sinta maior desejo de subir para Deus.  Este é o alvo de tudo, queiramos ou não.&lt;br /&gt;D’Ele é que  viemos: para Ele, então é que havemos de voltar&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-2—1971&lt;br /&gt; Ele: Muito havia a dizer, acerca do amor, pois  é  veio  inesgotável, com aspectos variadíssimos. Definições a montes se registam nos livros sem que nenhuma o exprima, de maneira cabal. Grande e misterioso, pois  o  vencedor é que fica vencido .Não o disse Camões, o maior entre os vates?!&lt;br /&gt; Ela: Que foi que ele disse e a  propósito  de quê ?! &lt;br /&gt; Ele: As palavras são estas:” É servir a quem vence o vencedor”  Fazem parte notável do soneto belíssimo , que retrata o amor pelas suas propriedades. O primeiro verso  é  como segue: “ Amor é fogo que arde, sem se ver”  &lt;br /&gt; Ela: Já que falaste em soneto, viria a talho de foice comentarmos alguns, já que a nossa Línga os tem como nenhuma!&lt;br /&gt; Ele: Bem sei o que intentas, doce e cara amiga. Acaso olvidei eu os tempos que lá vão?! Por ventura morreu “Um Sonho de Amor?! Como se fora hoje, ele está bem presente! Recordo ainda agora a bela dedicatória:” Ao seu Gisaldo a Amélia que o adora”&lt;br /&gt;Todo estremeci, da cabeça aos pés, sentindo cá dentro uma ponta de vaidade.&lt;br /&gt; Ela: Que vaidade sentirias, ligando a mim o teu destino, se tu és gigante, e eu simples mortal? Razão para discórdia vinha a ser na tua vida, que os gigantes são ciosos, nada querendo com os mortais!&lt;br /&gt; Ele: Que importava o seu gosto, se era eu quem amava?! Receios de meus pais, frequentes  insinuações  de  irmão e conhecidos, tudo se esvairia, pois o meu astro assomava  no  horizonte.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-2-1971&lt;br /&gt; Ela: Realmente, é um género que eu sempre adorei! Só 14 versos, dispostos, geralmente, em quartetos e tercetos, e que mundo agitado, vivo e suculento! Os pensamentos mais nobres, a tragédia mais funda, os desejos mais subtis, nada vai escapar ao exíguo soneto, em que brilharam, aos centos, vates bem famosos do mundo lusíada&lt;br /&gt; Ele: Embora não seja leigo, no assunto de agora, folgo de ouvir a tua opinião. pois lá diz Garrete: “ Em Poesia, Música ou Drama, as mulheres não se enganam” Quais são para ti os melhores sonetistas da nossa Língua?&lt;br /&gt; Ela: Os que falam mais alto à sensibilidade são os seguintes: Camões e Bocage, Florbela  e  Antero. Não quero dizer com isto que admire apenas estes, mas simplesmente que voaram tão alto,  que  dificilmente  alguém  os  ultrapassa. Começando já pelo maior de todos, não haverá, de facto, restrições a fazer?! Lembra-te desde já que imitou Petrarca, o grande poeta que deu ao soneto as linhas definitivas!&lt;br /&gt; Ela: É certo e sabido que ele o imitou, pelo menos ao princípio, como tinha de de  ser, para se integrar na Escola Clássica. Se o mérito pessoal consistisse apenas na originalidade, absoluta e integral. quem seria bom poeta?! Nem haveria, por certo, Escolas Literárias, para guia de escritores!  Cada um formaria uma Escola!&lt;br /&gt;Não se deu p mesmo, em ordem aos Lusíadas? Olha somente ao primeiro verso da nossa Epopeia, fazendo a mesma coisa, no primeiro da Eneida. &lt;br /&gt; Ela: Isso prova meramente que a nossa Epopeia é uma obra clássica, Nada mas! Voltaremos ao assunto, um dia mais tarde, havendo  ensejo, para o fazermos&lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-2—1971&lt;br /&gt;Ele.: Vamos então falar do soneto’&lt;br /&gt;Ela: Oh! Nunca estive mais pronta! Sou  toda  ouvidos! &lt;br /&gt;E le: Teoricamente, sou capaz de igualar-te, embora na prática vás à minha frente! Vejamos primeiro a sua estrutura: formam-no, pois, dois  simples  quartetos, sendo igual  também o número de tercetos. &lt;br /&gt;Ela: No tocante a isso, tenho algo a dizer: há sonetos, por aí, com mais três versos. chamando-se ‘estrambote’ o último terceto.&lt;br /&gt;Ele: Bem observado, não haja dúvida! Pois vou dizer-te que surgiu na Sicília, devendo a forma actual ao grande Petrarca, famoso autor de livros de  Salmos. &lt;br /&gt;Ele: Efeito, julgo eu, das famosas Confissões de santo Agostinho, que leu e meditou! &lt;br /&gt;Ele: Fixadas então as linhas estruturais, que todos conhecem, o soneto difundiu-se, por toda a Europa, sendo cultivado amorosamente por notáveis poetas e altos espíritos. &lt;br /&gt;Ela: Quem o trouxe para nós foi Sá de Miranda,, não é verdade?&lt;br /&gt;Ele: Exacto! Pertence o dito às chamadas formas novas, junto com a elegia, a própria canção, a ode e o hino. Além disso, trouxe ainda o terceto e o verso decassílabo.&lt;br /&gt;Ela: Se bem me lembro, o divulgador das tais formas novas , terá sido entre nós António Ferreira, autor famoso da Tragédia clássica ‘A Castro’i &lt;br /&gt;Ele: Exactamente. Discíplo querido e muito devotado a Sá de Miranda , em breve o fez conhecido. Ele em pessoa foi autor de sonetos, exemplificando o novo género.&lt;br /&gt;Ela: No tocante à rima, Há-de tomar-se em conta o que vou dizer: encontramos no soneto duas unidades, abrangendo a primeira  &lt;br /&gt;os dois quartetos, e a segunda os dois tercetos. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-2-1971&lt;br /&gt; Ele: Não tenho bem presente o sistema rimático&lt;br /&gt; Ela: Bom! É muito simples: nos dois quartetos, a rima é uniforme, sendo já diferente, no caso dos tercetos. Exemplificando, temos o seguinte esquema:    abba abba ; cde-cde. Além da  emparelhada  e da interpolada ou ainda a cruzada cruzada , enta umadmitem os tercetos  outras rimas ainda.&lt;br /&gt; Ele: Segundo o teu juízo, a quem dedicou o grande poeta o soneto”Alma minha”, que hoje apresenta um cacófato, ainda inexistente, no tempo de Camões? &lt;br /&gt; Ela: A princípio, julgava eu, segundo  a  crença geral, havê-lo dedicado â famosa Natércia . Mais tarde, porém , mudei de opinião. Diogo do Couto, amigo de Camões, esclareceu o problema: Dinamene, com certeza. Esta jovem asiática, de cor amarela foi a grande paixão do vate lusitano. Acompanhando  este numa viagem a Goa, sofreram naufrágio em que ela pereceu e estiveram em perigo os primeiros 6 Cantos  da Epopeia Nacional.&lt;br /&gt; Para  memória eterna, aqui deixo o soneto, que espanta as gentes:”Alma minha gentil que te partise\\\ Tão cedo desta vida descontente\\\ Repousa lá no Céu eternamenrte \\\ E viva eu cá na Terra sempre triste\\\&lt;br /&gt; \\\ Se lá, no assento etéreo onde subiste \\\ Memória desta vida se consene,\\\ Não te esqueça daquele amor ardente \\\ Que já nos olhos meus tão puro visre \\\ E se vires que pode merecer-te \\\ Alguma coisa a dor que me ficou \\\ Da mágoa sem remédio de perder-te \\\ Roga a Deus, que teus anos encurtou \\\ Que tão cedo de cá meleve a ver-te \\\ Quão cedo de meus olhos te levou\\\&lt;br /&gt;Manteigas\\8-2-1871&lt;br /&gt;Ela: Quanto à beleza formal, nada existe aí que possa igualá-lo!&lt;br /&gt; Ele: E todos são unânimes?! Não há divergência?&lt;br /&gt;Ela: Haver pode, mas no geral o sentir é unânime!&lt;br /&gt;Ele:  Quanto  ao naufrágio, há quem diga tratar-se  duma  lenda! Que diz a isto e que vamos opor aos que discordam? É um  assunto  grave  que merece interesse! Até porque o caso está ligado aos Lusíadas&lt;br /&gt;Ela: Não é exacto! A  nossa Epopeia  refere-se  ao  caso,  por  mais  de  uma vez!&lt;br /&gt;Ele: Infeliz Camões! Não bastavam as torturas e problemas dos homens, para vir o naufrágio exacerbar a sua dor?!&lt;br /&gt;Ela: Bem observado! Nos seus 28, era ele ainda totalmente ignorado.&lt;br /&gt;Ele: Como sabes isso?! Há documentos que possam elucidar?&lt;br /&gt; Ela: Há documentos que possam elucidar?&lt;br /&gt; Ela: Com certeza! Na carta de perdão, que o Rei João III concedeu ao poeta, lêem-se os dizeres:”… o rapaz tem 28 anos, é pobre e vai servir na Índia”.&lt;br /&gt; Ele: Parece impossível, atendendo, realmente,  a que os nossos reis da 2ª Dinastia  foram quais mecenas das Letras e das Artes!&lt;br /&gt; Ela: Pois sim, é verdade, mas quem nasce fadado para a incompreensão, de que presta isso?! Aliás, o caso nã+ é inédito! O nosso Fernão Lopes só foi achado  3 séculos após a sua existência!. Pois se ele escapou (como foi isso?) ao olho observador, arguto e sagaz de Manuel de Melo!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-1-1971&lt;br /&gt; Retomando agora o fio da meada, Luís de Camões ia ficar deveras aturdido, com a morte infausta  do  ente amado! Eu imagino! Perseguido pela sorte, malquisto aos homens, afastado pela inveja, e vítima inocente de graves preconceitos, fez-se militar, por força das circunstâncias, tendo por companhia a dor e o tormento! Olha que é forte desgraça! Vai, depôs, encontra no Oriente um peito amigo, e um terrível naufrágio arrebata-lho para sempre, cá no Planeta! &lt;br /&gt;Tenho para mim que foi precisamente o caso da foz, no rio Mecão, já na costa do Camboja!&lt;br /&gt; Ele: A que propósito fez o vate essa longa viagem? Como terá escapado à morte cruel? &lt;br /&gt; Ela: Uma tragédia em tudo consumada! Era ele, ao tempo, provedor-mor de defuntos e ausentes, na província de Macau, quando na Índia governava j´´a Francisco Barreto, inimigo figadal do poeta infeliz! Ora, sucedeu que alguém, o acusou , afirmando peremptório que desviava dinheiro, inorrendo assim na ira do Vice. rei, que não gostava dele e iria desforrar-se de agravos anteriores. Intimado então para vir a Goa,  oóe-se a caminho, trazendo por companheira a sua grande amiga  e o Poema imortal. que já tinha 6 Cantos, como disse algures. &lt;br /&gt;Ocorreu o imprevisto! Ela morre, deixando-o na angústia, e ele, muito a custo, defende w própria vida e a Obra-Prima da Humanidade, sustentando-a no ar.&lt;br /&gt;Ele: Que dano irreparável, para as nossas Letras, se o belo Pema ficasse pasa sempre nesse mar fundo! &lt;br /&gt;Ela: Imagina, pois, a angústia, o desespero e o desalento dum homem sensível, que chega à praia e não vê quem adora. Ficara no abismo o esteio forte do seu viver! Restava-lhe apenas uma escora potente, o Poema grandioso, que doava â Pátria! Se não fora ele, que lhe importava a existência?! Mas assim, vai uma vez mais arrostar com a miséria, encarar de frente com o ódio dos homens… encaminhar-se a Goa. Ali, é pois, condenado à prisão!&lt;br /&gt;Qle: E seriam justos, atirando-o assim. desumanamente  para um calaboiço, de alma a sangrar?! Inspiraria dó a quem fosse de pedra!&lt;br /&gt;Ela: Os homens são algozes, quando têm o poder e jogam à-vontade!&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 10- 2-\971&lt;br /&gt; Ele: Comentemos agora o soneto imortal&lt;br /&gt;Ela: Nunca eu tive prazer maior nem estive mais pronta! É que este assunto me quadra a valer Há no arranjo suma beleza e até sublimidade, que seduz e encanta!&lt;br /&gt; Ele: Bem estou vendo que é o teu elemento! Que é que faz o peixe, dentro da água  ou  então fora  dela?| Pois bem! Como se trata, realmente, de genuína obra.prima, devemos penetrar-lhe o sentido profundo, imergindo no mistério que encerra tal beleza! As primeias palavras são um grito de angústia, que a saudade articulou, após a grande tragédia. Dinamene está morta, sem qualquer esperanç!&lt;br /&gt;Com ela se  fora tudo , e o poeta infeliz mergulhava então mais do que nunca, em profunda  solidão,.Sua vida e consolo, dedicação e apoio  tudo fora levado na asa traiçoeira duma ave agourenta! O terrível naufrágio, impiedoso e cruel  era causa bastante, para matá-lo. nesse dia aziago! Por que não morreu, juntamente co ela?! Para sofrer assim e agonizar, em contacto impiedoso com os homens sandeus!&lt;br /&gt;Vinha para Goa, trazendo no peito, amargura, ansiedade. Acusado injustamente  e havido por ladrão, encontrava-se a braços com a justiça terrível de Francisco Barreto .Que podia confortá-lo? Morrer? Seria melhor, mas a Epopeia imortal que não tinha acabado?! A vida, sim, fosse ela madrasta e deveras espinhosa! Resignado embora a continuar a  existência, prorrompe  em queixumes de cortar as entranhas , despedaçando o mesmo coração! “Alma minha gentil que te partiste”&lt;br /&gt;  Ela: Como te admiro excelente amigo e como sinto orgulho  de  haver-te escolhido!&lt;br /&gt; Ele: Bem vês, grande amiga, que a dor sem limites não tem segredos, que não conheça também! Insónias perduráveis, longo cismar, solidão imensa, tudo foi pão que eu houve de tragar! Nestas horas aflitivas é que  o peito se estorce, voltando-se para um alvo que foi luz e consolo.”Alma minha!” Era dele, na verdade, porque a amava loucamente, recebendo em troca dedicação sem limites!&lt;br /&gt;O pensamento constante,  a certeza da posse, a formosura e lindeza que lhe adornavam as formas constituíam no mundo a razão do seu viver, mas tudo era um sonho que as águas revoltas haviam cavado seu pr óprio túmulo e o dele também.&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 11-2-1971&lt;br /&gt; Ela:   Está  provado, à saciedade. que, sem dor e amargura, não há neste mundo, via nobilitante. Quem me dera também voar eu a capricho no dorso das ondase, logo em seguida, mergulhar até ao fundo!&lt;br /&gt; E le: Não entendo francamente arrazoados assim, pois ir ias deixar-me, sem dó nem piedade, entregue à minha dor?! Tu não vês que és minha,  porque  eu  te elegi?!  Não sentes ou presumes que a razão do meu viver está só em ti .Já não sinto em  minha  alma o fogo sagrado que me fazia vibrar! À maneira de um tufão que desfez o meu peito, noto realmente que sopra em meu redor. Assim, não quero viver!&lt;br /&gt; Desculpa, bom  amigo,  que  eu  não  quero  deixar- te : se vivo  neste  mundo, é por ti que  o  faço! O que tenho passado, já lá vão tantos anos, é na firme esperança de fazer-te feliz! O  que  disse  agora  há  pouco, bem  deves compreender ,visava tão só um destino imortal!  Desejava ser cantada por lira bem sonora, para que o mundo soubesse meu viver angustiado!&lt;br /&gt; Ele: Não me deixes, por favor, abandonado na Serra, prisioneiro desditoso, à mercê de fúria estranha! Estes gelos eternos, este frio insuportável só um peito amante  os  chega a contrastar! “Alma minha gentil!” Que eu  não diga também como o vate infeliz “ Não quero que partas! É que eu sem ti, não sou ninguém. És alento e vida, amparo, consolação! Aih ardores de Julho! Que será d e mim! Arrepios de Janeiro,  que penetrais fundamente, como eu vos detesto  e maldigo vivamente!&lt;br /&gt;A minha triste sorte foi um dia lançada por grandes potestades! Vê se podes ajudar-me, que preciso de ti!&lt;br /&gt;Ela: Eu não quero partir, que sou tua, só de ti! Não vês, meu amigo, que fiquei eternamente, aqui ao pé de ti?! Melhor prova do que esta não podia  arranjar, pois fui solicitada com promessas  atraentes de paz e ventura!&lt;br /&gt;Mannteigas  \\  12-2-1971&lt;br /&gt; Ele: Sou feli, É que sinto a chama de novo a arder, convidando a prosseguir, no caminho encetado. A chinesa par tiu, deixando o seu vate mergulhado em pranto.&lt;br /&gt; Ela: Sim, é claro, mas foi contrariada que ela o deixou! “ Que te partiste desta vida ‘descontente’ Se ela o amava, como é que então o podia deixar?! Aquilo que se ama não  é de largar! Apenas a morte, com garras aduncas, infringe  esta lei! Q eu  poder haverá, tão forte e ousado,, que separe dois amantes?!&lt;br /&gt; Ele: É verdade! A forç a do amor, quando é sincero, vai além do normal! A união é perfeita, o sincronismo, total, a razão de ser, apenas uma!&lt;br /&gt;Ela: Como justificas o voto do poeta  “ Repousa lá no C+eu eternamente? Não achas absurdo, em tais  expressões?! Se não podia, realmente viver cá na Terra, assim longe da amada, que dizer a tais paalavras?!&lt;br /&gt;Ele: Há razões fortes que o levam por diante!  Querendo-lhe tanto e sabendo que é feliz, resigna-se a tudo. Quem é que não gosta de ver bem ditosa a pessoa idealizada?! Querer-lhe bem é querê.lo a si próprio. Moralmente não são dois,mas apenas um!&lt;br /&gt;E la: Apesar de tudo, ele junta em seguida “ E viva eu cá na Terra sempre triste!” Não parece que devia andar alegre?&lt;br /&gt;Ele: Pretendes o impossível, num homem apaixonado!! Só Deus é capaz de quanto deseja! Não queiras então que o homem ascenda ao lugar do Infinito! Conforma-se, é verdade, mas a sua natureza sofre, gritando.&lt;br /&gt;Ela: Não era ele um tanto desconfiado?&lt;br /&gt;Ele: Essa agora! Desconfiado porquê?! Tens cada uma!&lt;br /&gt;E la: Repara bem no 2º quarteto e medita-o a sério! “ Não te es queça daquele amor ardente”Seria preciso recomendar tal coisa?!&lt;br /&gt;Ele : O poeta bem sabia que era amado ao vivo, apesar de  tudo sentia prazer e até necessidade  em confessar o seu grande amor. Na verdade, é como a chama que pronto se espevita, não porque vai apagar-se, mas unicamente, para reforçá-la ou ainda, se preferires: como fino combust+ivel, que s e vai lançando na fogueira ateada.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-2-1971&lt;br /&gt; Ela: Achas, a bem dizer, remédio para tudo, mas não entres a julgar, algo erradamente, que a surpresa me toma! As razões que apresentas sinto-as eu em mim.&lt;br /&gt;Ele: Tanto melhor, já se deixa ver! Não é falível o homem?!&lt;br /&gt;Ela: Sim, e volúvel também, sendo isto, pois, resultado imediato! Sujeito a mudanças, que poderá futurar-se?!  nem ele mesmo é senhor que garanta um caminho e  não outro diferente. &lt;br /&gt;Ele:” Se lá, no assento etéreo onde subiste…” Como é notório, supõe o vate que a eterna felicidade é já sua herança&lt;br /&gt;Ela: Ser+a isto, a rigor, confiar demasiado! Quem jamais penetrou em arcanos &lt;br /&gt; celestes?!&lt;br /&gt;Compadre: Ele conheça-a bem.: sacrificada e virtuosa, meiga e submissa,, que havia de pensar?!Pois Deus não é justo?!&lt;br /&gt;Ela: Mas como é isto?! Agora me lembro de que os deuses pagãos não são perfeitos!