sábado, 21 de Novembro de 2009

Memórias 33

NYANGANA
1977- 06- 20.
Na Sala de Aula

Professor e alunos formam um corpo, requerendo-se unidade e colaboração. O centro de comando e origem de tudo é a cabeça. Refiro-me aqui à vida intelectual. Ora, sendo assim, não faz sentido que haja, por vezes, desintegração! Este assunto é de grande importância. Pois todos sabem, há muito já, que os alunos, em regra, apreciam a matéria, se gostam do professor.
Vem a propósito, uma frase satírica, ouvida por mim, a um professor Liceal, acerca duma aluna: Fulana anda afadigada, estudando em excesso a matéria x!
Era um caso sabido! Ela gostava, excepcionalmente do seu professor! O caso referido parece anedótico mas, geralmente, exerce influência.
O prestígio firmado, bem como a simpatia de que goza o Mestre, leva os alunos a dar-se ao estudo. É de suma importância que não seja uma ‘pedra’a transmitir noções. Que não encontram ‘bom chão’. Em tal caso, não há bom êxito!
No meu tempo de estudante, era chaga geral ou quase o seria. O Professor, em boa verdade, figurava, a nossos olhos, um ente sobre-humano. Não baixava até nós, faltando o que existe, nos vasos comunicantes. Entidade longínqua, surgia nas aulas revestido de corpo, mas bem diferente dos seus alunos! Por vezes, nem ria!
Metido no casulo, mantinha-se apático, não lhe interessando os nossos problemas. Não havia intercâmbio.
Fala-se muito nos tempos de agora, em segregação e até racismo. Que era aquilo, embora entre brancos?! Não acho termos que melhor o exprimam!
Divinizar a pessoa ultraja a Deus! Somos todos homens e, se algo nos distingue, é a virtude! Quanto ao mais, não há distinção.
Cessem, pois, os Mestres frios e acabe o gelo que entorpece as almas! O respeito, afinal, não vem daí! Vem, sim, duma boa formação e do amor entre todos.
Professor-estátua, só após a morte, caso a mereça! Haja vida e calor, entre Mestres e discentes!

Liceu Linus
1977- 06- 21

Professor-Funcionário
Não censuro ninguém, pelo facto de ganhar! A remuneração é básica na vida, pois que sem ela não podemos alcançar os meios necessários à subsistência. Donde vem o alimento, a nossa habitação, vestuário e calçado, e outras coisas mais que a vida impõe?! Por outro lado, o fruto do esforço equivale a nós mesmos, visto resultar da nossa aplicação. Demos a inteligência, aplicámos o querer, defraudámos o corpo, em vigor e energia. Sendo assim, tudo isto é nosso ou brota de nós. Logo, inauferível o direito sagrado, que nos assiste, à remuneração.
O que é digno de censura reside, sim, na maneira de actuar, em ordem a um fim. Aquele professor que vê só dinheiro, sem que lhe importe o bom desempenho da missão que tem. Chegar tarde e sair cedo; prender-se nas aulas com assuntos estranhos; matar o tempo; não se preparar devidamente; não estar em dia, acompanhando solícito os progressos da técnica; passar de largo, quanto a dificuldades e problemas que surgem, não amar os alunos; viver alheio ao mister, que apenas considera, pelo fruto que origina!

Eis, em resumo, o professor-funcionário. Para ele, só conta o ordenado: o mais é secundário! Ora bem! Pondo as coisas ao invés é que ficam certas! Ao menos, pôr as duas realidades em plano de igualdade!
Eu, porém, tenho para mim que o primeiro lugar há-de caber ao sério desempenho da sua missão. De outra maneira, haverá grandes brechas no exercício do múnus.

Liceu Linus
1977-06- 22
Professor avariado
Foco nesta epígrafe a faceta doutrinal: de modo nenhum o desarranjo da mente! Doutrinas e sistemas passam com os homens, que hoje reputam mau o que, há pouco ainda era tido por bom. Às vezes, princípios há inteiramente falsos; outras vezes, meramente suspeitos; outras ainda, com parte defensável e outra condenável.
O caso, porém, torna-se grave, quando tais princípios brigam claramente com doutrina indiscutível, já no campo religioso, já no mundo científico. O papel do professor não é intoxicar, envenenando o espírito. Se acaso o faz, é traidor! Na verdade, os pais entregam seus filhos, não para a morte, sim para a vida.
O Mestre e docente há-de colocar-se na linha dos pais, já que vai substituí-los. Não pode ignorá-los nem opor-se a eles. Educadores natos os pais é que o são. Quando estes não sabem ou então não podem, delegam no Mestre, com esta cláusula: “Segue a mesma linha! Não haja desvios!”

É razoável e justo que seja assim. O direito natural concede aos pais esse privilégio e nunca a sociedade ou poder algum deve contrariá-lo!
Portanto, se o Mestre em questão vive ou professa doutrina contrária, há-de abster-se de pô-la em foco! Guarde para si o que os pais reprovam!

Sistemas filosóficos, doutrina científica ou de cunho religioso merecem de nós a máxima atenção! Quando reprovados pelo senso comum ou não admitidos pela gente sensata e com idoneidade, não devem transpirar para mentes indefesas que, em vez de ar puro, iriam recolher óxido de carbono, intoxicando a vida e sujeitando-a a naufrágio.

Liceu Linus
1977-06-25

Ontem, 24, foi dia saudoso, que me trouxe à memória um passado feliz: o S. João! Dois factos relevantes andam associados a este nome gozoso, os quais vão prender-se com a minha adolescência: a feira anual, realizada na Guarda, e as belas fogueiras, tradicionais e alegres da noitePrecedente.
À volta disto, quanta poesia! Quanta emoção! Quantas expansões de de efusiva alegria! Quanta expectativa, alvoroçando o peito!
A feira desejada e suas novidades para o ano seguinte; as lembranças gratas para a família! As diligências, harto engenhosas de um viver melhor!

As fogueiras! Que vibração não trazem elas ao peito juvenil! Alecrim e belas-luzes perfumam os ares, enquanto se cruzam, de rua em rua, alegres cantares! Velhos e novos, sem distinção, acodem à festa da noite jubilosa! Pelas aldeias e lugares solitários, que maravilha de cenas e cantares!
Trago no ouvido enamoradas canções que o tempo e a vida não chegam a apagar! Pela noite fora, até alta manhã, cantam as gentes, olvidando seus pesares. Casais enamorados, aconchegadinhos, vivem altos momentos, segredando suas mágoas! Infelizes em amor? Rezam ao Santo que valha na aflição. E a fé não se esvai do povo fiel, que toma S. João como seu protector!
Fogueiras saudosas, gerai animação, que desmaio no Cavango, onde reina a tristeza! Passei o dia inteiro, encerrado no quarto: ora leio ora escrevo, a recordar o passado, que aviventa a alma.

Nyangana
1977-06-26
Fez ontem dois anos, que o Coverno Português entregou Moçambique à sua triste sorte, chamando esse facto independência.

Olhando, porém, à dor e privações do povo infeliz, pergunto eu agora: onde reside, afinal, a liberdade, a paz e o trabalho, o pão e a ventura?! Onde o respeito a dignidade e a honra?! Onde o progresso e o bem-estar dos povos?! Nas machambas do Estado ou aldeias comunais pode haver alegria?
Povo inditoso, que foste logrado! Passaste a viver bem mais oprimido que no regime anterior. Ensinaram-te inimigos a chamar nomes feios aos bons Portugueses, sem tu perceberes que o faziam por inveja! O que eles intentavam não era o vosso bem. O seu plano infame cifrava-se nisto: expandir o domínio sobre terras e gentes.
O 25 de Abril não queria assim, como agrada pensar! Se o projecto fosse bom e vos desse bem-estar, até eu me alegrava! Mas assim, povo infeliz, em franca servidão, amargurado e tão oprimido, confesso me faz pena e causa desalento! Testemunhos veementes eu ouço. dia a dia, que fazem comover as mesmas pedras! Mais ainda os nossos corações!

O Abril, 25, ficou para vós como cifra de azar! Atribuí as culpas a quem o deslustrou! É luto nacional, em vez de triunfo, apoteose e glória!
Como eu vos lamento e fundo me condoo do vosso destino! Espero em Deus que há-de ajudar-vos! O sangue inocente clama ao Pai do Céu por
Um povo em massa! Crimes e abusos, traições e vilanias bem como as torpezas hão-de ter o seu fim e o seu vingador!
Deus é Pai: não é tirano! Chegará vós o momento ditoso da libertação.

Nyangana
1977-06-27

Professor Presumido
Designamos alguém com tal adjectivo, quando forma de si elevada
Opinião. Este grave defeito é sempre nocivo, aumentando a gravidade, ao
tratar-se de Mestres. Quando têm de si demasiado conceito, sucede o mesmo que aos pratos da balança. E também aos caldeiros, na ponta de um eixo, com o fim de tirar água: quando um sobe, precisamente por isso, tem
o outro de baixar. Atribuindo a si demasiada estima e consideração, diminuirá necessariamente, em ordem aos outros. Sendo as coisas assim, já podemos figurar quão graves hão-de ser as consequências, num docente
presumido.
Não atende, por norma, às necessidades; jamais desculpa ou se torna humano Balão inchado não consente que lhe toquem nem consente
alguma vez que o incenso lhe falte. Desculpar não é com ele! Recebe, de bom grado, louvor e homenagens, repelindo com fúria atitudes descuidosas
ou olvidos inocentes. Ai de quem não afine pelo seu diapasão! Há-de
ouvi-lo em breve, ficando a saber quanto ele merece! Que podemos esperar dum janota assim?!
Sendo a educação uma obra de amor. grande paciència e generosidade, vê-se, desde já, que tal professor está deslocado. Que frutos esperar duma árvore má?! As pobres crianças, ao bafo pestífero de tais elementos, ficarão
diminuídas, receosas e tristes.
Não podendo expandir-se como a idade exige, serão distorcidas e até falseadas, Algumas haverá que se tornam hipócritas, ao verem que a lisonja é caminho atraente.

Nyangana
1077-06-28
Um Passatempo
Domingo, 26, por tarde soalheira, convidou-me o Padre Hermes

Para um passeio. Não recusei, por várias razões, sendo as principais: estar enclausurado e prezam extremo a sua companhia. Partimos, pois, em seguida à merenda, juntando-se a nós a Irmã^Margaret, alemã de origem.
A Ford 43 é nova e potente. Nada a temer, embora as ‘picadas’sejam arenosas e e piso irregular. Por entre espinheiras, cortámos à esquerda, ao sair da Missão estacionando, em breve espaço, à frente da vivenda do professor Andrew, natural do Cavango. Acompanhou-nos também e prestou bons serviços.
Ao fim de uma légua, em desvio à esquerda, mora Shashipapo, o rei da tribo. O septuagenário estava ausente, Encontrámo-lo depois, na berma da estrada, ao pé do tractor. O nosso Padre Hermes levava um recado:
Chegaram três famílias, naturais de Angola, que viviam além Rundu, num Campo de Refugiados.
Demandaram logo o Hospital e, naturalmente, desejam ficar. Era, pois, necessário comunicar o facto ao rei da tribo. Uma vez em presença, trocamos saudações, que ele aceita ridente, com rara simpatia e fidalga deferência. Mantém-se em pé e tem um ajudante. Católico piedoso, após o seu baptismo, despediu três mulheres, ficando a primeira a fazer-lhe companhia.
Saudei-o em Inglês, pois ele sabe a língua; os outros, em Dirico, idioma nativo. Também falado em Angola, na outra margem do rio Cubango. Em tais saudações, há duas palavras que nunca faltam: Ompa e Pandula (Senhor e Obrigado)

Nyangana
1977-06-29
Cont,
Em conversa amena, o bom Padre Hermes corria para a esquerda, estacionando a Ford , em frente do Cubango. Um abismo, sobre o rio!
Olhando cá de cima, causa arrepios! Apesar de tudo. Vi, lá no fundo, com enorme surpresa, muito gado vacum a beber água. Fico pasmado! Como é possível não descambar?! Já refeito do susto, rumo à direita, (para fazer, excepção), andando a pé mais de 100 metros.

Que vejo então? Um cercado elegante, junto do rio, cuja margem direita se corta a pique, a enorme altura. Esta paliçada erguera-se, havia pouco e tem de altura 1 metro e 60. Nem um prego! Os pretos, neste caso, não utilizam peças de metal. Vão à floresta, donde tiram lianas, que torcem a capricho, sem que elas partam! Enleado, penetro logo no interior, sendo todo olhos, para observar.
Veio receber-nos uma das Irmãs que trabalham no Hospital. É enfermeira. Com ela se encontrava a nossa Doutora, relaxando os nervos, em cima de uma esteira.
O mais curioso estava por ver: elegante cubata, feita com gosto e no mesmo género! Nem telhas nem pregos! Entretanto, elegante e airosa, e cheia de poesia! Coberta a capim, protege do Sol e veda a chuva! Corro para ela e entro sem demora! Tem um átrio pequeno que dá logo acesso.
Vasculho tudo, com vivo entusiasmo. Ao centro, há ligeira divisão, donde resultam dois compartimentos.
Admirável! Depois de saciado, volto-me para o rio. Um deslumbramento! Que vista maravilhosa! Que exuberância de vida! Mas tudo no mundo apresenta duas faces. Logo pertinho, na margem esquerda, fica Angola!
Olho nervoso e torno a olhar, perdendo-se a vista, ao longe e ao perto! Vou eu tão longe, que chego a Luanda! Quão diferente dos outros é o solo querido. Onde os meus antepassados, para defendê-lo, perderam sangue, derramando suor, misturado com lágrimas!
Ali, precisamente, é agora assassinado o povo nativo ou morre de fome! Entristeci-me e logo chorei!

Nyangana
1977-o6-3o
Um Sorriso
Foi ontem, precisamente, após a merenda. Não houve palavras: só os olhos falaram, cruzando-se nos ares, enquanto no rosto havia uma certeza que desceu às almas. Veio de Vinduque e está entre nós o Bispo do Sudoeste: Rudolf Koppmann, de origem alemã.
Ele ia com pressa, rumo à igreja, onde estavam aguardando a sua chegada. Apesar de tudo, ainda houve tempo de lançar na minha alma um pouco de bálsamo.
Não estranharia, habituado como estou a que outrem avance, não prestando atenção. Duas pedras tão só, rolando estranhas, com rumo oposto! Não foi assim todo o meu viver?! Que me veio de cima, a não ser desilusão?!

Aqui, porém, embora exilado e cheio de amargura, fiquei sabendo que em certos peitos a luz não se apaga. E foi esse lume, já tarde encontrado, que me fez reflectir ! Nem tudo são trevas ! A rigidez estatual;
A compostura solene; a gravidade afectada foi chão que deu uvas!
Tornou-se infecunda!
Lembra velhos tempos em que a humana rabulice teve artes e jeito para convencer ingénuos e simples de que certas pessoas eram de outro metal1 Que terá ganho a pobre humanidade , com essa mentira?! Só mal é
que veio para quem rastejava. Instalados na cúpula, recebiam incenso e, vendo as gentes prostradas a seus pés, sentiam-se bem, procurando manter a sua posição. Não foi o que vimos, nas velhas monarquias?!

Este jeito, porém, deixou de aceitar-se. Contestado e repelido, levou muitos chefes a mudar a atitude. Humanizaram-se; baixaram de nível;
Ombrearam com os outros.
Nestas circunstâncias, tornaram-se queridos; ganhando eficiência o mister desempenhado.
Tão breve sorriso banhou de luz intensa as trevas da minha alma.
Foi pouco! Um nada talvez, mas o bastante, para eu me convencer de que não sou um zero ou triste ruína que a ninguém interessa!

Nyangana
1977-07-01
Mães e Afins de Seminaristas
Algumas vezes, por devoção, outras ainda, por falta de meios, gera-se nas mães o desejo ardente de ter filhos padres. Não é condenável tal aspiração pois que, sendo o sacerdócio instituído por Jesus, representa, sem dúvida, o mais belo ideal que existe sobre a Terra. Já o mesmo não ocorre, em ordem aos meios que algumas utilizam.
Que sucede, em geral? As ditas mães fascinam de tal modo o coração e o espírito; fazem tais promessas de presente e de porviur; utilizam tais cores, na pintura do quadro; recorrem a tais processos, na pesquisa e actuação, que o rapazinho, deveras enleado, ouve somente aquilo que lhe dizem.
A isto se junta o ambiente criado; vigilância rigorosa de companhias e livros; frequência da igreja, por modo abusivo; isolamento do pobre menino que, sendo a mãe tão boa, a segue e não discute.
Tudo se conjura para o mesmo fim: comadres e compadres; tias e madrinhas; amigos velhos e simpatizantes.
O miúdo, por sua vez, sente imenso gosto em alegrar sua mãe.
Bem longe dele causar-lhe desgostos! Vive totalmente na sua dependência.

Nem sequer admite causar-lhe perturbação! O pai biológico, que devia exercer papel moderador, para afastar excessos e artificialismo, por via de regra, não intervém .Acha-se ausente ou é passivo ou ineficaz. O que conta, pois, em ordem ao rapaz, é sua mãe. Esta adivinha-lhe os gostos, satisfaz vontades; elogia atitudes; incrementa os processos., engenhando-se ao máximo porque sejam conducentes ao fim almejado.
Ora, a esse estado de coisas, que eu reputo deletério, cabe-me fazer alguns reparos.
Princípio geral: qualquer dependência, quando exagerada, em ordem seja a quem for, é nociva ao homem. De modo especial, no tocante à mãe, se o pai não actua. A razão é evidente: um rapazinho, em tais circunstâncias, cria no seu espírito, lastimosa inadequação, relativamente â vida e problemas vários que vai encontrar. Pensa pela mãe; ouve por ela:
Sente por ela, esmerando-se, a rigor, por fazer apenas o que ela intenta.

Preso deste modo, não tem personalidade; não é indivíduo; não é livre nem pode escolher. Numa palavra; virilidade, personalidade e liberdade não existem nele. É um fantoche a quem a vida, mais tarde, vai provocar amarga desilusão

Nyangana
1977-07-02
Continuação
Em presença deste arranjo que, afinal de contas, é protótipo de muitos, pergunto eu: teremos ali genuína vocação?! Se respondo eu, cabe-me dizer: Não! Só por acaso! A vocação há-de ser espontânea, fluente e natural! Jamais forjada! Nunca elaborada, a partir de fora! Há-de ser o próprio que, tocado por Deus, avança firme, contente e resoluto. Então, sim, nada haverá que o faça demover! Sucede até haver efeito contrário, nas razões manhosas que tentem opor-lhe!
Não inveja os demais, que seguiram na vida caminhos diferentes;
Não se entristece pela escolha que fez; sente prazer, na sua actividade;
Numa palavra – é feliz!
Entretanto, a dependência excessiva, que a mãe envolve numa aura de grandeza e superioridade, levada talvez por motivos divinos ou até humanos, é de molde a criar “vocação artificial”. Entre estas razões, podem figurar: ser esse filho amparo de seus dias, nos anos maus; à sombra dele, casarem as irmãs ou tirarem cursos os outros irmãos; arranjar trampolim, que os magros recursos não permitiriam.

Havendo artificialismo, quanto ali vemos é tudo postiço. O próprio: vive enganado por auto-sugestão! Não sendo livre! Tudo orienta, num sentido único Não olha para trás nem para os lados: apenas em frente!
Uma vez neste rumo, se alguém lhe pergunta: Qual é a via que tu preferes?
- Em frente!
É incapaz de outra resposta! Vive iludido, criando-se, na verdade, uma falsa posição.
Assim, temos a mãe a traçar um caminho que leva o filho à maior desgraça!

Nyangana
1977-07-03
Dia de S, Pedro
Passa tal festa a 29 de Junho, havendo em certos lugares fogueiras e danças, que se prolongam de véspera, pela noite fora, Assim acontece, no meu país. Aqui, porém, nada me lembra o dia que é.
Estou em férias e o tempo decorre, sempre igual, sempre monótono.
Se não fossem, realmente, os livros e a pena, que jamais descansa, morria de pasmo!
Entretanto, a 29 de Junho, ia ter surpresa. Foi já tarde, ao ir para a cama. Antes disso, haviam-me dado muitos parabéns, como se, na verdade, eu fizesse anos. Fiquei a cismar, por haver nascido em Fevereiro. Lembrei-me então que há na Espanha costume igual:
Comemoram-se os anos, no Santo do nome.
Agradeci, muito reconhecido e nada, além disso, preencheu o meu dia. Às 21 e 30, ao entrar no meu quarto, vejo sobre a mesa um grande sobrescrito. Pensei, de início, tratar-se de carta. Algumas aguardava! Abrindo, porém, noto o volume: um postal ilustrado e 50 randes!
Não estava mal! O Padre Hermes, na sua bondade, nunca me esquece! De quantas finezas lhe sou devedor! Sensibilizei-me, até às lágrimas! É um belo amigo este Padre tão bom!
Delicado e sensível, generoso e prestável, amoroso e afável!
Incarna em si o papel de mãe! Que Deus lhe pague, já qu eu não posso!
A noite passou. Em 30, de manhã, encontro um bolo e um vaso
Com flores, na sala de jantar! As Irmãs pediram desculpa de não sabê-lo antes!
Na minha solidão, vai o Senhor abrindo caminhos!

Nyangana
1977-07-04
Hoje, por sorte, chegaria a Vinduque, pois tinha dois carros e boa companhia: o Bispo do Sudoeste e o Padre Stekmann. Melhor ensejo não seria possível! Tratava os dentes e tirava o passaporte, cujo prazo expira, no mês em curso. Do mesmo passo, ordenava outras coisas de suma importância.
Como estou longe, nem sempre é dado fazer tal viagem. Por outro lado, o nosso Padre Hermes ofereceu-se ainda, para levar-me ao Rundu mesmo de noite, emprestando-me dinheiro, caso fosse necessário
Quando. Porém, me surgiu a ideia de que não tinha o Permit, oh desilusão!
Tudo gorado! Maldito Passe! Melhor talvez: maldito egoísmo! Desde Janeiro, a pedi-lo, com instância! O velho passaporte expirou em Dezembro! Daqui a pouco, vai o ano findar! Já me envergonho de falar no assunto!
Sendo em Portugal, dava-se o mesmo?! O que eu lamento é que, noutras circunstâncias, já o tinha há muito! Não veio juntamente o seguro do carro e a licença requerida, para conduzir?! Por serem pagos?! Triste Humanidade!
O pior, no entanto, está para vir! Serei operado lá em Vinduque! Terei problemas? Nem então alcançarei o maldito papel?!
Oh sacanice humana! Sem amor, por base, não há cuidados e, à margem destes, reina só o gelo! O enorme transtorno que isto origina!
Além do mais, ficar em Nyangana, encerrado no quarto, de manhã até à noite, durante as férias! Merecerão tal nome?! Figurões! Não me
convencem de que os não prezo! Não baixam a cerviz! Estou furioso, porque, sendo refugiado, mereço atenção! Justifica-se lá um caso destes?!
Seis longos meses a pedir um documento! Parece história, mas é real!
Estou saturado! Bolas e cardas para tamanha incúria ou falta de gentileza!

Nyangana
1977-07-05
Fernão de Magalhães
Entre os vultos notáveis, de relevo e fulgor, que Portugal rejeitou,encontra-se decerto Fernão de Magalhães. Tamanha injustiça o mundo viu nisso, que autores estrangeiros meteram ombros à nobre empresa: tirá-lo do escuro. Assim fez Marshal, escrevendo a Novela Histórica “ The Wind
at Morning. Acabo de a ler, em língua inglesa.
O conceito do autor, sobre Magalhães e o seu feito imortal, não foi novidade, porque eu julguei sempre de modo igual. O meu espanto proveio somente de ser um estrangeiro a desafrontar e logo exaltar a figura do grande Capitão.
Para Marshall, é Magalhães o maior navegador de todos os tempos bem como lugares, chamando à sua viagem o feito mais audaz, realizado
Pelo homem.
Para demonstrá-lo, salienta a primor as sérias dificuldades e perigos iminentes, que teve de enfrentar, não sendo o menor deles a inveja dos espanhóis, que tentaram arrumá-lo, por várias vezes. O que faz a inveja!

A morte de Magalhães, ocorrida em Cebu, ilha das Filipinas, foi ocasionada por falta lamentosa de colaboração e devida a um ardil.
O grande chefe, por motivo religioso, havia ordenado que templos e ídolos fossem destruídos. Alguns Rajás submeteram-se logo; outros, porém, ofereceram ali forte resistência, ameaçando vingar-se dos recém-batizados
O Capitão Magalhães resolve prontamente dar uma lição e defender, ao mesmo tempo os novos cristãos apresentado o seu plano, em grande Conselho, logo verificou não ter apoio. Houve até quem dissesse:” Vimos, realmente, por especiarias e não salvar almas!”
Saiu, pois, mal armado e com pouca gente.
Uma seta ervada atingiu mortalmente quem a morte e a cobardia, os perigos e o medo não haviam subjugado.

Nyangana
1977- 07-06 Cont
Marshall põe em foco, de maneira atraente, os casos difíceis que Magalhães encontrou, durante a viagem: o mar desconhecido; o clima rude;
A fome e a sede; o desânimo profundo que abateu os seus homens. Salienta, porém, que o maior dos perigos era a traição, por parte dos espanhóis.
Entretanto, a consumada perícia, entusiasmo e coragem, o ideal científico e a vontade inquebrantável superaram habilmente perigos e ciladas.
Realizada tal viagem, a mais assombrosa que o homem já viu, cai para sempre, varado por uma seta, na ilha de Cebu. Que pena! A empresa imortal estava no fim. A sua coragem havia triunfado, levando de vencida os tímidos espanhóis que não queriam seguir. Pelo Oriente, os portugueses haviam chegado às ilhas Filipinas. A volta ao mundo foi portuguesa.

A morte inglória do grande navegador encheu de pasmo os seus contemporâneos. Outros portugueses chefiaram a Armada, até que, por fim coube a sorte a Elcano, afim de avançar com o Trinidad, ficando outros marinheiros a consertar o Concepcion. Triste sorte os aguardava, pois, foram assassinados! Os que restavam fizeram-se piratas.

Do S. na Espanha, arribaram apenas 19 marinheiros, daqueles 277, que haviam partido. Dos 5 navios, só um aportou.
Entre os 19, havia um portuguès, sobrevivente único, dos 29, que chefiavam a Armada. A inveja, porém, levou a mais um crime: o português Vasco foi assassinado. A documentação, respeitante a Magalhães, foi inutilizada. Tentando pôr na sombra o heroísmo e a grandeza do imortal navegador.

Nyangana
1977-07-07 Mães e Afins de Seminaristas (cont. de 1-7-\977)
Feita a Primária, recrutam o menino, frequentando, para logo, o Seminário Menor. Não fora ele a escolher! A ideia, afinal, viera-lhe de fora. Ele vai, pois, mas é um autómato. Tem cabeça de facto, mas não adianta!
Depende inteiramente de quem mais ama e sabe insinuar-se.
Parece haver gosto em tal sujeição. Dificuldades enormes que hão-de surgir nem são apresentadas nem as pressente. Vive ele assim uma vida artificial.
Uma vez no Seminário. O processo é igual, com certos apêmdices.
Internamento rigoroso; privação de contactos, fora do recinto; ambiente angelical; omissão de tudo o que lhe lembre ser homem; obediência rigorosa;
Castigos severos, nos primeiros anos; ameaças frequentes de toda a ordem; vigilância extrema, no tocante a livros; ablação de páginas que falem do mundo.
Desta maneira, vive entaipado! Obedece às vozes; ouve a campainha;
Reage à sineta, escuta o assobio. É um autómato!
Não vê um sorriso nem ouve uma voz que lhe fale ao coração! Torna-se gelo! Ele, ingénuo que fora para ali, sendo recrutado e não por gosto próprio, sente-se mal com o novo regime. Impõe-lhe sacrifícios! Divaga por longe e surge-lhe o lar, com todo o carinho!