&lt;br /&gt;Ele: Se foram, na ver dade, inventados pelo homem! Recorremos a eles, por motivo de estética, pondo em acção jogos de fantasia! Nem os pagãos acreditavam neles&lt;br /&gt;Ela: uito bem observado! Platão e Cícero riam-se deles! Acreditavam só num Deus e Senhor.Este premiou decerto a infeliz Dinamene, pois que os bons serão recompensados&lt;br /&gt;Ele: Assim foi, com efeito. O vate lusitano é firme na crença, admitindo, sem rodeios, que uma justiça estrita caracteriza o seu Deus. &lt;br /&gt;Ela: Que dúvida aquela a atormentar-lhe o espírito?!&lt;br /&gt;Ele : Inteiramente razoável! Como saber, de longe, o que vai l+a no Céu?! Quem vai revelar-lhe o que ali ocorre?! Arcanos divinos que o homem não decifra!&lt;br /&gt;Ela: Vai o coment á rio a meio do caminho, e o tempo mingua. Assim aconte ce com tudo o que +e belo! Quando mal despertamos, aproxima-se o fum! Já o m esmo não sucede quando a vida tortura! Nesse caso, os momentos são loongos, o dia eternidade, a vida uma tr agédia. &lt;br /&gt;Ele: Mas um poeta é g rande, até na desgraça.&lt;br /&gt;Manteigas  \\   14-2-1971   &lt;br /&gt; E la: Vamos concluir o nosso trabalho?&lt;br /&gt; Ele: Assim penso eu e quero também.  Sem quaisquer preâmbulos, entremos no assunto.&lt;br /&gt; Ela: “ E se vire s que pode merecer-te \Alguma coisa a dor que ne ficou 1 Da mágoa sem remédio de perder-te”…&lt;br /&gt; Ele: Bem se  vê que lidas com o Belo!&lt;br /&gt; Ela:  Como não fazê-lo, se  alimenta e aviva a minha sede amorosa?!&lt;br /&gt; Ele: O poeta angustiado fizera já um pedido, no 2º quarteto,  e agora faz outro, não menos importante. No primeiro, rogou-lhe que o lembrasse, baseando p edido na sinceridade e na mesma pureza do seu grande amor. Agora, esta nova súplica  fundamenta-se, é claro, na dor incomensurável, que punge a sua alma. “ Na m+agoa sem renédio de perder-te”&lt;br /&gt; Ela: Qual dos pedidos é mais  sincero, veemente e se ntido?&lt;br /&gt; Ele: Julgo, na minha , que  ambos  são iguais. , mas o segundo tem para mim  a sublime grandeza da própria tragédia, a unção da paciência, a ternura incomparável da maternidade. Nada houve neste mundo, com acentos mais brsndos,, inflexão mais suave, mais sonora vibração!&lt;br /&gt; E la: Repousa, lá no Céu, eternamente”&lt;br /&gt; Ele: A vida para ele tornou-se um calvário! Já não pode ! A separ ação foi tão violenta e monstruosa! Algo de  seu lhe  foi arrebatado, sem remédio algum nem pr omessa de futuro!&lt;br /&gt; Ela: Cono seria a tal despedida?&lt;br /&gt; Ele: E houve tempo de fazê-la?Esperaram, as ondas insofridas que as almas enamoradas trocassem, na verdade, o último adeus?! Não foram os dois arrebatados, num ápice, por garra violenta que não mais os largou?! É por isso que ele grita, em voz altissonante, deste mundo em que sofre, inconsolavelmente;:”Roga a Deus, que teus anos encurtou\ Que tão cedo de cá me leve a ver-te \ Quão cedo de meus olhos te levou”&lt;br /&gt;Compadre: Por que é que ele não pediu a Deus’ Seria débil a sua fé ? Hesitante, por ventura? Não. O poeta é crente. Assim o diz a Epopeia Nacional Aqui, porém, era maid oportuno rogar-lhe a ela, visto que já se  encontra na presença de Deus.” Se lá no assento etéreo onde subiste…”&lt;br /&gt; Ela: É grande prazer respirarneste século , o aroma  deliciante das eras passadas.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-2-1971&lt;br /&gt; Ele_Restam agora, no fim da obra-prima, considerandos gerais, acerca do soneto. &lt;br /&gt;Ela: Se bem o comparas com outros géneros, que te apraz dizer?&lt;br /&gt;Ele: O lirismo português atingiu no soneto o nível mais alto. Sem palavras rebuscadas, sem afectação nem pretensões, realizou o vate a grande maravilha  desta obra imortal&lt;br /&gt;Ela: Bocage e Antero com Florbela Espanca, não distam muito.&lt;br /&gt;Ele: São astros belos de primeira grandeza, no luzido firmamento das Letras Pátrias. Não posso negá-lo, que era fechar os olhos à mesma realidade! Sei que os admiras. Não ignoro, já se vê, a ternura que votas à poetisa infeliz.&lt;br /&gt;O soneto de Bocage tem a chispa do génio mas, de vez em quando, perde logo altura o inditoso poeta! A isto acresce ainda que é pouco vultuosa a obra realizada. Em Antero há tragédia, há dor e pensamento, sem faltar inspiração., mas as suas coordenadas não s e encontram jamais. O mesmo juízo, quanto a Florbela. Há um labirinto, em que vacilo e caio, se é que não me perco, um vazio profundo, em que não reconheço a voz da Humanidade&lt;br /&gt;Exprimiram-se os dois com vozes desabridas, sem pensar talvez que a vida não é Deus nem sequer um fim. Exigiram da existência o que ela não tem, pedindo-lhe bem mais que poderia ofertar-lhes.&lt;br /&gt;Ela: Mas já viste alguma vez a alma em convulsão, falando por uma voz que  é um grito de Além? Já sentiste no peito ecoar a voz sonora que se arranca da alma, alagada em pranto? Que é isto que eu sinto, ao ler Antero e Florbela Espanca?!   &lt;br /&gt;Ele: Admiro por certo o lancinante  dos  gritos  e o caos da angústia, que se desprende  de seus lamentos. Entretanto confesso que não me reconheço, tentando penetrar nos recessos dessa dor! Há mistério profundo que me fala e não entendo; rugido de leão, apanhado em armadilha ou gemido horroroso que um naufrágio provoca. Donde vem o desacordo? Por eu ter fé e eles a não terem?!&lt;br /&gt;Ela: Exprimiram no soneto o impossível da vida: mais fundas ânsias não se torna possível encontrar jamais. Corações atormentados por dor lancinante, encontraram no soneto expressão imortal. Neste particular, são inimitáveis!&lt;br /&gt;Ele: Esse aspecto é exacto e não posso negá-lo, mas no conjunto eu digo com firmeza e grande convicção : em Camões, há princípio, não faltando meio e fim., três formosas unidades que o povo grego um dia criou. Nele há dor e grande tragédia , abandono e desespero, mas o alvo não se perde: a Humanidade encontra-se presente. Se procuro encontrar-me em seus ais magoados, identifico-me logo, compreendendo à maravilha tudo quanto expressa: isto é belo, sem dúvida! Não tem par nem se compara, nas Letras Lusitanas.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  16-2-1871  &lt;br /&gt; Ela: Embora maais tarde apanhemos o fio, para assim quebrarmos a dura monotonia, será melhor talvez mudar o assunto,&lt;br /&gt; Ele: Inteiramente de acordo Escolhe então e vamos a ele. &lt;br /&gt; Ela : Tenho para mim vir hoje a propósito  aquilo que se prende ao romance moderno:  fundo,  estrutura, linhas gerais e aspectos secundários.&lt;br /&gt; E le: Discreteemos, pois, à volta do romance, vogando satisfeitos, ao sabor da corrente ,  em paz de espírito e sossego do peito!      Ela:  É  impressão  minha , baseada nos factos,  que o género em causa vai perdendo  terreno. Televisão e Cinema são vias mais fáceis, razão pela qual vão  tomar-lhe  dianteira, se o não fizeram ainda..&lt;br /&gt; Ele: Há certa razão em teus considerandos, embora não aceite, de ânimo leve e em toda a extensão. Na verdade, é bem mais agradável observar os factos na tela colorida ou expostos ainda no atraente espelho da nossa televisão que debruçar-se incomodamente, sobre centenas de páginas escritas dum livro qualquer. Entretanto, isso não é regra. O investigador, o homem curioso, artista e sedento, recorrerão livro, que fornece, desde logo, em maior grau e com mais pormenor, dados preciosos, que não encontram, à margem dele.  &lt;br /&gt; Aquele é estudo sumário, que não satisfaz o nosso entendimento; este é fonte generosa que, brotando a flux, dessedenta  o sequioso. Acontece, por vezes, uma coisa interessante, que vale a pena frisar: após a visita, assaz passageira, que o Cine e a Tele  proporcionam às gentes, busca-se o autor, no original. Para quê? Sinal evidente de que o nosso espírito, desejoso e sedento, não fica saciado! &lt;br /&gt; E la: Adoro, sim, tuas belas razões , que são judiciosas.  Entretanto, não destroem cabalmente os motivos fortes , que vão inclinando para outro lado. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-2—1971&lt;br /&gt; Ele: O que me parece, no tocante ao assunto, é o que digo em seguida:  o romance de hoje tem de ser reduzido. O meu alvo, de momento, não  é a quantidade  mas a espessura .A  vida  moderna , agitada e  cheia, nervosa e fatigante não se compadece  com obras volumosas. Há que suprimir, evitando o supérfluo .                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     Escolher o assunto, com finura delicada e tacto perfeito! &lt;br /&gt; Ela: Impor-se-á talvez remodelar as estruturas?!&lt;br /&gt; Ele: Não parece! O romance é a vida , e esta, de facto, brota do homem Acaso mudou ele. em  essência e natureza?! No fim de contas, +e sempre o mesmo: inquieto, insatisfeito, cheio de amargura, dor e su+lício; frustrado, a valer, nos seus mesmos idais; logrado pelos outros! Variam as circunstâncias, nascem aspirações, morrem conceitos, surge nova esperança. É este, na verdade, o condicionalismo, em que a vida se processa. &lt;br /&gt;Claro se torna, pois, que o romance habitual e tradicional pode igualmente espelhar o nosso mundo, sem mudar estruturas ou ainda assumir um tipo diferente. &lt;br /&gt; Ela: O fundo tem de mudar! Não é assim?!&lt;br /&gt; Ele: O aspecto humano e de tipo material ou espiritual, sem dúvida nenhuma! Se não fora assim, escreveria para os mortos aquele que o fizesse! O escritor há-de situar-se, no tempo em que vive; observar com argúcia; estudar a fundo a alma humana e sentir na carne a dor da  Humanidade .Estilizando os gemidos, e, de igual passo, investigando, a rigor suas causas profundas, é homem do seu tempo, compreendido e sempre amado.&lt;br /&gt; Ela: E quais são, nesta hora, os maiores anseios da Humanidade? Os seus grandes problemas? &lt;br /&gt; Ele: Urge conhecê-los, para dar-lhes expressão. Em meu entender, os mais prementes são os que deixo: a solidão, a sexualidade. confronto  racial, entre brancos e negros,; capital e trabalho;  inflação da moeda  e causas provocantes ; a luta pelo pão; a crise das religiões; a premente aspiração, já irreversível, das classes  humildes. &lt;br /&gt; Ela: Muita coisa junta, meu bom amigo! Isso quer dizer, por certo, que graves problemas se apresentam hoje, para atormentar os senhores do poder, os educadores, as autoridades, pais e patrões, chefes das gentes e subordinados. &lt;br /&gt;Prevejo, desde já, que sem boa vontade, espírito religioso e equitataivo, não vai subsistir a pobre Mumanidade!&lt;br /&gt;Manteigas \\  18-2-1971&lt;br /&gt; Ele: Nada existe que não tenha solução! O caso está somente em que todos os homens se dêem as mãos, num espírito de amor compreensão.&lt;br /&gt;Ela: É difícil, por vezes, chegar a tanto, mas não impossível Onde todos querem e todos pagam, tudo  é fácil  e  nada  custa. Para isso, renunciar, de bom grado, a situações lisonjeiras ou ainda a privilégios de tempos recuados. Os bem instalados na vida terrena, se ninguém os molestar, não se dão por achado. Entretanto, os outros vão gemendo” Eles que se arranjem” Ouvidos de mercador! Lamentos fingidos! Migalhas atiradas, com certo desdém! Eis o que resta dessa bondade. &lt;br /&gt;É útil sobremodo não ficarmos  apenas a observar, registando os actos. Apontar os remédios vale bem mais , para que o mundo enfim se levante.&lt;br /&gt; Ele: para isso, estudem-se as causas, em primeiro lugar, o que nem sempre é tarefa agradável, por que muitos se doem e levam a mal &lt;br /&gt; Ela: Se toda a gente assim  discorresse, jamais  decerto haveria progresso ou sombra de melhoria.  O despotismo, a injustiça e a própria miséria continuariam sua longa marcha, enquanto  os instalados  gozariam em paz seus prazeres e delícias.&lt;br /&gt; Ele: Raciocinas claro! Nada vou contrapor. Lancemos, pois, a semente , visto que a terra aguarda ansiosa . Como já dissemos, um dos problemas que vive a Humanidade, na hora presente, é, sem qualquer dúvida, a amarga solidão.&lt;br /&gt; Ela: Q eu entendes por solidão? Segundo me parece, a raiz da palavra encontra-se em ‘solus’, que significa ‘sozinho’&lt;br /&gt;Ele: Bem observado! Isso denuncia logo  o conteúdo em foco! Situação de alguém que se encontra só!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-2-1971&lt;br /&gt; Ela: Recordo, neste passo, o provérbio latino: Vae solis”( Ai de quem é só Na verdade, é bem triste! Não poder comunicar! Para quem desabafam?! Q uem os apoia? Alguém os defende? Quem os acarinha? Encontrão eco suspiros e ais? Impressionam alguém Quem sofre ou canta, juntamente com eles?! Algu+em os compreende ou teja animar?! Realidades fortes, sem dúvida alguma! Ape sar de tudo, há uma coisa aí que eu não compreendo!&lt;br /&gt; Ele: Diz então, para falarmos dela!&lt;br /&gt; Ela: Ao longo dos séculos, o homem desamparado, sofreu e chorou. Por que é que só agora se ouviu esse grito?!&lt;br /&gt;Ele: Ouve-se apenas agora, porque é mais forte. Antes, era isolado; hoje, é conjunto.  O infeliz e desditoso tomou consciência, verificando alarmado que abusavam dele. A medida estava cheia. o fruto maduro, a hora bem propicia! Era em número exíguo o que vivia contente. Entre os ditosos , que nem todos são maus,  ecoou esta voz. A imprensa em globo agita o caso. Toma-se posição e levantam as armas. A causa em foco é mais que justa!, pois ataca excessos que afligem os humildes!  Estes fazem coro e saltam para a liça.&lt;br /&gt;Olhando  para si e fazendo o paralelo, sentem-se frustrados , por culpa de outrem. Quem pôde roubar-lhes o que Deus ofertara, generoso e bom?!&lt;br /&gt;Ela: Já parece um discurso o teu arrazoado.  Por demais me convences! Não preciso mais razões! A humanidade está só em cada  infeliz,  que  não se vê realizado. A maturidade chegava já tarde, e o homem gemia, acorrentado  e preso pelo costume. Raiava, por fim, a  aurora esplendente &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas\\  20-2-1971&lt;br /&gt;Ele: Era um contra-senso! Gregário por natureza, o homem viver só! Desacompanhado em tudo,  na vida e na morte, com parentes e sem eles, no trabalho e no ócio, no ruído r no sillêncio!&lt;br /&gt;Afinal, a solidão é bem mais extensa do que eu pensava! Em boa verdade, pode o homem estar só, mesmo entre gentes! Casou de mau grado, por insinuação, fazendo-lhe ver o mundo em redor, a cores diferentes?! Tem mulher e tem filhos? Não vive sozinho A realidade, porém, não é o que eu digo. No meio do ruído, ouve gemer  o desejo dum bem, que ele não possui e gostaria de ter. Influências estranhas de maus conselheiros  é que originaram a profunda ruína, em que vive mergulhado! Resignado talvez arrasta pela Terra seu amargo viver, não achando jamais aquilo que buscava – o sonho dourado, que nunca viveu!&lt;br /&gt;Morreu tudo a seu lado: é uma sombra ambulante! Quisera regressar, mas é tarde em excesso.&lt;br /&gt;Ela: Acompanhado, sim, mas sem ninguém. Parece contra-senso, mas de facto não é!O que importa, na vida é viver um ideal que não seja imposto nem sequer insinuado. Quando forças estranhas meteram valimento, cola boraram num crime, quue gera a solidão. Orientar bom é, a partir da escolha livre. Sugerir, lembrar, impor, insinuar, eis traçado o caminho que leva à solidão. &lt;br /&gt;Ele: Assim é, na verdade. Se o mundo é infeliz, como tanto acontece, a culpa reside nele:  não em Deus, que é bom e fonte de todo o bem. Urge, pois, associarmo-nos, juntando a nossa voz, para suba mais alto o grito de protesto. Prepara-se o caminho , que leva à justiça, dando a cada um quanto lhr pertence!&lt;br /&gt;N ão queira ninguém jogar com a ventura, trucidando o próximo que agoniza maldizendo.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-2-1971&lt;br /&gt; Ele: Recriemos o mundo, que Deus fez tão belo, restituindo-lhe a paz, que há muito perdeu. Tirania e despotismo, incompreensão  bem  como a injustiça é já tempo de acabarem! Que me importa ser bela, ter bom cabedal, se eu tenho na mão o fruto proibido? Se contribuí, de modo leviano, para a miséria de alguém ou ainda empreguei injustos meios, que lhe cavaran a ruína?! Como é possível então dormir sossegado quem traz consigo ideais tão mesquinhos?!&lt;br /&gt; Ele: Trabalhemos de gosto, sem revolta nem matança, estruturando assim os alicerces de um mundo melhor. A solidão é temível! Não alegra ninguém! Quem a origina, faz de assassino, que não respeita os irmãos. Deus é nosso Pai e quer a valer, que todos vivam bem, gozando a vida em perfeita paz. Assassinatos e más vontade s coisas são que desadora!&lt;br /&gt; Ela: Esta luta findará, no dia da vitória. Empenhemos a vida, com a mira no triunfo. Desterrar a solidão, actuando com valor, é fazer obra sã, que trará consolação! Refaçamos, pois, o mundo que, sem Deus, é torturante! Venha Deus habitá-lo  e jamais a solidão!&lt;br /&gt;Ele: Se acabar o nosso encanto, restando-nos vida, partiremos também à conquista do mundo, para Deus seu autor! Q ando Ele não faltar a solidão não tem vez: toda  a gente  é ditosa  e gostará de viver!&lt;br /&gt;Ela: E se alguns não quiserem, persistindo em ficar, onde sentem vaidade? Em seu trono resplandente, que a malícia ergueu, estão firmes e ditosos, não querendo baixar!&lt;br /&gt;Ele: Mentalizado que seja o orbe em geral, já não há resistência. O que domina,  avassala e se torna senhor é, sem dúvida, o número. Como forte vendaval que se atira impetuoso, caminha desde início, confiado na vitória! A força pode muito, e a razão muito mais: se alguém cair na liça, não importa o sacrifício! Aquilo que importa é vermos a solidão a fugir pressurosa deste mundo que habitamos.&lt;br /&gt;Em seu lugar, ficará só amor, a cantar e sorrir, bendizendo para sempre quem o trouxe aos corações. Com o mundo transformado, será então um prazer viver nele e amar.&lt;br /&gt;Mamteigas \\  22-2-1971&lt;br /&gt; Ela: Por ser delicado o assunto de hoje, requer atenção e muito cuidado.&lt;br /&gt; E le: A sexualidade?! Pois vamos ao caso: nada há sobre a Terra que não seja tratável!  E se existe, como creio, razão suficiente, para ventilar a magna questão, não vamos incorrer no crime do silêncio! Aquilo que Deus cria não pode ser mau nem oferecer, ao menos que eu saiba, motivo dr escândalo! A malícia humana é que altera e deturpa, envenenando as coisas,.&lt;br /&gt; Ela: É indubitável ser esta, na verdade, uma questão basilar das que são mais prementes e inquietantes, para o homem actual. Até ouso dizer que foi sempre assim. &lt;br /&gt; Ele: Inteiramente de acordo. Se o não parecia, era, julgo eu, por falso recato, que  punha  malícia,  onde  a  não  havia . O facto assenta nisto: Deus, autor da vida e fonte de bondade, transmitiu, desde logo. à sua  feitura, o poder de gerar, depositando nela a centelha da vida, que passaria a outros, em tempo futuro.  Este plano ,abrangendo  também animais e plantas é belo e grandioso.&lt;br /&gt;Cada árvore em si é já portadora de vários embriões que, desenvolvendo-se, originam mais tarde plantas iguais. &lt;br /&gt;Cada animal, por mais insignificante, alberga no seio as fontes  da vida , que hão-de permitir, em tempo vindouro, que ela se mantenha.&lt;br /&gt; Ela: é deveras curioso e digno de registo. Vê-se claramente que houve, de facto, uma Cabeça- Mestra, ordenadora de tudo, com recursos infinitos, a qual deixou marca em toda a criação. Sempre a mesma orde, constante, harmónica, surpreendente, bela, admirável!&lt;br /&gt; Ele: Por meio da obra se conhece o A rtista! É interessante o dito popular: fizeste uma obra como a tua cara!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  23-2- 1971&lt;br /&gt; Ela; De quanto fica exposto, deduz-se a conclusão: o Arquitecto do mundo e  criador de tudo concebeu argutamente dispositivo bem simples , que dá plena garantia, ao longo dos séculos de que a ida não morre. As lindas flores, garridas, perfumadas, aguardam pacientes o voo dos  insectos , para ali depositarem os grãos de pólen, E quando a flor é de si completa, escusando pois intervenientes , realiza ela mesma a polinização.  Em tal caso, os gâmetas-machos  caem directamente , das pequenas anteras para os estigmas&lt;br /&gt; Ele: Bem estou vendo que recordas o passado e os altos estudos! Acabado fosse o nosso encantamento, para agirmos livremente!&lt;br /&gt; Ela: Tenho para mim que esse dia não ta da!&lt;br /&gt; Ele: Quanto aos animais, a coisa é semelhante. Pela união de duas células, masculina um, outra feminina, dá-se a fecundação, convertendo  esta o óvulo em ovo. Nas plantas, em geral, o ovário dos carpelos desenvolve-se muito, originando o fruto) (no ovário animal, o óvulo fecundado segue os trâmites próprios).&lt;br /&gt;O objectivo é o fruto, que alberga, por sua vez nova semente &lt;br /&gt; Assim, pela assistência de Deus, garante-se de facto a vida na Terra. Esta chama sagrada jamais se apagará, enquanto o mundo existir&lt;br /&gt; Ela: A sexualidade, pelo que vemos, não é coisa má: assegura ao mundo a conservação das espécies, transmitindo-se vida de uns seres para os outrod.&lt;br /&gt; Ele: definiu-se já bem o papel da sexualidade.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-2-1971&lt;br /&gt; Ela: Convém tratar agora das várias circunstâncias, em que a vida se processa.&lt;br /&gt; Ele: O autor da vida, para que esta, na verdade, ficasse imunizada, no tocante a deficiências, rodeou-a logo de enormes cuidados. &lt;br /&gt; Ela: Na planta, dou eu testemunho. Com vista certeira, ao fim maravilhoso, encontra-se no estigma a substância viscosa, que prende, sem demora, os gâmetas  masculinos. Às vezes, deparam-se também sementes com asas, a fim de que o vento as leve ao longe; outras vezes, apresentam-se as ditas providas de garranchos e abraços adequados, por meio dos quais se prendem à lã de carneiros e ovelhas. &lt;br /&gt;Notamos claramente haver em tais factos suma inteligência de tudo ordenadora, a qual se fosse humana, teria nomeada! Entretanto, ningu+em se apresenta a reclamar tal glória. &lt;br /&gt; Ele: Tudo isto é belo e convida à reflexão. Se agora das plantas vai a atenção pa- ra  o reino animal, então o caso aumenta de interesse. Os habituais incómodos e enormes fadigas que rodeiam a gravidez; aqueles que derivam da alimentação ; os que acompanham também  o desenvolvimento do ser em formação  podiam levar os pais a evitar encontros, provocando assim a estagnação d vida na Terra e, possivelmente a sua extinção&lt;br /&gt;Para obviar a esse grande mal, que seria desastroso, foi o coito rodeado de singular atractivo, que o animal procura, diligente e sôfrego, haja mesmo de lutar com outros concorrentes.            Ela: A Providência Divina foi de facto engenhosa e assaz admirável , pois se apresenta solícita e deveras paternal&lt;br /&gt;Ele: Sim, a marca indestrutível da sua passagem ficou bem assinalada.&lt;br /&gt;Ela: No tocante ao homem, por ser racional, a quetão é mais digna de exame acurado.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-2.1971&lt;br /&gt; Ele: Calha hoje então a permuta de impressões, a respeito do homem , que é, na verdade, o ser mais belo de toda a criação. Além do estímulo, de carácter venéreo, que sempre aconpanha o acto sexual, e que dissemos haver nos próprios brutos, nota-se aqui algo de mais nobre e digno de atenção -  o amor humano a ligar dois seres, Este sentimento, belo, indifinível, procedente da vontade e não do instinto ou da própria carne, colocam o homem num lugar àparte, afastando-o imenso da esfera animal. &lt;br /&gt;Há nele decerto profunda ansiedade s vontade incontrastável de consagrar-se a outrem, para obter algo de que sente enorme falta e não pode esquecer ou subestimar. Votar-se â esposa e logo aos filhos, dando seus carinhos e recebendo meiguices ; granjear em seguida pão e abrigo, obtendo em paga o conforto dum sorriso &lt;br /&gt; Ela: Lá diz Miguel Torga: “A felicidade é feita de pequenos nadas…&lt;br /&gt; Ele:  … que os outros não entendem e que nós  percebemos !  Entram, ao que vemos,  diversos  factores  neste mecanismo ,todos apostados, em legar a vida e logo assegurá-la. Como ser racional, tinha de ser estremado e muito diferente dos que o não são. Por isso, na própria base da sexualidade e,  para além da mesma,  há grande realidade que não pode negar-se  -  o amor humano.&lt;br /&gt; Ela: Grande e sublime é tal sentimento que, nestes dias. rasteja pelo chão.&lt;br /&gt; Ele: Procuremos nós ambos mantê-lo a bom nível, e o mundo em que vivemos tornar-se-á  melhor. A carência afectiva, imperiosa e desbordante, que leva todo o homem a dar e receber, constitui, sem dúvida o móbil supremo de aproximação e fraternidade. O contacto físico, associado ao prazer, é causa determinante, para manter-se a vida e, ao mesmo tempo, nutrir-se o amor&lt;br /&gt; Ela: Em resumo, a vida sexual, em harmonia e bom equilíbrio, como o Santo Deus estableceu, não é coisa ignóbil nem despicienda. É fonte de alegria, paz e amor, fundamento e garantia de subsistência vital, compensação adequada para os desaires da vida&lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-2-1971&lt;br /&gt; Ela: O sexo puro é digno de reparos!&lt;br /&gt; Ele: Que devemos entender por sexualidade?&lt;br /&gt; Ela: Tentarei exprimir o que tenho na ideia. Sexo puro é o que se confunde  ou melhor direi que é instinto e nada mais. É qualquer coisa, extensiva aos animais e, já se vê, limitada aos sentidos. Chamam-lhe erotismo&lt;br /&gt; Ele: Isso, realmente, é pura animalidade! A nossa esfera tem muito mais luz e aponta para o alto! Confinado embora com a pura matéria, visa de facto um mundo mais belo e entronca na alma. È fruto de amor, sua exigência e confirmação.&lt;br /&gt; Ela: Assim devia ser, mas tenho para mim haver degenerado, em muitíssimos casos.&lt;br /&gt; Ele: É próprio do homem deixar-se conduzir, abusando às vezes, ou fugindo ao dever.  O que nos faz ditosos é a paz de consciência e pão sobre a mesa. Acontece, porém, que  a vida  dos sentidos , a que a razão é, por vezes, estranha, não sendo chamada a pronunciar-se, leva o ser humano às maiores baixezas, donde só provém ódio, intriga e mentira.&lt;br /&gt; Ela: Na verdade, a vida familiar, segundo o plano gizado por Deus e organizada como faz a Igreja, é a fonte mais firme de paz e ventura. A instabilidade no amor humano,  o sombrio  divórcio , os filhos de várias mães, rixas furiosas, calúnias  e vinganças, é esse, de facto, o cortejo maldito, que aguarda neste mundo os gozadores da vida&lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-2-1971&lt;br /&gt;Ele: Não há dúvida, comadre! Fora de Deus e da Santa Lei , nem há paz nem ventura! O mero prazer como fruto proibido, traz logo consigo o travo amargo, que faz da vida autêntico inferno!&lt;br /&gt;Ela: Se bem me lembro, que nem sempre a memória é fiel e prestável, destinámos este dia à luta armada, entre brancos e negros. É um assunto candente: para ele se viram, à data presente, governos e povos. Em tempos idos, era o desdém  a única resposta, mas hoje, de facto, a questão já foi posta e exige solução.&lt;br /&gt;Ele: Aparentemente, vão tratando os assuntos, mas bastante pouco s e fez ainda, em benefícios dos fracos. O espírito do Evangelho é que deve  informar os povos da Terra! Sem isso agir, é tudo uma ilusão&lt;br /&gt;Ela: Aparentemente?! Por que é que dizem isso, meu bom compadre?! Ou é ou não é!&lt;br /&gt;Ele: Assim parece, mas dá que pensar! Os vários povos de raça negra, apercebendo-se já de que a sua própria vida era um dom  para  os brancos , acordaram do sono, resolvendo lutar. Querem ser gente, organizar-se também em grandes sociedades, viver livremente e agir como pessoas. Decidiram com firmeza dar o passo em frente, preferindo morrer, se tanto fosse preciso. &lt;br /&gt;Ela: Não podemos censurá-los, que são filhos de Deus e herdeiros do Céu. &lt;br /&gt;Ele: Longe de mim fazer eu tal coisa! Custarem, na verdade, o sangue de Cristo, no  Monte-Calvário  e são como nós rebanho do Senhor! O  que  hemos  de reprovar , tanto nuns como noutros, é o ódio figadal, a cegueira porfiada, o espírito de vingança, a ambição desenfreada e a dissimulação! &lt;br /&gt;Ela: Sendo isto assim, há culpas graves, tanto dum lado como do outr.  &lt;br /&gt;Ele: Os grandes do mundo acenam de longe, prometendo liberdade e riqueza imensa, enquanto acendem ruinosas malquerenças, e ateiam labaredas.&lt;br /&gt;Ela: Vejo muito bem que é errado o caminho e digno de censura!&lt;br /&gt;Ele: Libertam-se eles dum senhor tolerante e compreensivo, que lhes garante a paz e assegura o pão, lançando-se ingénuos em garras aduncas, de potências vorazes. &lt;br /&gt;Ela: Deviam ser guiados e bem esclarecidos, a tempo e horas, esses infelizes, que o azar e a  má  sorte  assim verga e destrói! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  28-2-1971&lt;br /&gt; Ele: É o que nós fazemos, em todo o Império. Apesar disso, a mentira vai lavrando e fazendo vítimas. &lt;br /&gt;  Ela: Lamento a dura sorte das almas inditosas, vítimas inocentes de algozes e carrascos.&lt;br /&gt; Ele: Obcecados na vingança e não raramente instigados de fora, lutam sem fruto  por um  bem  que  não alcançam. Que liberdade é essa que algema e fere, pois ficam a soldo de potências estrangeiras?! Dever dinheiro é já ser escravo: não luz a chama, onde se aferra o duro credor! &lt;br /&gt; Ela: Por que vão fiar-se em promessas mentirosas?! Por que aceitam favores de quem traz no peito ambição desenfreada?! Não governa bem a casa o senhor que a conhece?! Fê-lo exactamente por lhe ter amor. &lt;br /&gt; Aspirações à cara liberdade,  não  posso reprová-las! Eles têm direito! Não é favor, se lhes dermos acesso! Colocá-los a par, em relação aos brancos, não é mais que um dever, mas tal obra há-de ser lenta, para haver bom sucesso.  &lt;br /&gt; Ela: Harto racional e bem pensado! A verdade é patente! Quem o não creia reveja melhor o que tem sucedido! Salazar é que via claramente, afirmando inspira- do:” Saí vós, para entrarmos nós!&lt;br /&gt; Ele: Quem ama está dentro: ali verteu suor. A terra foi banhada e amassada, talvez em sangue do seu corpo. Os vampiros de longe, sem respeito nem lei, ensaiam as garras na presa cobiçada. Não levarão, à primeira, seus desígnios avante, que o direito vem de Deus, e o roubo, do inferno! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  1-3-1971&lt;br /&gt; Ela: A luta persistente de raças e classes entendo ser justa, se ela concretiza aspirações e dons que o Direito patrocina.  Em verdade, se não fosse ela, a miséria aumentava , tripudiando sempre regalados e nababos, sobre as multidões! Que seria do mundo?! Escavaria cruel, destroços humanos, em que uns tantos viveriam, sugando o próximo e cevando apetites!&lt;br /&gt; Ele: Sim, é justo lutar por uma causa sagrada! Que armas empregar?! A que meios recorrer?! Há sempre  o  meio termo, que é o lugar ideal Atacar só uns, para defender os que são contrários, não acho justo! Um caso à vista: atacar o capital, de fendendo o trabalho, pode ser uma injustiça. Mais lógico seria, no presente momento, indicar os defeitos duma parte e da outra&lt;br /&gt; Ela: E logo em seguida, apontar os remédios! É que, na verdade, sempre a um direito corresponde um dever. O trabalho é sangue, amor e canseira; via de resgate; garantia de vitória; penhor de salvação; desdobramento de alguém. Deve ser remunera do em tempo devido, sem nada ficar. &lt;br /&gt;Ele: Houve abusos decerto, mas hoje é diferente. A melhoria económica sem base moral, não resolve a situação, onde quer que ela surja. O sentido da equidade não é fácil de acertar: recebendo o que é devido, outro mais se cobiça.   Ela: O Santo Evangelho  é  que  deve  nortear-nos&lt;br /&gt;Ele: Há direitos e deveres de uma parte e da outra. Cada um será prudente, não querendo o que é de outrem. O capital é a base do progresso e, se é fruto do trabalho, é também efeito da mente pensante. Grande nau, grande tormenta! Assim reza o provérbio. Havendo grande azar, aquele que mais perde é logo o capital. &lt;br /&gt;Comadre:  Boa harmonia é que é preciso e boa união, Tudo o mais é fantasia!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-3-1871&lt;br /&gt; Ele: Que é que vamos hoje tomar em conta?&lt;br /&gt; Ela: Se bem me lembro, é assunto difícil, embora actual e de muita utilidade -  a inflação e causas respectivas. &lt;br /&gt; Ele: A economia, assim o julgo eu é, sem dúvida alguma, a base mais firme da vida material Sem os bens terrenos, o estômago não age e tudo paralisa, O factor económico, suas fontes directas e boa administração, é assunto grave da máxima importância, no viver dos povos. &lt;br /&gt;  Ela: Lembro-me agora da conhecida máxima: Primeiro Cristo e depois isto! Por outras palavras: em primeiro lugar, hão-de pôr-se, é claro,  os  bens  espirituais  e logo em seguida, outorgar a precedência às fontes de produção.      Ele: Embora assunto árido, é deveras forçoso tomá-lo a sério, uma vez que o homem não pode  alhear-se  do seu  objecto . A riqueza de um povo é fonte de três causas: o capital, a inteligência e, por fim. o trabalho..Não vamos nós agora condenar uma delas para que as outras se imponham e vigorem! Igualmente necessárias, elas, a rigor, são complementares. Não pode negar-se.&lt;br /&gt; Ela: E  há por aí quem faça tal?! Parece-me absurdo!&lt;br /&gt; Ele: A inteligência ninguém a nega. Seria prova clara de extrema loucura! Ela está +ara a vida como a luz para os olhos! O mesmo acontece, em ordem ao capital e ao próprio trabalho. O Comunismo ataca o primeiro; o capitalismo investe igualmente contra o terceiro. Absurdo e condenável!&lt;br /&gt;Atacar o trabalho é, na verdade, paralisar a indústria e, de modo geral, qualquer actividade, realizada pelo homem. Banir o capital é banir a máquina e , do m esmo passo, a tecnologia.&lt;br /&gt;Manyeigas  \\  3-3-1971&lt;br /&gt;  Ela: Tenho para mim que um desses factores é mais nobre que os outros  -  a inteligência. &lt;br /&gt; Ele: Em si mesma e na ordem cronológica,  estou de acordo. Basta não ser  de  ordem material, pois se  trata de um bem que  reside na alma. Creio firmemente e assim todo o mundo, que o nosso espírito sobreleva à matéria.  Entretanto, na ordem estrutural,  exigem-se mutuamente, completando-se todos em boa harmonia. &lt;br /&gt; Ele: Estamos, na verdade, perante as fontes da nossa economia. e não se discor da de que é preciso haver pão e, por isso, dinheiro, para comprá-lo. O segundo co rolário  não pode actuar, caso  o dinheiro não tenha, a rigor, poder de compra, a fim de equivaler ao pão desejado. Se começa a perdê-lo, requer -se desde logo mais nume- rário, para haver alimento. Se ele realmente se desvaloriza, por modo inteiro,( sempre inflação) o caso em si reveste, desde logo importância capital. já que ter dinheiro equivale a não ter nada!&lt;br /&gt;  Ele: Vê -se , pois, que a camada inflação consiste realmente na desvalorização Quando é total, vem logo a ruína, acompanhada sempre de um cortejo fun esto; angústia e fome; intranquilidade; insónia, mal-estar!&lt;br /&gt; Ela: Faço ideia aproximada, embora não consiga viver a realidade. Efectivamente, possuir dinheiro, mas se m valor, é já o cúmulo da própria miséria. &lt;br /&gt;E ter filhos pequenos, vendo-os dia a dia morrer de fome?!&lt;br /&gt; Ele: Experimentou-se ao vivo, após as guerras do século, tanto em 1918 cono 1945! O marco e o franco foram condenados ao ostracismo, De nada valia possuí.-los em momtões! Ninguém os aceitava!&lt;br /&gt; Ela; Chamam bancarrota a casos dessa ordem! Há-de ser trenendo e bem lastimoso!&lt;br /&gt; Ele; Para alguém se levantar, após queda assim, faz logo mister um esforço gigantesco, em que todos se empenhem! Sem isso, nada feito! Serão insuficientes os meios aplicados.