Como as férias se aproximam, reveste-se logo de enorme coragem!
Será compensado! Veio ao lar e gostou imenso! Quanto havia bom tudo encontrou! Carinho dos pais; estima dos irmãos; vénias e lisonja de beatas encartadas; surpresa, admiração de seus colegas da Escola Primária. Estes iam ficando pelo caminho! A mãe do rapaz é figura central. A vigilância torna-se rigorosa, fora do lar. É anjo; come-se mal.
Antes de ele chegar, havia privações! Chega o menino e surge a fartura! Os pais mourejam todo o santo dia, tentando a mãe fazê-lo ciente de quanto sofrem por ele!
Mais aferro ainda à figura central! As paixões não falam, que vive noutra esfera!

Nyangana
1977-07-08
Cont.
Acabam as férias, impondo-se logo o retorno à faina. Interiormente, surge a relutância, mas vai, no entanto, porque a mãe é ditosa e o pai sente orgulho. Por outro lado, os meios são escassos. Liceu? E dinheiro bastante?!
Não sente coragem para desprender-se!
Pensa por ela; sente por ela; guia-se por ela! Continuará, pois, no mesmo sentido!
À data que passa, já não é adolescente; muda-se a voz; aparece a barba; surgem as paixões; alonga-se a vista: surge nova estrela!
Se o dito rapazinho tem vocação, sentindo alegria naquilo que faz, tudo irá bem. Mas recrutado em criança, pensando por outrem, sem contacto com o mundo, nem ele sabe quem é nem outros o sabem.

Começa o drama que vai prolongar-se, por meses e anos. Quem sabe?! Talvez uma vida inteira!
Que lucro haverá, num caso destes, em ordem a Deus, à própria Igreja, como à sociedade?! Saldo negativo, com mais um infeliz! Seria diferente, se houvesse contacto, e a mãe enveredasse por outro caminho. Deus não quer à força. Respeita a liberdade. Basta dizer que nos deixa pecar e até ofendê-lo! Não nos castiga, após o pecado: espera paciente e continua ainda a dar protecção, convidando à mudança.

Jamais constrange! Ele é que chama, a partir, já se vê, do nosso querer. Não se recrutem pobres crianças e meninos sem ‘asas’!
Mães de seminaristas, não sejais criminosas! e for espontânea a vocação religiosa, respeitai-a, pois, e servi-lhe de amparo! No entanto, jamais a forjeis Há nisso vaidade, ambição e egoísmo, representando um crime! De mães que dais a vida, passais a matá-la.
O vosso filho será desditoso, amaldiçoando quem o faz infeliz!
É tempo de exame, sobre este assunto.

Nyangana
1977-07-09 Cont.
Os anos passaram, em dramas e lutas. Arrepiar caminho? Dizer que não volta? Será possível? E a mãe? Não vai ele ser causa de angústia e dor?
Terá ela, de facto, energia bastante, para suportar o violento embate?
Pensa e reflecte, optando sempre e em todos os casos, pela negativa.
Outros factores o vêm torturar: olhos carinhosos o perseguem de longe; insinuações várias de um belo porvir, que se antolha ridente:
recriminações, entoadas a fio, no Seminário, contra os desertores.
Convence-se, por vezes, ser actor duma peça, que outros escolheram, mas de que ele não gosta!
A ninguém se abre, que não tem confiança! Luta e sofre, levado na corrente, à qual não opõe qualquer resistência. Os seus problemas não foram tratados: muito menos resolvidos! Não tem ajuda: vai já naufragando!
Revelando qualidades e tendo equilíbrio, dizem-lhe ao ouvido:
“Faz-te padre!”
Inexperiente e sem adjutório; absorvido o seu querer na vontade materna; sem o mínimo contacto com o mundo exterior, que espera por ele, atira-se ao mar.
Que há-de ele fazer?! Sem vontade própria! Sem visibilidade! Sem personalidade! Na sua vida, só obedeceu! Algum dia, na verdade, teve ele querer ou mostra de vontade?! Campainha, assobio, vozes de comando!
Ralhos e censura, irreflexão e automatismo fizeram dele um rapaz destroçado! Assim continua, pela vida fora, sofrendo na alma e gemendo no peito!
Será no futuro um peso para si e também para outros! Se lhe falta energia, que acção desenvolver?! É um vivo já morto! Um actor a mais, que não vive o seu papel! O pior de tudo ainda está para vir!
O contacto com o mundo a que não fora habituado faz-lhe ver claro o seu desacerto! O drama avoluma-se, atingindo o auge com a morte da mãe.
Então, sim. É planta sem raiz! Ser misterioso que ninguém compreende! Ele e a solidão! Ele e a morte!

Nyangana
1977-97-1
1977-07-11 Vocações Tardias
É costume velho chamar deste modo aos que seguem o ideal, na Idade madura. Este período varia ao máximo, abrangendo realmente aspectos diversos da existência humana. Cursar primeiro Direito Civil, ingressando após, no Seminário; frequentar o Liceu, para seguir depois a vida eclesiástica ou professar ainda numa Ordem Religiosa. São exemplos de casos, que revelam justamente vocações tardias.

Apraz-me agora tratar em pormenor o curioso assunto, mercê de factos, por mim observados, tanto em Angola como no Sudoeste. Seja exemplo disso o bom Missionário, que preside em Nyangana. É um padre alemão, com 30 e poucos anos. Frequentou o Liceu, indo em seguida para a Alta Escola, onde cursou Electricidade, junto com Mecânica.

Uma vez especializado, resolveu ordenar-se, entrando no Seminário, para ali se preparar em Filosofia e Teologia. Posteriormente, ele vive para os outros e não para si! Ensina e prega, reza e ensaia, repara motores, faz instalações, presta serviços, vive feliz! A sua presença irradia conforto, paz
e alegria, Todos o adoram. O que é, na realidade um chamo autêntico!
Quando ele surge, é como Sol, que a todos alegra, trazendo bem-estar! Os ‘recrutados’ não fazem assim!

Nyangana
1977-07-12
Jorge Sangumba, Secretário da UNITA, fez saber há dias que, dentro em breve, será criada em Angola, a nova República, de tipo socialista, ficando a haver dois Estados simultâneos. Juntou, porém, que um dia mais tarde invadirão o Norte, conquistando Luanda, para deste modo unificarem Angola.

As fronteiras decisivas do novo Estado são as seguintes: Oceano Atlântico, pelo Ocidente; Sudoeste Africano (Ovamboland e Cavango), pela banda Sul; Zâmbia, a Nascente; a Norte, porém, seria divisória o paralelo 11, desde Novo Redondo a Teixeira de Sousa.

Politicamente, a acção da UNITA exercerá influência no futuro de África e será um punhal no flanco do Marxismo!
A invasão do Zaire foi já debelada. A FLEC de Cabinda i intenta, por seu lado, a independência daquele território, sendo outra farpa contra o Marxismo, uma vez que se opõe ao MPIA. Este, assim, ficará sem petróleo, fonte de receita que tem à mão.

Por outro lado, a SWAPO, combatida pela UNITA já não tem apoio, junto da Namíbia. A política desta é, obviamente, orientada e seguida pelas potências, ditas ocidentais, em colaboração com a África do Sul. Vai ser, portanto, uma viragem total.
Além disso, a vizinha Zâmbia, que tem hesitado em pender para Leste ou Oeste, resolverá, de pronto encostar a Savimbi, por causa dos transportes.
Assim, falharão decerto os planos de Leste: dominar inteiramente a África Austral.

Liceu
1977-07-13
Dentre os meus anseios, já de longa data, há um que nunca realizei: tocar acordeão. Andava-me na ideia, bailando e cantando, no peito desejoso! Entretanto, os anos rodavam e, por falta de ensejo, a ideia esmoreceu.
Em 1964, vi um em Mainz, Alemanha Federal, que assaz me prendeu! Como tive de optar, por serem escassas as minhas finanças. Nada avancei. Um belo acordeão, com 120 baixos! Ora, havia igualmente um lindo gravador e um pequeno rádio, que me convinham também, por causa das aulas. Desejava, nessa data, gravar na aldeia a voz de minha mãe.
Tinha, pois, de escolher o que fosse mais útil! Assim o tempo se escoou, levando com ele o anseio tão querido, que vinha já de criança.
Agora, porém, aos 59 anos, deparou-se ocasião.
Arrumado a um canto, na Missão de Nyangana, jazia um objecto, ainda em bom estado. Roguei ao Padre Hermes que o deixasse usar, ao que ele acedeu. Ora, está comigo o velho acordeão, trazendo-o logo para o Liceu Shashipapo.
Não aprendo de cor! Isso não interessa! Estou em campo, vai para três dias, tentando averiguar as relações dos baixos. Precisava um livro.
Segundo consta, há um no Tondoro ou coisa no género. O Padre Manfred não precisa dele, que é mestre consumado. Ando, pois, entusiasmado!
Quando regressar ao berço natal, já hei-de tocar, ao menos de leve.

Liceu
1977-07-14
O meu tempo de exílio vai já diminuindo, quero eu dizer: passa de metade! Planeei em 76 ficar só três anos, abrangendo 76, 77 e 78 Por enquanto, não foi alterado o programa inicial. Deviam ser 4 anos, mas isto satura!
Só vejo espinheiras, à volta de mim. Por outro lado, estou longe de tudo o que pode aviventar-me! Família, amigos, o céu azul veludíneo, a terra portuguesa! Basta de sofrer, em zona semi-desértica! Clima insuportável! Isto no físico! No moral, é deserto consumado!
Inteiramente isolado, nem a língua me aproxima! Aqui, no Sudoeste, ou línguas nativas ou Africânder! Ora, esta língua para mim não tem relevo! Também se fala Inglês e um pouco de Alemão. Entretanto, evitam-nas, para falar aquela.
A língua Africânder só aproveita aos que vivem cá. Nestas circunstâncias, o meu estado habitual é o silêncio. Não será trágico?! Nem um Português, para aliviar a minha depressão! Eu e Deus! Mais ninguém!
Nunca estive tão só! Mas, por outro lado, aproximei-me do Céu! É bem visível a sua protecção Que Ele, por bondade, continue a ajudar-me!
Tenho, no outro mundo, excelente advogada – a minha santa Mãe!
Com este período, iniciei, de facto, a segunda metade! Sendo assim, corre mais veloz o tempo que falta!

Liceu
1977-07-15
Estou a escrever na minha varanda. Aqui em frente, logo a dois passos, é a foz do Cuito, Desemboca no Cubango, que chamam Cavango, nesta região. Os colonos ingleses chamaram-lhe Okavango. Seja como for, encontro-me juntinho à foz do rio Cuito.
Esta varanda abrange toda a casa para o lado de Angola, ou seja, para Norte. Há uma rede, a toda a extensão, por causa dos mosquitos. O mesmo processo é usado nas janelas. Os tais insectos constituem um perigo, originando a malária, causadora, em geral, de graves perturbações: febres muito altas, desarranjo intestinal, dor de cabeça e transpiração.

Provoca a mordedura enorme comichão, tão persistente, que não pode aguentar-se. Vale-se a gente de coçar amiúde, mas é puro engano! Aumenta o prurido, em vez de enfraquecê-lo!
A porta de saída, cá para este lado, que afinal de contas, se opõe à da entrada, só tem o caixilho: quanto ao resto, é formado, todo ele, por uma rede. Tudo vem a propósito.

À direita, a pouco mais de 1 metro, vive uma ninhada. Por esta razão, deixei de abrir a porta. É que o ano passado a andorinha enjeitou! Para não repetir, imobilizei a porta. Sucede, pois, que junto de mim, há um lar feliz.
Já que eu o não tenho, respeito sempre e guardo zeloso o lar da andorinha. Os meus olhos inquietos seguem a azáfama dos pais carinhosos. Sempre na lida, trazendo alimento para os filhos
implumes!

Liceu Dirico
“ Sem Papas na Língua” (Memórias)

1977-07-16
Foi o caso há dias, ao ler o Século de Joanesburgo, em Língua Portuguesa. Uma crítica acerada ao livro daquele título, sem lhe aproveitar fosse o que fosse! Fiquei sem fôlego! Será possível haver uma obra sem valor nenhum?! Será justa uma crítica, atendendo somente ao lado negativo?!

Não conheço o livro que tem como autora a pessoa notória de Beatriz Costa. Poderá essa crítica ser rigorosa! Não sei. Tenho as minhas dúvidas! No campo dos princípios, vejo as coisas por este prisma: há duas facetas a tomar em conta, no livro censurado – beleza da forma; excelência das ideias. Falhando uma delas, aproveita-se a outra. Dizia o crítico não haver interesse na vida de Beatriz. Em parte, concordo e não.

O aspecto negativo processa-se deste modo: se a vida em questão é exemplo construtivo, digno de imitar-se, já reveste interesse. Admitamos que sofreu, lutou e reagiu, para atingir o seu ideal. Em tal caso ficará o seu exemplo como luz a seguir.
Agora, suponhamos ainda que o fundo é banal, frouxo e insípido. Resta a forma: riqueza notável de vocabulário, mimo de expressões, propriedade de termos, viveza de estilo, harmonia da frase, recorte fino, ritmo perfeito e o mais que falta.

Não é também apreciável o aspecto focado?
Fiquei algo surpreendido, ante aquela saída. Gostaria de ver, para tirar conclusões! Estranha o articulista o alto número desses exemplares, em três edições!
Não será isso mesmo a prova cabal de haver injustiça, nas suas afirmações?! O tempo o dirá!

(Falta: de 16-7 a 17-8)

Liceu Linus
1977 – 08- 18 Professor preguiçoso

Este novo padrão, que é dever eliminar, chega tarde à liça, em que há-de agir. Possivelmente, levanta-se a desoras, ficando o seu horário bem comprometido. Não prepara as lições ou fá-lo à pressa! As aulas acontecem, porque ele, desmazelado, não tem um plano que haja de seguir. Dúvida séria, que algures pareça:
dificuldades, que surjam de momento, não são esclarecidas!

Não resolve problemas, porque o seu desleixo não permite jamais que esteja em dia e cumpra o dever. Só está pronto e sempre alerta, para abarcar, num ápice, os chorudos honorários.
Espera-os, em regra, com sofreguidão e olhar de lince!
Que lucra a sociedade, em tais circunstâncias? Bastante menos do que deseja. Convém, pois informar o Mestre, por boas maneiras, acerca do caso, exprimindo a estima que têm por ele.

Modificando-se, fica tudo normalizado, a contento de todos
O vencimento há-de ser a expressão de um dever cumprido! Então, sim, pode usufruí-lo, porque lhe pertence: equivale, na verdade, ao esforço dispendido, à solicitude e ao zelo, que pôs nos seus actos, para que os alunos se preparassem bem.

Investiu algum dinheiro, na compra de livros, para actualizar-se. Artigos modelares da sua especialidade; revistas e brochuras do mesmo assunto; livros auxiliares e outras fontes que importava consultar, não ficam excluídos.
O provérbio latino continua sustentando: Labor omnia vincit O trabalho porfiado vence todos os obstáculos.
Podemos inferir: sem esforço contínuo, nada conseguimos.
É assunto de monta para uma sociedade que deseja progredir!

Liceu Linus
1977- 08- 19
Professor - prodígio

Pode suceder que ele o seja, de facto ou pretenda, sem razão, que o julguem tal. Em ambos os casos, chama, desde logo a atenção das gentes.
Que vem a ser, afinal, um professor-prodígio?Inteligência rara que, pela sua acuidade, apreende, num momento, as razões dos factos sejam eles embora os mais abstrusos. Pela grande intuição, entra breve e fundo, enquanto o parceiro gasta mais tempo ou não consegue.
Sendo isto assim, procura o primeiro baixar ao nível dos seus alunos, o que não é fácil, mas necessário. Tal empenho é de louvar e gera simpatias nos educandos e seus familiares.
O caso do segundo traz dissabores, durante algum tempo, mas vai reagindo, por modo lento, sem nervosismo e com persistência. Atende às necessidades, amavelmente, guardando em geral, para o dia seguinte, os casos duvidosos, que depois apresenta, bem esclarecidos. Uma vez ou outra, recorre sem demora ao pronto favor de colegas amigos e dedicados.
A boa compreensão, o desejo de acertar e o esforço empregado resolvem problemas, criam bem-estar e trazem como efeito a felicidade.

Liceu
1977- 08- 20.
É já casada: tem dois filhinhos, que são bebés, Ignoro, no entanto, se cursou a Faculdade, à maneira do marido. Seja como for, trata-se afinal de pessoas com nível, que têm compromissos, de ordem moral e até social. Apesar de tudo, vejo-a arrastando-se, deveras interessada em pessoa elegante que não é o marido.
Cai-me tão mal a sua atitude, que sinto repulsa de tê-la presente. A mulher, após o casamento, há-de ser fortaleza, em que nada se infiltre, vindo de fora. É que, na verdade, foi compromisso que ambos tomaram, dando sim, para a união! É este, a rigor, o conceito permanente do qual a Escritura nos fala amiúde.
Os dois enamorados fazem só um em afecto e pensamento, amor e caridade. Se, em vez de dois, o número é três, há corrupção, falha em fidelidade: verdadeira traição!
Ela que não ria e pouco falava, mudou por completo. Que falta de senso! Que ofensa tão grave à honra familiar, aos filhos bebés e a Deus do Céu, que preside a seu lar! Esposa e mãe é, por dever, sentinela constante do mundo familiar!

Que diríamos nós, se a própria vigia duma fortaleza introduzisse o inimigo no interior?! Não só lhe não impede a entrada franca, senão que a facilita ou garante em absoluto.
Eu, pessoalmente, não sei que faria, num caso destes, mas estou ciente de que ficava logo bem desiludido! Perderia a cabeça?! Faria desatinos?

Nyangana
1977- 08- 21
Decorreram, se não erro, 35 anos, aproximadamente. Nessa altura, andava ele pelos 35. Ao presente, roçará, talvez, pelos 70, caso viva ainda. Era bom Médico e arguto professor. Espírito raro e excelente amigo, que deixa saudades!
Nunca mais o vi. Separa-nos, pois, um longo espaço e, provavelmente, enorme distância.

Mas, como veio ao de cima, nesta ocasião, de modo especial?!
É que ele, afinal, tinha em mau conceito as mulheres todas!
Celibatário ainda, nessa ocasião, ignoro se mudou. Lembra-me o seguinte: um dia, em conversa amiga, insinuei-lhe o casamento, as alegrias do lar, o encanto dos bebés e o apoio duma esposa, escolhida a capricho.
Disse redondamente que jamais casaria.
Deixando-me intrigado, perante a saída, avancei um pouco mais, ao que ele obtemperou: Olhe, meu amigo, fiquei tão enjoado, em face do que vi e tentaram, às vezes, insinuar-me, nos tempos de Coimbra, que até as aborreço!
Não insisti. Apenas observei que nem todas são iguais, havendo bastantes, que fogem à censura. Ele, porém, incrédulo já e assaz porfioso, não concordou, citando episódios, para contestar a minha afirmação.
As palavras dele saíram do passado, vindo até mim, à hora presente. Que foi o que as trouxe? A atitude nojenta de certa esposa, que persiste no ‘flarte’, descaradamente.
Também eu me revolto e sinto desprezo, pelas acções de certas farsantes!
O casamento é belo, mas desta forma há-de ser tremendo! Safa, duas vezes, para tais mulheres!

Nyangana
1977- 08- 22
A meio da semana, houve grande alvoroço. Ouvia o noticiário, achando-me absorto nos sucessos do mundo. Nisto,
bem perto de mim, esfuziam as balas, com enorme presteza.
Fico assustado e julgo o pior! Mil suposições e funda algidez em todo o meu ser! Iríamos, em breve, ser trucidados?!
Última hora da vida mortal?! Sempre era certo ficarem meus despojos, em terra africana?!
Desligo o rádio, para deslindar e tento esclarecer o que vai sucedendo. Nem mais um tiro! Apago a luz e espreito, em seguida, pela janela. Não vejo ninguém, em frente da casa.

Conjecturo, de novo, mas tudo em vão! Queriam, talvez, pôr fogo à morada?! Passados momentos, enxergo um clarão, nas traseiras do sótão. Enorme fogueira se erguia açudada! Que pensar?! Morrer assado?! Até as feras escapam, mas eu…

Acorro à porta que dá para fora e noto com espanto, soldados armados, em acto de agir, enquanto do lado se vigia o lume, de mangueiras em punho. Outros ainda seguram cuidadosos lanternas eléctricas. Mas que aparato!
O nosso Reitor, ao ver-me, pela rede, exclama, elucidando:
Snakes in the grass! Don’t be afraid!
Sosseguei então. Eram duas mambas (serpentes mortíferas) que tentavam matar.
A pessoa mordida tem 5 minutos, para fazer as despedidas!

Liceu Linus
1977- 08- 23,
Cont,
Cheguei a Nyangana, onde repousei, por fim de semana. O casodas serpentes bailava-me na mente e quase assediava.
Entretanto, em casa todo era olhos, não fossem esconder-se, atrás de algum móvel! Certa palavra actuava como espada, na minha cabeça. Mambas! Perigosíssimas! A pessoa vitimada tem 5 minutos, para arrancar deste pobre mundo!

Fiquei alarmado e fora de mim! Era então certo haver perigo mortal, juntinho de nós?! Colho informações e dizem que sim! Duas mambas enormes, ao pé da vivenda!
Após a mordedura, não há salvação?! - perguntava eu logo, em sobressalto.
Há, sim senhor, injectado com soro, logo em seguida. Vendo o meu interesse, elucidam-me então, sobre o modo de agir.
Após a mordedura, injectam o soro, com enorme presteza, enviando um rádio à capital do Cavango. Logo um helicóptero é
mandado, com urgência, para levar o doente à África do Sul ou
mesmo a Vinduque. Logo que chegue, usam um aparelho, para ajudar os pulmões, na respiração.
Pelos vistos, não podem actuar, sem que essa máquina entre em função, Prestada a assistência, a pessoa fica salva. De outra maneira, não tem remissão.
Agora, é o tempo das serpentes: começa a aquecer. Procuram o sol, em macios relvados: quem as perturbe já sabe o que leva!
Impõe-se, como é óbvio, extremo cuidado, ao passar na relva, junto de maciços, formados por arbustos ou árvores de porte.

Liceu
1977- 08- 24

Caso do Dia: a Guerra em Angola.
Vêm diariamente refugiar-se aqui dezenas de Angolanos,
Fugindo à morte e buscando asilo. Contam o pior, acerca da guerra. Falam de roubos, espancamentos, violações atrevidas e assassinatos. Um horror sem fim!
Em 12 e 15, foi ali no Dirico. Ouvia os morteiros, com nitidez! Autêntico inferno! A UNITA de Savimbi viera de Leste,
(Caprivi), para atacar o MPLA, aqui junto a mim, bem perto do local, onde o rio Cuito desagua no Cubango.
Após a fuga em pânico do MPLA. A UNITA avançou, rumo ao Calai, onde haviam de encontrar as forças do Poente, afim de atacarem ambas as bases inimigas.

Foi no dia 20 que horríveis morteiros se ouviram no Rundu, capital do Cavango. Nessa mesma data, o Calai rendeu-se às forças da UNITA, debandando o inimigo em grande confusão!
Ao que dizem, a faixa sul já foi varrida, A vila do Cuangar
havia caído! Sobre a vila e a Missão, recebi há pouco notícias frescas.
O colega do Tondoro deslocou-se ao Cuangar, para ver com seus olhos o efeito da luta. Um pavor! Tudo esburacado! Os vidros partidos! Os bancos da capela feitos em bocados!
Perante a ousadia, levou dali o órgão e com ele dois cális, para a Missão do Tondoro.
Em seguida, foi à vila. Casas incendiadas e objectos enterrados!
No pequeno vale, a caminho do Cuangar, achou, em abundância,
Armas e munições, objectos de uso e também calçado que o MPLA não pôde levar, por falta de tempo.

Liceu Linus
1977- 08- 25

Depois de amanhã, vai fazer dois anos, que teve seu início o meu peregrinar! Vinte e seis de Agosto! Se bem me recordo, a enorme coluna passara, de manhã, Avançava indecisa, não sabendo para onde. Olhos tristonhos, a dor estampada, o sorriso
perdido! No entanto, prosseguia, em marcha sem fim.

Nós, boquiabertos, a vê-la passar, com intenção de permanecer! Apesar de tudo, o nosso coração ficava oprimido!
Eu, na berma da estrada, imóvel e triste, olhava agonizando para o rosto de todos, Alguns deles falavam chorando; a outros, porém, embargava-se a voz; outros ainda arrancavam das entranhas palavras de espanto: Ainda ficam?!
Decidimos ficar!
A coluna passara, durante a manhã.
Já pela tarde, gente de Cachingues aconselha meu cunhado. A juntar-se à coluna, abandonando o Chitembo. Eles, por sua vez, fariam o mesmo.
Sou interrogado, porque eu, na verdade, resolvera ficar.
Pergunto as razões e, perante a resposta, digo que sim.
A coluna engrossa e a dor aumenta. Corpos sem alma, rumo á desgraça!
Agora, através da floresta, por extensos areais! Sol de rachar! Sede que horroriza! Corações que soçobram! Ficara tudo, em zonas distantes, onde a alma sofrera tormentos sem fim!
Voltaremos?! Muitos de nós julgam que sim, bailando nos olhos uma arreigada esperança!
Ficara ali tudo: o suor de uma vida; canseiras e vigílias; horas de alegria¸ um passado longo que volta e seduz, à medida que se esvai!
Ficavam jazendo membros queridos, que o ódio cego havia imolado!

Liceu
1977 - 08 - 2

Ontem já, por terras da Beira, no amado país, realizou-se, em Trancoso, a feira anual do S. Bartolomeu. Não posso esquecê-la, que a tenho gravada, a letras de fogo, na alma saudosa.
O querido Pai amava esta feira, a que nunca faltava. Com
Dinheiro ou sem ele, tornara-se um hábito. Preparava de longe o que era essencial e, no dia exacto, nada o retinha.

Por estar quente, vivíamos no Carvalhal, pequena propriedade que agora me pertence. De lá, partia o chefe, cuja vinda esperávamos, com ansiedade! Sempre a pé, no longo caminho, ficávamos tristes, de vê-lo sofrer! Mas ele saía, de rosto alegre.
Comprava mais gado, vendendo o seu, Talvez (quem sabia?) uma égua linda? Um bezerro façanhudo! Uma junta de bois de alta qualidade?! Nisto e mais pensava ele e a esposa adorada!
Eu, porém, com meus irmãozinhos alongávamos a vista, pela fita da estrada, que ao longe se desenha, a caminho de Trancoso. O tráfego intenso bem como os faróis, durante a noite,
Eram coisa de ver-se!
Ele voltaria, mas sempre a pé! Entretanto, em cada viatura, que assomava ao longe, pensávamos nós que ele vinha também.

As horas passavam e só já tarde, pela noite de breu, aparecia
risonho o pai tão amado! Com ele vinha tudo: alegria e presentes, amor e paz! Eram uvas novas, utensílios de casa, gado para engorda e, chegando o dinheiro para tal fim, lembranças variadas que faziam delirar uma guitarra, uma boneca, um pifarito, uma ‘santinha’!

Liceu Linus
1977- 08- 27

A roda fatal gira morosa, não tendo em conta o meu sofrer.
Desejo se apresse, mas é insensível, crua e surda! Julgo, por vezes, que faz o contrário dos meus desejos. Quanto mais ansiedade mais lenta se torna em seu deslizar! Três anos aqui, isolado de tudo quanto amo e adoro!
De hoje a 15 dias, começam as férias do 3º período: 11 dias apenas! Trabalho não falta e, do mesmo passo, graves cuidados!
Por um lado, é bom, uma vez que me absorvem!
Junto de mim, há livros manuscritos, rádio e gravadores. Não falta ainda o amigo acordeão e o harmónio eléctrico. Belas companhias! Deus e elas é o que tenho! Nada mais!
O belo acordeão é refúgio seguro, no maior desalento! Quando o peito escurece, recorro a ele e volvo ao passado, assim me embalando como as crianças. Executo em júbilo canções da infância, a que seguem depois, outras diferentes.
Se não fora assim, ignoro o que seria a minha existência!
Corrigir os Diários, finalizar escritos e pôr-me em dia…
Apesar de tudo, um grande vazio se recorta e afubda em todo o meu ser.
Soará, ftnalmente, a hora ansiada? Poderá ter fim a grande aventura?! Contemplarei, mais uma vez, o céu de Portugal, onde o Sol amigo aparece fulgente e a Lua é de prata?!

Nyangana
1977- 08- 28
Dizia-me alguém, na vila de Manteigas:”Passamos o tempo a comer do que não gostamos!”
Agora, vejo ser exacta aquela afirmação. Quanto me cerca tudo me é estranho.
Onde o mavioso da língua portuguesa, cuja doçura encanta alma?! Onde a ternura de uns olhos portugueses, que falam e cantam, na sua mudez?! Onde o sorriso, meigo e suave de uns lábios frementes, que a terra lusitana abriga no seio?! Onde os lugares que prendem e cativam, alegrando a alma e dando ao peito um ritmo novo?!
Se olho à minha volta, nada se depara, que fale a meu ser!
Não brilha o céu, que poeiras sem fim o toldam a rigor! Que tenho para ver, ouvir e deleitar-me?! Vejo a solidão, ouço que desamo e sinto no peito o horror do exílio!
Agora, precisamente, conversa, a meu lado, um par destas bandas. Esmeram-se os dois por adoçar e florir a língua materna!
E soa a meus ouvidos qual duro garrancho, que pronto dilacera.

Qualquer língua é bela, quando tem origem nuns lábios de mulher! Aqui, porém, arranha o ouvido, não sendo capaz de
aguentar-lhe o efeito. Estas guturais fazem-me irritar. Não posso já com tal arranhão! Maior tormento não há para mim!

Às vezes, até eles se engasgam, “ Lat ons began”.
O esforço de garganta para a silaba final da palavra’began’!
Língua assim desconsolada, inestética e dura jamais encontrei!
Se mais não houvesse, isto só bastaria, para a minha desventura!
Quão diferente não é da língua portuguesa!

Liceu Linus
1977- 08- 29
Hoje é domingo, já terceiro dia, por fim de semana!
Bem acolhido este espaço de tempo! Docentes e alunos foram para Andara, região do Caprivi, o sítio mais belo de todo o Sudoeste (ao menos que eu saiba)
Também me convidaram, mas recusei, por motivo de saúde.
Dormem no mato, lá comem e folgam, quebrando assim a monotonia das aulas diárias. Pena tenho eu de os não acompanhar!
Os Sul-Africanos são muito práticos.
Em Portugal, não se fazia uma coisa destas! Isto, pelo menos, enquanto lá vivi. Aqui, no Sudoeste, faz-se mais de uma vez.,
Durante o ano. Esta digressão é já a segunda.

Quanto os nossos jovens apreciam e desejam coisa semelhante! Pois não admira! Ao longo do ano, desporto em barda, jogos e canções, trabalho do campo, cessões de cinema e longos passeios! Um dia mais tarde, lembrarão com saudade, a
Escola e os Mestres. Esta mocidade rejubila de gozo! Vivem seus
amores, sem intromissão! Há pão e ensino! Folgam e riem!
Os transportes são gratuitos! Que mais desejar?!
Pagam só 20 randes, pelo ano inteiro! Em compensação, vem o necessário: materiais escolares, cama e mesa, e ensino liceal!
Quanto melhor não vão os nativos de hoje, no Sudoeste Africano, que as gentes rudes da minha aldeia, quando eu era jovem! Não fui para o Liceu, por falta de recursos! A quantos e
quantos não terá sucedido a mesma coisa!

Nyangana
1977- 08- 30
Segundo apuraram testemunhas oculares, predominam ali três grupos raciais: Macondes, ao Norte; Quimbundos, ao centro, mas para Oeste: Umbundos, no centro do grande país.
Ao último grupo aderem também as restantes tribos: Lundas, Quiocos, Ganguelas e Quamatas.
A parte Norte é hoje liderada por Hólden Roberto: a do centro Oeste, por Agostinho Neto; as outras que restam, por Jonas Savimbi. Tem a primeira 25% de toda a população; a dos Quimbundos igual percentagem; a de Savimbi 50%,
Segundo vários críticos, procedentes do estrangeiro, que viveram no mato, deslocando-se a pé e observando in loco, o viver dos guerrilheiros, a UNITA de Savimbi, no mês de Outubro de 1976, dominava cabalmente 5 belas províncias, exercendo influência, política e militar, no centro e no Sul.
Os grupos referidos não se dão entre si., sendo já secular a sua rivalidade. Esta, de facto, é responsável, ao menos em parte, pelos graves problemas que fazem de Angola um campo de batalha.
O povo, em geral, adere a Savimbi, pois dizem as gentes que respeita as tradições, costumes e hábitos. Agostinho Neto dispõe da tribo que é mais evoluída. O seu posto avançado é constituído por brancos e mestiços o que muito desgosta a população. Assim era já, no sistema colonial, em que brancos e mestiços ocupavam sempre os lugares de relevo,
Isto é, na verdade, o que dizem as gentes, que ouço amiúde.

Liceu Linus
1977- 08 – 31
Cont.
Pensam alguns que Savimbi é racista. Por este motivo, foi interrogado, respondendo então: Nós não somos racistas: somos nacionalistas.
É de notar que, mesmo assim, persistem dúvidas, segundo tenho lido. O nome curioso que o Chefe Savimbi intenta dar ao novo Estado é o seguinte: República Socialista Negro-Africana do
Estado de Angola.
As palavras ‘negro e negritude’ que ele muito emprega, irão cavar um abismo, entre negros e mestiços. Estes, realmente, são mais evoluídos., tèm mais iniciativa e atingem 1 milhão.
Futuros problemas? Savimbi, ao que parece, intenta bater-se pela
Negritude.
O grupo dissidente do MPLA tinha isso em vista: derribar prestesmente o governo de Neto e criar nova forma, em que os Pretos de Angola e não outros, é claro, levassem a palma. Bem
triunfava, se não fossem os Cubanos, A Rússia, nessa altura não deu os parabéns a Agostinho Neto, por sair ileso!
Savimbi respondeu, um tanto irado, quando fez referência a António Jacinto, que era Ministro da Educação. Disse ele. em resumo: ‘Que fez este branco pela cultura, de origem africana?!
Importa eliminar a cultura portuguesa e pòr no seu lugar a cultura africana!
Segundo me parece, o chefe exímio estava nervoso, ao falar assim! Ninguém jamais poderá banir a cultura portuguesa: ficou entalhada na alma de todos, ao longo dos séculos. E não foram tão poucos! Quinhentos anos! Por outro lado, é factor de valia caldear
as duas. Isso está certo!

Liceu Linus
1977- 09- 01
Há poucos dias, repontei exaltado a certa medida que o governo de Pretória tomou sobre mim! Um colega do Liceu comunicou-me o seguinte: Para lhe darem o Permit é necessário
fazer um depósito de 600 randes!
Eu já andava mal disposto e com muita razão! Admite-se lá uma coisa destas! Desde Janeiro, a pedir mo enviassem e nada feito! Agora, já no fim do ano, é que saem com esta! Fiquei indignado! Fazem propaganda, para todos requererem o tal documento, juntando logo que é gratuito. Afinal, as coisas são diferentes!
Protestei vivamente, enquanto o professor, muito calmo w composto, tentava justificar a atitude de Pretória. Eu argumentava: não é justo, afinal, fazer assim! Tenho bem pouco e até esse nada me vêm tirar! O grava problema dos refugiados não se toma em conta! A nação é tão rica! Por que faz então uma coisa destas?! Pelo que vejo, tenho de pagar, se quero residir, neste local! Não compreendo!

Garantia firme de pagamento, quando for embora, em 78 ou 79? Como garantia, serve o Banco Barclay e o livro-documento.
Alonguei-me assim, expondo razões e alegando queixas!
Dizia o colega: A nação não precisa dele! É simples garantia! Muitos aí há que tudo gastam, ficando as viagens, por conta do Estado! Se fosse para a Zâmbia ou então para o Zaire,
arranjava trabalho?
Desfez-se em argumentos. Eu, por fim, rematei deste modo:
Faço o depósito, porque sou obrigado, mas não aprovo nem fico satisfeito!

1977- 09- 02
Nyangana
Ao chegar à Missão, por fim de semana, encontrei uma carta de Vide-Entre-Vinhas. Olhando à letra, pareceu logo de minha irmã. Sempre é bem vinda uma carta assim, mas desta vez, fez-me
surpresa, visto que , há pouco ainda, recebera de lá notícias frescas, Palpitou-me logo que havia problemas!

Afinal de contas, obrigaram a sair, da Pensão facultada, onde estavam hospedados, Pagava o IARNE. Deram 30 contos, acabando assim a protecção dispensada a estes infelizes! É assim que se resolvem problemas de tanta monta!

Se Deus não existisse, como eram lastimáveis as pessoas desprezadas! Assim, quando o mundo tripudia, sobre a imensa desgraça, fica ainda uma esperança a luzir no caminho: Deus e seu amor! Não é Ele Providência?! Eu creio no seu amor e na Suma Providência, que tudo governa!
Foram seguramente para a terra de origem! Por um lado, é agradável, mas tem os seus contras! Quem viveu fora, durante muitos anos, containdo novos hábitos, já se não adapta.

O cunhado Martins saíra da beira, havia 40 anos, aproximadamente, e minha irmã, para cima de 20. Como vão adaptar-se?! Não vejo, realmente, possibilidades! Além disto, que já não é pouco, surge um mundo novo, inteiramente alheio,
Estranho, indiferente! Mas, enfim! Fatalidade tem muito poder!

É preciso aguentar! A vida é o que é e temos de aceitá-la como se apresenta! O marido, pelos vistos, é pessoa arruinada!
Aumentam as dores, que já antes o prostravam.
O que agora precisam é calma acentuada e fé na Providência. Com o tempo a correr, melhorarão, penso eu, as circunstâncias da vida, para voltar de novo a paz e o bem-estar.
Os problemas são enormes, pois se estendem amplamente a campos diversos: económico e físico, moral e climatérico.

Que o Senhor os acompanhe e encha de coragem, para enfrentarem a grave situação. Como vão eles aguentar o Inverno,
sem condições mínimas, para viver na aldeia?! Casa esburacada!
Nem vestuário nem lenha nem provisões!

Liceu Linus
1977 – 08- 18
Professor preguiçoso

Este novo padrão, que é dever eliminar, chega tarde à liça, em que há-de agir. Possivelmente, levanta-se a desoras, ficando o seu horário bem comprometido. Não prepara as lições ou fá-lo à pressa! As aulas acontecem, porque ele, desmazelado, não tem um plano que haja de seguir. Dúvida séria, que algures apareça:
dificuldades, que surjam de momento, não são esclarecidas!

Não resolve problemas, porque o seu desleixo não permite jamais que esteja em dia e cumpra o dever. Só está pronto e sempre alerta, para abarcar, num ápice, os chorudos honorários.
Espera-os, em regra, com sofreguidão e olhar de lince!
Que lucra a sociedade, em tais circunstâncias? Bastante menos do que deseja. Convém, pois informar o Mestre, por boas maneiras, acerca do caso, exprimindo a estima que têm por ele.

Modificando-se, fica tudo normalizado, a contento de todos
O vencimento há-de ser a expressão de um dever cumprido! Então, sim, pode usufruí-lo, porque lhe pertence: equivale, na verdade, ao esforço dispendido, à solicitude e ao zelo, que pôs nos seus actos, para que os alunos se preparassem bem.

Investiu algum dinheiro, na compra de livros, para actualizar-se. Artigos modelares da sua especialidade; revistas e brochuras do mesmo assunto; livros auxiliares e outras fontes que importava consultar, não ficam excluídos.
O provérbio latino continua sustentando: Labor omnia vincit O trabalho porfiado vence todos os obstáculos.
Podemos inferir: sem esforço contínuo, nada conseguimos..
É assunto de monta para uma sociedade que deseja progredir!

Liceu Linus
1977- 08- 19
Professor- prodígio

Pode suceder que ele o seja, de facto ou pretenda, sem razão, que o julguem tal. Em ambos os casos, chama, desde logo a atenção das gentes.
Que vem a ser, afinal, um professor-prodígio?
Inteligência rara que, pela sua acuidade, apreende, num momento, as razões dos factos sejam eles embora os mais abstrusos. Pela grande intuição, entra breve e fundo, enquanto o parceiro
gasta mais tempo ou não consegue.
Sendo isto assim, procura o primeiro baixar ao nível dos seus alunos, o que não é fácil, mas necessário. Tal empenho é de louvar e gera simpatias nos educandos e seus familiares.
O caso do segundo traz dissabores, durante algum tempo, mas vai reagindo, por modo lento, sem nervosismo e com persistência. Atende às necessidades, amavelmente, guardando em geral, para o dia seguinte, os casos duvidosos, que depois apresenta, bem esclarecidos. Uma vez ou outra, recorre sem demora ao pronto favor de colegas amigos e dedicados.
A boa compreensão, o desejo de acertar e o esforço empregado resolvem problemas, criam bem-estar e trazem como efeito a felicidade.

Liceu
1977- 08- 20.

É já casada: tem dois filhinhos, que são bebés, Ignoro, no entanto, se cursou a Faculdade, à maneira do marido. Seja como for, trata-se afinal de pessoas com nível, que têm compromissos, de ordem moral e até social. Apesar de tudo, vejo-a arrastando-se, deveras interessada em pessoa elegante que não é o marido.
Cai-me tão mal a sua atitude, que sinto repulsa de tê-la presente. A mulher, após o casamento, há-de ser fortaleza, em que nada se infiltre, vindo de fora. É que, na verdade, foi compromisso que ambos tomaram, dando sim, para a união! É este, a rigor, o conceito permanente do qual a Escritura nos fala amiúde.
Os dois enamorados fazem só um em afecto e pensamento, amor e caridade. Se, em vez de dois, o número é três, há corrupção, falha em fidelidade: verdadeira traição!
Ela que não ria e pouco falava, mudou por completo. Que falta de senso! Que ofensa tão grave à honra familiar, aos filhos bebés e a Deus do Céu, que preside a seu lar! Esposa e mãe é, por dever, sentinela constante do mundo familiar!

Que diríamos nós, se a própria vigia duma fortaleza introduzisse o inimigo no interior?! Não só lhe não impede a entrada franca, senão que a facilita ou garante em absoluto.
Eu, pessoalmente, não sei que faria, num caso destes, mas estou ciente de que ficava logo bem desiludido! Perderia a cabeça?! Faria desatinos?

Nyangana
1977- 08- 21

Decorreram, se não erro, 35 anos, aproximadamente. Nessa altura, andava ele pelos 35. Ao presente, roçará, talvez, pelos 70, caso viva ainda. Era bom Médico e arguto professor. Espírito raro e excelente amigo, que deixa saudades!
Nunca mais o vi. Separa-nos, pois, um longo espaço e, provavelmente, enorme distância.

Mas, como veio ao de cima, nesta ocasião, de modo especial?!
É que ele, afinal, tinha em mau conceito as mulheres todas!
Celibatário ainda, nessa ocasião, ignoro se mudou. Lembra-me o seguinte: um dia, em conversa amiga, insinuei-lhe o casamento, as alegrias do lar, o encanto dos bebés e o apoio duma esposa, escolhida a capricho.
Disse redondamente que jamais casaria.
Deixando-me intrigado, perante a saída, avancei um pouco mais, ao que ele obtemperou: Olhe, meu amigo, fiquei tão enjoado, em face do que vi e tentaram, às vezes, insinuar-me, nos tempos de Coimbra, que até as aborreço!
Não insisti. Apenas observei que nem todas são iguais, havendo bastantes, que fogem à censura. Ele, porém, incrédulo já e assaz porfioso, não concordou, citando episódios, para contestar a minha afirmação.
As palavras dele saíram do passado, vindo até mim, à hora presente. Que foi o que as trouxe? A atitude nojenta de certa esposa, que persiste no ‘flarte’, descaradamente.
Também eu me revolto e sinto desprezo, pelas acções de certas farsantes!
O casamento é belo, mas desta forma há-de ser tremendo! Safa, duas vezes, para tais mulheres!

Nyangana
1977- 08- 22
A meio da semana, houve grande alvoroço. Ouvia o noticiário, achando-me absorto nos sucessos do mundo. Nisto, bem perto de mim, esfuziam as balas, com enorme presteza.
Fico assustado e julgo o pior! Mil suposições e funda algidez em todo o meu ser! Iríamos, em breve, ser trucidados?!
Última hora da vida mortal?! Sempre era certo ficarem meus despojos, em terra africana?!
Desligo o rádio, para deslindar e tento esclarecer o que vai sucedendo. Nem mais um tiro! Apago a luz e espreito, em seguida, pela janela. Não vejo ninguém, em frente da casa.

Conjecturo, de novo, mas tudo em vão! Queriam, talvez, pôr fogo à morada?! Passados momentos, enxergo um clarão, nas traseiras do sótão. Enorme fogueira se erguia açudada! Que pensar?! Morrer assado?! Até as feras escapam, mas eu…

Acorro à porta que dá para fora e noto com espanto, soldados armados, em acto de agir, enquanto do lado se vigia o lume, de mangueiras em punho. Outros ainda seguram cuidadosos lanternas eléctricas. Mas que aparato!
O nosso Reitor, ao ver-me, pela rede, exclama, elucidando:
Snakes in the grass! Don’t be afraid!
Sosseguei então. Eram duas mambas (serpentes mortíferas) que tentavam matar.
A pessoa mordida tem 5 minutos, para fazer as despedidas!

Liceu Linus
1977- 08- 23,
Cont,
Cheguei a Nyangana, onde repousei, por fim de semana. O caso das serpentes bailava-me na mente e quase assediava.
Entretanto, em casa todo era olhos, não fossem esconder-se, atrás de algum móvel! Certa palavra actuava como espada, na minha cabeça. Mambas! Perigosíssimas! A pessoa vitimada tem 5 minutos, para arrancar deste pobre mundo!

Fiquei alarmado e fora de mim! Era então certo haver perigo mortal, juntinho de nós?! Colho informações e dizem que sim! Duas mambas enormes, ao pé da vivenda!
Após a mordedura, não há salvação?! - perguntava eu logo, em sobressalto.
Há, sim senhor, injectado com soro, logo em seguida. Vendo o meu interesse, elucidam-me então, sobre o modo de agir.
Após a mordedura, injectam o soro, com enorme presteza, enviando um rádio à capital do Cavango. Logo um helicóptero é
mandado, com urgência, para levar o doente à África do Sul ou
mesmo a Vinduque. Logo que chegue, usam um aparelho, para ajudar os pulmões, na respiração.
Pelos vistos, não podem actuar, sem que essa máquina entre em função, Prestada a assistência, a pessoa fica salva. De outra maneira, não tem remissão.
Agora, é o tempo das serpentes: começa a aquecer. Procuram o sol, em macios relvados: quem as perturbe já sabe o que leva!
Impõe-se, como é óbvio, extremo cuidado, ao passar na relva, junto de maciços, formados por arbustos ou árvores de porte.

Liceu
1977- 08- 24
Caso do Dia: a Guerra em Angola.
Vêm diariamente refugiar-se aqui dezenas de Angolanos,
Fugindo à morte e buscando asilo. Contam o pior, acerca da guerra. Falam de roubos, espancamentos, violações atrevidas e assassinatos. Um horror sem fim!
Em 12 e 15, foi ali no Dirico. Ouvia os morteiros, com nitidez! Autêntico inferno! A UNITA de Savimbi viera de Leste,
(Caprivi), para atacar o MPLA, aqui junto a mim, bem perto do local, onde o rio Cuito desagua no Cubango.
Após a fuga em pânico do MPLA. A UNITA avançou, rumo ao Calai, onde haviam de encontrar as forças do Poente, afim de atacarem ambas as bases inimigas.

Foi no dia 20 que horríveis morteiros se ouviram no Rundu, capital do Cavango. Nessa mesma data, o Calai rendeu-se às forças da UNITA, debandando o inimigo em grande confusão!
Ao que dizem, a faixa sul já foi varrida, A vila do Cuangar
havia caído! Sobre a vila e a Missão, recebi há pouco notícias frescas.
O colega do Tondoro deslocou-se ao Cuangar, para ver com seus olhos o efeito da luta. Um pavor! Tudo esburacado! Os vidros partidos! Os bancos da capela feitos em bocados!
Perante a ousadia, levou dali o órgão e com ele dois cális, para a Missão do Tondoro.
Em seguida, foi à vila. Casas incendiadas e objectos enterrados!
No pequeno vale, a caminho do Cuangar, achou, em abundância,
Armas e munições, objectos de uso e também calçado que o MPLA não pôde levar, por falta de tempo.

Liceu Linus
1977- 08- 25
Depois de amanhã, vai fazer dois anos, que teve seu início o meu peregrinar! Vinte e seis de Agosto! Se bem me recordo, a
enorme coluna passara, de manhã, Avançava indecisa, não sabendo para onde. Olhos tristonhos, a dor estampada, o sorriso
perdido! No entanto, prosseguia, em marcha sem fim.

Nós, boquiabertos, a vê-la passar, com intenção de permanecer! Apesar de tudo, o nosso coração ficava oprimido!
Eu, na berma da estrada, imóvel e triste, olhava agonizando para o rosto de todos, Alguns deles falavam chorando; a outros, porém, embargava-se a voz; outros ainda arrancavam das entranhas palavras de espanto: Ainda ficam?!
Decidimos ficar!
A coluna passara, durante a manhã.
Já pela tarde, gente de Cachingues aconselha meu cunhado. A juntar-se à coluna, abandonando o Chitembo. Eles, por sua vez, fariam o mesmo.
Sou interrogado, porque eu, na verdade, resolvera ficar.
Pergunto as razões e, perante a resposta, digo que sim.
A coluna engrossa e a dor aumenta. Corpos sem alma, rumo â desgraça!
Agora, através da floresta, por extensos areais! Sol de rachar! Sede que horroriza! Corações que soçobram! Ficara tudo, em zonas distantes, onde a alma sofrera tormentos sem fim!
Voltaremos?! Muitos de nós julgam que sim, bailando nos olhos uma arreigada esperança!
Ficara ali tudo: o suor de uma vida; canseiras e vigílias; horas de alegria um passado longo que volta e seduz, à medida que se esvai!
Ficavam jazendo membros queridos, que o ódio cego havia imolado!

Liceu
1977 - 08 - 26
Ontem já, por terras da Beira, no amado país, realizou-se, em Trancoso, a feira anual do S. Bartolomeu. Não posso esquecê- la, que a tenho gravada, a letras de fogo, na alma saudosa.
O querido Pai amava esta feira, a que nunca faltava. Com
Dinheiro ou sem ele, tornara-se um hábito. Preparava de longe o que era essencial e, no dia exacto, nada o retinha.

Por estar quente, vivíamos no Carvalhal, pequena propriedade que agora me pertence. De lá, partia o chefe, cuja vinda esperávamos, com ansiedade! Sempre a pé, no longo caminho, ficávamos tristes, de vê-lo sofrer! Mas ele saía, de rosto alegre.
Comprava mais gado, vendendo o seu, Talvez (quem sabia?) uma égua linda? Um bezerro façanhudo! Uma junta de bois de alta qualidade?! Nisto e mais pensava ele e a esposa adorada!
Eu, porém, com meus irmãozinhos alongávamos a vista, pela fita da estrada, que ao longe se desenha, a caminho de Trancoso. O tráfego intenso bem como os faróis, durante a noite,
Eram coisa de ver-se!
Ele voltaria, mas sempre a pé! Entretanto, em cada viatura, que assomava ao longe, pensávamos nós que ele vinha também.

As horas passavam e só já tarde, pela noite de breu, aparecia risonho o pai tão amado! Com ele vinha tudo: alegria e presentes, amor e paz! Eram uvas novas, utensílios de casa, gado para engorda e, chegando o dinheiro para tal fim, lembranças variadas que faziam delirar. uma guitarra, uma boneca, um pifarito, uma ‘santinha’!

Liceu Linus
1977- 08- 27
A roda fatal gira morosa, não tendo em conta o meu sofrer.
Desejo se apresse, mas é insensível, crua e surda! Julgo, por vezes, que faz o contrário dos meus desejos. Quanto mais ansiedade mais lenta se torna em seu deslizar! Três anos aqui, isolado de tudo quanto amo e adoro!
De hoje a 15 dias, começam as férias do 3º período: 11 dias apenas! Trabalho não falta e, do mesmo passo, graves cuidados!
Por um lado, é bom, uma vez que me absorvem!
Junto de mim, há livros manuscritos, rádio e gravadores. Não falta ainda o amigo acordeão e o harmónio eléctrico. Belas companhias! Deus e elas é o que tenho! Nada mais!
O belo acordeão é refúgio seguro, no maior desalento! Quando o peito escurece, recorro a ele e volvo ao passado, assim me embalando como as crianças. Executo em júbilo canções da infância, a que seguem depois, outras diferentes.
Se não fora assim, ignoro o que seria a minha existência!
Corrigir os Diários, finalizar escritos e pôr-me em dia…
Apesar de tudo, um grande vazio se recorta e afubda em todo o meu ser.
Soará, finalmente, a hora ansiada? Poderá ter fim a grande aventura?! Contemplarei, mais uma vez, o céu de Portugal, onde o Sol amigo aparece fulgente e a Lua é de prata?!

Nyangana
1977- 08- 28
Dizia-me alguém, na vila de Manteigas:”Passamos o tempo a comer do que não gostamos!”
Agora, vejo ser exacta aquela afirmação. Quanto me cerca tudo me é estranho.
Onde o mavioso da língua portuguesa, cuja doçura encanta alma?! Onde a ternura de uns olhos portugueses, que falam e cantam, na sua mudez?! Onde o sorriso, meigo e suave de uns lábios frementes, que a terra lusitana abriga no seio?! Onde os lugares que prendem e cativam, alegrando a alma e dando ao peito um ritmo novo?!
Se olho à minha volta, nada se depara, que fale a meu ser!
Não brilha o céu, que poeiras sem fim o toldam a rigor! Que tenho para ver, ouvir e deleitar-me?! Vejo a solidão, ouço que desamo e sinto no peito o horror do exílio!
Agora, precisamente, conversa, a meu lado, um par destas bandas. Esmeram-se os dois por adoçar e florir a língua materna!
E soa a meus ouvidos qual duro garrancho, que pronto dilacera.

Qualquer língua é bela, quando tem origem nuns lábios de mulher! Aqui, porém, arranha o ouvido, não sendo capaz de
aguentar-lhe o efeito. Estas guturais fazem-me irritar. Não posso já com tal arranhão! Maior tormento não há para mim!

Às vezes, até eles se engasgam, “ Lat ons began”.
O esforço de garganta para a silaba final da palavra’began’’!
Língua assim desconsolada, inestética e dura jamais encontrei!
Se mais não houvesse, isto só bastaria, para a minha desventura!
Quão diferente não é da língua portuguesa!

Liceu Linus
1977- 08- 29
Hoje é domingo, já terceiro dia, por fim de semana!
Bem acolhido este espaço de tempo! Docentes e alunos foram para Andara, região do Caprivi, o sítio mais belo de todo o Sudoeste (ao menos que eu saiba)
Também me convidaram, mas recusei, por motivo de saúde.
Dormem no mato, lá comem e folgam, quebrando assim a monotonia das aulas diárias. Pena tenho eu de os não acompanhar!
Os Sul-Africanos são muito práticos.
Em Portugal, não se fazia uma coisa destas! Isto, pelo menos, enquanto lá vivi. Aqui, no Sudoeste, faz-se mais de uma vez.,
Durante o ano. Esta digressão é já a segunda.