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resignado talvez, arrasta na Terra seu amargo viver, não achando jamais  aquilo que buscava – o sonho dourado que nunca viveu. Morreu tudo, a seu lado: é uma sombra ambulante! Quisera regressar, mas é tarde em excesso!&lt;br /&gt;Ela: Acompanhado, sim, mas sem ninguém! Parece contra-senso, mas de facto não é! O que importa na vida é viver um ideal que não seja imposto nem sequer insinuado! Quando forças estranhas meteram valimento, colaboraram num crime, que gera a solidão. Orientar bom é, a partir da escolha livre. Sugerir ou lembrar, impor, insinuar, eis traçado o caminho que leva à solidão.&lt;br /&gt;Ele: Assim é, na verdade. e o mundo é infeliz, como tanto acontece, a culpa reside  nele: não em Deus que é bom e fonte de  todo o bem. Urge, pois, associarmo-nos , juntando a nossa voz, para que suba mais  alto o grito de protesto! Prepara-se o caminho que leva à justiça, dando a cada um  quanto lhe pertence. Não queira ninguém jogar com a ventura, trucidando o próximo, que agoniza maldizendo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-3 -1971&lt;br /&gt; Ela: Apreendido já o significado das palavras em uso, necessário se torna esquadrinhemos diligentes a causa da inflação&lt;br /&gt; Ele: O poder de compra vai diminuindo, uma vez que é preciso, sempre mais dinheiro, para comprar as mesmas coisas. Posto assim o caso, navega-se pela certa, em águas turvas. &lt;br /&gt; Ela: Neste assunto não me sinto à-vontade. Sinceramente confesso que o acho abstruso. Uma dúvida me assiste: se é preciso mais dinheiro, para comprar então o que era pago com menos, chega-se, por força, a quantias astronómicas, que tudo vão complicar!&lt;br /&gt; Ele: É por essa razão que se fazem, por vezes, alterações, para tornar o cômputo de mais suave manejo, Aconteceu em França, com o franco novo, e no Brasil, em ordem ao cruzeiro. &lt;br /&gt; Ela: Mas outro problema tenho para mim, que não é insolúvel. Aumenta-se, depois, o númer o de notas e … pronto! Fica tudo arrumado!&lt;br /&gt; Ele: Aumentá-lo não custa! Já o mesmo não sucede, querendo a gente garantir-lhes o valor!&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, o valor real não se encontra no dinheiro, mas fora dele!&lt;br /&gt; Ele: Sem dúvida! Uma nota de100#00 não passa, afinal, de um papel vulgar, mais ou menos atraente!&lt;br /&gt; Ela: Que vai então garantir o valor real de que está pendente?!  É curioso!&lt;br /&gt; Ele: É aquele ouro que o Estado possui. Chama-se ‘cobertura’ a garantia real que esse ouro lhe dá!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Quais são pois as causas de tal inflação?! &lt;br /&gt; Ele: É matéria delicada que não sofre hesitações ou aldrabices. Não sendo especializado, não vou aprofundar o assunto em causa, mas tenho para mim que , entre as mais importantes, acharemos as seguintes: ambição desmedida; empobrecimento do erário público; desequilíbrio enorme da chamada balança de pagamentos; juros muito altos; vencimentos elevados.&lt;br /&gt; Ela: Que vem a ser então o erário público?&lt;br /&gt; Ele: É o tal ouro que serve de cobertura.&lt;br /&gt; Ela: Em que pode a ambição influir neste caso?&lt;br /&gt; Ele: Supõe o seguinte: aumentado o salário, levanta igualmente o preço das coisas. Que vai seguir-se? Desvalorização, não haja dúvida!&lt;br /&gt; Ela; Qual seria o remédio, estando acessível? &lt;br /&gt; Ele: Serem mais comedidos patrões e operários, o que vale a dizer: contentarem-se com menos. O que toca a estes abrange os Bancos. Casas Comerciais, Firmas e Empresas, os negociantes e assim por diante! &lt;br /&gt; Ela: N esse caso, impunham-se, ao que julgo, medidas pr eventivas!&lt;br /&gt; Ele: Isso não bastava, como foi demonstrado. Mentalizar os povos rudes, mediante a instrução, a fim de verem claro. Simultaneamente, impõe-se, desde logo, a formação moral, pois que sem ela nada conseguimos, em terreno acidentado.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-3.1971&lt;br /&gt; Ela. Falou-se ainda a propósito do erário público, no depauperamento. &lt;br /&gt; Ele: Quanto mais dinheiro andar circulando, maiores dificuldades criamos ao Estado.&lt;br /&gt; Ela: Sendo povos ricos, à maneira talvez, como os Estados Unios? &lt;br /&gt; Ele: Sim, dizes bem, mas é utopia! Não sei, de fonte certa, . porque não vejo nem mo diz alguém se, mesmp lá, é bastante a cobertura. Onde, porém, não pode havê-la é, a rigor, nos povoa deficitários, que são, afinal, a grande maioria. &lt;br /&gt; Ela: Compreende-se então que, na base de tudo, há certamente uma grave questão de ordem moral. Sem tal formação nada s e consegue. &lt;br /&gt; Ele: As medidas violentas, as multas e a cadeia não bastam, realmente, para alcançar o objectivo. &lt;br /&gt; Estou elucidada, quanto à inflação: já não tenho dúvidas, acerca das causas e sua debelação. Colaboremos todos, nesta obra excelente, a fim de suavizarmos a tarefa do Estado., evitando para logo a ruína dum povo e o fatal descalabro, que a segue de perto. &lt;br /&gt; Ele: É preciso querer! Ora, muitos há que não estão dispostos. A terrível ambição não deixa ver claro e obceca o espírito.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  7-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Ventilemos hoje, se estiveres de acordo, outro problema deveras candente  -  a luta pelo pão. Pelo que tem de humano, já ele me parece em extremo natura. Até os animais abham com fartura o alimento necessário. Ora, sendo assim, não faz sentido eu o rei da criação, que a todos sobreleva, fique num plano, assaz inferior! De facto, quando Deus o criou, foi-lhe logo oferecido o primado de tudo. Espoliado e sujeito, viveu assim, durante longos anos, sem er guer um protest Fosse medo ou não, é indiscutível que ele sofria. Como explicar esse facto doloroso? A que atribuir a situação vexatória? Conhecida a causa, virá fácil o remédio.&lt;br /&gt; Ele: O problema é complicado e não vai resolver-se, em pouco tempo! Creio, no entanto, sem receio de errar, que entre as raízes de maior profundidade, avultam, por certo, as que exponho em seguida: incapacidade, por parte de alguns; indolência de muitos; falta de recursos; analfabetismo.&lt;br /&gt; Ela: Há quem julgue, erradamente, achar-se no Comunismo remédio eficaz, para esse mal. Eu, por mim, não aceito a doutrina!&lt;br /&gt; Ele: Nem eu tão pouco! O que é contra Deus não pode subsistir! É qual edifício, construído sobre areia! Donde vem, afinal. a estabilidade?! Passará como o homem! Frágil como ele, nem vestígio deixará!&lt;br /&gt; Ela: Um socialismo cristão seria o ideal!&lt;br /&gt; Ele: Pode haver mais caminhos que nos tragam a solução! Para tanto, haja boas vontades, generosidade, compreensão e desprendimento, com espírito cristão&lt;br /&gt;Manteigas  \\  8-3-1971&lt;br /&gt; :Ela: Provado está, pois, que a luta pelo pão é, na verdade, uma causa sagrada!  Colaboremos então, porque Deus assim o quer!&lt;br /&gt; Ele: Quando me lembro de que há uma sociedade a proteger os animais, pergunto desorientado qual é o espírito que nos anima. Efectivamente, o ser racional fica, na verdade, infinitamente acima, pela sua dignidade, beleza sem par, no reino animal,e pelo seu agir.&lt;br /&gt; Ela: Haver criancinhas a morrer de fome… e cães de luxo a nadar em abundância é duro em excesso para o meu coração!&lt;br /&gt; Ele: Não se vá pensar que eu odeio os animais! Aprecio-lhes bastante o instinto maravilhoso e as raras qualidades que os impõem a todos. A verdade, porém, é que nenhum dos cães mereceu ainda uma gota de sangue do Senhor Jesus Cristo! Uma alma humana vale imensamente, pois custou caro a Nosso Senhor!&lt;br /&gt; Ela: Para não ficarmos apenas em vãos lamentos, que pouco ou nada interessam agora, em que vamos assentar? Que fazer, desde já, em seu benefício? &lt;br /&gt; Ele; seguir à letra as belas directrizes da Igreja Católica, exaradas que foram em várias Encíclicas: Rerum Novarum, Quadragesimo Anno, Mater et Magistra, Populorum Progressio e Paz na Terra. Imitar alguns Estados que vão à frente, nesta matéria, incentivando o bem-estar geral e dando a mão pronta àqueles que são pobres! Proporcionar trabalho a qualquer que seja e remunerá-lo devidamente é um belo caminho!&lt;br /&gt;Ela: E quem faz isso, com segunda intenção?! Pois não haverá quem seja vigarista?! Se o fito é sugar, que benefício representa?!&lt;br /&gt;Ele: Não vamos pensar que tudo é farsa, cá neste mundo! Há indivíduos e povos também, com boas intenções, que até gostariam de acertar no alvo! Façamos breve, da nossa par te, o que esteja ao alcance.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  9-3-1971&lt;br /&gt; Ela: O assunto de hoje é mais delicado.&lt;br /&gt; Ele: Adivinho, desde já, aquilo a que aludes. É a crise da Igreja? Este problema é efeito directo do que vai pelo mundo. Não há razão, para fazer escândalo! A instituição é de origem divina: os seus membros, porém, não passam de homens! Como sabemos, é formada por elementos, que vivem neste mundo. Imutável só Deus! A volubilidade, quase permanente, em altos e baixos, é uma das constantes que distinguem o homem! Que admira isto, se até o ser físico  se altera e muda constantemente?! As combustões que se operam nas células, desgastam e consomem a própria matéria de que são formadas! Destruição ´e logo a morte!; desgaste da matéria e sua reparação, mudança e novo ser! Se acontece no físico!...&lt;br /&gt; Ela: Que eu me escandalize não é assunto, para tratar-se! Mudar constantemente é prova bem clara de insuficiência! Se Deus não muda, é porque não se engana!Por vezes, acontece que éum bem o desvio e quando for um mal, a causa disso é o engano.&lt;br /&gt;Inteligência harto limitada, o homem, neste mundo, segue duvidoso, pelos caminhos da vida. Aqui tropeça, além se levanta, colhendo amargamente o fruto sem sabor de seus logros dolorosos&lt;br /&gt; Ele: Por outro lado, a evolução e o mesmo progresso vê dizer-nos ser errado, por vezes, o que se faz. A nossa inteligência pode iluminar-se; a sensibilidade vai-se requentando; alteram-se os costumes e as leis modificam-se, Surgem amiúde novos conceitos, aparecem outras fontes, e a Humanidade, insatisfeita, clama a Deus por por muito mais. Costumes há tão velhor, que até ignoramos a sua origem, mas são realmente vestígio claro da malícia humana.&lt;br /&gt; Ela: Nestas fileiras, achamos também o repelente joio!&lt;br /&gt; Ele: A Escritura é bem clara, a este respeito. Não disse Jesus Cristo que era seu  desejo  haver trigo e joio crescendo juntamente?! Com esta economia, é natural o desvio, pois os filhos do mal terão obras más.&lt;br /&gt;Sim, a crise é um facto, mas não invalida, por modo nehum,a origem divina da Mensagem Cristã e o fim maravlhoso que ela em vista.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  10-3-\971&lt;br /&gt; Ela: Rareiam vocações e, por outro lado, abundam falsos deuses. &lt;br /&gt; Ele: Não é tanto assim, minha boa comadre! O homem, por exíguo, tem raras vezes, o sentido do equilíbrio, o  que o  leva amiúde a ser exagerado, em suas afirmações. Acordo, realmente em que haja, de facto, menos vocações, mas a chorada penúria, de que tanto se fala, pertence com efeito ao domínio da lenda!&lt;br /&gt; Ela: Não entendo bem o teu pensamento, relanceando os olhos, pelo mundo além. &lt;br /&gt; Ele: Deus com certeza não olvida a sua Igreja e há-de suscitar, invariavelmente, aquelas vocações que forem requeridas. Basta, para isso, fazermos pedidos, rogando com fervor! A chamada abundância, quanto a vocações, não passava, muitas vezes, de mera excrescência, algo dispensável. &lt;br /&gt; Eja: Falas para aí com tanta persuasão , como se visses, realmente a baixeza do mundo!&lt;br /&gt; Ele: É isso mesmo! As condições humilhantes, que chamamos, às vezes, sócioeconómicas  Na falta de recursos e na impossibilidade, para vir a adquiri-los, levavam os rapazes a entrar no Seminário! Havia ali um ‘furo’ par quem não tinha outra via a seguir! &lt;br /&gt; Ela: Eu tenho para mim que, sem negar totalmente os argumentos expostos, estás a ver as coisas, à luz deste mundo, sem admitires, como é necessário, uma concepção harto  providencialista da vida humana. Eu penso deste modo: o recrutamento de vocações tem, ao que julgo, sectores determinados, em que a Providência quer manifestar-se.&lt;br /&gt;A acção divina revela-se melhor, nas classes humildes, o que vemos realmente em acordo perfeito com os planos salvíficos de Cristo Redentor&lt;br /&gt;Ele: Pois seja como dizes, no entanto, não pode negar-se que houve, por vezes, falsas vocações, o que logo motivou um funcionalismo assaz desastroso.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Que vamos pensar do êxodo clerical?&lt;br /&gt; Ele: Eu tenho para mim que se trata dum fenómeno, bastante aceitável, por ser natural! Quem se julga chamado por Deus do Céu, e sente bem-estar no exercício do cargo,não tem, com certeza, a tentação da fuga. É que, em tal caso, a pessoa realiza-se, frutifica e é útil! Com alto prestígio, entre os cristãos, vendo seus esforços coroados de êxito, entende por isso que navega sempre em águas tranquilas. onde gosta de manter-se. &lt;br /&gt; Ela: Mas é reparável o facto em causa e dá logo ensejo a tremendas críticas!&lt;br /&gt; Ele: Que seja assim, não vou negá-lo, mas ´é preferível tal situação a um labor, deveras ingrato ou constrangido! Quem se não sente chamado por Deus, procura desde logo, um caminho deferente. Quantos há-de haver que ingressaram nas fileiras, sem maturidade?!&lt;br /&gt; Ela: Essa agora! Então aos 24 ou 25 anos, não sabe um homem o que anda a fazer?! Tanta leitura, meditação frequente, exercícios piedosos … eu sei lá!&lt;br /&gt; Ele: Há erro profundo, na tua apreciação, pois até mesmo aos 80 anos, pode não haver a tal maturidade! Vou expor aqui já o meu pensamento! Imagina, por momentos, que um rapazinho é tirado do seu meio, para o lançarem depois em outro diferente . Uma vez ali, criam-lhe por certo novas condições, a que se vai adaptando, por maneira lenta, mas persistente. Quase não se apercebe! Vigiam-lhe os passos, estudam reacções, impõem leituras, proíbem-se autores e cominam-se penas que ele teme em extremo, por serem pobres os seus progenitores. &lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, não teríamos, de facto, um homem natura: seria, talvez um produto excêntrico, despersonalizado, artificial e até infeliz!&lt;br /&gt;Ele: Pois aí tens o mau resultado: um ser lastimável e até desgraçado, que não conhece a vida nem os seus irmãos e apenas obedece a quem o manda agir. Que mérito haverá nas suas acções?! Inconsciente e autómato, quando ‘abrir os olhos’, terá, provavelmente acessos de fúria. Irá ele perdoar a quem o torceu, ocultando por sistema a pura realidade e colorindo aspectos diversos, que eram lisonjeiros?!&lt;br /&gt;Deformado já e muito infeliz, é bem claramente a negação do ser. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Afinal de contas, eu não tinha reflectido no sentido dramático do problema em causa. Urge remediá-lo e já sem demora!&lt;br /&gt; Ele: Nada existe no mundo que não tenha remédio, como diz o rifão. Impõe-se facto novo sistema, educacional, coisa que, felizmente, já se está ensaiando. O jovem seminarista há-de tocar a mesma realidade e conhecê-la a fundo. O saber livresco, auferido sempre à margem da vida e longe dela, forja somente amostra de homens! Ficam, decerto inadaptáveis! Para que servem então esses elementos?!&lt;br /&gt; Ela: Unicamente para obedecer, mas essa atitude implica desde logo escravização&lt;br /&gt; E le: Ai tens, pois, um efeito execrável, que não vai honrar, de modo nenhum, a espécie humana. Obedecer não exclui, decerto, a personalidade: antes a supõe! Entretanto, para haver mérito, na obediência deve ser consciente, amada e voluntária. Onde impera o medo ou vegeta a inconsciência, temos actos amorais, nada próprios do homem!&lt;br /&gt; Ela; é preciso reformar a mentalidade, em extremo avelhada, arejando-a bem , à luz do Sol. Preparar aqueles homens que hão-de viver no seio do mundo como se,realmente fossem de clausura, é cometer de facto um crime abominável!&lt;br /&gt; Ele: O mal vem de longe. Frequentavam eles o Seminário, ficando inibidos de seguir outro rumo.”Quem vem para aqui é para ser padre” Quem sai é traidor!”&lt;br /&gt;Tal conceito é falso, quer se aplique aos mesmos jovens queraos adultos. Aquela Instituição não é fábrica de padres: é, sim, estúdio, para descobrir e preparar as vocações. Partindo daqui, vai então a criança, não para ser padre, mas antes verificar se poderá vir a sê-lo.&lt;br /&gt; Ela: Assim, está bem, mas os pais, em geral, é que não entendem essa linguagem!&lt;br /&gt; Ele: Há que mentalizá-los, insistentemente, fazendo ver claro  os efeitos funestos de um erro imperdoável.  Se um dia o conseguirmos, tudo mudará!&lt;br /&gt; Ela: Não achas talvez que os lares cristãos abusam um tanto, no capítulo em causa?! Refiro-me é claro, ao recrutamento dessas vocações! Matraqueando noite e dia os ouvidos da criança, impõem-lhe logo um regime de vida que, não sendo realmente fruto natural, não pode ser amado. &lt;br /&gt; Ele: Outro grande mal, que se impõe debelar, o mais breve possível!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-3.1971&lt;br /&gt; Ela: É delicado este problema, pois a educação deve ser cristã.&lt;br /&gt; Ele: Isso não tira! Qualquer actividade pode impregnar-se de cristianismo, sem levarmos ninguém a abraçar contrariado um ideal superior! Quem fizer isso não pode ser amado, ainda pelos filhos. Seria também deveras censurável fazer tudo, tudo sempre ao invés., isto é, afastar do caminho quem se vai seguindo, voluntariamente. &lt;br /&gt;Respeitar a criança, ajudá-la a descobrir o verdadeiro rumo: nunca sugeri-lo ou  muito menos intentar impô-lo. Seria um fardo enor me e insustentável, É que os filhos, para não entristecerem os seus progenitores, vão trilhando, às vezes, caminhos perigosos! Sabe Deus a tragédia que se está esboçando!