Quanto os nossos jovens apreciam e desejam coisa semelhante! Pois não admira! Ao longo do ano, desporto em barda, jogos e canções, trabalho do campo, cessões de cinema e longos passeios! Um dia mais tarde, lembrarão com saudade, a
Escola e os Mestres. Esta mocidade rejubila de gozo! Vivem seus
amores, sem intromissão! Há pão e ensino! Folgam e riem!
Os transportes são gratuitos! Que mais desejar?!
Pagam só 20 randes, pelo ano inteiro! Em compensação, vem o necessário: materiais escolares, cama e mesa, e ensino liceal!
Quanto melhor não vão os nativos de hoje, no Sudoeste Africano, que as gentes rudes da minha aldeia, quando eu era jovem! Não fui para o Liceu, por falta de recursos! A quantos e quantos não terá sucedido a mesma coisa!

Nyangana
1977- 08- 30
Segundo apuraram testemunhas oculares, predominam ali três grupos raciais: Macondes, ao Norte; Quimbundos, ao centro, mas para Oeste: Umbundos, no centro do grande país.
Ao último grupo aderem também as restantes tribos: Lundas, Quiocos, Ganguelas e Quamatas.
A parte Norte é hoje liderada por Hólden Roberto: a do centro Oeste, por Agostinho Neto; as outras que restam, por Jonas Savimbi. Tem a primeira 25% de toda a população; a dos Quimbundos igual percentagem; a de Savimbi 50%,
Segundo vários críticos, procedentes do estrangeiro, que viveram no mato, deslocando-se a pé e observando in loco, o viver dos guerrilheiros, a UNITA de Savimbi, no mês de Outubro de 1976, dominava cabalmente 5 belas províncias, exercendo influência, política e militar, no centro e no Sul.
Os grupos referidos não se dão entre si., sendo já secular a sua rivalidade. Esta, de facto, é responsável, ao menos em parte,
pelos graves problemas que fazem de Angola um campo de batalha.
O povo, em geral, adere a Savimbi, pois dizem as gentes que respeita as tradições, costumes e hábitos. Agostinho Neto dispõe da tribo que é mais evoluída. O seu posto avançado é constituído por brancos e mestiços o que muito desgosta a população. Assim era já, no sistema colonial, em que brancos e mestiços ocupavam sempre os lugares de relevo,
Isto é, na verdade, o que dizem as gentes, que ouço amiúde.

Liceu Linus
1977- 08 – 31
Cont.

Pensam alguns que Savimbi é racista. Por este motivo, foi interrogado, respondendo então: Nós não somos racistas: somos nacionalistas.
É de notar que, mesmo assim, persistem dúvidas, segundo tenho lido. O nome curioso que o Chefe Savimbi intenta dar ao novo Estado é o seguinte: República Socialista Negro-Africana do
Estado de Angola.
As palavras ‘negro e negritude’ que ele muito emprega, irão cavar um abismo, entre negros e mestiços. Estes, realmente, são mais evoluídos, têm mais iniciativa e atingem 1 milhão.
Futuros problemas? Savimbi, ao que parece, intenta bater-se pela
Negritude.
O grupo dissidente do MPLA tinha isso em vista: derribar prestesmente o governo de Neto e criar nova forma, em que os Pretos de Angola e não outros, é claro, levassem a palma. Bem
triunfava, se não fossem os Cubanos, A Rússia, nessa altura não deu os parabéns a Agostinho Neto, por sair ileso!
Savimbi respondeu, um tanto irado, quando fez referência a António Jacinto, que era Ministro da Educação. Disse ele em resumo: ‘Que fez este branco pela cultura, de origem africana?!
Importa eliminar a cultura portuguesa e pôr no seu lugar a cultura africana!
Segundo me parece, o chefe exímio estava nervoso, ao falar assim! Ninguém jamais poderá banir a cultura portuguesa: ficou entalhada na alma de todos, ao longo dos séculos. E não foram tão poucos! Quinhentos anos! Por outro lado, é factor de valia caldear as duas. Isso está certo!

Liceu Linus
1977- 09- 01
Há poucos dias, repontei exaltado a certa medida que o governo de Pretória tomou sobre mim! Um colega do Liceu comunicou-me o seguinte: Para lhe darem o Permit é necessário
fazer um depósito de 600 randes!
Eu já andava mal disposto e com muita razão! Admite-se lá uma coisa destas! Desde Janeiro, a pedir mo enviassem e nada feito! Agora, já no fim do ano, é que saem com esta! Fiquei indignado! Fazem propaganda, para todos requererem o tal documento, juntando logo que é gratuito. Afinal, as coisas são diferentes!
Protestei vivamente, enquanto o professor, muito calmo w composto, tentava justificar a atitude de Pretória. Eu argumentava: não é justo, afinal, fazer assim! Tenho bem pouco e até esse nada me vêm tirar! O grava problema dos refugiados não se toma em conta! A nação é tão rica! Por que faz então uma coisa destas?! Pelo que vejo, tenho de pagar, se quero residir, neste local! Não compreendo!

Garantia firme de pagamento, quando for embora, em 78 ou 79? Como garantia, serve o Banco Barclay e o livro-documento.
Alonguei-me assim, expondo razões e alegando queixas!
Dizia o colega: A nação não precisa dele! É simples garantia! Muitos aí há que tudo gastam, ficando as viagens, por conta do Estado! Se fosse para a Zâmbia ou então para o Zaire,
arranjava trabalho?
Desfez-se em argumentos. Eu, por fim, rematei deste modo:
Faço o depósito, porque sou obrigado, mas não aprovo nem fico satisfeito!

1977- 09- 02
Nyangana
Ao chegar à Missão, por fim de semana, encontrei uma carta de Vide-Entre-Vinhas. Olhando à letra, pareceu logo de minha irmã. Sempre é bem vinda uma carta assim, mas desta vez, fez-me
surpresa, visto que , há pouco ainda, recebera de lá notícias frescas, Palpitou-me logo que havia problemas!

Afinal de contas, obrigaram a sair, da Pensão facultada , onde estavam hospedados, Pagava o IARNE. Deram 30 contos, acabando assim a protecção dispensada a estes infelizes! É assim que se resolvem problemas de tanta monta!

Se Deus não existisse, como eram lastimáveis as pessoas desprezadas! Assim, quando o mundo tripudia, sobre a imensa desgraça, fica ainda uma esperança a luzir no caminho: Deus e seu amor! Não é Ele Providência?! Eu creio no seu amor e na Suma Providência, que tudo governa!
Foram seguramente para a terra de origem! Por um lado, é agradável, mas tem os seus contras! Quem viveu fora, durante muitos anos, containdo novos hábitos, já se não adapta.

O cunhado Martins saíra da beira, havia 40 anos, aproximadamente, e minha irmã, para cima de 20. Como vão
adaptar-se?! Não vejo, realmente, possibilidades! Além disto, que já não é pouco, surge um mundo novo, inteiramente alheio,
Estranho, indiferente! Mas, enfim! Fatalidade tem muito poder!

É preciso aguentar! A vida é o que é e temos de aceitá-la como se apresenta! O marido, pelos vistos, é pessoa arruinada!
Aumentam as dores, que já antes o prostravam.
O que agora precisam é calma acentuada e fé na Providência. Com o tempo a correr, melhorarão, penso eu, as circunstâncias da vida, para voltar de novo a paz e o bem-estar.
Os problemas são enormes, pois se estendem amplamente a campos diversos: económico e físico, moral e climatérico.

Que o Senhor os acompanhe e encha de coragem, para enfrentarem a grave situação. Como vão eles aguentar o Inverno,
sem condições mínimas, para viver na aldeia?! Casa esburacada!
Nem vestuário nem lenha nem provisões!

Nyangana
1977- 09-.03
Recordações diversas me surgem, nesta hora, originadas todas pela data em curso: início das aulas, em nossas escolas: cuidados a montes, para a grande feira do S. Francisco, na cidade egitaniense; celebração do simpático Santo, fundador dos Franciscanos.
Só agora me lembro de que antecipei um mês! Imaginemos, pois, que está decorrendo mês de Outubro e não Setembro.
Quando falo nestas coisas, refiro-me, sem dúvida, a 1972, pois que desde então é bem natural ter havido mudanças, de modo especial, no pós Abril de 75. Daí para diante, o meu campo de acção tem sido a África: primeiro,
em Angola e depois no Sudoeste. Cinco anos apenas, mas cheios de emoção!
No tocante à feira, celebrada anualmente, íamos a pé, saindo na véspera. Geralmente, dormia-se em Porco ou ainda na Faia, para arrancar, logo de madrugada.
A viagem orçará talvez por 25 quilómetros ou coisa parecida.
Que impressão me fizeram as casas da Guarda, ao vê-las de perto, a primeira vez! Habituado como estava ao granito escuro de Vide-Entre-Vinhas, afiguravam-se aquelas perfeitos brinquedos! Um deslumbramento!
Algumas de cor amarela; outras a vermelho; outras ainda ostentando garbosas várias colorações
Ruas tão lindas, que jamais tinha visto! Lembravam-me então as do berço natal, encharcadas e estreitas, em grandes torcicolos; diminuídas amiúde por balcões exteriores

Liceu Linus
1977 – 08- 18
Professor preguiçoso

Este novo padrão, que é dever eliminar, chega tarde à liça, em que há-de agir. Possivelmente, levanta-se a desoras, ficando o seu horário bem comprometido. Não prepara as lições ou fá-lo à pressa! As aulas acontecem, porque ele, desmazelado, não tem um plano que haja de seguir. Dúvida séria, que algures apareça: dificuldades, que surjam de momento, não são esclarecidas!

Não resolve problemas, porque o seu desleixo não permite jamais que esteja em dia e cumpra o dever. Só está pronto e sempre alerta, para abarcar, num ápice, os chorudos honorários.
Espera-os, em regra, com sofreguidão e olhar de lince!
Que lucra a sociedade, em tais circunstâncias? Bastante menos do que deseja. Convém, pois informar o Mestre, por boas maneiras, acerca do caso, exprimindo a estima que têm por ele.

Modificando-se, fica tudo normalizado, a contento de todos
O vencimento há-de ser a expressão de um dever cumprido! Então, sim, pode usufruí-lo, porque lhe pertence: equivale, na verdade, ao esforço dispendido, à solicitude e ao zelo, que pôs nos seus actos, para que os alunos se preparassem bem.

Investiu algum dinheiro, na compra de livros, para actualizar-se. Artigos modelares da sua especialidade; revistas e brochuras do mesmo assunto; livros auxiliares e outras fontes que importava consultar, não ficam excluídos.
O provérbio latino continua sustentando: Labor omnia vincit O trabalho porfiado vence todos os obstáculos.
Podemos inferir: sem esforço contínuo, nada conseguimos.
É assunto de monta para uma sociedade que deseja progredir!

Liceu Linus
1977- 08- 19

Professor - prodígio
Pode suceder que ele o seja, de facto ou pretenda, sem razão, que o julguem tal. Em ambos os casos, chama, desde logo a atenção das gentes.
Que vem a ser, afinal, um professor-prodígio?
Inteligência rara que, pela sua acuidade, apreende, num momento, as razões dos factos sejam eles embora os mais abstrusos. Pela grande intuição, entra breve e fundo, enquanto o parceiro gasta mais tempo ou não consegue.
Sendo isto assim, procura o primeiro baixar ao nível dos seus alunos, o que não é fácil, mas necessário. Tal empenho é de louvar e gera simpatias nos educandos e seus familiares.
O caso do segundo traz dissabores, durante algum tempo, mas vai reagindo, por modo lento, sem nervosismo e com persistência. Atende às necessidades, amavelmente, guardando em geral, para o dia seguinte, os casos duvidosos, que depois apresenta, bem esclarecidos. Uma vez ou outra, recorre sem demora ao pronto favor de colegas amigos e dedicados.
A boa compreensão, o desejo de acertar e o esforço empregado resolvem problemas, criam bem-estar e trazem como efeito a felicidade.

Liceu
1977- 08- 20.

É já casada: tem dois filhinhos, que são bebés, Ignoro, no entanto, se cursou a Faculdade, à maneira do marido. Seja como for, trata-se afinal de pessoas com nível, que têm compromissos, de ordem moral e até social. Apesar de tudo, vejo-a arrastando-se, deveras interessada em pessoa elegante que não é o marido.
Cai-me tão mal a sua atitude, que sinto repulsa de tê-la presente. A mulher, após o casamento, há-de ser fortaleza, em que nada se infiltre, vindo de fora. É que, na verdade, foi compromisso que ambos tomaram, dando sim, para a união! É este, a rigor, o conceito permanente do qual a Escritura nos fala amiúde.
Os dois enamorados fazem só um em afecto e pensamento, amor e caridade. Se, em vez de dois, o número é três, há corrupção, falha em fidelidade: verdadeira traição!
Ela que não ria e pouco falava, mudou por completo. Que falta de senso! Que ofensa tão grave à honra familiar, aos filhos bebés e a Deus do Céu, que preside a seu lar! Esposa e mãe é, por dever, sentinela constante do mundo familiar!

Que diríamos nós, se a própria vigia duma fortaleza introduzisse o inimigo no interior?! Não só lhe não impede a entrada franca, senão que a facilita ou garante em absoluto.
Eu, pessoalmente, não sei que faria, num caso destes, mas estou ciente de que ficava logo bem desiludido! Perderia a cabeça?! Faria desatinos?

Nyangana
1977- 08- 21
Decorreram, se não erro, 35 anos, aproximadamente. Nessa altura, andava ele pelos 35. Ao presente, roçará, talvez, pelos 70, caso viva ainda. Era bom Médico e arguto professor. Espírito raro e excelente amigo, que deixa saudades!
Nunca mais o vi. Separa-nos, pois, um longo espaço e, provavelmente, enorme distância.

Mas, como veio ao de cima, nesta ocasião, de modo especial?!
É que ele, afinal, tinha em mau conceito as mulheres todas!
Celibatário ainda, nessa ocasião, ignoro se mudou. Lembra-me o
seguinte: um dia, em conversa amiga, insinuei-lhe o casamento, as alegrias do lar, o encanto dos bebés e o apoio duma esposa,
escolhida a capricho.
Disse redondamente que jamais casaria.
Deixando-me intrigado, perante a saída, avancei um pouco mais,
ao que ele obtemperou: Olhe, meu amigo, fiquei tão enjoado, em face do que vi e tentaram, às vezes, insinuar-me, nos tempos de Coimbra, que até as aborreço!
Não insisti. Apenas observei que nem todas são iguais, havendo bastantes, que fogem à censura. Ele, porém, incrédulo já e assaz porfioso, não concordou, citando episódios, para contestar a minha afirmação.
As palavras dele saíram do passado, vindo até mim, à hora presente. Que foi o que as trouxe? A atitude nojenta de certa esposa, que persiste no ‘flarte’, descaradamente.
Também eu me revolto e sinto desprezo, pelas acções de certas farsantes!
O casamento é belo, mas desta forma há-de ser tremendo! Safa, duas vezes, para tais mulheres!

Nyangana
1977- 08- 22
A meio da semana, houve grande alvoroço. Ouvia o noticiário, achando-me absorto nos sucessos do mundo. Nisto, bem perto de mim, esfuziam as balas, com enorme presteza.
Fico assustado e julgo o pior! Mil suposições e funda algidez em todo o meu ser! Iríamos, em breve, ser trucidados?!
Última hora da vida mortal?! Sempre era certo ficarem meus despojos, em terra africana?!
Desligo o rádio, para deslindar e tento esclarecer o que vai sucedendo. Nem mais um tiro! Apago a luz e espreito, em seguida, pela janela. Não vejo ninguém, em frente da casa.

Conjecturo, de novo, mas tudo em vão! Queriam, talvez, pôr fogo à morada?! Passados momentos, enxergo um clarão, nas traseiras do sótão. Enorme fogueira se erguia açudada! Que pensar?! Morrer assado?! Até as feras escapam, mas eu…

Acorro à porta que dá para fora e noto com espanto, soldados armados, em acto de agir, enquanto do lado se vigia o lume, de mangueiras em punho. Outros ainda seguram cuidadosos lanternas eléctricas. Mas que aparato!
O nosso Reitor, ao ver-me, pela rede, exclama, elucidando:
Snakes in the grass! Don’t be afraid!
Sosseguei então. Eram duas mambas (serpentes mortíferas) que tentavam matar.
A pessoa mordida tem 5 minutos, para fazer as despedidas!

Liceu Linus
.
Cheguei a Nyangana, onde repousei, por fim de semana. O caso das serpentes bailava-me na mente e quase assediava.
Entretanto, em casa todo era olhos, não fossem esconder-se, atrás de algum móvel! Certa palavra actuava como espada, na minha cabeça. Mambas! Perigosíssimas! A pessoa vitimada tem 5 minutos, para arrancar deste pobre mundo!

Fiquei alarmado e fora de mim! Era então certo haver perigo mortal, juntinho de nós?! Colho informações e dizem que sim! Duas mambas enormes, ao pé da vivenda!
Após a mordedura, não há salvação?! - perguntava eu logo, em sobressalto.
Há, sim senhor, injectado com soro, logo em seguida. Vendo o meu interesse, elucidam-me então, sobre o modo de agir.
Após a mordedura, injectam o soro, com enorme presteza, enviando um rádio à capital do Cavango. Logo um helicóptero é
mandado, com urgência, para levar o doente à África do Sul ou mesmo a Vinduque. Logo que chegue, usam um aparelho, para ajudar os pulmões, na respiração.
Pelos vistos, não podem actuar, sem que essa máquina entre em função, Prestada a assistência, a pessoa fica salva. De outra maneira, não tem remissão.
Agora, é o tempo das serpentes: começa a aquecer. Procuram o sol, em macios relvados: quem as perturbe já sabe o que leva!
Impõe-se, como é óbvio, extremo cuidado, ao passar na relva, junto de maciços, formados por arbustos ou árvores de porte.


Liceu
1977- 08- 24

Caso do Dia: a Guerra em Angola.
Vêm diariamente refugiar-se aqui dezenas de Angolanos,
Fugindo à morte e buscando asilo. Contam o pior, acerca da guerra. Falam de roubos, espancamentos, violações atrevidas e assassinatos. Um horror sem fim!
Em 12 e 15, foi ali no Dirico. Ouvia os morteiros, com nitidez! Autêntico inferno! A UNITA de Savimbi viera de Leste,
(Caprivi), para atacar o MPLA, aqui junto a mim, bem perto do local, onde o rio Cuito desagua no Cubango.
Após a fuga em pânico do MPLA. A UNITA avançou, rumo ao Calai, onde haviam de encontrar as forças do Poente, afim de atacarem ambas as bases inimigas.

Foi no dia 20 que horríveis morteiros se ouviram no Rundu, capital do Cavango. Nessa mesma data, o Calai rendeu-se às forças da UNITA, debandando o inimigo em grande confusão!
Ao que dizem, a faixa sul já foi varrida, A vila do Cuangar
havia caído! Sobre a vila e a Missão, recebi há pouco notícias frescas.
O colega do Tondoro deslocou-se ao Cuangar, para ver com seus olhos o efeito da luta. Um pavor! Tudo esburacado! Os vidros partidos! Os bancos da capela feitos em bocados!
Perante a ousadia, levou dali o órgão e com ele dois cális, para a Missão do Tondoro.
Em seguida, foi à vila. Casas incendiadas e objectos enterrados!
No pequeno vale, a caminho do Cuangar, achou, em abundância,
Armas e munições, objectos de uso e também calçado que o MPLA não pôde levar, por falta de tempo.

Liceu Linus
1977- 08- 25
Depois de amanhã, vai fazer dois anos, que teve seu início o meu peregrinar! Vinte e seis de Agosto! Se bem me recordo, a
enorme coluna passara, de manhã, Avançava indecisa, não sabendo para onde. Olhos tristonhos, a dor estampada, o sorriso
perdido! No entanto, prosseguia, em marcha sem fim.

Nós, boquiabertos, a vê-la passar, com intenção de permanecer! Apesar de tudo, o nosso coração ficava oprimido!
Eu, na berma da estrada, imóvel e triste, olhava agonizando para o rosto de todos, Alguns deles falavam chorando; a outros, porém, embargava-se a voz; outros ainda arrancavam das entranhas palavras de espanto: Ainda ficam?!
Decidimos ficar!
A coluna passara, durante a manhã.
Já pela tarde, gente de Cachingues aconselha meu cunhado. A juntar-se à coluna, abandonando o Chitembo. Eles, por sua vez, fariam o mesmo.
Sou interrogado, porque eu, na verdade, resolvera ficar.
Pergunto as razões e, perante a resposta, digo que sim.
A coluna engrossa e a dor aumenta. Corpos sem alma, rumo â desgraça!
Agora, através da floresta, por extensos areais! Sol de rachar! Sede que horroriza! Corações que soçobram! Ficara tudo, em zonas distantes, onde a alma sofrera tormentos sem fim!
Voltaremos?! Muitos de nós julgam que sim, bailando nos olhos uma arreigada esperança!
Ficara ali tudo: o suor de uma vida; canseiras e vigílias; horas de alegria¸ um passado longo que volta e seduz, à medida que se esvai!
Ficavam jazendo membros queridos, que o ódio cego havia imolado!

Liceu
1977 - 08 - 26
Ontem já, por terras da Beira, no amado país, realizou-se, em Trancoso, a feira anual do S. Bartolomeu. Não posso esquecê- la, que a tenho gravada, a letras de fogo, na alma saudosa.
O querido Pai amava esta feira, a que nunca faltava. Com
Dinheiro ou sem ele, tornara-se um hábito. Preparava de longe o que era essencial e, no dia exacto, nada o retinha.

Por estar quente, vivíamos no Carvalhal, pequena propriedade que agora me pertence. De lá, partia o chefe, cuja vinda esperávamos, com ansiedade! Sempre a pé, no longo caminho, ficávamos tristes, de vê-lo sofrer! Mas ele saía, de rosto alegre.
Comprava mais gado, vendendo o seu, Talvez ( quem sabia?) uma égua linda? Um bezerro façanhudo! Uma junta de bois de alta qualidade?! Nisto e mais pensava ele e a esposa adorada!
Eu, porém, com meus irmãozinhos alongávamos a vista, pela fita da estrada , que ao longe se desenha, a caminho de Trancoso. O tráfego intenso bem como os faróis, durante a noite,
Eram coisa de ver-se!
Ele voltaria, mas sempre a pé! Entretanto, em cada viatura, que assomava ao longe, pensávamos nós que ele vinha também.

As horas passavam e só já tarde, pela noite de breu, aparecia
risonho o pai tão amado! Com ele vinha tudo: alegria e presentes, amor e paz! Eram uvas novas, utensílios de casa, gado para engorda e, chegando o dinheiro para tal fim, lembranças variadas que faziam delirar. uma guitarra, uma boneca, um pifarito, uma ‘santinha’!

Liceu Linus
1977- 08- 27
A roda fatal gira morosa, não tendo em conta o meu sofrer.
Desejo se apresse, mas é insensível, crua e surda! Julgo, por vezes, que faz o contrário dos meus desejos. Quanto mais ansiedade mais lenta se torna em seu deslizar! Três anos aqui,
isolado de tudo quanto amo e adoro!
De hoje a 15 dias, começam as férias do 3º período: 11 dias apenas! Trabalho não falta e, do mesmo passo, graves cuidados!
Por um lado, é bom, uma vez que me absorvem!
Junto de mim, há livros manuscritos, rádio e gravadores. Não falta ainda o amigo acordeão e o harmónio eléctrico. Belas companhias! Deus e elas é o que tenho! Nada mais!
O belo acordeão é refúgio seguro, no maior desalento! Quando o peito escurece, recorro a ele e volvo ao passado, assim me embalando como as crianças. Executo em júbilo canções da infância, a que seguem depois, outras diferentes.
Se não fora assim, ignoro o que seria a minha existência!
Corrigir os Diários, finalizar escritos e pôr-me em dia…
Apesar de tudo, um grande vazio se recorta e afubda em todo o meu ser.
Soará, ftnalmente, a hora ansiada? Poderá ter fim a grande aventura?! Contemplarei, mais uma vez, o céu de Portugal, onde o Sol amigo aparece fulgente e a Lua é de prata?!

Nyangana
1977- 08- 28
Dizia-me alguém, na vila de Manteigas:”Passamos o tempo a comer do que não gostamos!”
Agora, vejo ser exacta aquela afirmação. Quanto me cerca tudo me é estranho.
Onde o mavioso da língua portuguesa, cuja doçura encanta alma?! Onde a ternura de uns olhos portugueses, que falam e cantam, na sua mudez?! Onde o sorriso, meigo e suave de uns lábios frementes, que a terra lusitana abriga no seio?! Onde os lugares que prendem e cativam, alegrando a alma e dando ao peito um ritmo novo?!
Se olho à minha volta, nada se depara, que fale a meu ser!
Não brilha o céu, que poeiras sem fim o toldam a rigor! Que tenho para ver, ouvir e deleitar-me?! Vejo a solidão, ouço que desamo e sinto no peito o horror do exílio!
Agora, precisamente, conversa, a meu lado, um par destas bandas. Esmeram-se os dois por adoçar e florir a língua materna!
E soa a meus ouvidos qual duro garrancho, que pronto dilacera.

Qualquer língua é bela, quando tem origem nuns lábios de mulher! Aqui, porém, arranha o ouvido, não sendo capaz de
aguentar-lhe o efeito. Estas guturais fazem-me irritar. Não posso já com tal arranhão! Maior tormento não há para mim!

Às vezes, até eles se engasgam, “ Lat ons began”.
O esforço de garganta para a silaba final da palavra’began’’!
Língua assim desconsolada, inestética e dura jamais encontrei!
Se mais não houvesse, isto só bastaria, para a minha desventura!
Quão diferente não é da língua portuguesa!

Liceu Linus
1977- 08- 29
Hoje é domingo, já terceiro dia, por fim de semana!
Bem acolhido este espaço de tempo! Docentes e alunos foram para Andara, região do Caprivi, o sítio mais belo de todo o Sudoeste ( ao menos que eu saiba)
Também me convidaram, mas recusei, por motivo de saúde.
Dormem no mato, lá comem e folgam, quebrando assim a monotonia das aulas diárias. Pena tenho eu de os não acompanhar!
Os Sul-Africanos são muito práticos.
Em Portugal, não se fazia uma coisa destas! Isto, pelo menos, enquanto lá vivi. Aqui, no Sudoeste, faz-se mais de uma vez.,
Durante o ano. Esta digressão é já a segunda.

Quanto os nossos jovens apreciam e desejam coisa semelhante! Pois não admira! Ao longo do ano, desporto em barda, jogos e canções, trabalho do campo, cessões de cinema e longos passeios! Um dia mais tarde, lembrarão com saudade, a
Escola e os Mestres. Esta mocidade rejubila de gozo! Vivem seus
amores, sem intromissão! Há pão e ensino! Folgam e riem!
Os transportes são gratuitos! Que mais desejar?!
Pagam só 20 randes, pelo ano inteiro! Em compensação, vem o necessário: materiais escolares, cama e mesa, e ensino liceal!
Quanto melhor não vão os nativos de hoje, no Sudoeste Africano, que as gentes rudes da minha aldeia, quando eu era jovem! Não fui para o Liceu, por falta de recursos! A quantos e
quantos não terá sucedido a mesma coisa!

Nyangana
1977- 08- 30
Segundo apuraram testemunhas oculares, predominam ali três grupos raciais: Macondes, ao Norte; Quimbundos, ao centro, mas para Oeste: Umbundos, no centro do grande país.
Ao último grupo aderem também as restantes tribos: Lundas, Quiocos, Ganguelas e Quamatas.
A parte Norte é hoje liderada por Hólden Roberto: a do centro Oeste, por Agostinho Neto; as outras que restam, por Jonas Savimbi.. Tem a primeira 25% de toda a população; a dos Quimbundos igual percentagem; a de Savimbi 50%,
Segundo vários críticos, procedentes do estrangeiro, que viveram no mato, deslocando-se a pé e observando in loco, o viver dos guerrilheiros, a UNITA de Savimbi, no mês de Outubro de 1976, dominava cabalmente 5 belas províncias , exercendo influência, política e militar, no centro e no Sul.
Os grupos referidos não se dão entre si., sendo já secular a sua rivalidade. Esta, de facto, é responsável, ao menos em parte,
pelos graves problemas que fazem de Angola um campo de batalha.
O povo, em geral, adere a Savimbi, pois dizem as gentes que respeita as tradições, costumes e hábitos. Agostinho Neto dispõe da tribo que é mais evoluída. O seu posto avançado é constituído por brancos e mestiços o que muito desgosta a população. Assim era já, no sistema colonial, em que brancos e mestiços ocupavam sempre os lugares de relevo,
Isto é, na verdade, o que dizem as gentes, que ouço amiúde.

Liceu Linus
1977- 08 – 31 Cont.
Pensam alguns que Savimbi é racista. Por este motivo, foi interrogado, respondendo então: Nós não somos racistas: somos nacionalistas.
É de notar que, mesmo assim, persistem dúvidas, segundo tenho lido. O nome curioso que o Chefe Savimbi intenta dar ao novo Estado é o seguinte: República Socialista Negro-Africana do
Estado de Angola.
As palavras ‘negro e negritude’ que ele muito emprega, irão cavar um abismo, entre negros e mestiços. Estes, realmente, são mais evoluídos., tèm mais iniciativa e atingem 1 milhão.
Futuros problemas? Savimbi, ao que parece, intenta bater-se pela
Negritude.
O grupo dissidente do MPLA tinha isso em vista: derribar prestesmente o governo de Neto e criar nova forma, em que os Pretos de Angola e não outros, é claro, levassem a palma. Bem
triunfava, se não fossem os Cubanos, A Rússia, nessa altura não deu os parabéns a Agostinho Neto, por sair ileso!
Savimbi respondeu, um tanto irado, quando fez referência a António Jacinto, que era Ministro da Educação. Disse ele. em resumo: ‘Que fez este branco pela cultura, de origem africana?!
Importa eliminar a cultura portuguesa e por no seu lugar a cultura africana!
Segundo me parece, o chefe exímio estava nervoso, ao falar assim! Ninguém jamais poderá banir a cultura portuguesa: ficou entalhada na alma de todos, ao longo dos séculos. E não foram tão poucos! Quinhentos anos! Por outro lado, é factor de valia caldear
as duas. Isso está certo!

Liceu Linus
1977- 09- 01
Há poucos dias, repontei exaltado a certa medida que o governo de Pretória tomou sobre mim! Um colega do Liceu comunicou-me o seguinte: Para lhe darem o Permit é necessário
fazer um depósito de 600 randes!
Eu já andava mal disposto e com muita razão! Admite-se lá uma coisa destas! Desde Janeiro, a pedir mo enviassem e nada feito! Agora, já no fim do ano, é que saem com esta! Fiquei indignado! Fazem propaganda, para todos requererem o tal documento, juntando logo que é gratuito. Afinal, as coisas são diferentes!
Protestei vivamente, enquanto o professor, muito calmo w composto, tentava justificar a atitude de Pretória. Eu argumentava: não é justo, afinal, fazer assim! Tenho bem pouco e até esse nada me vêm tirar! O grava problema dos refugiados não se toma em conta! A nação é tão rica! Por que faz então uma coisa destas?! Pelo que vejo, tenho de pagar, se quero residir, neste local! Não compreendo!

Garantia firme de pagamento, quando for embora, em 78 ou 79? Como garantia, serve o Banco Barclay e o livro-documento.
Alonguei-me assim, expondo razões e alegando queixas!
Dizia o colega: A nação não precisa dele! É simples garantia! Muitos aí há que tudo gastam, ficando as viagens, por conta do Estado! Se fosse para a Zâmbia ou então para o Zaire,
arranjava trabalho?
Desfez-se em argumentos. Eu, por fim, rematei deste modo:
Faço o depósito, porque sou obrigado, mas não aprovo nem fico satisfeito!

1977- 09- 02
Nyangana
Ao chegar à Missão, por fim de semana, encontrei uma carta de Vide-Entre-Vinhas. Olhando à letra, pareceu logo de minha irmã. Sempre é bem vinda uma carta assim, mas desta vez, fez-me
surpresa, visto que , há pouco ainda, recebera de lá notícias frescas, Palpitou-me logo que havia problemas!

Afinal de contas, obrigaram a sair, da Pensão facultada , onde estavam hospedados, Pagava o IARNE. Deram 30 contos, acabando assim a protecção dispensada a estes infelizes! É assim que se resolvem problemas de tanta monta!

Se Deus não existisse, como eram lastimáveis as pessoas desprezadas! Assim, quando o mundo tripudia, sobre a imensa desgraça, fica ainda uma esperança a luzir no caminho: Deus e seu amor! Não é Ele Providência?! Eu creio no seu amor e na Suma Providência, que tudo governa!
Foram seguramente para a terra de origem! Por um lado, é agradável, mas tem os seus contras! Quem viveu fora, durante muitos anos, contraindo novos hábitos, já se não adapta.

O cunhado Martins saíra da Beira, havia 40 anos, aproximadamente, e minha irmã, para cima de 20. Como vão adaptar-se?! Não vejo, realmente, possibilidades! Além disto, que já não é pouco, surge um mundo novo, inteiramente alheio, estranho, indiferente! Mas, enfim! Fatalidade tem muito poder!

É preciso aguentar! A vida é o que é e temos de aceitá-la como se apresenta! O marido, pelos vistos, é pessoa arruinada!
Aumentam as dores, que já antes o prostravam.
O que agora precisam é calma acentuada e fé na Providência. Com o tempo a correr, melhorarão, penso eu, as circunstâncias da vida, para voltar de novo a paz e o bem-estar.
Os problemas são enormes, pois se estendem amplamente a campos diversos: económico e físico, moral e climatérico.

Que o Senhor os acompanhe e encha de coragem, para enfrentarem a grave situação. Como vão eles aguentar o Inverno, sem condições mínimas, para viver na aldeia?! Casa esburacada!
Nem vestuário nem lenha nem previsões!.

Nyangana
1977- 09-.03
Recordações diversas me surgem, nesta hora, originadas todas pela data em curso: início das aulas, em nossas escolas: cuidados a montes, para a grande feira do S. Francisco, na cidade egitaniense; celebração do simpático Santo, fundador dos Franciscanos.
Só agora me lembro de que antecipei um mês! Imaginemos, pois, que está decorrendo mês de Outubro e não Setembro.
Quando falo nestas coisas, refiro-me, sem dúvida, a 1972, pois que desde então é bem natural ter havido mudanças, de modo especial, no pós Abril de 75. Daí para diante, o meu campo de acção tem sido a África: primeiro,
em Angola e depois no Sudoeste. Cinco anos apenas, mas cheios de emoção!
No tocante à feira, celebrada anualmente, íamos a pé, saindo na véspera. Geralmente, dormia-se em Porco ou ainda na Faia, para arrancar, logo de madrugada.
A viagem orçará talvez por 25 quilómetros ou coisa parecida.
Que impressão me fizeram as casas da Guarda, ao vê-las de perto, a primeira vez! Habituado como estava ao granito escuro de Vide-Entre-Vinhas, afiguravam-se aquelas perfeitos brinquedos! Um deslumbramento!
Algumas de cor amarela; outras a vermelho; outras ainda ostentando garbosas várias colorações

Ruas tão lindas, que jamais tinha visto! Lembravam-me então as do berço natal, encharcadas e estreitas, em grandes torcicolos; diminuídas amiúde por balcões exteriores! Como tudo era belo, na cidade egitaniense, que
sorria a meus olhos, fazendo negaças!

Se não fora o cansaço, motivado pela viagem; a noite mal dormida; a minha cabeça, de encontro ao penedo, fazendo assim “ouvir as ondas do mar”; a chuvada abundante que reteve meu pai, durante dois meses, preso à cama, teria sido esplêndida a viagem inolvidável!

Quanto ao fundador dos Frades Menores, lembro com saudade os festejos dos Capuchinhos, em 4 de Outubro, na
Capital do Norte, onde passei feliz 8 belos dias.

Liceu Linus
1977- 09- 04
Ultimamente, cheguei a conclusões que não havia previsto
Parecia, no princípio, que os alunos do Cavango eram pacatos e até avessos ao terrorismo. Agora, porém, sou de outra opinião.

Pelas atitudes, que verifico nas aulas, convenço-me, realmente, de que há terroristas. Comparado a Angola é muito pior o caso do Sudoeste! Estou a lembrar-me de atitudes provocantes, durante as aulas. É claro! Faço-me anjinho, para bem do meu físico! Ai do aluno que, no meu país, fizesse o mesmo!
Leccionara ali uns 27 anos, mas nunca sucedeu um caso parecido! Por minha parte, procurava também ser compreensivo!
Mas ignoro, a rigor, o que sucederia, apesar de tudo, se algum aluno fizesse como estes! Posso algum dia perder o controlo!
É fácil, talvez após a tragédia, ocorrida em Angola,
Descomando-me, às vezes, até sem querer, à mínima causa. Vamos ver, pois, se aguento assim, até pôr o remate, em 78 ou 79.
Tentarei ao menos!
O terrorismo está de facto, no peito de cada um.. Devido, naturalmente às circunstâncias políticas, de maneira especial, à propaganda malévola e tendenciosa das grandes potências, tudo por cá é barril de pólvora. Refiro-me à Rodésia, Sudoeste Africano e África do Sul. Não podemos jamais levantar os olhos!.
Há logo vinganças, podendo ocasiona-se lastimosa desgraça. Tal situação vai de mal a pior, já que roubam impunes e notam que os brancos andam com receio!
Assim, mais e mais avançam, no caminho perigoso da ousadia.
Por mais esta causa, anseio vivamente que a tarefa entre mãos acabe depressa, Hoje, qualquer branco é para os negros o diabo em carne. Apenas lhes disseram que são
exploradores, ladrões e tiranos. Acreditando logo, puseram a confiança nos falsos profetas. Um dia virá, para
rgetorcer de orelhas.
Consta-me já, de fonte segura, que os pretos de Angola clamam bem alto pelos Portugueses. É ao destempo! Reconheceram, por fim, ser grande mentira o que lhes tinham dito. Os Portugueses serão, em todo o
tempo, os melhores amigos !
Quanto mais lidarem com povos de outra origem melhor vão reconhecer esta grande verdade! O português é dado, simples, folgazão e muito sincero. Vive em camaradagem, não é ambicioso, não proíbe os casamentos, devido à cor, não faz zonas estanques, não odeia as outras raças!
Será humilhante a colonização? Todos os povos foram colonizados, o que permitiu o seu progresso.
É ver o caso da China e as consequências da ‘grande muralha! ‘
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Liceu Linus
1977- 09- 05
Cancros em África
A vista cobiçosa das grandes potências é um dos maiores. Aproveitando habilmente os ideais de liberdade e
explorando-as a fundo, em proveito próprio, lançam os indígenas em guerras sem fim! Ora, é já sabido que a temerosa guerra não dá pão a todos nem traz ventura.

Fornecem canhões, em vez de alimento; aconselham ódio. em vez de amor; ateiam a fogueira que devora tudo, em vez de extingui-la! Será este, na verdade, o caminho certo para a liberdade?!

O segundo mal reside precisamente na ambição
desenfreada e também na incompetência dos chefes negros. Com algumas excepções, por sinal bem honrosas,
constituem eles, pelo seu despotismo, falta de humanidade, acepção de pessoas e alto desamor ao povo miserável, autêntico martírio, que só poupa os da tribo ou
do mesmo partido.

A falta lastimosa de chefes competentes, honestos e justos atira o Continente para a destruição. Nestas circunstâncias, o viver dos nativos é mais infeliz que no tempo vivido em colonialismo..

Os laços existentes entre as várias potências e os grupos separatistas são novos problemas de grande ressonância. Uma vez colocados em situação de favor, (recebem dinheiro armas, tudo), mais se avoluma a sua dependência.
Passaram, deste modo, a neo-colonizados.
Terceiro mal: total dependência dos novos senhores!
Esta situação é muito pior que a dos séculos passados.
De facto, os novos intrusos não amam as terras que lançam na fogueira. Nada ali os prende que não seja, a rigor, imperialismo e vantagens materiais.

Os povos antigos que lá se encontravam, criaram
raízes, que prendiam à terra e às próprias gentes,
contribuindo esse facto para a boa harmonia e progresso dos povos.
O quarto mal de que enferma o Continente, não falando já dos ódios tribais, ´o caso das fronteiras..
Também este cancro não é somenos, em sua importância.
As fronteiras de séculos, algo artificiais mantinha-as o poder e o respeito dos tratados. Agora, porém, já é diferente-
Só grandes chefes, amados pelo povo e por eles defendido podem salvar o Continente Africano.
Requer-se também auxílio pronto e desinteressado, qu venha de fora e seja verdadeiro, hunanitário e filantrópico. De outra maneira, o adusto Continente terá os dias contados, em poucas gerações.
Ao sabor dos ventos novos, sem Norte nem bússola
Servirá tão só para cevar a cobiça alheia.

Liceu Linus
1977- 09- 06

Psicologia do Negro, em certas épocas.
O estado psicológico dos nativos africanos é efervescente. Assumem para logo atitudes irritantes, provocam os brancos e são importunos. Nada os satisfaz e julgam, na deles, que todo o mundo é seu! Pensam, ingénuo, que as outras pessoas só têm deveres.

Quanto a si próprios, já o caso é diferente! Direitos, sim! Apenas regalias! Recebendo um favor, nem sequer agradecem. Por outro lado, são provocadores.

Caso o processo não dê efeito, criam situações de que outrem ruborize, para ser vaiado e até envilecido. O ódio no peito alimenta-se e cresce. Pata eles o Branco é o grande inimigo! que importa eliminar, depois de humilhado! Encontra-se em jogo o Branco do passado. Podendo roubá-lo, nada lhe deixam!

Mais tarde já, reconhecem o erro, quando a fome e a desgraça os fazem pensar! Mas então não há remédio!
Julgam, levianos, que ser independente é nada fazer! Ter
quanto precisam! Apontam a dedo as casas dos Brancos;
sorteiam-nas logo, marcando o destino..

Também, não escapam os meios de transporte, filhas e esposas! É um horror viver no meio deles, em tais circunstâncias.
Soprou de longe a campanha inimiga.! eles ouviram e acreditaram. Potências invejosas pregaram doutrinas que o Diabo forjou! Não é, por certo, o amor destes Negros que
leva outras gentes a pregar a subversão! Apenas inveja, ambição e injustiça; espírito diabólico de mal fazer

Criar zonas de influência, vastos mercados internacionais, garantir o bem-estar, para os seus conterrâneos!
Os Negros, em geral, desconhecem tais aspectos, que são os verdadeiros. Não é com armas que se dá instrução, mata a fome às gentes e levanta um povo! Não é também por mio de tanques, semeando a morte, que se ergue uma nação! Não é com ódio instilado nas crianças, desde o tempo escolar, que prepara a juventude negra para a glória dum povo!
Não é com Marxsmo, importado de longe, que se fabricam modelos, para outros envergarem! Interessa de facto um aspecto diferente e oposto àquele!

Humanidade, compreensão, amor e simpatia, colaboração e modos gentis, para levara bom termo problemas vitais.
Não falte equilíbrio, tempo bastante, discernimnto
espírito prático e boa vontade! O resto é mentira, injustiça e erro, hipocrisia, destruição e morte.

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Memórias 32

AMADORA
1-5-1989
Abril, no seu termo,que afinal foi ontem, deu o tom a Maio.
Na verdade, está quente. São 16 e 1o, ficando-me a impressão de que hoje,a rigor, é um dia estival. Se ontem, afinal, foi a 22 a temperatura, hoje é mais
alta, com toda a certeza.

Vi os seus efeitos, no jardim de Belém e, de igual modo, no próprio
auto-carro. Lá, demandavam a sombra de ãrvores folhosas, sentando-se as gentes, quase ofegantes, nos bancos jacentes; nos transportes, fugiam todos para o lado oposto ao do Sol escaldante.
Terá sequência o dia presente?

É certo e sabido que Abril foi chuvoso, parecendo Inverno. Entretanto, não
foi chuva abundante que saciasse as barragens como também o solo ressequido.
A gente, em geral, aprecia o tempo bom mas, se não chover mais, haverá no país,casos a tratar, com certa dificuldade.
Que Deus-Providência atenda solícito as nossas carências, pois só Ele, afinal, é que pode valer-nos!
Quem é Deus?
Responda Camões, na Epopeia Nacional: "É aquele que o impossíbil pode!"
Recordemos também o saber popular:"Nada anda à vontadede Deus, como é o tempo!"
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Amadora
2-5-1989
Entraria na moda? Ainda que fosse, não era novidade! Com efeito, em Vila Soeiro (Fornos de Algodres), havia, em tempos certo casal que
tinha dissabores, pela mesma causa. Vou ser mais claro!

Certa esposa, algo descuidada, envergonhava o marido, por andar ranhosa. Isto, exactamente, foi referido por alguém do local, passoa já idosa, que veio a falecer com 93 anos
Voltando ao caso, o marido aguentava, mas sempre nervoso. É que ela própria, sorvendo embora, engrossava o monco (muco), Ao mesmo tempo, alongava-se bastante, em frente dos lábios.

Quando isto sucedia, vinha logo ele, com a frase de sempre: Ó Maria. assoa-te, que és a minha vergonha!
O caso de hoje não foi bem igual, mas algo senelhante! Eram dois jovens : ela, sentada, junto de mim; ele, de pé, também ao lado.
Que havia de suceder?!

Enquanto eu me enervava e harto indispunha,com tanto referver daquele nariz,ele, adorador, nem se apercebia da figura infeliz, que ela estava fazendo!
Nunca pensei que uma jovem casadoira fosse tão porca!
Inspirava nojo e faria correr um pobre aleijado!.

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Amadora
3-5-1989
Se mais vivermos, então mais veremos!
Nova surpresa hoje me tomou! Ao passar em Benfica, deparou-se-me alguém que me encheu de espanto. Era uma jovem dos seue 18 anos.
A princípio. afigurou-se-me um rasgão, em frente da saia ( espécie de saia!)

Entretanto, olhando melhor, notei prontamente haver-me enganado, pois era feitio. Admiti, nessa hora, que a jovem aludida não fosse honesta ou então que sofresse da cabeça! Tudo figurei, poia não concebo que, em simples mini-saia, possa haver feitios que penetrem fundo, na zona pudenda!
Fizeram sso, primariamente, na zona posterior. Agora, levaram a coragem para a zona da frente. Não será impudor, tremenda ousadia. e até falta de senso?!
As outras pessoas não merecem respeito?! Para onde caminhamos?!
Haja honestidade, na mulher portuguesa que, em tempos, foi exímia, neste
particular!
A minha censura não vai abranger todas as mulheres, bem entendido!
Li, no passado, um livro curioso, cujo nome apreseno: A Mulher em Portugal, Elogio maior e mais completo não era possível, acerca do pudor e honestidade que distinguia a mulher portuguesa
Se o autor escrevesse hoje poderia manter o que havia assegurado?!

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Amadora
4-5-1989
Logo de manhãzinha, ouvi esta frase, na camioneta que rumava a Lisboa:"Hoje, é o dia da espiga!"
Recordei então a famosa quinta-feira da Ascensão do Senhor, que já foi
dia santo.
Sabemos da Escritura que o Senhor Jesus, passados 4o dias, após a Ressurreição, deixou este mundo e foi para o Pai, ficando sentado à sua
direita.
Este é o facto ímpar que vai ser comemorado, no próximo Domingo,
dia 7 do corrente.

Deixando agora este belo aspecto, voltemos breve ao dito inicial
Logo que a ouvi, saiu-me espontânea a frase seguinte: se fosse apenas hoje!
É verdade palpável : de espiga, afinal, são na verdade, quase todos os dias! Toma-se "espiga", como sendo azar,, contratempo ou má sorte,
inêxito grave, decepção e angústia.

São tantos os problemas que a vida nos põe! E nesta época!
A receita auferida não dá para comer, segundo a necessidade. É preciso
restrngir, em quantidade e até na qualidade!
-- Que come ao almoço?
-- Sopa!
- - E ao jantar?
-- Sopa!
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Amadora
5-5-1989
Ferreira Comes, Bispo do Porto.
Faleceu há pouco. Televisão e Radio bem como a Impremsa falaram
muito, acerca dele, pelas suas qualidades, obra realizada e. sobretudo, porque fora exilado, no tempo de Salazar.

As Esquerdas então fizeram do facto cavalo de batalha, apontando o Prelado como grande campião e insigne paladino da liberdade.
De tudo o que ouvi, a respeito dele, guardei uma frase que vou deixar aqui, por ser, realmente, de sua autoria.:" De joelhos, diante de Deus, mas de pé, diante dos homens"

Define, a rigor, o carácter singular de Ferreira Gomes.
Havendo injustiças, devemos apontá-las, verberando atitudes, e corrigindo falhas, sem temer consequências
Os primeiros são mártires, por via de regra, mas, lançada a semente, ela vai germinar, em tempo breve.

Quanto ao exílio, tê-lo-ia evitado, se fosse mais prudente,
mas não era oportuna a carta do Prelado a Salazar
Sintomático foi que todos os colegas se houvessem calado!
Sinal de aprovação, reprovando a atitude de Ferreira Gomes?!

Todos nós sabemos que Salazar era Catedrático, na Uviversidade e que foi instado, uma e muitas vezes, para tomar as rédias do Governo portugues. Por fim, a rogo de muita gente, aceitou o cargo, mas impôs condições: ser ele a governar e não a ser governado

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Amadora
6-5-1989
1492 ou 1450?
Destrinçar este caso é tarefa curiosa, que agrada aos Portugueses e causa desgosto aos vizinhos Espanhóis. Trata.se agora de saber claramente
se foram eles ou nós quem primeiro chegou a terras da América.

Ainda que fosse como diz a História e sempre estudámos, cabe-nos também uma parte de glória, pois Cristóvão Colombo estudou em Portugal
a arte de navegar. casou com uma filha de Bartolomeu Perestrelo e ofereceu os serviços ao Rei português.

Hã quem afirme ser ele português,embora não haja certeza absoluta.
Quanto às datas, está o mundo alarmado, esperando que o assunto fique bem esclerecido.
É quel nas Baamas, foi agora descoberta uma bela inscrição,
deveras interessante, com a data precisa de 145o, a qual apresenta, ao lado,
navios desenhados, Há uma diferença de 42 anos!

O dito por não dito, na História Universal?
A primeira vez que fui a Barcelona, em 1946, avistei do comboio uma
estátua colossal, no porto da cidade. Ignorando a referência, pergunto a um
espanhol: que es aquello?

Volve ele, com altivez e grande arrogância: Aquello es Colom!
Inchou como a rã que queria ser boi, mas perdeu o inchaço,quando eu
disparei: no tienen Ustedes un español para poner alla?!

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Amadora
7-5-1989
" A língua que Deus entende!"
Foi um Bispo da Malásia que veio com esta frase, referida claramente à
Língua Portuguesa. Ainda hoje, naquela zona, como em outras mais dos
vários continentes, se reza em Português.
Não é isto admirável?! Não será também motivo de alto orgulho para
os Portugueses?
Mas, infelizmente, o 25 de Abril, por quanto originou, levou os Porugueses a sentir vergonha das suas raízes! Que tristeza! Um povo tão grande, benemérito dos povos, arauto do Evangelho, pioneiro insigne da navegação
no Mar e no Ar!...
" E se mais mundos houvera, lá chegara!"
Que disse Armstrong, ao voltar da Lua? Que o "horizonte artificial",felizmente inventado por Gago Coutinho, lhe tinha servido,
para ir e voltar, com segurança. Maior elogio para o povo português?

Pois é certo e provado: em muitas zonas do Globo, que já fizeram parte do Império Português e se perderam ou foram roubadas, consarvam as gentes a Língua Lusitana, em suas relações com o nosso Deus.

O mesmo acontece, ainda em nossos dias, tanto em Malaca, Ceilão e
Baamas, como no Rogo e outros lugares, pelo mundo além.
É de notar que vocábulos nossos fazem também parte do léxico nacional.
Sempre é verdade que a Língua Portuguesa é aquela que Deus entende.
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Amadora
8-5-1989
Adam Smith
Bem se vê, pelo nome, que não é português! Sendo isto assim, a que
propósito vem um nome estrangeiro?!
E deveras pertinente a pergunta exarada, que muita gente faria. Por esta razão, vou matar, desde já, a curiosidade aos amigos leitores que assim o
desejem.
Quem disse aos Portugueses que o nosso Fernão Lopes, já no sécolo XIV, foi, na verdade, o maior historiador de todos os tempos, como
de nações?Não foi Adam Smith quem o afrnou, mas trata-se igualmente de quem não era luso! Que pena me faz! Ser preciso dizê-lo os que são estranhos! Não sabemos o que é bom nem apreciamos o que vai por nossa
casa!
E Adam Smith,afinal,que foi realmente o que ele esclareceu?
Que a época do Gama foi a mais extraordinária da História da Humanidade, pelos feitos gloriosos que o povo portuguès levou a bom termo!
Nem assim acreditamos ?
Será verdade que preferimos. realmente, viver apagados, tendo iluminado tantos povos e nações?! Sendo valioso o que é portuguès deixa de o ser, para nós, portugueses?!
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Amadora
9~5-1989
A Sonda Fernão de Magalhães.

Esta sonda admirável que foi agora lançada pelos Estados Unidos, tem por missão fotografar, a rigor, a superfície de Vénus, em 90% ou
prõximo disso.
É um feito espectacular! O Atlantis (foguetão de lançamento), já
regressou ao globo terrestre e fez isso afinal, em boas condições.
Tudo, tudo grandioso! Tudo, realmente, fora de série! Entretanto, a razão principal do presente Diário não´é, precisamente, o facto em si, embora
relevante!
É, sim, o nome que foi dado à sonda. Fernão de Magalhães é
o maior navegador de todos os tempos e até lugares, sendo ele, a rigor, quem deu a volta â Terra, pela primeira vez.

A escolha deste nome, que é português, redunda em prestígio, honra e glória do nosso Portugal! A navegação aéria vê-se prestigiada, utilizando o nome do grande navegador

Boa liçãopara o mundo em geral, que às ves nos ignora, e até, para os
críticos de origem lusa, que são injustos, ao falarem dele!
A morte do herói ocorreu, nas Filipinas,( Ilha de Cebu) varado por uma seta.
Tinha navegado pelo Ocidente. Pelo Oriente, já outros portugueses lá
tinham chegado!
" Primus circundedisti me" Para Elcano, é, realmente, falso,( Foste o primeiro a circundar-me!) Glória para Maglhães e não para Elcano.

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Amadora
1o-5-1989
Século XV e XVI - Descobrimentos Portugueses.
Na semana passada, o nosso historiador, António J. Saraiva, dissertou
largamente, sobre descobrimentos, na televisão.

Focou ele, então, o seguinte assunto: por que é que os Portugueses foram os primeiros a lançar-se ao mar? Haveria razões para serem pioneiros?Tantos outros povos foram navegadores! E eram destemidos!
Fenícios, Gregos e Cartagineses; Egípcios e Ingleses; os Noruegueses e
assim os Holandeses. Outros houve ainda, como os Espanhóis.

A opinião de J, Saraiva é a que segue: " A nossa navegação foi única no mundo, por se tratar duma acção colectiva, Toda a nação esteve nisso empenhada. Autêntico projecto de carácter nacional!"