&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, volvido que seja um olhar retrospectivo, há-de haver reclamações e graves protestos&lt;br /&gt; Ele: E os mais atingidos hão-de ser, na verdade, os pais e mentores a quem foram confiados. É que se trata, realmente, dum abuso sem nome! A criança nada sabe, acerca Ada vida w confia inteiramente naqueles que a cercam. As primeiras impressões impressões ficam nela gravadas para todo o sempre! Nada haverá que possa desgastá-las! É, afinal, como cera mole, em que outrem gravará o destino feliz ou desventurado!&lt;br /&gt; Ela: A filhos meus tentarei elucidar! Serei toda olhos, a fim de observar, descobrir e registar. Não serei eu a impor um destino! Tão só alenrarei o que for natural e consentâneo à própria natreza e à psicologia. &lt;br /&gt; Ele: O que motiva , em  geral, funcionários e padres é, com certeza, a escassez de recursos. Impossibilitados funcionários e padres aproveitavam logo o ‘furo’ do Seminário, que recebia os filhos, quase gratuitamente. Por outro lado, afigurava-se harto horável e bastante cómoda a vida eclesiástica ( ao menos a seu modo) Viam nisso um arrimo! Como haviam de ser felizes esses padres lastimosos, que, afinal o não era !&lt;br /&gt; Ele: Escória da sociedade e bodes espiatórios!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14  -3-1971&lt;br /&gt; Ele: Um sério problema, debatido, em nossos dias: o celibato dos padres!&lt;br /&gt; Ele: Não admira! É efeito imediato de consciencialização.  A pessoa humana vê-se a outra luz, dando o seu desacordo à tradição milenária. Entre as prerrogativas da existência humana, conta-se para já, a fundação dum lar. É que o homem, seja ele quem for, sente no peito necessidade premente de vir a desdobrar-se, viver também para outras realidades, de natureza sensível, comunicar em profunda intimidade, numa palavra, transmitir a outrem a centelha de vida, que alberga em si, tendo nisso, afinal, a base da ventura. &lt;br /&gt; Ela: Mas tenho para mim que o estado célebe é um caminho de alta perfeição, que garante, ao mesmo tempo, disponibilidade, total e pronta. Ora, sendo assim, é mais consentâneo com a vida eclesiástica.&lt;br /&gt; Ele: Que pode ser, realmente, um bom caminho de perfeição, ninguém ousa negá-lo, no caso de ser livre! Sendo ele imposto, equivale, a rigor, a uma camisa de sete varas. No tocante, agora, à disponibilidade, já tenho sérias dúvidas, pois conheço leigos mais disponíveis que alguns sacerdotes. É, no fundo, uma questão de generosidade e princípios sólidos.&lt;br /&gt; Ela: Mas não será chocante um padre casado?!&lt;br /&gt; Ele: Habituados como estamos a vê-los solteiros, algo se estranha, ao menos ao princípio, mas com o tempo vão-se já limando tais estranhezas! A tudo nos amoldamos. Assim que o Papa autorize o facto, deixará logo de ser estranho! O mesmo se passou com o jejum eucarístico, a liturgia eucarística, etc.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Estás convencido de que o Papa actual envereda agora, por tal caminho, após uma tradição, veneranda e remota? Assistem-me já dúvidas bem sérias!&lt;br /&gt; Ele: Eu não as tenho! Logo que haja, de facto, necessidade premente, é a via a seguir!&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, o tal celibato passará à História como velharia, bem antiquada e desnecessária!&lt;br /&gt; Ele: Não o creio assim eu. O celibato jamais acabará, pois há-de haver sempre almas de  eleição, que desejam imolar-se, por amor a Cristo e também a seus irmãos. Abraçado livremente, é de facto, uma bênção para o mundo inteiro!&lt;br /&gt; Ela: Mas, ó compadre, ele não vem já do tempo de Cristo?!  Ou pelo menos dos tempos apostólicos?!&lt;br /&gt; Ele: Nem uma coisa nem outra! Nem o Mestre Santo nem os seus Após t olos avançaram até lá, proibindo aos sacerdotes a fundação dum lar!O Papa e os Ap´´ostolos, Bispos a Sacerdotes eram homens casados , S.Paulo diz até: Que o Bispo deja homem de uma só mulher”&lt;br /&gt; Ela: E ele diz isso?&lt;br /&gt; Ele : É fácil comprova-lo pela Sagrada Escritura..Ora, se este Apóstolo, que era tão rigoroso, deu este conselho, claro transparece que não havia então celibato imposto!&lt;br /&gt;Manteiga  \\  16-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Não seu que é! Confessar-me a um casado parece mais difícil!&lt;br /&gt; Ele: Meras impressões, que se geram, por vezes, na fantasia, mas tendem com certeza, a dissipar-se breve! Não há profissões, em que o mesmo se dá?! O Médico, o Juiz, o advogado e outros não guardam também o dito segredo, que chamam próprio da sua profissão?! Uma questão de princípios!&lt;br /&gt; Ela: Seria mais poética a tradição veneranda! Séculos e séculos, decorridos já, e só agora…&lt;br /&gt; Ele: O Vigário de Cristo é quem governa. Que é que estamos vendo?! Ele em pessoa, dispensou, ao  que , vimos, numerosos padres do celibato imposto , para virem a casar,  sendo isso do agrado. Por outro lado, com a mira fisgada de proselitismo, admite, sem entrave, no sacerdócio católico, ministros protestantes, que deixam para sempre as suas igrjas Que prova isto?! Não haver, de facto, incompatibilidade, entre o casamento e o múnus sacerdotal. &lt;br /&gt; Ela: Mas não será isso o fim de tudo?1 Tanta liberdade!&lt;br /&gt; Ele: Não o julgo assim! Deus criou-nos livres, e o facto em causa não é dogma de fe!&lt;br /&gt;Mera questão disciplinar! Se o Papa entender, por qualquer razão, que é melhor de outro modo, só temos que aceitar, deixando-nos dirigir pelo Chefe Supremo, representante de Cristo.&lt;br /&gt; Ela: Dizem, efectivamente que na Igreja oriental  houve sempre liberdade, bem como na protestante. Mas não era, realmente uma glória para nós?!&lt;br /&gt; Ele: uma glória indevida, â custa de outrem, que vive contrariado? Onde estava, desse modo, a liberdade de filhos de Deus?! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-3-\971&lt;br /&gt;  Ela: Restam-nos agora as classes humildes      Ele: Decorreram muitos séculos, antes de subirem ao grande tablado onde todos afirmam a personalidade, com altivez e segurança. Como em sono ‘hibernal’, jaziam obscuras, trabalhando, sem descanso, mais para outrem que para si mesmas. Eram peças ignoradas da máquina social, que viviam apagadas, com pena sem glória. &lt;br /&gt; Ela: Coitados! Que pena imensa eu sinto no peito, evocando o passado!&lt;br /&gt; Ele: Repara: nem a Literatura as teve presentes! Apenas tardiamente o século XIX lhes presta atenção! S+o deveres a cumprir, trabalho duro a executar, caprichos a servir, paixões a manter! Detestável situação!&lt;br /&gt; Ela: Jesus Cristo morreu por todos nós, ainda os mais desgraçados! &lt;br /&gt; Ele: É certo e provado, mas o homem é soberbo e aspira em seus actos, ao domínio total “ Amai-vos uns aos outros” é frase divina, mas não soava bem Arranjaram outra lei, para oporem àquela: Amai-vos a vós, com desprezo dos outros!&lt;br /&gt; Ela: É chegada a hora que vai libertar a pobre Humanidade! Virá rompendo já o dia abençoado, que anuncia amor e paz?! Que bom, se for assim!&lt;br /&gt; Ele: Rejubilo também, quando isso ocorrer. Um pouco mais de luz e calor… Quanto baste de alimento! Um abrigo modesto! Vestuário que chegue! Que ninguém morra à fome ou fique ao relento, derramando pelos olhos sangue feito lágrimas! Aos brutos e às aves concedeu o Criador tudo  o que desejam, sempre que o precisem, obtendo-o sem angústia nem cuidados excessivos. &lt;br /&gt; Ela: É verdade incontrastável  o que afirmas agora : vejo isso, na floresta, na          serra ou no mar. So então os infelizes, com direito ao Céu, não tinham neste mundo, o necessário à vida?! &lt;br /&gt; Ele: Aguardemos confiados, que o tempo vai mudando! Mentalizemos todos os povos ,com grande clareza e fino equilíbrio! Nem  ódios, que é feio nem armas também! A guerra do amor, a luta persistente da compreensão! Empenhemo-nos todos, que Deus é po nós!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Quais são os humildes que mais penam e sofrem?&lt;br /&gt; Ele: Cá entre nós, é o agricultor. Entretanto, vai subindo já e, de dia para dia, meçhora seu viver. &lt;br /&gt; Ela: Sim, é verdade, mas onde e em que terras? Longe da Pátria e dos  próprios amigos, em que ele é olhado, à maneira de  escravo. Aparentemente estimado? É só pelo que vale . Se a doença o prostra, quem olha para ele?!&lt;br /&gt; Ele: Há muito de poesia, nas tuas expressões, mas em verdade, só a terra que foi berço é capaz de alegrar-nos. Os próprios seres, ditos inanimados, tomam logo vulto. É sorriso mavioso que nos encanta e seduz! Mas a vida é luta a que não pode fugir-se! Aquele ditado: “Onde se ganha o pão, aí é o nosso lar! “ Muito acertado!&lt;br /&gt; Ela: Mas um lar emprestado, um lugar que nos ignora, um mundo que não  é nosso,  porque, na verdade, não nos viu nascer.&lt;br /&gt; Ele: O que sucede, em geral, é que voltam, mais tarde, ao berço adorado que os embalou. Não vês, +pr ventura, erguerem-se por aí ridentes moradias, bem acolhedoras, nas quais apetece ficar para sempre?! Poderiam eles, alguma vez na vida, alimentar este sonho e torná-lo  realidade?! Bem sei que é penoso abandonar a casa, onde tudo nos sorri, acariciando, com amor e ternura! Dizer adeus ao cipreste, que ensombra a campa fria, onde jazem sepultados aqueles entes que amámos&lt;br /&gt; Ela: O emigrante… coitado! Que pena eu eu tenho de seu triste fadário!&lt;br /&gt; Ele: Deixa-o ir mundo fora, alimentar o grande sonho! Talvez isso contribua, para o tornar mais feliz!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Que dizer das crianças, esse mundo encantador, que nos fala do Céu, com maneiras tão simples?!&lt;br /&gt; Ele: Oh! também eu lhes quero, mas a bom querer, pois me lembram alguém, que amei loucamente.. Fizeste muito bem, sugerindo. nesta hora um assunto agradávej e deveras querido!&lt;br /&gt; Ela: Tenho para mim, ceio não me engano, que só tardiamente começa´mos a olhar para um mundo tão belo!&lt;br /&gt; Ele: Assim o julgo também, É um espaço inexplorado, onde florescem as rosas mais belas! Encanta e perfuma este mundo de sonho, mas não deixam viver ao pequenino ente sua vida infantil. Viu ternura e carinhos, e sempre à mistura, ambiente carregado, incompreensão, onde ele era nada.&lt;br /&gt; Ele: Como sinto pena desses entes amados, que viveram constrangidos, ao ongo dos séculos! Obedecer e nada mais! &lt;br /&gt; Ele; Só deveres a cumprir, nada mais, se permitindo! Sabes? Não agiam por mal!A intenção era boa: levar a criança a dobrar a cerviz, a não discutir, a ser forte na vida!&lt;br /&gt; Ela: Também o escravo assim obedecia e, não obstante, era tido como gente! E os próprios animais, já domesticados?! Como eles são dóceis e deveras calados!&lt;br /&gt; Ele: Há de facto, obra grande, que é preciso realizar! O pequenino ser que nos sorri do bercinho, é uma flor em botão, primavera florida!&lt;br /&gt; Ela: é, de igual passo, o templo de Deus vivo. Encorporado em Cristo pelo Sacramento do Santo Baptismo, já faz assim parte do  próprio Corpo Místico! &lt;br /&gt; Ele: Conheces a fundo a doutrina cristã. Voltaremos aisso, .á mais para diante. que eu gosto do assunto!&lt;br /&gt; Ela: Pois é tempo! Chegou, finalmente, a hora ditosa, em que os nossos olhos já devem abrir-se Toda (a) criança  é digna de carinho e, juntamente respeito e amor! Urge, desde já, nos voltemos para ela, baixando a seu mundo! Procuremos compreendê-la e depois amá-la. pe rmitindo-lhe sempre viver a sua vida, à maneira infantil.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  20-3-1971&lt;br /&gt;  Ele: Hoje, afinal, de que vamos ocupar-nos? &lt;br /&gt; Ela: Gostava, realmente, de conhecer o teu passado. se é que deste modo não sou indiscreta! &lt;br /&gt; Ele: hei-lo-ás sabendo, por maneira gradual, no tempo devido Confidente fiel da minha longa existência e também depositárria de meus altos segredos, como havia de escondê-los?!  Bem sei, na verdade, que há luz e sombras, entretecendo meu longo passado, mas não será esse o currículo de hábito, em cada ser mortal?!&lt;br /&gt; Ela: Não quero sacrificar-te, seja embora ao de live. Só Deus é oerfeito. Na sua criatura, há sempre tudo, em grande profusão: mesquinhez e grandeza, glória e baixeza humilhação e triunfo.&lt;br /&gt; Ele: Ainda estão muito vivas as chagas do neu corpo. Que cicatrizem um pouco e então falaremos, sobre tempos idos. &lt;br /&gt; Ela: Por mim não sofras, que serei desditosa! Lembra já outro assunto, quenão prend no passado! Risquemo-lo até, da vida em comum, sendo isso preciso!&lt;br /&gt; : Olha bem atenta, ao que vou dizer-te:  há dias, era mercado. Enquanto dormias, fui de longada até Manteigas, a fim de espairecer. Oprimido de meus males, disfarçava no entanto, o mais possível. Encostado ao paredão, alongava o meu olhar e oarava, de onde em onde. Eis senão quando mulher feia vai subindo, carregada no aspecto. De repente, alguém sentado ali no muroj de costas para a estrada, roda velozmente e exclama arrebatado: “ Minha mãe querida, jã me não conhecias?!&lt;br /&gt;Não calculas tu! Aquela mulher, de seno carregado, transfigura-se logo , num momento veloz! Toda ela é encanto! Seus olhos luminosos, fontes cristalinas, caudauis imensos de luz e fulgor! As faces avivadas, rosas tão puras de um verde tão celeste, que parecia divino!&lt;br /&gt; Ela: Não vás apaixonar-te pelo Demo em pessoa!&lt;br /&gt; Ele: Oh! o seu ideal! Esse me apaixona! &lt;br /&gt;Era mãe! Que lindas são as mães! Como é bela a família!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Fizeste-me lembrar aquele trecho curioso, que vem, se não erro, nun livro de Francês: L’utilité des Artistes.&lt;br /&gt; Ele: Não sei a que propósito! Muito longe de sabê-lo!&lt;br /&gt; Ela: A contemplação, de mãos dadas com o sonho, é fonte de ventura. O que tu fazias era isso, exactamente! Contemplar e sonhar! Por outras palavras: querias ser o que não és!. Na realidade, o homem só é livre, quando é ele próprio, disse uma vez Raul Brandão. Escolher o seu caminho, realizar-se livremente, sentir fundo prazer naquilo que faz. Não é esta, de facto, a lição dos Artistas?! Não fazem assim?!&lt;br /&gt; Ele: Em boa verdade, poderão todos imitar os Artistas? Até o mais humilde pastor? &lt;br /&gt; Ela: Com certeza que podem! Juntar o útil ao que é agradável é ouro sobre azul! Amando  todos seu mesmo trabalho, à maneira dos Artistas, seria um mundo de sonho, compreensão, paz e amor!&lt;br /&gt; Ele: Belo demais, para ser atingido!&lt;br /&gt; Ela: Olha que não, meu bom compadre! Se, durante a vida a ninguém coagirmos,, amarrando seu destino, fácil é de aceitar! Por que não reagir?! Para quê impormo-nos a tais criaturinhas, traçando um rumo que nºao seja o delas?!&lt;br /&gt; Ele: Como eu sinto no peito ferir cruel espinho?! Se eu algum dia tivesse filhos, ia ser cuidadoso, neste ponto delicado.&lt;br /&gt; Ela: Deixa lá, compadre!Viveremos em comum esse nobre ideal! Não serão eles mais tarde a lançar-nos em rosto danosas culpas que assaz atormentam!  Deixá-los-emos crescer, no sossego aconchegado, respirando o bom ar e brincando descuidosos. Lançaremos directizes, após haver espiado seus caminhos predilectos, … sonhos lindos que geraram!&lt;br /&gt;MANTEIGAS  \\  22- 3 -1971&lt;br /&gt; Ele: Hoje é festa na serra!&lt;br /&gt; Ela: Festa para mim? Eu que perdi tudo quanto há de querido e nada já possuo, a não ser, claro está, a tua amizade! Condenada à solidão! Eu que, bem fadada, nasci +ara o amor e fui, desde sempre, talhada para o lar! Há séculos desterrada, sem carinhos de ninguém, exposta e sujeita a frios e neves que, neste local. são agora o nosso pão! Festa como?!&lt;br /&gt; Ele: Foi-se embora o Inverno e eu sinto no meu peito renascer a chama antiga.. Come-&lt;br /&gt;çou a Primavera! Estão à nossa porta as belas andorinhas! Virão flores delicadas alfombrar o&lt;br /&gt;noss chão, enquanto a neve odiosa chora lágrimas sem fim.&lt;br /&gt;Ela: Chora a neve e choro eu! Minha vida é penar!&lt;br /&gt;           Ele: Pessimismo não conta! Mais vale esquecer! O porvir será nosso. Quem pode  roubá-lo? Tu não vês, no Oriente, sorrir a bela aurora, convidando ao amor e ao carinho do lar?! Eia pois, minha amiga, lembra horas felizes e aviventa no peito um amor que já foi: Se o castigo fosse eterno, era eterna a minha dor, mas espero e confio no Senhor Omnipotente!&lt;br /&gt;Ela: É o  Deus dos cristãos que adoro também. Eu sei que Ele é bom e perdoa generoso Mas as culpas são tantas! Foi tão grande a ambição!&lt;br /&gt;Ele: É verdade tudo isso  e o mais que não diremos! Paganismo, idolatria, um viver desonroso! Tudo isso me lembra, mas não perco a esperança! Ignorância pode muito: necessidade também. Já que a luz chegou a nós, não fujamos para a treva! Findará o castigo deste exílio imposto, e então as nossas almas abrirão para a vida&lt;br /&gt;Ela: Certo fosse o que dizes, mas sinto desfalecer este meu coração, no peito arquejante! Acabaria o Inverno, tormento sem fim?! Terei eu a dirá de ver ainda um sorriso de amor e, ditosa mergulhar na carícia do Sol?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  23-3-1971&lt;br /&gt; Ele: As andorinhas chegaram. Que eu esperava ansioso o breve anúncio da linda Primavera! Não sei porquê: este ano mais que nunca! Ou talvez saiba: um Inverno longo, frio e nevoso traz logo consigo o desejo ardente da fagueira Primavera! Renasce a Natureza e a minha alma também! Sinto a vida latejar-me no peito em ardência! Uma força invisível solicita-me e prende, com promessa ridente de vida feliz!&lt;br /&gt; Ela: Já visre as andorinhas?&lt;br /&gt; Ele: Não tive ensejo ainda, mas alguém participou!