Não é contestavel esta resposta, já que nos outros povos o caso em
vista foi diferente! Eram, de facto, acções individuais, motivadas ali por feia cobiça, harto desenfreada. Assim apareceram os famosos piratas,
qual Drake inglês e outros mais.
À opinião do arguto historiador, acrescento agora, de munha lavra, o
que vem ao de cima: razões ponderosas de carácter científico, social e político, bem como religioso.
De facto, circunstâncias peculiares de alto relevo,eram-nos favoráveis

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Amadora
11-5-1989 Cont.
Aspecto Científico
A navegação não foi ao acaso nem se fez apenas,â vista de terra, como sucedeu com outros povos. " Por mares nunca dantes navegados".
Diz a tradição que o egípcio Necau fez o périplo da África.
Nenhun documento o pode comprovar, mas ainda que surgisse, trata- se de acto, bem junto da costa.
Fazendo-se ao mar alto, lá ficava para sempre! O mesmo sucedeu ao povo Fenício e outros mais.
Os Portugueses é que introduziram a navegação, dita científica, podendo alargar-se, pelo Mar alto, sem perigo de extravio.

A utilização de coordenadas geográficas permitia-lhes, pois, identifucar todos os lugares, determinando sempre a latitude e a longitude.
Por tais razões é que vinham astrangeiros ilustrar-se em Portugal.
aprendendo assim a arte de navegar.
É muito curioso que à navegação aérea foi também Portugal que lhe deu início. Imortalizou-se Gago Coutinho, inventando, para isso, o
Horizonte Artificial
O Infante D.Henrique e a Escola de Sagres são a glória dum povo e o farol da Humaidade.
Há quem chame ao Infante D, Henrique o maior homem da Humanidade. Todos os seus bens, que eram muitos, foram aplicados, em favor da Ciência e da Humanidade, Após a morte, encontraram-lhe um cilício, em volta da cintura.
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Amadora
12-5-1989 Cont. Aspecto Político
Ao tempo glorioso dos Descobrimentos, as nações europeias ou estavam fragmentadas ou ainda a braços com guerras intestinas ou em luta renhida com ferozes inimigos, de que não era fácil obter a liberdade.

A este propósito, vêm logo os Castelhanos, Alemães e Franceses,
Ingleses e Gregos,Italianos e outros.
Temos, por exemplo, o caso relevante dos nossos vizinhos. A Espanha actual, como conceito de natureza política, data somente do século XVI.

Unidos em um reino, Leão e Castela, pelo casamento de Isabel e Fernando,
gerou-se prestesmente a ideia da expansão e até da conquista de toda a Península.
Não se consultam as populaçóes. É a força das armas que impõe os regimes, trate-se embora de povos civilizados.
Assim, o reino andaluz, em 1492; o reino de Navarra ( país basco),em 1516.
Recordemos agora que nós, Portugueses, no século XIV, com D.
Afonso IV, já tínhamos ido às Ilhas Canárias, por mais de uma vez,

Quer isto dizer que a Espanha actual só ficou disponível, no século
XVI. para iniciar os Descobrimensos. Nesta data, não havia sítio, aonde
os Portugueses não tivessem ido já.
" Se mais mundos houvera, lá chegara!"

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Amadora
13-5-1989
Aspecto Social
O sistema político, vigente nestes séculos, veio condicionar a vida social. Diversos povos, embora ribeirinhos, não puderam então fazer-se ao mar, por estarem subjugados. É o caso dos Gregos, Biscainhos e outros.

Havendo guerras, no seio dos povos, faltava já tempo e os meios necessários, para as façanhas do Mar.
Portugal não tinha empecilhos. Havia grandes senhores, principalmente com D, joão I, que recompensara, muito largamente, os serviços prestados, na guerra com Castela.

Haja vista, por exemplo, Nuno Álvares Pereira, a quem pertencia um bom terço do País! Apesar de tudo, nada impedia que os Portugueses de então se lançassem na aventura. É que, e fectivamente, o nosso País achava-se em paz.
O perigo castelhano tinha desaparecido, uma vez que Aljubarrota se impusera com firmeza. Em 40 minutos, com 5ooo homens, resolveu-se o problema.
Vizinhos do Mar, gozando de paz, boa união e grandes aspirações,
chefiados por homens que viveram a findo os problemas da época, estávamos fadados para a grande aventura.

Muita gente, para se ver livre de senhores embirrentos e dominadores, ou por ambição, ideal religioso ou desejo de glória, preferia, desde logo, sujeitar.se a tais riscos
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Amadora
14-5-1989 Aspecto Religioso
Como a navegação foi, na verdade, um projecto nacional, assim também a evangelização! As Crónicas da época e outros documentos
são disso a prova. Os nossos Reis encaravam a sério a questão religiosa, enviando Missionários para as terras de Além-Mar. Junto com os guerreiros, os comerciantes e aventureiros, iam Religiosos e outros elementos, destinados sempre à evangelização.

Por este motivo, pôde Camões afrmar com verdade: "Dilatando a fé
e o império".
Lembra-me, a propósito, uma alínea famosa do programa elaborado
por D, Sebastião:"Quero ser na vida o Capitão de Deus!"
O primeiro Canto da nossa Epopeia exprime claramente o ideal deste Rei, que seria um assombro, não só pata a Mourama, se não também para o mundo inteiro
S, João de Brito, S. Francisco Xavier, santo António de Lisboa, Padre António Vieira.. Padre Anchieta e tantos outros falam bem alto, sobre este assunto.
Vêm para já, a talho de foice, os grandes privilégios bem como as indulgências que os Sumos Pontífices concediam ao País e seus Soberanos, pelo tipo de Cruzada que sempre revelaram.
Em conclusão: este nobre espírito foi nacional e levou muita gente a
servir então a causa do Evangelho

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Amadora
15-5-1989
Passou por nós o 13 de Maio, que reuniu em Fátima centenas de milhar: peregrinos devotos, vindos todos eles, dos mais diversos lugares!
Falou-se em várias línguas, pois havia gente de origem inglesa, italiana, suíça, alemã; da Jugo-Eslávia, Estados Unidos; Espanha e Holanda, Polónia, etc.
Segundo constou, seriam bem mais de 300,ooo pessoas!
Tudo maravilhoso, pelo espírito fé, que ali as conduziu!

Só não gostei de certo locutor, pelo modo vincado como pronunciava
o "s" reverso. Uma calamidade, avolumada ainda pelo micro de serviço!

O s aludido, em final de palavra foi um horror! Desfeia tanto este
lindo idioma, quando alguém descuidado o apresenta assim!
Imitemos a pronuncia da Coimbra Doutora! Sirva unicamente este padrão!

Por que não imitar o s alemão, francês e brasileiro?!
Os estrangeiros detestam o Portuguès, quando ouvem pronunciá-lo. de maneira chiada, Acabemos para sempre com esse chiadeiro e ficará o
Português como a língua mais doce, harmoniosa e suave do mundo inteiro!

Este desapreço é provocado pelos emigrantes, quando analfabetos e descuidados.
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Amadora
16-5-1989
Pela segunda Vez!
Logo à primeira, fiquei alarmado! Bem se deixa ver que um facto inesperado, assaz repugnante e dado em presença, desce muito fundo, em questão de alcance, pois na verdade, tem grande repercussão em todos os
circons tantes. Não sabe o leitor qual é o assunto que estou visando, maz eu
esclareço.
Há dias, tratei igual caso, em pequeno Diário. Dessa vez, fosse embora a pimeira, surgiu msis forte do que hoje o fiz.
Deu-se o facto da seguinte maneira: viajava eu, de Lisboa-Amadora. na
Rodo-Viária,
Vinha satisfeito, pois achara um lugar da minha preferência, junto à janela, embanco singular.
Ocupava então a banda esquerda, no transporte indicado.
Pois nuito bem! Quando tudo ia certo, aproxima-se um preto, alongando um braço, por cima de mim, para abrir a janela, na parte superior.
Até aqui, parecia normal quanto ele fizera.. Podia, naverdade, estat sflito. Nada a objectar! Mas, oh surpresa! Quando menos esperava o desfecho imundo, atira um escarro, harto volumoso, deixando-me atuedido, por algum tempo!
Disparei seguidamente: Isso não se faz! Javardices assim, escuso-as eu! Não se usa cá, por ser imundo!

Bom! O tempo avançou, até este dia! Repete-se exactamenre a mesma acção! Só que hojr, por acaso. encontrava-me, sim,mas do lado oposto e ninguém foi vítima.de restos nauseabundos, spalhados pelo ar!

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Amadora
17-5-1989
Lembramos hoje S, Pascoal Bailão.
O Santo e o dia fazem evocar acções da ninha vida, que há muito ocorreram.
Nesta data precisa, começavam. no Fundão, os primeiros exames. no ano recuado - 1934!. Tratava-se já de matérias leves e menos difíceis:
Religião e Nusica.
Sendo embora assim, havia apreeensões, não obstante fucar próximo
o final do ano. que me traria , pelo S. Pedro,( 29 de Junho,) as férias grandes. três longos meses,, sempre curtos e breves, para a minha pessoa!
Estas as razões por que não esqueço o 17 de Maio!

Após um ano lectivo, cheiinho de cuidados e sérios contratempos,bastando para isso os enormes problemas que trazia, para logo, a minha adaptação ao regime de Internato, sempre esmagador e até desumano, vinha brevemente o papão dos exames, que era sufocado pela força hercúlia da liberdade, em férias grandes!
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Amadora
18-5-1989
" Onde disse, digo que não disse".
Ouvi esta frase, há muito já e foi-me despertada por uma ocorrência
bastante recente.
Tem esta a ver com uma inscrição, encontrada, nas Baamas. onde se leria a data recuada - 1450. Teriam os Portugueses alcançado a América, 42 anos, antes de Colombo?!
Historiadores e críticos estão acompanhando, com sumo interesse, o caso em foco.
Exame posterior revelou, afnal, que a data suposta dista de nós apenas meio século!
Apesar de tudo, a questão permanece, já que foi revelado encontrar-se um navio no fundo do mar! Procede~se agora ao exame do caso.
Surgirão dados , para confirmar a prioridade, em ordem aos Espanhóis?! É o que há-de ver-se!

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Amadora
19-5-1989
Já o tentara, por várias vezes, sem resultado! Achava, geralmente, algum obstáculo, a formar barreira!
Hoje, porém, tomei a decisão e fui por diante! Trata-se, afinal, da viagem suspirada a Santo Adrião( Póvoa). Não foi ali que entreguei o manuscrito, em Agosto (88)? Vão já passados quase 1o meses e nada referiram, acerca do livro!Bom! Urgia me dissessem o que há resolvido! Ou sim ou não!

Preciso de saber!Pelas 11 e 30, chegava à Editora que é designada por Europress! Entretanto, nada lucrei! Só foi prometido escreverem, sobre o caso, na semana próxima. de 21 a 28 do mês corrente1

Aguardo, pois, me seja relatado o que desejo saber, no tocante ao
livro " A segunda Noite" -- Diário vivo de 1975!
Lá diz o povo: "Para tudo, afinal, se desejam bons princípios!"

Não é, realmente, o que está acontecendo, no caso presente! Aguardemos, no entanto!
Venha agora em socorro outro rifão: " Nem sempre o Diabo se
acha atrás da porta!
Para bom remate e esclarecimento: a minha confiança não está no Diabo, mas acima de tudo na Divina Providência.

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Amadora
20-5-1989
Assédio Masculino.
Está na ordem que o dia nos traz. o candente assunto. Muito se escreveu e foi dito em conferências, acerca disto. Por estas razões, também
eu me permito revelar o que penso, a tal respeito.
Focando o assunto, várias perguntas, se podem fazer:

1 . Que é que se entende por assédio masculino?
2 . Existirá, de facto, ou será talvez pura invenção?
3 , Em caso afirmativo, quais serão, de facto, as suas causas prementes?
4 . Haverá também assédio feminino ou será mero fruto da imaginação?
5 . Qual dentre eles,será,realmente, o mais perigoso,insistente e importuno?
6 . Causas gerais do assédio feminino?
7 . Como evitar o assédio masculino?
8.Qual dentre eles é o mais disfarçado?
9.Qual dentre eles é o mais nocivo?
10.Em Democracia, há muita liberdade?
11. Tem a Santa Igreja papel a exercer, no caso tratado?

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Amadora
21-5-1989 Cont
1º .
Por assédio masculino, entendemos obviamente a perseguição que o homem intenta à mulher cobiçada, para fins sexuais. Com essa mira, jamais a larga, surge em toda a parte, aprecia imenso encontrá-la sozinha, promove situações, tendentes ao diálogo e tenta, de cada vez, progredir alguma coisa.
O olhar denuncia-o, os gestos e movimentos, de igual maneira também
Quanto mais ela foge, mais ele persevera e lança ao ataque.Faz loucas promessas, oferece préstimos, facilita contactos. não quer simplesmente beijos e abraços.

Partimos do princípio que ela não quer nem se presta a isso. Este proceder é que é responsável pelo nome dado - assédio. É um termo, afinal, de cunho militar! Assediar uma Praça! Quer isto dizer: atacar e submetê-la, com o fim de a tomar, guardando-a para si.

Daqui, portanto, a aplicação , do termo à insistência importuna ,junto de alguém, para levar a pessoa a relações sexuais

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Amadora
22-5-1989 Cont.
2 º.
Existirá tal assédio? Contra factos não valem argumentos! Verificam-se eles?Logo. existe assédio!

De casos sei eu, em que a parte feminina, assaz contrariada e sempre indeffesa, optou brevemente pela deserção, abandonando o emprego.
Isto é muito grave! Representa um abuso de tipo abominãvel!
Nestes dias, porém, é mais grave ainda, pela dificuldade em obter emprego
De lamentar é o caso, em que o homem lascivo, abusando da força.
rabulice ou dextreza, pretende levar as coisas bel-prazer!!
Por vezes ainda, abusa até da sua posição, na craveira social.

Havendo anuência da parte feninina, já se não aplica o nome "assédio."
O homem que o é nunca recorre ao uso da força, pois em tal caso, é
mero selvagem e besta humana! A mulher é um ser livre e merece respeito a sua dignidade.
Em tais circunstâncias, pode matar o agressor, não tendo à mão outra saída.A sua consciência fica tranquíla, perante Deus.

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Amadora
23-5-1989
Quais as suas causas?
3 º.

Não há efeito sem causa, diz a Filosofia. Averiguando bem as razões
primárias, notamos desde logo que o primeiro impulso é originado pela mulher.
Haverá sempre excepções, à regra geral, bem entendido! Ninguém pode negá-las, mas por via de regra. dá-se o que eu sustento.
Isto aplica-se, de modo especial,.. em nossa época.

De facto, a maneira de trajar, nos dias que passam, abre caminho a tal situação. A mulher, neste caso, provoca o outro sexo, desperta, excita e impele.
Por fim, vem o descomando, a força da natureza, O abismo está em frente! É a sedução ... a luz a encandear. Nestas circunstâncias, ou a fuga veloz ou o refúgio em Deus, pela oração!

Se a mulher é honesta e segue os princípios da Moral cristã, nenhum
homem avança, a nao ser, já se vê, um tarado sexual ou um animal, com forma humana
Por isso eu digo que o nó da questão reside na mulher.

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Amadora
24-5.1989
Haverá também assédio feminino?
4 º.

Que eu me lembre agora ninguém pôs a questão, mas ponho-a eu!. Respondo que sim. Tanto mais perigoso, quanto mais disfarçado, subtil e
atraente ele se apresenta!. E esta questão não é só de hoje! Não vem na
Escritura um exemplo curioso, a este respeito?!
Que aconteceu a José do Egipto?
Recusando uma oferta, em moldes satânicos, foi caluniado, seguindo-se o cárcere.
Quanto ela não fizera, para o seduzir?
Eu, pessoalmente, observei alguns casos, que fundo me impressionaram!Podia citar um caso famoso, ocorrido, na Inglaterra, quando reinava Isabel I.
Mister Raley era favorito da célebre Rainha, (Julgo não me enganar, sobre o nome exacto). Que género de morte o esperava, sendo a vida um mar de rosas? Um dia casou: foi a desgraça, morreu na forca.

Um assédio feminino dos mais horrendos!
Então não houve assédios femininos de grande categoria?!
Se a questão existe, por que a nao põem?


Amadora
25-5-1989 Cont.

Qual dos dois é o mais nocivo?
O assédio feminino é mais danoso, Se não vejamos!
O do outro sexo não é excitante, bastando a recusa da parte feminina, para desligar
O mesmo não sucede com a parte contrária, que é mais insistente,, mais importuna e insatisfeita, quando tal ideia entre, de facto, na cabeça de alguma.
Por outro lado, a atitude feminina, em que houve decisões, actuando com vida, é muito excitante, principalmente, se usa então o maior dos trunfos.
Além do mais, havendo relações que dêem origem a novos seres,
trazem encargos e novos cuidados. Por estas razões, concluo, pois, que
o mais nocivo é o feminino. Casos aparecem que levam a mulher a pôr-se nua, perante o homem que ela cobiça. Nele, há mais decência e menos coragem, o que torna o assédio menos perigoso,

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Amadora
26-5-1989
Cont.
6 º.

Causas gerais do assédio feminino:
1.Intenção de casamento; 2. Enervante ciúme, decorrente do mesmo; 3 . Vingança por desforra. 4.Instinto sexual; 5 . Amor exaltado; 6 . Vaidade e orgulho; 7 .Sigilo e segurança.
1 . Pode ser, em alguém, a maneira possível de assegurar talvez a posse do noivo. Há, na verdade, o receio de o perder! Com um flho, pois, a estreitar os laços paternos, afigurar-se-ia como provável o futuro enlace.

2 . Existindo um concorrente, o que sucede, não raro, pode levar uma parte a assediar a outra, para criar uma barreira, julgada intransponível.
3 .Ocorre, por vezes, a chamada vingança, quando uma das partes contrai matrimónio, entrando em fúria a segunda pretendente. Esta, geralmente, procura a desforra, levando assim o noivo perdido àquilo que não devia. -
o adultério.
4 . Os encantos dum rapaz que desperta uma jovem somente pelo sexo, quer dizer, pelo prazer do instinto sexual, não havendo outro fim. 5 . Dá-se, por vezes, a entrega por amor, como prova cabal de generosisade e elo de ligação, entre as duas partes: é reforço e complemento desse grande amor.

6 . Verificam-se também alguns casos de vaidade: sentir orgulho de viver ligado a certa pessoa, que tem alto prestígio e exerce influência de carácter sodial; 7. A segurança, por nada extravazar, exerce igualmentr influência notável.A crítica mordaz a factos do género é sempre temida e
contém muita gente! Eliminando o receio, fica desde logo a porta aberta

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Amadora
27-5-198 Cont.
7º Como evitar o assédio masculino.

Antes de mais, dar formação de carácter moral às nossas jovens, afim de que elas não estimulem paixões desordenadas; incentivar o gosto das boas qualidades; recomendar a modéstia , humildade e renúncia; o espírito
generoso de sacrifício; a caridade; a honradez e o respeito ao próximo.

Não pode esquecer o amor acendrado ao Pai do Céu, que é base segura , como garantia de quanto existe.
Em segundo lugar, incutir nos jovens o respeito sincero do outro sexo, vendo nas donzelas "irmãs de sange,"futuras noivas e mâes de seus filhos.
Habituá-los, desde longe, à mortificação e domínio de si, pela renuncia de tipo cristão e garantia segura dum lar futuro que seja ditoso

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Amadora
28-5.1989

Cont.
Como evitar o assédio feminino.
Directamente não o julgo fácil, a não ser pela fuga, mas esta medida nem sempre é exequível. A transferência de alguém para lugar distante seria
meio acabado, entretanto, deveres a cumprir, bens a administrar e outros
factores, que podem existir, impedem, tantas vezes, o bom êxito do caso,

Mais eficiente há-de ser, com certeza, a boa formação de carácter moral, a ter logo início no próprio lar. Havendo princípios que se imponham à vida
e procurando viver a sua religião, este belo recurso terá mais eficácia.
Assim o creio eu.
Somente em casos de paixões violentas ou exaltadas não dará fruto. ou será mais precário. Aquela pessoa que, em geral, se domina, fazendo-o por Deus, com a ajuda celeste, é que está defendida, contra os perigos desta natureza.

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Amadora
29-5-1989 Cont.

Qual o mais disfarçado?
Sem dúvida nenhuma que é o da mulher! Até porque esta simula bem melhor que um homem qualquer! Sendo assim, é mais perigosa, pois colhe
inocentes, com facilidade.
O perigo oferecido pelo varão é mais sacudido, assaz aberto e aclarado, traduzindo-se, não raro, em actos de violência..
Daí que, a tempo, o elemento contrário pode livrar-se, desde que actue com prontidão
A mulher que assedia é perigosíssim, até porque joga com a malícia, armando em vítima, num caso qualquer,


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Amadora
30-5-1989
10º
Cont.
Democracia e Liberdade, em larga escala?
Com certeza, mas tem limites! É condicinada pela Moral cristã e pelos direitos que assistem aos outros! Se assim não fosse,
vivíamos errados, invadindo a esfera alheia, onde os outros têm seus direitos, que são inalienáveis!

Onde terminam os nossos direitos? Onde começam os direitos dos outros.! Duas fronteiras nos fazem deter: Moral cristã e direitos alheios!
Liberdade absoluta sõ Deus a tem.
Postos estes princípios, vem logo a conclusão: o assédio sexual não é permitido, porque viola os direitos alheios!

Donde vem a sanção e quem a aplica? Daquele que tudo fez, orienta e conserva -- o Deus-Providência!
Jamais esquecerei as palavras finais, dirigidas àqueles que estavam agonizantes: " Adeus, até dia de Juízo!"

É o dia de contas, em que todos nós vamos ser julgados! Ninguém escapará! Grandes e pequenos, ignorantes e sábios, pecadores e Santo! Não
interessa a cor nem os bens deste mundo, assm como a posição, na sociedade.

Leitores e leitoras, ainda estais a tempo de rever os programas que vos orientaram. Aproveitai a oportunidade! Trata-se da coisa mais séria da vida, em que não há pedidos nem cunhas fortes. O próprio Jesus é que vem como Juíz, para nos julgar.

No Livro Sagrado vêm as palavras que ele vai usar, As que dirige aos impenitentes são aterradoras!

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Amadora
31-5-1989
Papel da Igreja
Nenhuma actividade é neutra e amoral. Fica, pois subrdinada à Lei positiva, já de ordem humana, já de ordem divina. Ora, quem interpreta lei de Deus e dirige os homens para a salvação, é de facto a Igreja que Jesus instituiu, para tal fim.
Postas assim as coisas, infere-se, desde logo, o papel insubstituível que a Igreja tem, para orientar, corrigir e ensinar os caminhos da Moral e das Verdades da Fé.
O respeito sagrado a Deus e ao próximo levará ceramente a pessoa humana a evitar o dano seja a quem for.
Vivendo a Religião e deixando-se guiar pelos seus princípios, evitar-se-ão os assédios, conservando-se pura a Moral do Evangelho

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Lisboa
1-6-1989
"A palavra mais linda"
Ocorreu hoje, no campo dos mortos, ali na Ajuda. Finalizada que foi a encomenda,ção, para ser adeus e rogo ao Senhor, afim de ajudar, lá no Purgatório, a alma da finada, irrompem breve gritos pungentes de peitos amigos
Uma filha sobressai, derramando-se em ttermos que são eloquentes.
"Aih! que perdi a minha mãe! Aih! que já não tenho mãe! A palavra mais linda que existe no mundo!
Comoveu-me logo aquela veemência da filha angustiada , que punha alma toda, em seus dizeres!
Tinha razão, quando afrmava ser o termo exíguo a palavra mais linda que existe na Terra! Concordo inteiramente!
De facto, quem há no mundo, tão sacrificado, amigo sem trcuo, generoso e clemente?!
Só ela, na verdade! Apenas essa fada, inigualável, maravilha e prodígio que o Deus-Amor nos deixou na Terra, para ser, no exílio. o Anjo
visível, protector e fascinante.
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Amadora
2-6-1989
Perante o cadáver.
Foi recentementr e ocorreu o facto, em Santos-o-Velho. Acabara, na capela, o acto religioso, constante de Missa e encomendação. Até aqui nada em registo que destoasse.
O caso inesperado veio no fim.
Urna aberta ainda, pede a faamília ao senhor sa Agência que leia o Testamento, o que logo se efectua!
Foi a p imeira vez que um facto destes, em tal ocasião e na minha presença, veio a suceder!

Bom! Acabada a leitura, começa a discórdia.
Àpartes não faltam e bem assim palavrras descorteses, com graves aneaças de pronta revisao, por meio de juristas.
Confesso, magoado, que estava bem longe de esperar ttal coisa! Em vez de orações, esmola e sacrifícios, por alma do finado, vem a discussão e pronta ameaça! O falatório! Atitude insensata, harto desumana e anti- criatã!
Se havia discordâncias e até razões, algo especiais, não eram, decerto, para aquele dia! As circunstâncias tão delicadas! O lugar impróprio, em dia de funeral!
Toda a gente censurou, reprovando com firmeza o incidente lamentável!
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Amadora
3-6-1989
Mamoeiros

A que propósito, vem isto, afinal?! Depois, direi. Por agora,detenhamo-nos um pouco,fazendo anotações, acerca da palavra. Entendo eu que é preciso fazê-lo, uma vez que os europeus, não tendo viajado, ignoram, por certo, a
significação.
Eu, que andei por Angola, na zona do Planalto, fui testemunha de factos curiosos,, relacionados com os mamoeiros.
Trata-se, afinal. de plantas xerófilas ( amigas da secura), que prestam serviços, muito valiosos.

Vi mamoeiros, no Distrito do Bié, designadamente, na vila do Chitembo. São plantas curiosas de tronco mole e bastante carnudo, o que vem a ser efeito de acumularem água. Também no Cuangar e depois na Namíbia ( Katere e Nyangana ), apreciei sumamente os seus belos frutos,

Crescem bastante, desenvolvendo-se em poucos meses e dando logo fruto, no primeiro ano. Por estaem adaptados ao clima regional, aguentam secas e temperaturas, que nem sonhamos!

No entanto, com 6o graus ( escala centígrada), chegam por vezes a meter dó!Apesar de tudo arribam, geralmente!
Pela tardinha, consola-os imenso o fresco da brisa, Arrebitam logo e já não parecem os mesmos de antes.
É muitíssimo útil, grato e necessário encontrar estas plantas, especialmrnte, em lugares descampados
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Lisboa
4-6-1989 Cont,
O fruto é grande, tenro e suculento. Acontece, por vezes, que os ramos escacham, devido, naturalmente, ao peso que os verga.

Se bem me recordo, lá no Cuangar, já na fronteira com a Namíbia, era a única planta que dava fruto. Os arbustos arranhantes que ali vegetam.
são as espinheiras.

Lembro saudoso esses frutos excelentes, em zonas semi-desértcas.
Por um sol abrasador, onde tantas vezes escasseiam líquidos , têm os mamões, apetitosos e oblongos, uma falta a preencher. Que deleite profundo, ao chegarem aos lábios! Sabem que nem mel, no tempo da canicula.
Um pormenor, assaz curioso: não trazem canseiras nem cuidado algum!Efectivamente, nem poda nem rega nem outras diligêncas requerem de ninguém!

É só plantá-los! O resto, a seguir, não dá trabalho nem causa problemas! Planta maravilhosa Além de matar a sede, é óptima ainda para os intestinos, já que funcionam, às mil maravilhas, sob a acção dos mamões!
Há prisão de ventre? A code o mamoeiro, oferecendo a todos seus frutos preciosos.
Já vim para a Europa, há mas de 9 anos,, mas não se apagou a lembrança deles!
Como se vê, sáo originários da zona tórrida, com temperatura muito elevada, baixando imenso, durante a noite

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Lisboa
5-6-1989 Cont,
Perguntará o leitor, por que veio à tona o caso dos mamoeiros, se por estas regiões são plantas ignoradas.
Bom! Afim de evitar o seu nervosismo, vou dar-lhe a resposta.
Ha´poucos dias, fixando o televisor, surgiram mamoeiros, criados na Europa.
Impossível o facto, por causa do clima?! Mas se eu próprio os vi!
A televisão reproduz o que apanha! Certamente, não se deixa enganar! O clima agora não faz ao caso, uma vez que se trata de mamoeiros humanos!

Era, de facto, uma praia francesa, à hora da canícula
O franco à-vontade e o relaxamento dominavam ali!
Dizia o locutor: "Há quem goste e quem se indisponha"
Aos derradeiros pertenço também. E boas razões eu tenho para isso!
Era tanta a variedade e a configuração, a cor e o número, que a gente ali ficava estupefacta!
Pelo geral, mamões inestéticos, de cores duvidosas e mais para ocultar que trazer ao léu!
Que deu nas francesas, para obrigarem os pobres mortais a fechar os olhos?! Seria , de facto,a única maneira de assstirem ao açougue, não correndo perigo.

Perderam o senso?! Realmente, ser televisado, para constituir solene espectáculo,, no mundo inteiro!
Se fossem obras de Arte, ainda escapariam, mas valha-nos S, Pisco, com tanta desfaçatez, pouca vergonha e falta de senso!

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Amadora
6-6-1989
Chefe Espiritual
Com 69 anos deu a alma a Deus o grande criminoso que, em nome do Céu. mandava matar.Nisto, afinal, fazia grave ofensa ao Deus Criador, que é senhor da vida e não deseja nem quer que matemos o próximo, em nome da fé.
Mas, por outro lado, que havia-de fazer, se o alcorão diz abertamente:
" O que não acreditar passai-o à espada!" São palavras chocantes e próprias do Fundador, no século VI, depois de Cristo. Para vermos o dislate e falta de agrado, no tocante a Deus, lembremos agora a atitude de Jesus, no Jardim ds Oliveiras, quando Pedro se propôs firme abrir a cabeça ao grande atrevido que estendeu o braço, para manietar o Senhor da vida,, irrompe logo nestes dizeres:: " Mete a espada na bainha! Quem com ferro mata com ferro morre!"
Pois aquele chefe, levado por fanatismo, não poupava ninguém. Com a Política externa, bastanta desastrada, lançou o país em grande ruína e obscurantismo. Com o século das luzes, em que o mundo caminha, a passos tão largos, para a Democracia, não se justifica, de modo nhenhum, a restrição da liberdade, pelo modo arrogante que afecta certos chefes.

Os governos são para os povos e não estes para os governos!
Que o novo chefe seja mais humano, prudente e comedido, para bem da nação e do próprio mundo! Impor aos outros a maneira de pensar, agir e
contactar não é admissível. Nem Deus o faz e podia fazê-lo! Sendo isso entre os homend chama-se escravatura Foi, pois, um alívio para a Humanidade a morte do Chefe.
Lembremo-nos sempre de que o Islamismo é, na verdade, um sistema religioso, fundado por simples homem - Maomé! Só tem a defendê-lo o
facto notável de ser monoteísta.
Os maometanos consideram Jesus um mero profeta, inferior a Maomé É preciso estar louco, para chegara isto!

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4Amadora
7-6-1989
A cena apresentada, em 2 do corrente, requer umas achegas que julgo oportunas.Quem fez má figura foi só, ao que penso, a filha do morto. Havia já muitos anos que não visitava o autor de seus dias. Nesta data, porém, é que ela surgiu, diante da urna.

O caso em foco teria sido assim: este finado teria enviuvado ainda jovem, o que o levou, em seguida, a segundas núpcias. Ora, a filha opôs-se, com alma, a esta união.
Como o pai, realmente, não quis desistir e levou a dele àvante, eis o
pomo de discórdia que não cessou jamais. Por desgraça, o caso não é único,
pois muitos ocorrem do mesmo quilate! Tal oposição encara somente os bens materiais, sem atender a necessidade
sa que os viúvos sintam!

E de lamentar que o facto o corra e termine, exactamente como foi narrado
Valerá bem a pena acumular bens, para deixar os herdeiros em guerras contínuas?!
Que má figura! Que feia acção!
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Amadora
8-6-1989
Um caso de Boleia para a Eternidade.
João José, natural de Paço de Arcos, saíra havia pouco, rumo a Lisboa. Os seus 23 anos pintavam-lhe o mundo a cores diferentes!
Sentia-se feliz!
Enquadrado na GNR e casado com mulher da PSP, não tinha dificuldades. O seu meúdo, com dois anos apenas,. ia ter, decerto, um porvir suspicioso
Ora bem! Este mesmo à-vontade, bem-estar e euforia levavam-no às vezes, a ser prestável, generoso, acolhedor. Aconteceu, pois, o que ninguém esperava e, muito menos, o sujeito amigo, de 52 anos, que lhe pediu boleia..
Espreitava-os a morte, ali bem junto a Paço de Arcos. Velocidade excessiva, no FIAT 12? É bem possível. Uma das rodas tocou no passeio ...
o carro descontrolou-se, jogando cambalhotas! Deu isto como efeito abater o tejadilho que esmagou a cabeça das pobres criaturas!
Foram hoje a enterrar!
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Ámadora
9-6-1989 O Papa de Roma visitou a Noruega.
Tem ele em vista a união das igrejas: não faz sentido que haja, ao presente, um fosso intransponível,entre cristãos!

Todos adoramos o mesmo Senhor, o mesmo Pai. Gostará Ele que
andemos de costas, uns para os outros?! Os motivos graves que vieram do passado, já não existem: intolerância da Roma Papal; excomunhões, a torto e a direito; falta de diálogo; incompreensão; causas políticas, sociais e ecnómicas, etc, etc.

Seria bom tempo de fazermos a paz,olvidando o passado, baseados na caridade, largueza de vistas e compreensão!
De 11 bispos luteranos, apenas 4 se abeiraram do Papa.
Não gostei do acto!
O ressentimento fica destruído pela caridade!
Chegado a este passo, uma pergunta e uma censura brotan espotâneas, do
meu peito inconformado.
Pergunta: que responsabilidade poderei eu ter nas incorrecções que
alguém praticou, há 400 anos? Se eu nem existia!
Censura: É nobre perdoar a quem pede perdão, com humildade e sinceridade,mas é indelicado, desumano e cruel não o fazer, em tais circubstâncias.
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Amadora
10-6-1989
O Pastor luterano chana-se Artur, se bem me recordo e surgiu na Televisão, para dar resposta a certas perguntas, que se prendem, a valer, com a atitude de João Pajulo II.

Pelo que expôs, fiquei a pensar que não espera grande coisa , desta visita. É que, segundo ele, a Igreja Católica não desceu ainda às questões essenciais; só a coisas secundárias e exteriores!

Esclareceu ele que estão à espera, há 400 anos e que a Igreja Católica ainda não respondeu à Confissão de Augsburgo.Quer-me parecer que se tratará.
possivelmente, de assuntos doutrinais. Seja o que for, há muita coisa que bastante aproxima e que, portanto, nos une. Por que não partir destes pontos valiosos?
Haja, de facto, boa vontade, para darmos as mãõs e acabarmos de vez, com este escândalo: separação entre irmãos que se ignoram há séculos.

Termino com as palavras de Paulo VI, em Constantinopla, ao Patriarca da Sé, enquanto o abraçava: " Se fomos nós que tivemos a culpa.
peço humildemente perdão aos nossos irmãos.

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Amadora
11-6-1989
4+1
Correu hoje a notícia, caiindo no espírito como explosivo.
Quatro pessoas, jazemdo mortas e, igualmente, um pobre cão!
Ao que me disseram, foi na zona do Pragal, não longe de Almada!
Vivia ali um casal de 25 anos, que tinha dois filhos ( 1 e 4 anos) respectivamente.
O pai cruel, utilizando uma faca, mata assim a esposa e, juntamente, as pobres crianças, enforcando-se ele, na parte final.
O pobre animal também morreu, a poder de facadas, Que tempos estes!

Dói o coração. esfacela-se a alma e todo eu tremo, ao lançar no papel estas notas dolentes, Estou apavorado, incapaz de escrever, sobre este horror, enquanto uma pergunta se levanta em mim, tendo seu iníicio nas
profundezas da alma: porquê, esta chacina,tão desaforada, sobre os entes mais queridos?! Haverá no mundo uma causa bastante, para justificá-la?!

Só estando louco esse pai homicida ou desassisado, por tremendo ciúme! Como vai Deus julgar esta cena tão horripilante?! Haverá perdão para tamanha loucura?! Não julguemos nós, mas casos destes fazem abalar as raízes da alma!
O próprio instrumento do grande sacrifício faz arrepiar! Uma faca!

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Amadora
12-6-1989
Um Fedelho malcriado!
Encontro o petiz, frequentes vezes, na Rodoviária que nos leva a Lisboa, de mahãzinha! As primeiras impressões criaram logo suspeita! É que o meúdo. com pouca idade ( seis anos apenas?), fala arrogante, com muita rudeza e até grossaria. Com adultos conhecidos, utiliza palavras que os deixam envergonhados!

Assim, por exemplo: " cabrão"!
O tom de voz é de arreganho, e os modos habituais são de arreeiro.
Ouvindo-o falar, arrepiei-me todo, uma vez que o pai se achava presente, encontrando graça a tanto disparate.
Os utentes do veículo olham-no de soslaio, incriminando o pai, pela
atitude garota Isto, assim, levou-me a estudar um pouco melhor este caso
sintomático.
Que verifiquei? Eu digo já!
Se chegam atrasados, têm de ficar no rabo da bicha.. Acto contínuo, o meúdo avança, pelo meio dos utentes, parando à frente, com vista pronta à reserva de lugares. que os dois precisam. E faz isto sempre!
Aqui temos nós como aquele pai educa o filho! Que pouca sorte!

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Amadora
13-6-1989 Cont,
Ante as cenas reparáveis que o meúdo executa, benzem-se as gentes que notam as coisas: má educação, voz de arreganho, palavras soezes, atropelo grave de regras sociais, desdém e resistência. e enfatuamento.
O pai dele é todo sorriso, atenção e bonomia. Olhar para o meúdo é como ver a Deus; os sons que produz, música celeste; as saídas aurosas, coisa original e inigualável

Ficou-me a impressão de que este paiznho só vê no mundo o filho adorado, a quem faz as vontades, sejam elas quais forem!
Notam-se erros graves neste convívio. Em qual das partes?
O erro grave está no pai. Efectivaente, ele aprova tudo. Logo, é responsãvel
pela má educação
As nossas crianças reproduzem na vida aquela educação que lhes deram os
pais, desde pequeninas!
Que deve fazer o referido pai, quanto aos lugares?
Deter o filho, explicando-lhe bem por que razão não há-de prosseguir. É um roubo que faz.
T0da agente rapara, o chama atrevido e malcriado, censurando o pai.

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Amadora
14-6-1989
Acabei há momentos a segunda revisão, pela segunda vez.
Trata-se de orignais que destino ao público. Ou será talvez que venho a morrer, sem os ter publicado?! Seria para mim um desgosto enorme!

Após tanto esforço e horas sem conto, debruçado neles! Mas enfim, tudo pode ser! Estas revisões começaram. há15 anos, aproximadamente, uma vez que, em 74, principiei a mexer-lhes, com essa intenção.

Anteriormente, escrevia sem destino. Eram páginas a montes, elaboradas, sem o mínimo cuidado. Isto, exactamente. provocou mais fadiga! Segundo me parece, vai o total para lá do que esperava, quer dizer. há trabalhos meus que exigem, por força, alguns desdobramentos. De momento, calculo eu 37 volumes. se não forem mais!

Não os quero grandes, que ninguém os leria.. Em média geral, 200 páginas. Será de crer que ascendam a mais os volumes referidos?! Verei isso melhor! Quanto ao porvir, o público dirá.
Algumas vezes, encontro beleza, espírito e graça! Outras vezes, fico decepcionado
Exigênca excessiva?
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Amadora
15-6-1989
O Antero falou! Uma carta de amigos: grande, sincera, calorosa, desejada, É já costume!
Uma vez mais, um poeta quinhentista:"Homem de uma só fé... de antes quebrar que torcer!
É um belo coração! Dedicado amigo, pai afectuoso, marido exemplar!

Quantas saudades eu tenho dele e de todo o seu lar!
Pergunta-me de novo quando é possível ir ter com ele, a Guimarães, onde exerce a profissão.
Não tenho podido mas, ao longo deste ano, creio há-de ser!. Assim Deus queira! Aí para Setembro, como tenho planeado!

Nessa altura, longa conversa hemos de manter!
É assaz grato recuar no tempo,voltando ao passado que me reteve em Pinhel. Aguardo o tal mês com alguma ansiedade!

Várias raízes me prendem à cidade, onde fui professor. durante sete anos ( dos 32 aos 39 )Lembra aquele soneto do Grande Camões : "Sete anos de pastor Jacó servia... "
Os motivos de servir é que eram diferentes, bem entendido!

Entre essas raízes, avultam duas que na área masculina,atingiram o máxmo de profundidade: o Dr. Antero Ribeiro Tavares, Notário insigne de
Guimarães ( hoje aposentado) e o Sr. José Coelho


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Amadora
16-6-1989
Três carros funerários!
Não é grato, não, falar de de ttais coisas,mas afinal, se fazem parte da vida, como vou esquecê-las?!
Foram hoje a enterrar,no monte da Caparica, sendo acompanhados por grande multidão. Eram três infelizes: Ana Paula (Paulinha), Helder e Bruno (1 e 4 anos).Très urnas em fila: duas branquinhas como eran as almas desses inocentes; uma de adulto, a da mãe infeliz.

. O pai assassino que se enforcara, por fim, já o tinham sepultado.
Toda agente condoída, cismava, reprovando. Angústia geral! Consternação e lágrimas sinceras! Vozes e gritos, harto reprovadores, clamavam da alma: Assassino!
Também eu fiz coro, porquanto chorei e muito sofri
Será já tarde que vai apagar,se da minha memóriaa cena exposta!

Homens e mulheres, jovens e crianças, todos lamentando a triste ocorrência! A mãe da Paulinha, afogada em pranto. figurava ali a estátua da amargura! A irmã da infeliz é transpottada em braços e levada para fora da
massa humana.
Autêntico horror!Um quadro fúnebre, comovente, inesquecível, doloroso e
trágico!
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Amadora
17-6-1989
Dados que obtive
O caso pavoroso deu que falar! Toda a gente se esmerava em obter informações, Queriam saber ali a causa verdadira do crime infando.

Entretanto, havia só conjectura,s meras hipóteses.
Aconteceu, porém, o que eu não esperava. Uma vizinha da Paula infeliz
era amiga dela e sabia pormenores, acerca do caso. Afinal, o Joaquim espancava a esposa, com mita frequência. Embebedava-se e já de solteiro ele se drogava.

Os pais da Paulinha viviam em França e, por causa das saudades que a filha
originava, tinham vindo a Portugal, como visita aos parentes-

O horrendo assassínio processou-se deste modo: a Paulinha matou-a cruamente com três facadas; aos pobres meninos estrangulou-os; em seguida, esfequeou o cão; após tais crimes, enforcou-se, ali perto.

Causa próxima: ela dissera-lhe, pouco tempo antes,: " Vou pedir o divórcio! Eu não aguento nem te dou nais vinho! É que ele faz-te mal!
Há verdades que não se devem dizer; outras vezes não convém dizê-las.
O seguro morreu de velho"
" Pela lingua morre o peixe.
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Amadora
18-6-1989
O gás CIDLA foi substituido pelo gás GALP
Também às garrafas coube igual sorte, apresentando as novas um rotor diferente e mais funcional.
Ora bem. Como vivo sozinho, nesta solidão, tenho por força de pôr-me em dia,.com estas coisas. Exercer actividades para as quais não sorrio
nem disponho, a rigor, de tempo suficiente!...

Verifica-se o provérbio " aprender até morrer!"
Pena é, realmente, que eu não execute o que me dá prazer! É afinal o que tem de realizar-se.
Uma força hercúlea me toca e obriga, queira eu de facto ou, às vezes não queira.
Dará isto a ventura?! Se consiste, a rigor, em fazer cada um aquilo de que gosta!
Bem aclara a sentença: ninguém diga, pois, " Desta água não beberei!"
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Amadora
19-6-1989
Sendo, pois, o meu caso, segundo já disse, impõe-se que eu, faça, ande e actue, goste ou não goste, queira ou não queira! Cá ando entalado pelas obrigações, que me cabem agora!

Para consegur o dito gás, desloquei-me seis vezes`a Drogaria!Nem três deviam ser! Os factos,porém, é que falam por si! Deu isto em resultado ficar sem gás, durante sere dias! Forte nervosismo, inquietação e falta de sono foi o efeito!
Lá por fim, vieram as garrafas. Urgia dispô-las no local destinado.
Ia ser um problema!Dava-me a impressao de não caberem lá.
Após árduos trabalhos e várias tentativas, consegui o objectivo.

Chegou a vez dos rotores que já eram diferentes.. Outro problema!
Encaixá-los na garrafa não havia meio!. Foi preciso então recorrer â vizinhança! Uma tarde em cheio, nestas diligências!
Agora, impunha-se ainda outra coisa mais: saber usar bem o novo interruptor.
Com insistências e muita resignação, cheguei a conclusões: para cima, abrir o gás ou tirar a cabeça; para baixo, fixar o rotor; para o lado:tapar o gás.
Será, de facto, assim?!
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Amadora
20-6-1989
Noivado Infeliz!

O jovem Élder seguia enlevado e quase absorvido, pois ia a seu lado a jovem eleita, que seria, no porvi,r a mãe de seus filhos.Entretanto, quis
a má sorte que o pequeno veículo batesse levemente com a parte dianteira
num Canião-Tir.
Este simples facto logo descontrolou a pequena viatura que se enfiou
num ai por baixo do camião.

Ocasionou isto o breve esmagamento da jovem enamorada, juntamente com o noivo! Pobres criaturas!
Nunca sabemos onde a morte nos espreita!

Na flor da vida! Com tão belo projecto, num futuro próximo, a tornar-se realidade!Uma curva de estrada lança-os prontamente no
silêncio do túmulo!
Grande lição para todos nós que ficamos ainda!
Paz às suas almas! Que o Supremo Juiz ,que nos há-de julgar, use de
clemência
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Amadora
21-6-1989
O Caso da China.
O governo senil, exaltado e fanático da China Comunista está realizando uma obra satânica e anti-humana que levanta protestos, no mundo inteiro. Há consternação, lá dentro e fora... rogos de clemência .

Entretanto, os velhos não cedem. Há execuções, com grande frequência, pois ainda hoje tiveram seu fim mais sete elementos. Que vai seguir-se daqui?! Só Deus o sabe mas eu, avaliando, antevejo o pior.
Se eles assim fazem, é porque, na verdade, se não sente seguros.
Quanto mais opressão e uso da força,, maior a reacção, no foro da consciência..
Aquele movimento é irreversível! Não é ele de jovens e intelectuais?
Esperemos, no entanto que os velhos reconsiderem, antes que seja tarde e
vejam seus cotpos ficar pelo chão!

Qualquer governo é para a nação, em todo o mundo! Ora, na China, dá-se o contrário. A nação, aqui, é para o governo!
Tal desconchavo é preciscá-lo da história da Cnina

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Amadora
22-6-1989
Está hoje correndo a Grande Cineira, em que tomam parte Chefes de Estado ou substitutos: todos os povos de Língua portuguesa;
os da linha da frente (Zaire,Gabão, Congo, Costa do Marfim e outros).

Trata-se de harmonizar os chefes angolanos. dos Santos e Savimbi,
com visa directa a obter-se a paz, na infeliz naçao que tanto amamos.
Oxalá que um raio de luz venha breve luzir, nas trevas cerradas que envolvem Angola, vai para 15 anos!

Savimbi advertiu:!Pode ser um dia negro, caso não haja a solução correcta e de todos esperada. José Eduardo dos Santos mostra-se, no entanto, muito
aferrado ao sistema inicial de Partido único. Jonas Savimbi propõe , de início, um governo mixto de transição, afim de preparar eleições desoprimidas, ao fim de dois anos.

Estas, por fim,iriam efectuar-se com a supervisão das Nações Unidas e da OUA
José Eduardo dos Santos não quererá ver?! É tempo disso!

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Amadora
23-6-1989
Revisões
Começaram estas ainda em Angola, nas férias grandes de 75.Decorreram, pois, bons 14 anos! É quase Maratona! Sucedia, no entanto, haver matéria nova,, uma vez que persistia em fazer o meu Diário,
com assiduidade. Ficava assim aberta uma dupla via que se prolongava, pelo tempo fora.
Além disso. após uma volta aos manuscritos, surgia logo outra
Deu isto como efeito chegar até agora, em labor constante,
Será desta vez que termina a faina? O ano passado tinha resolvido que fosse a última! Acabariam, pois, as minhas revisões. Afinal de contas,estou
já ultimando oitra posterir! Faltam os Esparsos, mas estes, por anódinos, mão intento publicá-los.

Os demais têm, à data, várias revisões
Ontem ,pois, acabei o livrinho, sobre a Guida, sobrinha infeliz, assassinada em Angola. Deu isso, ao todo, 36 volumes, com 2oo páginas, por média geral. Será, de facto assim ou muito mais?Na realidade, alguns Diários recenter têm mais volume do que tinha pensado. Não quero livros grandes,
ninguém os leria.
Os Diários de 89 são meros apontamentos, que precisam lima e aré mais corpo. Duvido muito, acerca deles.

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Amadora
24-6-1989
Angola
Bons augúrios? Foi anunciado para as zero horas, o cessar-fogo! O
mundo, em geral, acolheu a notícia com regozijo, de modo especial o
espaço português. De facto, Angola é-nos muito querida.

O nosso coração manifesta-se logo, de jeito fremente,sempre que uma nova corre entre nós, de bom cariz. É o caso de agora! Aqueke aperto de mão, entre Jonas savimbi e Josè Eduardo marca , sem dúvida, o primeiro
degrau, para essa paz que tanto desejamos..

Se não for avante, nesta ocasão,não vejo maneira de obter-se jamais.
É que foi excelente e de grande alcance a comparticipação!
Entre chefes de Estado e seus representantes, elevou.se a 33 o número de
elementos que tomaram parte no grande encontro, celebrado no Zaire.

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Amadora
25-6-198 Cont.
Desta vez, foi Mobutu o anfitrião, glória incomparável que lhe cabe, sem dúvida. Os esforços dispendidos, com este objectivo, levaram a juntar-se os dois inimigos, tomando compromissos que breve conduzam à estabilização
O mundo africano tendo à sua frente o chamado lusófano e o da
linha da frrente, com a Ãfrica do Sul, puseram no acto os melhores esforços.
Ficou bem provado que a força das armas a nada levou.
Catorze longos anos de guerra civil, morticínio e vinganças originaram
verdadeira hecatombe: só o nosso Portugal e os bons Portgueses sofreram
com isso!
Os povos da vizinhança, com relevo para a Zâmbia, Moçambique e Zimbawue, Botzuana e Malawi viam de rastos a sua economia, devido às
carências de toda a natureza, devido às carências que o caminho-de.-ferro -
Benguela-Beira tem ocasionado.
Mercê deste facto, punham no encontro suas grandes esperanças
Amadora
26-6-1989
Cont,
Vinte e oito anos de guerra total! Quem tal diria?! Desde 61 a 89, decorreram precisamente esses longos períodos. em que doram raticadas horrendas acções. Nesse ano remoto, os três Movimentos fizeram notar-se
por actos violentos, contra Porugal. Asssim: em 4 de Fevereiro, o MPLA
entra de chofre, na Reclusão, sita em Luanda,
matando 8 guardas e soltando, para logo, os presos políticos.

A FNLA inicia também a bárbara hecatombe, levada a cabo, no Norte de Angola : 3000 brancos foram esquartejados, em Dezembro-25; a UNITA de Savimbi lança o ataque a Teixeira de Sousa.

A guerrilha mantém-se , com grande firmeza e largo desgaste, até 74.
Assim, começa a desgraça de Angola, em que Portugal não teve culpa mas
povos estranhos, roídos de inveja e cheios de ambição, por causa das riquezas do solo angolano.
Em conclusão: esta guerra foi-nos imposta e nunca levada a cabo
contra a população das terras ultramarinas.

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Amadora
27-6-1989 Cont.
A ambição do mundo com a intervenção de milhares de cubanos, armados pela Rússia, conduz ao governo os do MPLA, afastando pelas armas os outros Movimentos e contrariando o que fora estipulado pelo nosso Governo
Pelas razões expostas e outras mais, começa em breve a guerra civil atirando os Angolanos uns contra os outros
O Chefe Savimbi mantém-se firme e luta denosado pelo bem de Angola.
Quer o estrangeiro (cubanos e outros) fora do seu país; eleições livres e um governo coligado.
É apoiado pela África do Sul e os Estados Unidos.
Nesta data, porém, novo rumo se impõe. Que vai seguir-se?!
Enorme interrogação!
A proposta de Savimbi com o apoio do governo portuguès, seria o caminho da libertação! De outra maneira, estamos para ver!
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Amadora
28-6-1989
O futuro de Angola como o da UNITA

O primeiro passo já decorreu. Fez-se entre os chefes (José Eduardo dos Santos e Jonas Savimbi) o acordo de cessar-fogo. O aperto de mão,que todos presenciaram, sancionou a escrita. O que vai seguir-se é um. caminho longo e cheio de abrolhos.

Entretanto, com boa vontade e cedências mútuas, chegará tudo ao fim almejado. Há diversas arestas que urge limar. Jonas Savimbi não vai aceitar
a mera integração dos seus filiados nos quadros férreos do governo actual, de feição comunista. De modo igual, também não aceita o exílio voluntário.

Permanecerá, em terra angolana, sua pátria querida, pela qual se bateu, cerca de 30 anos, vivendo nas matas, com a sua gentee lutando firme, sempre lado a lado. Exige ainda a pronta expulsão de guerreiros estranhos.

Além do mais, eleições livres, ao fim de 2 anos, formando-se, até lá, um governo forte de coligação.
Razões bastantes para tudo isto? Ele, de facto, não foi derrotado: isto dá-lhe
margem, para fazer exigências.
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Amadora
29-6-1989 Cont,
Está correndo, em Cuba o processo judicial, contra Ochoa,
comandante- chefe das tropas cubanas, em terra angolana.
Este caso triste vem elucidar-nos, sobre muitas coisas!

Ao saírem de Angola os primeiros contingentes de origem cubana,,
soaram, desde logo, dizeres como estes: "Missão já cumprida, com louvor e glória. Da terra angolana apenas levamos os nossos mortos!"

Tudo mentira! Grande hipocrisia! O tal julgamento veio esclarecer-nos. Há quem exija a pena de morte para o General, apontando, a prpósito, as seguintes razões, no tribunal cubano: 1 . tráfico de droga; 2 . venda ilíta de madeiras preciosas, marfim e diamantes; 3 . humilhação e desdouro, causado por ele ao exército cubano, que foi rechaçado, sempre que investiu
contra a base da UNITA.
Propalaram falsamente haver triunfado, ganhando a guerra e saindo como heróis. Afinal de contas, era tudo falsol

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Amadora
30-6-1989
Valeu bem a pena chamarem para Angola o exército cubano, para defesa e firme garantia dos interesses pátrios?! A resposta já fica dada.
Os 14 anos que lá estiveram entregaram~se â pilhagem, lançando os Angolanos em extrema penúria.

Quanto havia de bom foi logo enviado para a Ilha de Cuba! Mármores belos de cemitérios; janelas e portas de madeia preciosa e todos os veículos, sem esquecerem os auto-carros da Firma EVA , com 90 unidades; materiais e alfaias de Escolas e Hospitais; materiais do Exército, que Portugal deixara ali, para os Angolanos...