&lt;br /&gt; Ela: Quem me dera encontrá-las, ouvir os seus gorjeios, acompanhar as canções! Ia fazer-me bem.! O gelo desta serra infiltrou-se em meu peito, Temporais e ventanias, geadas e nevões entorpeceram-me o cor+p. Poderei voltar à vida e cantar alguma vez?!&lt;br /&gt; Ele: O futuro vem sorrindo, já cheio de promessas! Eia, pois, companheira, que arrastei na desgraça! Quero ver desabrochar um sorriso em teus lábios, perene fonte de gozo para o grande infeliz que eu sou, nesta hora. Ao findar o castigo que engendrou minha ambição, hei-de fazer-te rainha do mundo que eu sou!&lt;br /&gt; Ela: Oxalá que voltemos ao sonho doutras eras, em que dis eram um, gozando imensa ventura! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-3- 1971&lt;br /&gt; Ele: Férias à porta! Vem logo a animação! Evocar o passado traz funda saudade! Também fui estudante, razão de sobejo, para viver em cheio os problemas dos jovens. Quando os vejo alegres,, estremeço fundamente, sentindo remoçar o coração avelhado!&lt;br /&gt; Ela: Tudo é sonho ara mim. Realidade não virá! Que me importa esse mundo, se eu vivo noutro, desterrada e mesquinha, ignorando a feliz hora, em que o Sol raiatrá?!&lt;br /&gt; Ele: Sufro imenso, não calculas, por ver-te prostrada, sem um leve sorriso e fagueira es+erança, que alente meu viver!&lt;br /&gt; Ela: Que é feito dos meus e que destino cruel os deitou a perder)! Aguentarei esta dor, sem morrer angustiada?&lt;br /&gt; Ele: Quem pudesse trocar esta vida que detesto, para gozar a ventura de aliviar tua dor! Mais não posso, infeliz, que chprar o nosso fado! Sofreremos igualmente longo tem+p. não sei, mas em dia que ignoro, o nosso amor voltará&lt;br /&gt;Ela: Minha vida pouco tem que seja em teu favor! Já se foi o alento e com ele a esperança! De que posso eu dispor?!&lt;br /&gt;Eke: Como és te quero eu que preciso de ti A razão da minha vida és tu somente e nais ninguém! Não me deixes a penar, amargurado e sozinho. neste exílio de dor. em que a vida não sorri!&lt;br /&gt;Ela: O que eu tenho é só teu: outra escolha já não faço! Deus do Céu te mandou, para grata companhia! Depois d’Ele, só a ti. Não me alegram outros olhos nem seduz outro rosto. Escolhi-te dentre muitos: foste aquele que adorei.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-3-1971&lt;br /&gt; Ele_ Trago hoje uma notícia que vai dar-te prazer!&lt;br /&gt; Ela: Que me dizes tu? Coisa nenhuma pode aviventar-me! Tão mudada ando já, que até penso nem ser eu! O próprio gosto se alterou em mim! Como é exacto o soneto do grande Camões, que se ocupa das mudanças!          Ele: Mas, afinal, por que razão não mudo eu também?! Por que hei-de eu sentir, nesta alma apaixonada, o fogo reacendido e já crepitante, que não deixa repousar?! Terei então de sofrer a minha própria dor e tomar ainda parte em dores alheias?! Infeliz que eu sou, meu Deus e Senhpr! Mas eu, realmente, é que fui o culpado! A ninguém assaco os meus grandes males! De quem posso queixar-me? Comparando os meus males com a desdita alheia, é talvez bem provável que haja outro maior! Se vier a perder-te, nada mais resta já, que me possa despertar-me!&lt;br /&gt;Gostavas de saber o meu passado longínquo. Foi desde essa hora, em que emergiu tal desejo, que vi murchar em ti a flor suave da esperança. Julgar-me-ás criminoso?! Vir-te-ão pensamentos de que sou grande monstro?! Sentirás, por ventura, nojo e rancor da minha presença?! Ou serão apenas saudosas lembranças, magoadas e tristes daqueles que eram teus?! &lt;br /&gt; Ela: Não estranhes, meu amigo, que eu sofra o destino, vertendo lágrimas quentes! Se tinha pais extremosos, um irmão adorado, que era o meu orgulho e consolo na dor!&lt;br /&gt; Ele: Não terei razões sobejas, para deplorar a minha triste sorte?! Os que eram meus, onde estão agora?! Jamais responderam a meus chamos veementes! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Desgraça tremenda bateu à nossa porta, mas tu és forte! Eu não sou! Se, pelo menos, um raio de esperança brilhasse ainda no meu horizomte!. No entanto, quem pode garanti-lo?!&lt;br /&gt; Ele: Confiemos ainda! O tempo tudo leva e tudo traz de novo! Não disse eu, há pouco haver para ti uma coisa agradável!&lt;br /&gt; Ela: Ia-me já esquecendo! Talvez a Primavera, o regresso confortante das meigas andorinhas! Não faço ideia exacta do que possa ocorrer! Já me afiz há muito, à privação em que vivo e temo grandemente que não me sinta bem, fora da solidão! Notícia agradável! Se tocasse, por ventura, àqueles que eu amava enternecidamente! Os que tudo faziam,, para ver-me feliz! Tudo o mais já não conta, ressalvada que deja a tua pessoa, que não posso dispensar!&lt;br /&gt; Ele: Os ousados gigantes, para castigo do deu orgulho feroz, converteram-se em montanhas ou então foi-lhes dada reprimenda severa! Adamastor, convertido, num ápice, em em Cabo das Tormentas! Não está, com certeza, melhor do que nós, pois que ele, afinal, rodeado para sempre, das  águas de Tétis, que ele amara no passado, jamais pode realizar o sonho de ventura. A minha falta é menor que a dele: eu, realmente não tinha, nessa data, posto de comando! O nosso destino, pois, tem de ser diferente!&lt;br /&gt;Ela: E ele amava, de verdade. a bela ninfa Tètis?&lt;br /&gt;Ele: Uma louca paixão! Infelizmente, porém, deixou-se enganar!&lt;br /&gt;Ela, afinal é que o enganou?! Costuma ser ao contrário!&lt;br /&gt;Ele : Isso é o qur dizem! A verdade, porém é assaz diferente! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Sinto hoje um pouco de alívio, estando ansiosa por saber em breve aquilo que prometeste.&lt;br /&gt; Ele: Pois seja então, já que assim queres. A ninfa Tétis de que já te falei, notando ser disforme e até colossal, o amante Adamastor, não se enamorou. Isto exactamente ela disse à mãe. que logo aconselhou enorme prudência, não fosse o caso que ele despeitado e já cheio se ira, urdisse no porvir cilada horrorosa, a que elas, de facto, não pudessem escapar. “ Filha, disse ela, todo o cuidado ainda é pouco! Não lhe digas que não! Vai-o enganando e procura mantê-lo na doce ilusão!&lt;br /&gt; Ela: Foi mau conselho, mas o receio pode realmente levar a tudo!&lt;br /&gt; Ele: Aí tens, pois u, caso que não é único: muitas vezes, são elas que os enganam!&lt;br /&gt; Ela: E, por fim, como terminou aquele embate, assim perigoso?!&lt;br /&gt; Ele: Camões assim o diz, na  grande Epopeia: no momento em que ele, já cego de amor, pensava realizar o sonho tão amado, recebeu prestes o castigo de Júpiter, por haver tomado parte na guerra dos gigantes. Transformado em grande Cabo – o das Tormentas – ficou rodeado, para todo o sempre, das águas de Tétis.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  28-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Chegados aqui. também gostaria de saber, ao certo, o destino infeliz de outros gigantes.&lt;br /&gt;Ele: Pois bem. Vou falar-te de mais dois. podendo ser até que o último deles venha a interessar-te, de modo particular&lt;br /&gt;Ela: Despertaste-me ao vivo. Fala sem demora, que rebento, de ansiedade!&lt;br /&gt;Ele:  O Gigante Atlas, excitado igualmente pela ambição, ladeou Adamastor, numa guerra fatal.  capitão do Mar, altamente obedecido, viu, num momento, os esforços gorados., como outros seus irmãos!&lt;br /&gt;E qual foi o castigo?&lt;br /&gt;Ele: Tremendo, sem dúvida! Suportar o mundo , em cima das costas, pelos sécilos sem fim!&lt;br /&gt;Ela: Que horror! Isso é trágico!&lt;br /&gt;Ele: Pois ficou assim e lá o temos ainda. ao norte de África, sofrendo e pensndo!&lt;br /&gt;Ela: Falta, pois agora, o mais desejado, não é verdade?! Diz já! Não demores!&lt;br /&gt;Ele: O terceiro é Mondeguinho que se juntou a nós por ambição e funda amizade.&lt;br /&gt;Ela: O quê?1 Repete esse nome! Mondegui… nho!&lt;br /&gt;Ele: Sim, Mondeguinho! Foi, na verdade, convertido em fonte, não longe daqui!. Chamam-lhe fonte ou nascente do Mondego, mas aquilo são lágrimas, que jamais estancaram! Dizem por lá que um desgosto enorme foi causa de tal pranto.      &lt;br /&gt;Ela: Meu rico irmão! Aqui tão perto de mim, sem sabermos um do outro! Quem medera abraçá-lo! Há tanto já que não vejo o querido! Por que chorará aquele pobrezinho?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-3-1971&lt;br /&gt; Ele: Eu bem pensava que havia de alegrar-te! Quem pudera. na verdade, havê-lo sabido, com maior antecedência! Ia assim actuar, a fim de lenir tua imensa dor! Mas só agora é que fui inteirado! Melhor é tarde que nunca!&lt;br /&gt; Ela: Rejuvenesci dezenas de anos e sinto de novo a alegria surgir, no meu coração! A partir de agira, alimento com razão um pouco de esperança! Oxalá tudo seja favorável e que o nosso tormento, prolongado e amargo, se volva agora em doce paraíso! &lt;br /&gt; Ele: Aguardemos, pois, cheios de confiança, porque isto decerto é um bom prenúncio! Conhecemos já uma parte da história, para saciarmos o nosso desejo. O que pude recolher foi apenas isto, mas vou obter, estou convencido, muito mais informações, que intento por amor.  De modo nenhum quero ver-te chorosa! Não te apercebes de que sofro também, por ver-te amargurada?! &lt;br /&gt; Ela: Anos sem conto, perdendo a ligação com a vida circundante, em imobilidade, que era aparente. Este facto assim mais cruciava a minha pobre alma, quase agonizante! A minha existência foi como vês. Quanto eu penei sabe-o Deus a quem nada se oculta! Mas, enfim. se tudo mudar, voltarei a viver os gratos momentos de eras passadas! Bem hajas tu, pela vida nova que já insuflaste no meu coração! Quero-te mais pelo muito que sofreste, sem te queixares, a meu respeito! Serei tua confidente e amiga dedicada!     &lt;br /&gt;Manteigas  \\  30-3-1971&lt;br /&gt; Ele:Decorreram os Passos, no dia 28 &lt;br /&gt; Ela: É verdade, Esse facto não passou despercebido, pois meditei a fundo no grande mistério da nossa redenção.&lt;br /&gt; Ele: Observei cuidadoso e vi muita gente de lágrimas nos olhos. Tinha eu para mim que não fosse tão vivida a romagem dolorosa, acompanhando o Senhor. &lt;br /&gt; Ela. Quem não há-de emocionar-se, com cenas deste género?! Um Deus a sofrer pelo homem pecador?! Só não tendo coração é que alguém se não comove! Que atenções ou favores é que Ele nos devia?! Bem ao contrário, nós sempre devedores, por indiferença ou ainda por olvido e, às vezes, menosprezo! &lt;br /&gt; Ele: Houve tempo, de facto, em que eu passava, um tanto alheado, ao realizarem funções desta ordem, mas, nesta data, pensando melhor entendo já bem que fiz muito mal: não volto a incorrer em tal desamor!&lt;br /&gt; Ela: Era ser ingrato para quem nos deu tudo, continuando a proteger-nos. Haverá aó na Terra mais feia mancha que a vil ingratidão?! Aquele que sofre é digno de compaixão e objecto de ternura, seja ainda um criminoso, Sendo o Homem-Deus, a carregar o pesado fardo, para remir as suas criaturas, faz dar voltas ao miolo!&lt;br /&gt; Ele: Ainda bem que nos entendemos, sobre um assunto de tamanha importância! Já fui imprudente, se não atrevido, mas hoje, felizmente, deixei de o ser! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  31-3-1971&lt;br /&gt; Ela: Meditando sobre o caso e olhando emocionada o lindo cortejo, distingui muita gente, que seguia compungida o nosso Redentor. Atrás d’Ele, ia um grupo reduzido, em quantidade, mas excelente em qualidade.&lt;br /&gt; Ele: Quem era? &lt;br /&gt;Ela: A Senhora das Dores e o Discípulo Amado. A eles somente é que o medo e os tormentos não tolheram o passo. Quem havia ali que ignorasse a bondade e  a clemência do Senhor?! Quantos enfermos tinham sido curados! Quantos famintos recebiam pão, saciando a fome, até ao sobejo! ´      &lt;br /&gt;Eie: E na amargura que se vêem os amigos! Na prosperidade como na grandeza &lt;br /&gt;enxameiam e crescem, à volta da abundância, mas assim que chega a hora da desgraça, eis que fazem rumo à vil ingratidão. olvidando os caminhos que trilhavam amiúde&lt;br /&gt;Ela: Grande mistério que prova bem claro, quanto o Senhor é bom e indulgente! Quem dá tudo nada mais tem que ofertar! A prova suprema do amor humano reside nisso precisamente! Como não amá-lO e a tudo renunciar, para ser-lhe agradável!&lt;br /&gt;Ele: Vê lá se me deixas e vais para o Convento! &lt;br /&gt;E la: Bem sabes tu já que o lugar do Pai Celeste ninguém pode tirá-lo. Isso não impede qye te ame também.&lt;br /&gt;Ele: Eu sei! Foi somente para amenizar, um tanto ou quanto o sério das razões! A fonte do amor é Ele e só Ele. À margem do Senhor e de costas  para Ele, nada encontramos que mereça afeição. O amor humano deve ter como base o amor do nosso Deus, esteio e garantia do que existe no mundo! Se há lares infelizes, é porque lá dentro, não se ama a Deus!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  1-4-1971&lt;br /&gt; Ela: Hoje é sexta-feira! Dizem não ser bom realizar certos actos, em dia como  este! Eu&lt;br /&gt;não vou nisso, mas às vezes, não sei que dizes!&lt;br /&gt; Ele: Que razão te leva, pois, a julgar de tal modo? Por causa do nevão, que hoje nos cobriu?! Se bem analisares, não escolhe dia nem tem preferências!&lt;br /&gt; Ela: Não digo o contrário, mas a Dona Madalena, do Frei Li+s de Sousa?! Não tinha ela receios fundados, alegando suas causas?!&lt;br /&gt;  Ele: Vejamos o caso: D, Madalena, embora fosse culta, vivia dominada po r uma ideia terrível, que na realidade, a não deixava nunca. O mínimo sinal, uma coisa insignificante fazia-lhe ver logo caminhos tortuosos, em que eram frequentes ciladas e agouros!&lt;br /&gt; Ela: Mas eu lembro-me, a propósito, de algumas pessoas que navegavam am águas iguais.&lt;br /&gt; Ele: Pode haver uma ou outra! Muitas, não!&lt;br /&gt; Ele: Que dizer, por exemplo, de Eça de Queiroz e Fernando Pessoa?! &lt;br /&gt; Ele: Conheço os episódios e não deixo de admirar-me! Entretanto, esses casos são raros e não devemos crê-los! Os dias são iguais e todos proveitosos! Deus do Céu, princípio de todo bem, não dava certamente poder assim nefasto às coisas naturais nem mesmo às pessoas!&lt;br /&gt; Ela: Se Ele quisesse, ninguém o impedia&lt;br /&gt;Ele: Inteiramente de acordo! Mas vemos conveniência em que seja de outro modo Se desligou da vontade funções orgânicas a que somos estranhos!&lt;br /&gt;Ela: Vejo sem entrave a razão de tais coisas e julgo por isso, que te assiste razão!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Isto é que vai um tempo, boa comadre!&lt;br /&gt; Ela: Nem me fale s em tal! Levei toda a noite a pensar no caso! Neve…sempre neve! E tu que me falaste, ainda há poucos dias, na bela Primavera! Em ninhos de andrinhas! Ridentes auroras!&lt;br /&gt; Ele: Assim foi, na verdade, mas o homem põe e Deus é qye disoõe! Quem havia de contar com mais um nevão! Até parece castigo!&lt;br /&gt; Ela: Que tristeza a nossa! Desde o princípio, logo em Dezembro, sempre envolvidos num manto de arminho, que para mais é já mortalha! Quem dera ver-me livre deste grande castigo e martírio sem igual!&lt;br /&gt; Ele: Caminhamos, decerto, para o grato Verão e só melhoria nos vai aguardar! Eu sei há muito que os homens da Ciência andam alarmados, com tais alterações! Apesar disso, nunca desanimo!&lt;br /&gt; Ela: Que dizem os cientistas e que podem avançar? Coisa boa não é, com toda a certeza!&lt;br /&gt; Ele: Não vamos agora tomar à letra quanto dizem, sobre o caso! Verdade seja, que merecem crédito, embora falem, bastantes vezes, com dados só prováveis. Apesar de tudo, quantas coisas escapam! Deus somente é quem sabe tudo e nunca se engana! O  que   garantem é  o seguinte: a temperatura tem vindo a baixar, desde há anos, Caminhando neste ritmo, voltaremos decerto a uma época, já glaciar. Assim foi outrora. &lt;br /&gt; Ela: Oh quem dera que fosse verdade e tivéssemos cumprido este fado miserando! Sabes, por ventura, o que eu ia fazer?&lt;br /&gt; Ele: Anda aí segredo?! Fuga  prematura?1&lt;br /&gt; Ela: Fujo contigo para terra africana, a terra dos meus amores, onde nunca há frio: há montes belos, que não são de neve!&lt;br /&gt; Ele: Para onde tu fores, irei eu também! &lt;br /&gt;Manteigas  \\  4.4-1971&lt;br /&gt; Ela: Domingo de Ramos! Que saudade imensa não desperta na alma e que grata emoção vem erguer no peito! Quantas recordações dessa infância longínqua, tempo belo e descuidado que não voltaram! Em dia como hoje, sendo eu pequenina, íamos todos à Missa. Os dias precedentes eram cheios de ansiedade, por não chegar logo o doningo tão querido! Ramos formosos de loureiro e oliveira,”cordinhas violácias”, alecrim resplendente e apetitosas laranjas. incitando o desejo!&lt;br /&gt; Ele: Por que é que tu distingues o facto, com tal emoção?!&lt;br /&gt; Ela: São os tempos de criança! Alguma  havia que faltasse à função?! Raminhos em barda, crianças buliçosas, adornos variados, laranjas pendentes, fazendo surgir água na boca de todos! Cada um de nós segurava orgulhoso o ramalhete adornado, olhando furtivamente para outros mas lindos! E se tinham fitas de cores variadas?!i&lt;br /&gt; Ele: Teus pais eram crentes e ssim vos educaram?&lt;br /&gt; Ela: Que doce harmonia reinava em minha casa!&lt;br /&gt; Ele: Melhor dirias : “ no teu palácio”, uma vez que teus pais eram fidalgos!&lt;br /&gt; Ela: Seja isso então, mas o caso não importa! Aquilo que mais vale e eu recordo sempre com infinda saudade, é o que lá ocorria: um pai afectuoso, uma mãe extremosa e un irnão que me adorava. Tudo perdi!&lt;br /&gt; Ele: Mas conta para mim o que então fazias e gostas de lembrar!&lt;br /&gt; Ela: A oração em família, com a presença de todos, era o laço  de união!  O cuidado materno, havido então, par que os seus amorzinhos louvassem a Deus! A sua paciência, o enlevo de alma que ogo a tomava, ao falar-nos do Céu! A sua grande fé, viva e operosa, o seu amor a Deus e o afecto à família! Que realidades belas, profundas, excelentes! E eu aptrecio, agora mais que nunca, lembrar o tempo grato, em que aprendi a rezar. Começarei brevemente a imitar en cheio aquela mãe saudosa que tanto amei na vida&lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Arrepiar caminho é sinal de velhice ou de arrependimento. Estarei eu fora de razão?!&lt;br /&gt; Ela: Como posso negá-lo, se de facto o sinto? Apesar de tudo, é-me grato sumamente voltar ao passado. Só nele me acho bem, reencontrando a verdade. O verniz aparente que a sociedade me pôs; a maneira de tratar com as outras pessoas; essa imitação algo inconsciente que despersonalizou, em nada e para nada me valeram jamais. &lt;br /&gt; Ele: Tens o culto do passado, como da família, dos amores empolgantes, que ninguém olvidará.&lt;br /&gt; Ela: fiz parte da legião que enxameia pelo mundo. A juventude inquieta, generosa e sonhadora pensava então que podia endireitá-lo. Os envelhecidos não tinham sido capazes? Comigo seria diferente! Era só começar! Defeitos  de outrem  não alimentava. Eles, sim! Falta de perícia; esforço medíocre, pouca iniciativa!  &lt;br /&gt; E sentias-te bem a pensar desse modo?!&lt;br /&gt; Ela: Feliz e orgulhosa, pois iria fazer o que outros, desditosos, não tinham conseguido.&lt;br /&gt;  Ele: E hoje e s tas mudada?! Repeliste o ideal?&lt;br /&gt; Ela: A mesma mão sou! Aquilo, afinal, era fantasia, vaidade exaltada! Por que havia de e u ficar, em plano superior aos outros mortais?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  6-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Por mais que tente, não posso dominá-los|&lt;br /&gt; Ela: Isso me dói, porque a rigor. a vaidade é assim! Que poderei eu fazer, a fim de mitigar o teu sofrimento? Não me diz respeito essa nuvem negra, que te ensombra agora?! Pelo menos, assim o julg eu!&lt;br /&gt; Ele: Não, por certo! São coisas do passado, que me oprimem e afligem, embora não queira!. Elas vêm ao de cima. turvando para logo  o sossego que tinha &lt;br /&gt; Ela: Remorsos talvez, Que eu não seja indiscreta! Gostaria de saber, para actuar eficazmente! Não sendo assim, que me resta, afinal?!&lt;br /&gt; Ele: Fá-lo-ei mais tarde: agora, não posso ainda! Porei então a claro o que vai na minha alma. Segredos não tenho, que receie desvendar. É cedo, no entanto, ou melhor talvez: nãposso avibar o que trouxe rude golpe e constituiu para mim a prova mais dura! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuação de 10-4-1971…         Ele: Se mais não deixasse que o Frei Luís de Sousa, já tinha assegurada uma coroa de glória. Efectivamente, ainda em nossos dias, é reputado sem favor nenhum, o maior drama romântico de toda a Europa.&lt;br /&gt; Ela: E dizem alguns, bem canhestramente que o dramaturgo não foi grande psicólogo. &lt;br /&gt; Ele: Se alguém o julgar, por essa obra-prima, não pode afirmá-lo! Revela-se o autor, bem ao contrário, um mestre consumado, para quem não há segredos nem subterfúgios. Aquela tensão, crescente e fatal, que abrange nas malhas personagens e leitores,não foi jamais superada, fosse por quem fosse. Segredos profundos e grandes amarguras, decepção e tragédia, a vida e a morte, tudo aflui à compita, retratando assim o viver deste mundo &lt;br /&gt;Manteigas  \\  11-4.1971&lt;br /&gt; Ela: Cristo ressuscitou. Alegria sem par, no C+eu e na Terra! Também me sinto mais jovem: o exemplo do Mestre é caminho seguro e bem definido, algo de belo atraente, certeiro! &lt;br /&gt; Ele: Irmão entre muitos, Ele vai à frente e a todos espera, no reino da glória! Vencendo a morte, saiu vitorioso e no seu triunfo todos partilhamos. Agora é segui-lO, com empenho e júbilo, na certeza bem firme do prémio soberbo que lá nos aguarda, no termo da vida. &lt;br /&gt; Ela: Ditosos, por certo, aqueles que O servirem. pois terão em retorno uma dita sem igual.&lt;br /&gt; Como não amá-lO, se é fonte de vida?! Onde encontraremos a sonhada ventura, a não ser no seu amor?! Por mais voltas que dêmos, à margem de Cristo, não é possível alguém ser feliz&lt;br /&gt; Ela: Sejamos na vida o que deseja de nós, para conseguirmos, logo após ela, um gozo sem fim&lt;br /&gt; Ele: Seja Ele, pois, a base do amor e esteio firme da felicidade, a garantia do grande triunfo. Rene em nossa casa e mais ainda em nosso coração.&lt;br /&gt; Ela: A nossa descendência há-de amá-lO também: só Ele é grande, amável e bom. Tudo o mais é nada, comparado a Cristo ressuscitado. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  12-4-1971&lt;br /&gt; Ela: A paixão de Cristo, a sua própria morte e ressurreição constituem razão grave , para esperarmos, harto confiados. Na verdade, a glorificação é prémio do esforço, presente do sofrimento, recompensa da tortura. Sem humilhação, jamais há grandeza. Assim foi traçada a rota dos mortais! Cristo ressuscitou, com glória e majestade, porque havia morrido.&lt;br /&gt; Ela: Bem deduzido. não hsja dúvida! Se nós sofrermos com Ele, também nos aguarda um prémio valioso. Tudo, neste mundo, obedece, com efeito, a um plano comum. Como é que as mães se desdobram, afinal, originando sempre outras vidas novas e dando à nossa Terra corações generosos?! É certamente, por meio do sacrifício, na base da angústia. Por que é que vicejam , no monte e no vale, as flores mimosas que a todos encantam?! Poique, na verdade, a semente morreu, dando generosa a semente que a formava?&lt;br /&gt;Ele: É maravilhoso. boa comadre! Vê-se bem claro ter havido previamente um grande ordenador a quem tudo obedece! A ordem admirável, que existe no mundo; o plano gigantesco do grande conjunto; a marcha uniforme de toda a criação eliminam a dúvida, em espíritos rectos e bem-intencionados. É, pois, verdade que esta nossa cruz se volverá depois em grande triunfo. A nossa humilhação em grandeza soberba! O passado tenebroso, em ridente aurora! Jamais a tristeza. o abandono, a solidão! Voltará para nós ridente aurora que jamais terá fim!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  13-4-\971  &lt;br /&gt; Ele: Paixão e Morte e Ressurreição! Grandes mistérios que nos levam, por certo, a meditar um pouco,  sobre  a vida  e  a morte, o inferno e o Céu!&lt;br /&gt;   Ela: Sobre o inferno também? Já ninguém fala nisso e vens tu agora com essas ideias  tão acarvoadas!&lt;br /&gt; Ele: Não são os homens decerto que fazem a Religião: esta é que os molda! Quando ela se adaptar aos pobres mortais, é sinal evidente de não ser divina!&lt;br /&gt; Ela: E não haverá outras, com iguais características?&lt;br /&gt; Ele: Só uma as tem: aquela que fundou o Rabi da Galileia. Em todas as outras, há vestígios  humanos , alguns dos quais são até degradantes ! Por esse motivo, são inaceitáveis!&lt;br /&gt; Ela: Que valor atribuir às outras religiões? Sendo elas falsas, devem ser desprezadas e postas a margem!&lt;br /&gt; Ele: A rigor, assim devia ser, mas Deus, afinal, criou o homem livre: por esta razão, não vamos escarnecer de quem professa, em boa fé, talvez, outra religião. A Igreja, por sua vez, dá inteira liberdade. &lt;br /&gt; Ela: Isso, porém, não equivale, rigorosamente a sus aprovação.&lt;br /&gt; Ele: de modo nenhum! As religiões, ainda que falsas, constituem barreira para o crime, incentivando a prática de boas acções. Não há erro nenhum que não contenha em si uma parcela de bem e se verdade. Com luz e sombras, apresentam, por vezes, vislumbres de beleza!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  14-4-1971&lt;br /&gt; Ela: Afinal de contas, tocámos num assunto, desviando-nos dele! Ora, gostaria de ouvir-te , sobre algumas razões, que me convencessem , no tocante a ele&lt;br /&gt; Ele: É sobre o inferno? Calculo que seja! Ora, tornou-se já moda falar pouco ou nada, sobre o castigo que poda aguardar-nos, após a morte. Isso, porém, não prova, decerto, a sua inexistência. Com efeito, a nobre Religião que nós professamos não se deve aos homens. Tem origem divina. Lá que o homem carnal prefira gozar a vida, entregue à luxúria  e à libertinagem, atropelando insano as leis mais sagradas,,humanas e divinas, coisa é que se lamenta! Que ele, porém negue haver sanção moral, para desmandos desta natureza, é coisa inadmissível!&lt;br /&gt;A quem é que apraz a negação do inferno? Aos grandes malandros. Jesus Cristo Semhor, infinita perfeição e alta santidade, referiu-se a ele, vezes sem conto. A quem prestamos crédito? A estes bandidos ou a Jesus Cristo?! Se não houvesse inferno, ficava em pé de  igualdade  o pecador e o santo,o humilde e o soberbo, o honesto e o devasso, a mentira e a verdade. Ora, isto opõe-se altamente à justiça divina. Negando tal facto, negaríamos tudo. Era a destruição do próprio Catolicismo!&lt;br /&gt; Ela: Acho razoável, mas gosto muito mais de pensar no Céu e agir por amor! Creio ser mais nobre.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  15-4-1971 &lt;br /&gt; Ele. Reflecti pausado, sobre a resposta que ontem me deste. Comungo também nas ideias expostas e acho-as, na verdade, preferíveis às minhas. Com efeito, é muito mais nobre fugir do mal, por amor a Deus, que ser levado a isso, pelo temor de castigo. Entretanto, quem de outro modo não for capaz!...&lt;br /&gt; Ela: Eu concordo plenamente que faz algum bem um pouco de temor, pois lá diz a Escritura: Timor Domini initium sapientiae ( O temor do Senhor é o princípio da sabedoria). S alguém se julgar em pé de igualdade com outra pessoa, não suporta avisos nem vai acatar imposições alheias. &lt;br /&gt; Ele: Ocorre-me agora o famoso dito de Santo Agostinho. Ama et fac quod vis ( ama e faz o que quiseres) Enorme força tem o amor! Resolve dificuldades, aplana caminhos, opera maravilhas!&lt;br /&gt; Ela; Admiras este santo? Como não apreciá-lo e querer-lhe em extremo?! Um grande coração, que fora pecador, servindo assim de norma, para me corrigir! Depois, há outras razões que mo tornam simpático: a inteligência aquilina; a grande humildade; o coração amoroso; a caridade esfuziante! Elegi-o há muito, para intercessor no trono de Deus e rezo-lhe  amiúde! Creio ser ele um bom advogado, em causas supremas!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  16-4-1971&lt;br /&gt; Ela: Entre as virtudes cristãs, ocuoa decerto lugar especial a risonha caridade. &lt;br /&gt; Ele: Eu julgo até, ecreio não me engano, que ela, na verdade, é fundamento e até resumo de todas as virtudes. Quem a não possui é mendigo de Deus. Está de costas, no tocante a ele e fora de portas.&lt;br /&gt; Ela: A teoria é bonita, mas a prática dela é um pouco difícil. Amar a quem se odeia, estimar , afinal, quem nos atraiçoa, permanecer fiel a  quem tenta burlar-nos! Creio não ser fácil!&lt;br /&gt;Ele: Fácil não é, mas é possível, porque Deus ajuda. Além disso, não é como sabes, por mérito do próximo que nós o amamos: sim, pelo amor a Deus, que assim o quer! Perdamos, esquecendo, para qu Deus bondoso esqueça também as nossas faltas e perdoe juntamente os nossos pecados.&lt;br /&gt; Ela: Como se traduz, na vida prática, o amor ao próximo?&lt;br /&gt; Ele:  Não é pelos frutos que nós, a rigor, conhecemos a árvore?! Se eles forem bons, a planta não é mã. O invés também dá certo.&lt;br /&gt; Ela: Nesse caso, evitar o ódio, ser prestável a outrem, rezar ao Senhor  por quem nos ofende!&lt;br /&gt; Ele: Sim, afastar do peito o que tenda a rebaixá-lo, defender-lhe a honra, impedir e afastar apreciações malévolas ou mal intencionadas, evitar alcunhas, olvidar humilhações e postergar ofensas bem como agravos.&lt;br /&gt; Ela: É duro, sim, mas vale bem a pena dispender esforço, pois Deus é Pai que a todos ama&lt;br /&gt;Manteigas  \\  17-4-1971&lt;br /&gt; Ele: no fim de hoje, vamos ocupar-nos do belo civismo, qualidade excelente que nos leva e impele a ser gentis, amorosos e bons para toda a gente, sem fazer jamais acepção de pessoas &lt;br /&gt; Ela: Não é ele,a rigor o fruto necessário e assaz cobiçado, cuja raiz imerge na caridade?!&lt;br /&gt; Ele: Ninguém a contestá-lo. Efectivamente, a doce caridade procura servir, mais que servir-se! Há também o civismo como prenda natural, fruto de equilíbrio. humanidade e compreensão. O sobrenatural vem aperfeiçoar a própria natureza, elevando-a sempre à esfera superior. Jamais a destrói! Compreende-se bem que seja desse modo. Reportando-a agora à vida campestre, lembra-me prestes o que era feito, nos lindos pomares: belas enxertias que eu embevecida contemplava cismando! Total fusão, na qual duas vidas redundavam numa só!&lt;br /&gt;Ele: Bem observado e muito judicioso. Qualidades naturais,.  enxertadas na graça divina, ficam elevadas e mais perfeitas.&lt;br /&gt;Ela: Neste capítulo, há muito que andar, não te parece?!&lt;br /&gt;Ele: E que penar! Sendo fruto precioso de cultura e bondade, importa desde já lançarmo-nos todos, de peito aberto, numa vasta campanha de esclarecimento&lt;br /&gt;Ela: De facto, quando o civismo é já integral, forma a vontade e muda o coração, ilus trando o espírito. &lt;br /&gt;Ela: Acontece, não raro, haver também povos instruídos, que não primam decerto pelo civismo, constituindo perigo e até escândalo para os mais humildes.&lt;br /&gt;Ele: Fruto danoso de simples instrução. houve  somente ilustração do espírito, ficando à margem  coração e vontade. Esse desequilíbrio é pernicioso oara a Humanidade.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  18-4-1971&lt;br /&gt; Ela: Há quem julgue, embora erradamente, que a mera instrução chega para tudo.&lt;br /&gt; E le: Isso, na verdade, é exactamente um dos grandes males, que ameaçam o mundo. Infelizmente, existem muitos pais, que enfermam desse mal. Educar para eles é obter noções, proporcionar também conhecimentos novos, penetrar devidamente nos grandes segredos, da Mãe-Natureza.&lt;br /&gt; Ela: Isso. é claro, origina bons técnicos , grandes especialistas e, provavelmente, cientistas de renome! Entretanto, com a vontade em bruto e rendida ao mal,  o coração forja imunda, em que pululam, sem qualquer travão, sentimentos degradantes, que pode a sociedade esperar então?!&lt;br /&gt; Ele: Ideias incendiárias, artimanhas perigosas, anarquia, miséria. O mundo precisa, sim, mas de outra coisa! De monstrozinhos humanos e fontes de rebuliço prescindimos nós todos!&lt;br /&gt; Ela: É verdade incontestável! Um santo vale mais que um sábio! Dizia Pascal:“Vale mais, a rigor, uma simples gota de santidade que um oceano de génio!”&lt;br /&gt;  Ele: Que vai a Terra lucrando com essa temível e horrenda fonte, que dá pelo , porque nome  de  energia nuclear?! Intranquilidade, inquietante incerteza, pavor sem limites! Destruir é fácil: construir, não! Os anarquistas e demolidores aparecem aos centos, porque a sua tarefa não custa suores  &lt;br /&gt; Ela: Que pena me faz a mim! Essas rimas de dinheiro e os cérebros dotados, por que não se encaminham noutro sentido?! Matar a fome aos grandes infelizes! Instruir a Humanidade! Aliviar o sofrimento de tantos desgraçados!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  19-4-1971&lt;br /&gt; Ele: De momento, vou fazer-te uma pergunta, relacionada ainda com o tema de ontem,  A ver se respondes, de maneira cabal.&lt;br /&gt; Ela: Venha ela, compadre! Pelo menos, tentarei fazê-lo!&lt;br /&gt; Ele: Onde se manifesta a boa educação)&lt;br /&gt; Ela: Isso é dos livros! No templo de 0eus, à  mesa e no jogo. Creio que foi isto o que li, há muito já e a que presto adesão. &lt;br /&gt; Ele: O que era exacto, lá  no passado,  também o é no presente! Entretanto, a vida moderna apresenta mais facetas, em cada uma das quais o facto referido pode verificar-se&lt;br /&gt; Ela:  Sim, imagino até que daria com algumas.&lt;br /&gt; Ele: Não pretendo, já se  vê, que mates a cabeça, tendo em mira adivinhar. &lt;br /&gt; Ela: Muito agradecida, pela tua gentileza, não resisto à tentação de apresentar um caso: a praça ou mercado. &lt;br /&gt; Ele: Acertaste no alvo, pois era is so mesmo que eu tinha em vista, embora de facto haja outros aspectos, igualmente valiosos. &lt;br /&gt; Ela: A Humanidade é sempre a mesma! Sempre igual em tudo!&lt;br /&gt; Ele:  É e não é: se prepararmos as gentes, educando-as a primor, o progresso imediato há-de fazer sentir-se!&lt;br /&gt; E la: Actuar de preferência, junto dos pais, ou de seus filhos?&lt;br /&gt; Ele: Seria mais profícuo, junto dos pais, visto que o exemplo é mais real, mas infelizmente como têm afazeres  e sérias ocupações, limitamo-nos aos filhos  , a quem tentamos elevar o nível1. Como é já tarde, voltaremos amnhã, para continuar! &lt;br /&gt;Manteigas   \\  20-4-1871&lt;br /&gt;            Ela: Como disseste, fiz boa pontaria, não é verdade?!&lt;br /&gt; Ele: Indubitavelmente!  A  praça  ou  mercado  é um  teste perfeito de civismo e gentileza e, ao mesmo tempo, uma  Escola prática  de aprendisagem.&lt;br /&gt;Ela: Escola também?! Como entendes isso?! A mim parece-me que , em vez de Escola, será antes um inferno!  Olhar de soslaio, referências picantes, apreciações malsãs, arremessos importunos! Eu sei lá! Um conjunto de horrores! E dás a isto o nome de escola?!&lt;br /&gt;Ele: Sim, Escola de paciência e campo de observação. Falta dizer ainda que também se colhe ali bom exemplo a seguir; ao lado do mal, encontra-se o bem;  junto  à grosseria  e rusticidade, notamos  delicadeza e muito respeito. Isto, a rigor, não é escola?!&lt;br /&gt;Ela: Não me atrevo a contestar!  Ainda bem que assim é! Apesar de tudo, aquilo, por vezes, é de fugir! Serias tão ousado que fosses por fruta, vendo o que eu vi?! Gentinha imunda, para a qual a água não conta nada, exalando cheiro que deita ao chão, a pegar em figos que palpa a capricho e logo  derranca?!Unhas tarjadas, em que o lixo avulta, imergindo breve no pericarpo do fruto, em que injectam o vírus?! É repelente! Insuportável!&lt;br /&gt;Ele: Torna-se urgente elevar desde já  o  nível  higiénico, aconselhando as massas a fazer largo uso  da água cristalina, e apontando os males que podem  sobrevir. Impõe-se como é óbvio,  longa campanha de boa vontade  e compreensão ,em que todos colaborem: imprensa e radio; televisão; igreja e escola; autoridades e toda a gente que possa ajudar&lt;br /&gt;Manteigas  \\  21-4-1971&lt;br /&gt;Ela: Como vínhamos dizendo constitui a praça um grave problema, em cuja solução, todos,  naturalmente,  hão-de  colaborar. É dever geral: não apenas de um só! Quando todos ajudam, nada há que resista. Não se cria uma for ça que arrasta convencendo?!  &lt;br /&gt;Ele: Quem sente  mais  em cheio,  direi até, em profundidade , é que vai fazer compras e não pode furtar-se! &lt;br /&gt;Ela: Geralmente ,as senhoras, como é de prever! Eu não minto, declarando abertamente: é assaz penoso e muito enjoativo! Aconselhar alguém, no dito local, seria arriscado e, portanto, inútil!&lt;br /&gt;Ele: Ali, não! Deve  começar  no  próprio  berço!, prosseguindo na Escola. Hábitos  de longe, aliando sempre teoria e prática, é que há-de valer! A palavra e o exemplo,a compreensão, aliada à cultura,  operarão o milagre. &lt;br /&gt;Ela: Sim. Devem capacitar-se de a nossa água,, ainda fria, não faz mal a ninguém, exceptuando, bem está, o que seja doente  ou provecto em idade.&lt;br /&gt;Ele: O Inverno rigoroso leva muitos à fuga.&lt;br /&gt;Ela: Por falta de treino! Habituados,  desde  o berço,  limparão sempre as unhas, bem como os ouvidos, na parte mais recôndita. Também se não dispensa o banho frequente&lt;br /&gt;Ele: Era excelente uma coisa assim! Proporcionaria ocasião de convívio! Não havendo higiene,  poucos há que não fujam , ocultando embora a razão de seus actos.&lt;br /&gt;Manteigas  \\ 22-4-1971&lt;br /&gt; Ela: A separação é causa de muitos males e um dos flagelos que torturam o mundo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas  \\  24-4-1971&lt;br /&gt; Ela: Se agora, da igreja, passamos à rua, então, sim, os arrepios são fundos e muito frequentes. O que já chegou a meus pobres ouvidos! Faz estarrecer! Nem é dado contá-lo!&lt;br /&gt; Ele: Referes-te às crianças, não é assim?!&lt;br /&gt; Ela: De modo especial! Que serão, amanhã, essas línguas depravadas, habituadas sempre a cortar a direito?! Palavras grosseiras, ditos soeses, injúrias e maus tratos. Que tenho eu visto?!&lt;br /&gt; Ele: Façamos, pois, algo, por esses botões, ainda em flor, enquanto se não depravam, tornando-se danosos!&lt;br /&gt; Ela: Ninguém se atreve já, porque insultam ferozmente. Fica até a impressão de nos encontrarmos em presença de feras! Que será o mundo, lá no porvir, com este princípio?! Qual a senhora que logo não cora e até se indigna, ouvindo palavras tão escurris?! A rua, afinal, devia ser livre, para nela passarmos tranquilamente!&lt;br /&gt; Ele: Mas todas as crianças vão ser abrangidas pela tua censura? É que muitos pais  sabem realmente cumprir o seu dever! A rua, na verdade, é má conselheira. Entretanto, vigiando as companhias e, ao mesmo tempo, escolhendo os lugares, já se não dará esse caso lastimoso. Somente os que vadiam, sem rei nem roque, ao sabor da Natureza, não temendo ninguém é que dão origem a cenas lamentáveis.&lt;br /&gt; Ela: Evidentemente, não quero atingir seja quem for. No meio disto, há muito que louvar!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  25-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Importa grandemente prestar assistência à gente da rua, a fim de suavizar-lhe os costumes grosseiros.&lt;br /&gt; Ela: E como proceder, para alcançar tal objectivo? Poríamos cobro a esta onda que é forte ameaça de tudo submergir?!&lt;br /&gt;Ele: Nada há neste mundo que não tenha remédio, à excepção da morte, mas vindo ela, tudo acabou! Se cada um de nós agir com eficácia, junto de vizinhos, de seus amigos e conhecidos; se a Escola Primária elucidar o espírito e impuser sanções; se os Priores insistirem quer na sua igrja quer fora dela; se as Autoridades, civis e militares, forem, de facto, inquebrantáveis, a face da Terra em breve mudará!         Ela: É preciso vontade e espírito de serviço.&lt;br /&gt;Ele: Nãi era decertp, a primeira vez que tal coisa se fazia! Imaginemos, por alguns momentos, o que seriam os povos, ainda bárbaros, no século V e já nos anteriores! Não deram mais tarde, os povos civilizados da nobre Europa, civilizadora?! Alguém houve, de facto, que muito se empenhou e pelo sacrifício, alto e generoso, os povos bárbaros deram, seguidamente heróis e santos, honrados cidadãos e homens prestáveis.&lt;br /&gt;Ela: Façamos, pois, alguma coisa útil, +elo mundo de amanhã, a fim de que seja bom. clemente e pacífico, a partir da instrução. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  26-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Venho atordoado, a mais não poder&lt;br /&gt; Ela: Alguma aconteceu que não é das melhores!&lt;br /&gt; Ele: Contrário a ruídos e vozes tonitroantes, deparou-se-ne um caso, que não posso olvidar!&lt;br /&gt; Ela: Cavalheiro não era?!&lt;br /&gt; Ele: Desta vez não, mas já os tenho encontrado, que são de peta e beta! Era uma jovem, de aspecto arrapazado, voz amachada, a tender para o grave e maneiras descompostas. &lt;br /&gt; Ela: O que aí vai, por esse mundo de Cristo!&lt;br /&gt; Ele: A procissão está apenas em meio! O tacão dos sapatos era largo e allto; os olhos escabreados e o cabelo entrançado mal se notava. Que eu agora nem distingo já entre um sexo e outro! Além disso, a mulher actual deixou realmente de ser elegante! Põe trajos excêntricos, não tendo em vista a graciosa simetria de todo o conjunto&lt;br /&gt; Ela: Nem todas são iguais! Há que distinguir, fazendo justiça!&lt;br /&gt; E le: Seja como dizes, mas eu pretendia que me deixassem em paz! Esta coisa molesta de aturar alguém que fala cerrando +e dentre tudo o que mais detesto. Repugnante e indigesto, repudio-o com alma! Chego até a convencer-me de que elas, *as vezes, põem força na voz, à falta de substância, nas ideias que engendram. &lt;br /&gt; Ela: Nem tanto ao mar nem tanto à terra!&lt;br /&gt; Ele: Se te visse s em apuros, como eu já me vi, dirias então o que agora não julgas! Basta assinalar que é só na Península que se fala deste modo! Será por isso que nos chamam Africanos?!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  27-4-1071&lt;br /&gt; Ela: O nosso encantamento vai-se atenuando, o que me traz ao espírito alívio sem par!&lt;br /&gt; Ele: Por que dizes tal coisa? Folgo com isso e pelo que me toca, sinto no peito imensa alegria. &lt;br /&gt; Ela: Já saio disfarçada, indo por aí fora, a lugares diversos. Para quem viveu assim, tantos anos solitária,vê lá meu bem se não há razão, para eu exultar, de imensa alegria! Não foi apenas uma vez por junto. A princípio em giros exíguos; depois, já mais à distância&lt;br /&gt;            Ele: Isto promete e é já bom sinal! Quando o mano falar, então é que há-de ser!&lt;br /&gt; Ela: Quem tivera tal sorte! Dos queridos pais já nada espero! Há tanto que os deixei! Agora, de Mondeguinho, de quem falaste já, não há muito ainda, albergo alta esperança!&lt;br /&gt; Ele: Prometi, com efeito, revelar alguma coisa, mas é pouco ainda o que obtive , a respeito dele! Foi transformado em nascente de um rio, andando por aí com o nome de Mondego O povo ingénuo, em sua credulidade, julga simplório que é nascente de um rio, mas quanto se engana! Alguém adivinhará que se trata de lágrimas, em vez de simples água?!&lt;br /&gt; Ela: Meu irmão a chorar! Pobrezinho dele! Carpir na solidão a mágoa oprimente, longe do que amava, e da mana adorada! Soubesse eu já onde é que ele mora, Havia de transformar, a poder que eu tivesse, em júbilo imenso a tristeza que o prostra.&lt;br /&gt; Ele: Levar-te-ei qualquer dia ao lugar onde ele mora!&lt;br /&gt; Ela: Como então serei feliz!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  28-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Hei-de ler-te, mais tarde, uns Diários  que guardei. Creio ser-te agradável, pois falam de Mondeguinho. Foram eles escritos, em pleno ar livre: impregnou-os o ar puro e a frescura da montanha. Muito hei-de revelar-te, sobre tal assunto e outros mais ainda, que te são queridíssimos!&lt;br /&gt; Ela: Quem dera que isso fosse, mas tão depressa é que não virá!&lt;br /&gt; Ele: Fala dos teus giros e de quanto observaste, que há-de ser interessante!&lt;br /&gt; Ela: Como seta ligeira, passava os povoados, sem dar jamais nas vistas de ninguém. Olhava com volúpia e muita presteza, quanto havia a meu lado, sem fixar os olhos ou prender a atenção. Como eu gosto de passear, inteiramente à-vontade, sem nada que moleste ou sirva de incómodo!&lt;br /&gt; Ele: Uma coisa é ver, outra é dizer! Aquilo que se passa, ante ps nossos olhos tem a cor da alegria, o brilho do Sol e a beleza da verdade!&lt;br /&gt; Ela: A Primavera risonha ostentava suas galas, orgulhosa e senhoris! Como ela é diferente, bem longe daqui, onde só desmaiada aparece já e tardiamente!&lt;br /&gt; Ele: Havemos de vê-la ainda, do Minho ao Algarve, espraiada por vales, onde cantam rouxinóis.&lt;br /&gt; Ela: Venha bem depressa a hora da ventura! Acabe para sempre a ingrata solidão! Qual passarinho, retido na gaiola, ansioso de liberdade, assim permaneço, desditosa e mesquinha!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  29-4-1971&lt;br /&gt; Ele: Em tempos de egoísmo como são estes que vamos atravessando, causou impressão um facto recente, que eu observei, com grande avidez. &lt;br /&gt; Ela: Nem tudo é mau, no mundo que habitamos! Algumas vezes, é mesmo a nosso lado, que topamos, de chofre, com cenas cativantes, em que avulta logo desprendimento e o próprio serviço. &lt;br /&gt; Ele: Não é bem o que tu pensas, quer dizer, aquilo que referi não toca em pessoas.&lt;br /&gt;Ela: Não entendo! Os animais, por incapazes, não podem ser gentis nem dedicados. &lt;br /&gt;Ele: Não podem?! Pois que é senão isso aquilo que eu vi?! Que nome diferente poderia atribuir-lhe?!&lt;br /&gt;Ela: Conta lá pois! Estou fora do assunto!&lt;br /&gt;Ele; É a Russa prestável que já ultrapassou os 25 anos e é dócil como gente!&lt;br /&gt;Ela: Estou à margem do caso e navego, deste modo, em águas turvas! Palavra que não atino!&lt;br /&gt;Ele: É uma velha burra, que pode servir-nos de bom exemplo&lt;br /&gt;Ela: Uma besta genuína a dar lições à gente!&lt;br /&gt;Ele: ´o que eu te digo e sem vergonha o faço agora! Só queria que visses! Doçura e meiguice, tranquilidade, tudo emergia no simpático bruto, quando eu o vi. Amanhã contarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Manteigas  \\  30-4-1971&lt;br /&gt;Ela:  Venha de lá então o caso de ontem. Estou ansiosa por saber algo ,mais.&lt;br /&gt;Ele: Passava eu em frente da igreja, quando vejo aproximar-se um velhinho já trôpego, levando a  jumentinha  de corda bamba. Ambos idosos e muito prestáveis, abeirava-se aquele dum pequeno muro. Quedo-me boquiaberto, a presenciar tal cena, que muito deliciava. &lt;br /&gt;Ela: É preciso, na verdade, não ter mais que fazer, para esbanjar esse tempo vali&lt;br /&gt;oso! Que dizem os Ingleses? Time is Money! ( Tempo é dinheiro!)&lt;br /&gt; Ele: Importa-me lá do que dizem os Ingleses! Para mim, valej muito mais aquela cena rústica do que as minas de carvão da loura Albion!&lt;br /&gt; Ela: Foi um gracejo da minha parte, que eu, na verdade, aprecio imenso tudo o que é humano ou serve o homem!&lt;br /&gt; Ele: Pois como ia dizendo, o animal deslocava-se, ao ritmo preciso do seu próprio dono: passadas lentas, algo comedidas, um tanto incertas, quase pensadas! Quando ele  hesitava em subir um lanço, a burrinha aguardava, pacientemente, retomando a marcha, no momento oportuno. Agora, encosta-se à parede, cosendo-se com as pedras e tornando-se imóvel. Ignoramos, a rigor, se está viva ou morta. É o momento cruciante!&lt;br /&gt; Ela: Quem dera, ó Céus, que fosses pintor, para gravar, com todo o rigor, aquilo que observaste, bem deliciado!&lt;br /&gt; Ele; Oh! se eu fora Rembrandt, o famoso flamengo, ia fazes, com certeza, um quadro vivo e assaz animado, que serviria de presente, no dia de teus anos!-&lt;br /&gt;Manteigas  \\  1-5-1971&lt;br /&gt; Ela. Hoje então vamos dar remate.&lt;br /&gt; Ele: Não é fácil como julgas, porquanto o fim é sempre delicado, seja qual for a obra em questão&lt;br /&gt; Ela: Mas, afinal, o velhinho referido conseguiu ou não montar a Russa?&lt;br /&gt; Ele: Julguei, por momentos. que  não era capaz e temi, a valer, um fim de tragédia! Imagina tu e depois dirás. Uma vez firmado no exíguo muro, sentou-se, de lado, à maneira das mulheres, tenteando em seguida, as pernas à esquerda, enquanto rodava sobre as ‘almofadas’&lt;br /&gt; Ela: E não sente vertigem, ao fazer a manobra?!&lt;br /&gt; Ele; Lá se ele as tinha , não posso dizê-lo! Uma coisa, porém, é mais do que certa: quem as teve fui eu! Sempre julgava que ele se virasse, durante a operação! Aquilo para mim era um sortilégio! O paciente animal haverá suspendido a função respiratória! Nunca eu vura coisa semelhante! Digo fracamente: fiquei maravilhado!&lt;br /&gt; Ela: E burrinha amorosa não mostrou impaciência nem teve alguma vez breves reacções?&lt;br /&gt; Ele: Parecia, no agir, criatura racional: cheia de bondade e compreensão! Ali se manteve, sempre inalterável, durante longo tempo, iniciando a marcha, quando verificou estar o dono a postos. Há prestabilidade e maior compreensão, entre eles ambos que entre muita gente!&lt;br /&gt;Manteigas  \\  2-5- 1971&lt;br /&gt; Ela: Gostava imenso de conhecer o animal! Desde que referiste a cena tocante, pensei a valer no caso singular!&lt;br /&gt; Ele: Vou então prosseguir. Após as tentativas, deveras morosas, a que fiz alusão,  “cara metade” acorreu prontamente a prestar ali ajuda: soergueu levemente cada uma das pernas, facilitando assim a posição desejada. Mais uns trejeitos, para maior equilíbrio e certo à-vontade, e pouco mais era já preciso. Passar, além disso, o casaco e o pau (uma bengala antiga, com longa história).&lt;br /&gt; Ela: É comovente o quadro singular, numa época egoísta, em que todos procuram acima de tudo, o bem-estar pessoal No caso presente, a compreensão é total. O animal serve o dono, e este faz o mesmo, em compensação, Pois, na verdade, quem lhe faz a cama, livrando-o da humidade?! E o belo feno, apetitoso e macio, quem é que lho ministra?! Que outra voz diferente é para a Russa uma promessa fagueira?!&lt;br /&gt; Ela: Até parece que estás inspirado!&lt;br /&gt; Ele: Eu vibro enormemente com tudo o que é formoso! Não vês acaso nisto o efeito da união? Como seria bela a sociedade humana, imitando o homem as simpáticas atitudes de alguns animais! Mas que é o que ele faz? Ludibriar o próximo, auferindo à sua custa o que seja bastante para excessos e desmandos. &lt;br /&gt;Manteigas  \\  3-5-1971&lt;br /&gt; Ela: Hoje, afinal, é dia de Santa Cruz, meu bom compadre! Deve ocupar-nos a face religiosa, pois que o homem, de facto, não é só matéria.&lt;br /&gt; Ele: Acho isso esplêndido e muito a propósito. Já sei ou adivinho o que vai na tua mente: o achamento do Brasil e a primeira Missa, ali celebrada.&lt;br /&gt; Ela: À volta disso, pouco mais ou menos! &lt;br /&gt; Ele: Este dia não posso olvidá-lo! Recorda, na verdade, ocorrências tristes e casos pessoais, bastante lastimosos! Realizara-se antes o Concílio dos deuses, em pleno Oceano. Foi então relembrada a porfiosa ousadia dos temíveis gigantes e proposto ali seu terrível castigo! &lt;br /&gt; Ela: Já estou no encalço! Não foi a propósito daquela expedição à remota Índia?&lt;br /&gt; Ele: É isso mesmo! Baco, deus do vinho, despeitado e rancoroso, é que pôs  a  questão .&lt;br /&gt; Ela: Não tinha lugar, de maneira nenhuma, um ódio tão grande ao povo português, sendo o deus do vinho amigo de Luso ou até seu pai e companheiro na Índia&lt;br /&gt; Ele: A maldita inveja! Sempre o mesmo e sempre igual!&lt;br /&gt; Ela: O maganão! Só a habilidade a que então recorreu, para irritar as ninfas, convertendo-as logo â causa pessoal!&lt;br /&gt; Ele: É o poder das lágrimas! Não foram elas, sempre eloquentes?!&lt;br /&gt; Ela: Pois sim, não desdigo, mas nada conseguiram! Os portugueses, através do mar, chegaram à Índia e logo ao Brasil.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  4-5-1971&lt;br /&gt; Ele: Recordo-me agora de que, em tempos idos, eras devota de Santa Mónica. Conservas ainda essa crença viva?!&lt;br /&gt; Ela: Como no princípio! Tenho, de facto, premente necessidade, pois lá diz o povo:”Quem tem padrinhos não morre moiro!”&lt;br /&gt; Ele: A minha admiração vai mais ainda para o grande Agostinho, que a teve por mãe! Apesar de tudo, não deixo de preza-la, como grande mãe e bela educadora!&lt;br /&gt; Ela: Agostinho foi grande, porque teve por mãe uma grande mulher, excelente educadora!  Não fora ela, com suas orações, intercessão e zelo inflamado, que teríamos hoje?!  Um céptico provável ou melhor ainda, uma sombra de homem, que poria fim à vida terrena, por não haver encontrado a ventura sonhada!&lt;br /&gt; Ele: É bastante provável que assim fosse, realmente! Demais, é já sabido que todo o filho será na vida o que a mãe lhe destinou. Herói ou trânsfuga, criminoso ou santo, humilhação ou glória, derrota ou vitória. &lt;br /&gt; Ela: É essa a razão por que admiro e prezo a fonte de seus dias! Gostaria de imitá-la, já no seu exemplo, já na devoção a seu Deus e Senhor! Dezoito anos sofrendo, a fim de gerar para a eterna glória aquele que gerara para a vida terrena.&lt;br /&gt; Ele: Essa frase  é algo obscura, para quem não entende!&lt;br /&gt; Ela: Quem ler alguma vez o precioso livro “ As Confissões” de Santo Agostinho, ficará elucidado, estou certa disso! Dera a seu filho a vida física e procurava depois ministrarlhe essoutra, ainda mais bela – a sobrenatural! E Deus escutou-a, pois teve realmente a grande ventura de o ver convertido a nobres ideais.&lt;br /&gt;Manteigas  \\  5-5-1971&lt;br /&gt; Ele: 