Verdadeiro latrocínio! Um perfeito horror! Autêntica vergonha!
E mulheres violadas?! E filhos ilegítimos?! Autêntica praga!
Que vieram fazer estes parasitas e ratoneiros?1 Desonrar a Ilha?! Hunilhar o exército e roubar os Angolanos, seixando-os na miséria?! Que vieram fazer lá?! Derrotar a UNITA e impedir também os Sul-Africanos de invadir Angola?!
Nunca Savimbi saiu da Jamba!
Para que serviram os 80.000 homens, enviados por Luanda, contra a UNITA?! E o seu material, deveras sofisticado?!

Por outro lado, quando os Sul-Africanos intentaram punir os seus inimigos,
vieram sempre a Angola, ficando por ali o tempo necessário.
Que vieram os cubanos fazer por ali, então?!

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Amadora
1-7-1989
Malefícios de Viagem

Quando me desloco, nos transportes públicos. procuro evitar o que mais horroriza: 1. ir empilhado, balançando temeroso, ao ritmo ingrato dos
solavancos da própria viatura. 2. ter alguém na frente, mais alto do que eu, o que permite barrar-me o horizonte visual; 3. Fique embora sentado, apresentar-se um gordo, partilhando o mesmo banco; 4. surgir um comparsa, a exalar mau cheiro ou, ainda pior - a emitir gases qe pronto asfixiam;
5. ser fumador ou então fumadora, pois, nesses casos, o mal é tão grande. que não posso aguentá-lo.
Um mal-estar que não tem semelhança. com outro qualquer!
Uma angustia de alma que prostra o meu ser e o deixa rendido

Em casos desta ordem, haveria, realmente, pronta solução, a que não é possível recorrer-se então: abandonar a viatura, mas, fazendo isto, que seria de mim, se o dever me chamasse,exigindo a presença?!

Convenhamos, desde já. em que há situações, um tanto encravadas!
Bem dizia o Camões:"Omde pode acolher~se um fraco humano?!"
Por outro lado, ninguém venha dizer: " Desta água não beberei!"

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Amadora
2-7-1989
Entre Cyla e Caribdes

Se a memória nao me falha, são dois escolhos, harto perigosos para a navegação. Por isso, havendo situações, que entalem alguém, costumamos dizer: "encontra-se, â data, entre Cyla e Caribdes!" E que osditos escolhos encontram-se,à data, entre ertreita passagem. Até julgo tratar-se dum estreito, na Sicília,

Os 71 anos já garantem pouco, no tocante à memória. O que vale, tantas vezes, é suspeitar, o que leva prontamente a confirmar a asserção, por meio de livro, estando ele à mão.
Bom. O que motivou este pobre Diário passou-se comigo, ao esperar algures que chegasse o auto-carro.

Os tais escolhos eram seres humanos: um deles, em frente; outro à recta. guarda. Quem estava no meio era a minha pessoa!
Que fazer ali, afim de livrar-me do perigo iminente?!
Antes de mais, convém elucidar, com ajgum pormenor.Um dos tais amigos cuspia amiúde; o outro escarrava, segundo o ritmo do tal cuspidor

Situações do Diabo!
Vomitar as tripas? Era caso disso, não fazendo muita falta!Devo ainda acrescentar que havia, nessa tarde, uma aragem buliçosa, o que dispersa aquelas humidades.
Nem ao próprio Diabo sucedem tais coisas!
Dum lado chovia; do outro ventava! Só um pder mais forte conseguiria
valer-me!
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Amadora
3-7-1989
Arcebispo de Luanda.

A grata notícia chegou pela imprensa. Não surpreendeu, mas encheu-me de júbilo, pois é, afinal, um preito sincero, espontâneo, eloquente, à grande nação, que levou bom termo a navegação, nos séculos XV e XVI.

Com esta heróica acção, a mais destemida que o Homem realizou, desde o início do mundo, a civilização, de cariz ocidental, profundamente cristã, chegou a toda a parte. ("... se mais mundos houvera, lá chegara!"

Embevecido e suspenso, ante o grande arrojo e espírito cristão do povo português, o Arcebispo de Luanda agradece a Deus que os Lusos de Antanho houvessem chegado à terra querida, lançando ali a semente da Vida e a luz bendita da Civilizção.

Atitude eloquente, grito de justiça, para com um povo grande e imortal que, em frágeis caravelas, introduzia sempre os Missionários. A
pura verdades vem sempre ao de cima, Desfez-se a calúnia, gizada por
Satanaz, segundo a qual o Santo Evangelho ia ter por fim, um alvo político.

Que grande mentira! Que horrorosa distorção! Servir-se alguém do que é sagrado, para escravizar!
Nunca o fizemos e Deus é testemunha! O veneno era forte, mas perdeu o vigor! Deus seja louvado!
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Amadora
4-7-1989
"O maior Império que houve, neste mindo".
O Dr. João Coito , insigne Director do Jonal - O Dia - designou por tais palavras o Império Portuguès.
Não estranhei, de modo nenhum, que ele o sentisse. Eu, de facto assim o julgava! Não o tinha já escrito o príncepe dos Poetas?!
" Se mais mundos houvera, lá chegara!"

Toda a gente sabe isso mas, por malvadez ou então cobardia, não
fazem senti-lo, quando falam ou escrevem.
Por que houve tanta inveja, cobiça ou má vontade, contra Portugal?!
Por ser incomparável, heróico e destemido?!
Não obstante isso, quero eu dizer, apesar de tantos roubos, depradações e
grandes rapinas, ficou ainda bastante, para nutrir a cobiça de povos estranhos.
A Inglaterra, Holanda e Espanha que metam as mãos na débil
consciência, caso ainda a tenham!!
Bem a propósito dos admiradores que nos fizeram justiça, lembra-me Keniata que um dia afirmou:" O Império Portuguès foi dos mais gloriosos,
à face da Terra!"

E Adam Smith;" A época gloriosa dos Descobrimentos , levados a cabo pelos Portugueses, é a mais extraordinária da História da Humanidade!"
Será preciso, na verdade, que venham os de fora garantir ao mundo
que somos grandes?!
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Amadora
5-7-1989
"Esse é um outro problema, que ficará para uma outra ocasião".
Ouvi esta frase, há pouco ainda, em um dos programas da Televisão
que se designa " As dez." Surpreeendeu-me ali o enorme colorido, levando-me a pensar muito seriamente. Será Português ou antes Francês?! Creio
tratar-se de Francês disfarçado!

Que pena me fazem casos deste género! Apunhalar o idioma, no seu meio de expressão é o mesmo que trucidá-lo! Não haverá cautério para estas mazelas?! Até quando, Senhor, estarei condenado a ver disparates de
tamanho volume?! Escandalizam e até revoltam anomalias destas!

Por que não sujeitarem a prova rigorosa locutores da Radio e da Televisão'! Seria, de facto um belo seriço, prestado, sem dúvida à causa nacional!

Não é de Pessoa a frase seguinte: " A minha Pátria é a Língua Portuguesa"?!Sendo isto assim, enxovalhar a Língua Portuguesa o mesmo é
que fazê-lo à Pátria!
A língua francesa é que assim utiliza o artigo indefinido.
Em Portuguès , é proibido o indevido uso de tal artigo, em iguais circunstâncias
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Amadora
6-7-1989
Rui Mingas
É o Embaixador da querida Angola, aqui em Portugal. Sucede no cargo a outro senhor que falava o Português com dificuldade. Este facto não era agradável, esperando~se alguém que falasse melhor o ideoma comum.
O actual embaixador que já ouvi, na Televisão. é bem diferente! Na
verdade, foi actor e cantor; futebolista; combatente estreme, na Guiné-Bissau; e não sei que mais. Este exprime~se bem e correntemente.

Chamado, há pouco, à Televisão, declarou o seguinte: 1 .logo que
Savimbi consiga justificar as violações frequentes do cessar-fogo, recomeçam breve as negociações; 2 . Savimbi vai exilar-se, nos próximos anos, fazendo tal coisa voluntariamente; 3 . o Movimento da UNITA integra-se pronto, no MPLA., ficando inserida nos diversos quadros, segundo forem as necessidades e as várias competências.

Partindo somente de tais dizeres, chegaria à conclusão de que tal Movimento ficou derrotado!Será isto verdade?!
Qual a opinião de Jonas Savimbi?

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Amadora
7-7-1989 Cont.
Declarações recentes, feitas por Savimbi, na Costa do Marfim, dão-
nos a verdade, sobre o que vai, por terras de Angola, naquilo que respeita ao célebre acordo. O que ele afirmou não corresponde, por modo nenhum,
ao que diz Luanda, pelo Embaixador, em terra portuguesa.

A Radio-Renascença e o Jornal - O Dia - apresentam os dizeres do Chefe Carismático: 1 . Não havendo vencedores nem tão pouco vencidos, Luanda não pode, evidentemente, ditar condições; 2 . o seu Movimento não
aceita a integração, mas a participação; 3 . O Chefe Savimbi não sai de Angola, que é a sua terra e, embora não se integre no chamado governo de
transição, vai propor-se candidato, pelo seu Movimento, em eleições, justas e livres, a realizar, ao fim de 2 anos.

São estas. de facto, as linhas gerais da sua declaração, apresentada, há pouco, na Costa do Marfim.
Nem outra coisa seria de esperar. Vinte e oito anos de guerra e sofrimento iam ter como prémio exílio e solidão?!

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Amadora
8-7-1989 Cont.
Quem estã de fora não tem a noção de quanto é apreciado, querido e anado o Chefe da UNITA. Em dia festivo de manifestações, na capital do Bié (Silva Porto), vi eu um cartaz que dizia assim:"Deus no Céu e Savimbi na Terra" Exacto! É este, de facto, o sentir do povo!

Aclamações, referências e aplausos são de tal modo, que parece dirigirem-se ao próprio Deus! Uma fé absoluta! Confiança inabalável!
O povo do centro e do Sul de Angola, regiões da nação que melhor conheci, de 72 a 75, plham o Chefe como pai e guia. Quase adoração, envolta em carinho, amor, dedicação!

Sendo isto assim, jamais o povo iria aceitr o exílio de Savimbi! Cairia tal facto como um sacrilégio... um caso horrendo de lesa-humanidade! Um absurdo!
É que ele, realmente, viveu o ideal como ninguém. Ama o seu povo,
imola-se por ele, oferece a vida wue toda gastou, defendendo a Pátria de gente exploradora... afastando vampiros que vieram para ali, afim de enriquecer, e não para lutar pelo bem de Angola.

Não diz isto mesmo o Tribunal de Cuba, onde o próprio Ochoa e 14
Oficiais foram condenados? Alguns dentre eles condenados à morte!

Bom! O líder Savinbi conhecia a fundo o que estava acontecendo,
na sua terra querida e o povo angolano que nºao é tolo, vendo-o mudar-se e
viver lado a lado, no meio da floresta, a combater denodado pela libsrdade, fez dele um ídolo, que ama e acarinha, exalta e venera

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Amadora
9-7-1989 Brasil - Idioma Poruguês.
Aspectos dominantes que fazem divergir a
pronnúncia da Língua
A maior alteração de carácter fonético, será, julgo eu, a que respeita, em cheio. à vocalização da consoante L. Acontece tal caso, avaliando agora pelas tele- novelas: sempre que uma vogal precede o L, este vocaliza-se.
Aplicando a regra à palavra Portugal, obtemos o seguinte: PORTUGAU.
Sirva também esta frase: deve-se evitar o mal. Dá, naturalmente_ deve-se evitar o mau.
Este facto origina equívocos e presta-se.às vezes, a certas confusões.
Imaginemos o seguinte período: um rapaz bom condena o mal.
Se não virmos a escrita, apanha o ouvido aquilo que segue. um rapaz bom condena o mau
Atendamos ainda: um rapaz mau aprova o mal: um rapaz mau aprova o mau
A vocalização do L em U origina, para logo, uma enchente de ditongos, como não haverá em outro idioma!

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Amadora
10-7-1989 Cont.
Ainda a propósito do mesmo assunto, existe no Brasil outra fonte de ditongos, Dá-se tal caso, por alongamento, em diérese: são vogais tónicas (a-e-o), Exemplo: pás; pés; nós que soam, respectivamente - pais -
péis - nóis.
Notamos, de início.que a semi-vogal do novo ditongo já é diferente.
Se lá, no Brasil, se tornasse obrigatória a escrita fonética, seria um pavor, ao menos para nós, em Portugal. Não íamos entender o que víssemos escrito.
A vocalização do L em U também se deu, cá em Portugal, mas em casos raríssimos
Exemplos:salto******
Amadora
11-7-1989 Cont,
Agora, o caso do \t\ seguido de \i\ ou de \e\. Exemplo:pertinente Outro caso notório, em que veificamos alteração de sons: responde, respondi< respondje, respondji.
Pelo que vemos, dá-se tal facto, quando o D é seguido logo de e ou i.
Bacoreja-me até que ande por ali influência italiana.

Sabemos, na verdade, ser a colónia italiana a maior de todas, seguindo~se à portuguesa.
Também o Português, falado no Brasil, não tem vogais mudas. Segundo vi escrito, já entre nós houve uma fase, em que sucedia a mesma coisa.
Isto nada surpreende! Nós é que ensinámos o povo brasileiro.
Pelo que aí fica,, no tocante às vogais, nota-se, desdelogo, haver somente vogais abertas ou então médias, baseando-nos, é claro, na posição dos lábios.
Mudas não existem. Este facto verifica-se igualmente na língua Castelhana.
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Amadora
12-7-1989 Cont.
No meu espírito surge uma dúvida. Esta pronúncia que diverge da nossa, como é que surge? Não é artificial, em parte dos casos? Será ela imposta e uniformizada pela Televisão?

Custa-me crer, ouso até afrmar que não era possível, em zona tão vasta surgir espontâneo um padrão único para a língua portuguesa! Pois se há tantos factores a modificar a tal pronúncia, como ia convergir num ponto único?!
Não posso admitir! Segundo eu creio, serve a Televisão para fazer o peneiramento e uniformizar. Isto, pois, me leva a inferir que se trata, realmente, de artificialismo, em parte dos casos.Não desaprovo!
Sabemos, há muito, que a grande lei de toda a evolução, no que toca à pronúncia, tem como base "o menor esforço" Todo o idioma tende a realizar-se pelo processo mais simples

.. Ora, que sucede, às vezes, com a nova pronúncia? Uma coisa oposta àquilo que se pretende. Em vez de facilitar, vem dificultar. Não utiliza o processo mais simples: antes, por vezes, o mais complicado. Se não, é ver!
Torna-de mais fácil pronunciar como aqui "impertinentemente" do que "imperchinenchemenche".

Nem aludo já à grande chiadeira dos três sons palatais.
Sendo espontânea tal evolução, não há travões nem decerto reparos que possam bastar. Entretanto, como já disse, não admito isso! É travão dirigido... norma imposta e matraqueada. Logo, em conclusão, pronúncia artificial.
Encontramos ainda uma assimilação, regressiva completa de "e" em "i". Exemplo: menino (minino); penico (pinico)
O mesmo se dá, em palavras similares.

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Amadora
13-7-1989 Cont.
Ainda os ditongos. Falei já de aumento, por vocalização e por alongamento (Portugau; nóis), Agora, o fenómeno oposto: redução de ditongos. Vejamos para exemplo as seguintes palavras ou outrae semelhantes: bens, Belém, etc.

Aqui, em Portugal, soa como ditongo, igual ao de mãe. Que ocorre, no Brasil? Deixa de ser ditongo, para transformar-se em vogal nasal.
Se não me engano, é sonido igual ao da primeira sílaba da palavra "entrar" Será, pois, uma sinérese.

Faço votos ardentes por que o Brasi, nunca imponha aos Brasileiros a escrita fonética. Seria um caso sério t!al situação! Por outro lado, não convém, de modo algum, aperrar a Língua, na sua evolução! Deve seguir livre, sem peias nem obstáculos.

O clima da zona, a topografia, a incultura, os próprios hábitos é q ue intervêm. Não são, de facto, os intelectuais que fazem a Língua: antes de mais, o povo anónimo,
inculto, isolado é que a deixa seguir o seu próprio caminho.

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Amadora
14-7-1989 Cont,
Pelo que aí fica, nota-se bem que há grandes alterações, de carácter fonético. Se fossem espontâneas, gerais e persistentes, levariam muito longe! Entretanto, sinto-me inclinao a pensar diferente. Sendo uma tentativa, não haverá bom êxito. ao menos, cabal!

Sintacticamente, o caso já difere: são muito leves, bastante reduzidos e até sem peso, os factos verificados.
Lembro-me agora dos casos seguintes: 1 .Os pronomes, por via de regra, colocam-se antes do verbo: eu te amo; ela nos ama.

No Português utilizado. aqui, em Portugal, os ditos pronomes situam-se em geral, depois do verbo: eu amo-te; ela ama-nos. Só por excepção, em casos especiais, se transgride a regra: Deus me perdoe! Eu te ensino!
Não meandes a enganar!

Trata-se de conjuntivos, com sentido optativo; de acções diversas que exprimem, desde logo, espontaneidade ou também ameaça ou ainda uma ordem... um interesse especial!
Nota : no Brasil, predomina a próclise; em Portugal, a ênclise-

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Amadora
15-7-1989 Cont.
Foneticamente, que me lembre agora, pouco mais haverá que mereça, de facto, estudo especial.Vêm a pêlo certas consoantes ( sinais auxiliares da mesma escrita), que exercem na frase igual papel ao dos nossos acentos. Vejamos, a propósito, alguns exemplos: recepção, excepção!
No Português do Brasil, pronuncia-se o >p<; no de Portugal, é ele surdo.
Inverso caso notamos, desde logo, em outras palavras: facto, cá; fato, lá. Se não me engano, há firme tendência para eliminar algumas consoantes, utilizadas como acentos.

Vejamos o que segue: acção, baptismo.etc.
Outro caso ainda que noto no Brasil: fechar a vogal, quando esta precede consoantes nasaladas ou então dígrafos: Antônio.

Na província do Minho, ocorre o inverso do que vai pelo Brasil: abrem-se tais vogais: estudámos, (ainda no presente).
Estes casos derradeiros vêm dificultar o acordo ortográfico: por não haver iniformidade e boa vontade, em ambas as partes, jamais levarão o caso a porto seguro.
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Amadora
16-7-1989
Uma Data
Decorreram já, se agora bem conto, mais de 40 anos, pois foi o caso, em 1944, a 15 de Julho. Esste facto, ocorrido então, já olhado em si, já nos graves efeitos. que sobrevieram, marcou-me profundamente, na vida profissional, social e psicológica e assim também, no tocante a minha irmã e aos queridos pais.
Começara a exercer, escassos meses antes. de Outubro - 43 - a Julho - 44, Perfaz-se, na verdade, um curto período - 9 meses apenas!
Efeito estrondoso duma bomba potente, wue atinge, em cheio, o nosso querido lar! Estávamoa na Vide, concelho de Seia, formando o agregado só 4 pessoas: pai e mãe, a mana Agusta e o autor que narra o sucedido,
Acabado o curso, já pela idade paterna, já devido às carências, ocasionadas en tão pelos muitos gastos, precisavam eles que eu os ajudasse.
Entretanto, empioram as coisas: aspirações, projectos de futuro, uma vida tranquíla, enfim milhentos casos que preenchem a existência e lhe dão relevo!.
Nessa tarde inolvidável, partia da Vide, rumo a Balocas, lugarejo serrano, que dista possivelmente, uns 10 quilómetros. Por ínvios caminhos e sendas estreitas, ( não havia, como agora, estradas florestais), entro em Baloquinhas, onde era costume visitar, em falta, o senhor Manuel Lopes.

Pessoa grada e muito gentil, fazia o favor de er meu amigo, o que eu,
na verdade, bastante apreciava.
Estamos, de momento, em conversa íntima, brindando em seguida, à nossa amizade. Permaneço ali o mínimo de tempo, dado que Balocas ainda fica longe.
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Amadora
17-7-1989 Cont,
Exactamente, ao sair da porta, virada a Balocas, fico surpreendido e algo alarmado. Abro decidido e tenteio o pé, no primeiro degrau, Momento fatal! Noto, desde logo, que triste realidade se está desenhando, sem avaliar a longa projecção que o facto iria ter.

Em frente do olho esquerdo, figurava eu, então. cabelos compridos, um tanto emaanhados. Caso bem estranho! Jamais presenciara uma coisa assim! Subo logo a mão, julgando reais os ditos "cabelos", mas nada agarro!
Entretanto, complica-se a visão e só a muito custo percorro o caminho. Nessa hora amarga, não previa, de longe, o que iria acontecer
nem fazia sequer a mínima ideia, sobre o facto lastimoso, que estava surgindo.
Segumdo apurei, já tardiamente, vim então a saber que era, na verdade, uma coisa terrível! Hemorragias internas que afectavam, em
extremo, a zona da retina. Repetindo-se elas com muita insistência., provocaram em breve o descolamento daquela membrana , ocasionando
logo a cegueira total, no olho esquerdo.

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Amadora
18-7-1989 Cont.
Sequelas trágicas, no agregado feliz! As consequências fazem sentir-se, de maneira espantosa em três pessoas, ligadas a mim, não falando já no caso pessoal! Depois, é uma longa cadeia, cujos elos pesados se vão juntando, ao longo da existência

Quanto a meus pais. Coitadinhos! No final promissor de tantas canseiras, esperando repouso para enormes fadigas, sobrevém, exactamente, o que menos esperavam. Deixei de constituir um apoio frme, para a sua velhice.

Na iminência da cegueira, fiquei sem ânimo... sem possibiidades que permitissem ajudá-los, ao menos um pouco. Daí, voltarem ao campo, mas em tempo indevido e já sem forças!

Minha irmã casaria, bem possivelmente, no lugar, onde estávamos : a
Vide. Deste modo, iria furtar-se ao enorme desgosto de ver a filha prostrada por um tiro de espingarda, em Silva Porto ( Angola).
Quanto a mim, andei qual cigano, de terra em terra, sujeito a caprichos de gente estranha que não cultivava as boas maneiras.
Houve excepções, bem entendido!
Apesar de tudo, como o bom Deus escreve direito, por linhas tortas,
nem tudo se perdeu!
O sofrimento desperta a alma, trazendo consigo a reflexão.
Quantos destinos assim desvia, afim de centrar a vida presente em Deus e Senhor!

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Amadora
19-7-1989
Ontem, fugi à regra, De facto, era já um quarto para as 23 horas, quando me deitei. Raramente sucede!
Após os 15 anos, vou para a cama, invariavelmente. pelas 22 horas.
Estando fatigado, ainda antecipo uns 15 minutos. No dia seguinte, às 5 da manhã, já estou pronto e decidido, afim de actuar. Sete horas de repouso!

Deviam ser 8, para os meus 71! Por enquanto, vou persistindo nos velhos hábitos. Para eu andar bem e render que preste o trabalh0 executado,, não perdendo o apetite, é preciso ser fiel a este horário. Ora bem. Por quue foi então que faltei ao cumprinento da regra antiga)?. Muito simplesmente!

Na " Primeira Página", em entrevista, esperada há muito, com ansiedade, pelos portugueses e até por estrangeiros, de muitas procedências, apareceu quem muito nos prende e a quem votamos afecto acendrado.

É Jonas Savimbi, o Chefe glorioso do Movimento Angolano, que luta nas matas pelo bem do seu país, há quase 3o anos.
O Frente a Frente ocorreu na Jamba, sendo conduzido por Barata Feio, jornalista português., que ali entrevistou o famoso Caudilho.

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Amadora
20-7-1989 Cont.
Embora de longe, vi o grande Chefe, o que veio alegrar o meu coração. Minha irmã e seu marido seguiram também,. com grande empenho, o curto diálogo que ali se travou. Há 15 anos já,escutava-o eu de
maneira igual, nos famosos Comicios de Nova Lisboa como de Silva Porto.
Ele, então, era fogo, voz convincente, presença querida que todos acarinhavam. Os seus dizeres caían na alma, ao jeito de bálsamo que tudo
serena. Era o dom carismático, o espírito lúcido, a presença adorada, que a todos embevecia.
As multidões aclamavam-no sempre que passava, crendo ver nele o salvador da pátria, o grande e bom amigo, o herói da mata, o homem heróico e sacrificado

O eco de sua voz ainda perdura no meu ouvido, instilando na alma inefável doçura. Pois foi esse Chefe que ontem, na Jamba, donde ninguém pôde ainda arrancá-lo, ( em 14 anos de guerra atroz) tanto deliciou o peito dos Portugueses e de todos os Angolanos

Sem aviação, resistiu corajoso ao MPLA e aos 6oooo que a Ilha de Cuba enviara para Angola.
De nada valeu o terrível armamento, já tão sofisticado, aviação e tanques, bem como estrategas e técnicos russos e doutras origens.
Era o mesmo chefe, embora mais sereno, humano e calmo.

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Amadora
21-7-1989 CONT,
Olhei para ele e fique extasiado! E uma presença muito singular! Não tem semelhante! Figura um deus, embora terreno! O que diz ou pensa é logo tomado em granfe conta, pois invoca razões a que todos se
curvam.
Que lucidez no raciocínio! Que visão profunda, tão clara e alta dos
graves problemas que afrontam a pátria! Que grande afecto exterioriza para os portugueses que o são de facto! As suas palavras deixam ver claro.
Solicita o contributo de vários outros povos, mas coloca os Portugueses na linha da frente!
As diversas perguntas do noso jornalista exigem, tantas vezes, respostas delicadas e, não raramente, difíceis de achar.
Ele, no entanto, não se desvia, como fazem alguns, fugindo aos casos. A
tudo responde, com muita dignidade, acerto incomparável e muito equilíbrio
Que diferença profunda, entre ele e outros chefes, embora provados!
Tenho agora em mente Agostinho Neto, que era de facto um homem culto,
pro-ocidental, mas de
cujas palavras extravazava, por via de regra, um certo rancor, vendo só manchas, sem distinguir aspectos posotivos!

Savimbi é diferente: diz a verdade, mas não arranha. A sua palavra é a voz da razão!
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Amadora
22-7-1989
Aspectos focados pelo Chefe Savimbi.
Cheio de razão, boa vontade e muita argúcia, apresenta ele as seguintes linhas: 1 . governo de transição, durante 2 anos, preparando as eleições, democráticas e livres; 2 . tal governo seria formado pelos dois partidos, em perfeita igualdade; 3 . após tais eleições, fiscalizadas pela ONU, continuariam as parter ambas ( ou ainda as três, se viesse a FNLA)
ficando os de maioria, na oposição; 4 . o Chefe Savimbi iria candidatar-se
como líder da UNITA.

Diz ele, e muito bem, que recusa a integração e não precisa amnistia,
como não aceita, em caso algum, o seu próprio exílio.
Esclareceu ainda que só os vencidos é que são exllados, quando não mortos ou feitos prisioneiros.

Esta plataforma é de todo aceitável, a qualquer nível.
Só deste modo se logra a paz e se pode manter.
Quanto a Portugal, mostrou-se amigo, compreensivo e muito indulgente, em questão de agravos.

Remata dizendo que são pequenas coisas que não devem pesar no Acordo de paz e reconstrução.
Porfia igualmente em que precisa dos Portugueses, reservando para eles o primeiro lugar, entre os povos diferentes que desejem, a sério, colaborar com Angola.
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Amadora
23-7-1989
Era um tipo franzino, um tanto esgrouviado que, por modo nenhum, inspirava simpatia. Puxado à fala, dizia muito menos do que era necessário. preferindo a mudez, por via de regra.Se não fosse interpelado,
mantinha o silêncio. por tempo indefinido. Esta, de facto, era a sua imagem
que eu vinha guardando, havia muito já. Fixara-a de tal jeito, que me levou a pensar não haver outro rumo

Bom. Há poucos dias, encontrei-o algures, lá na capital, Ao vê-lo de novo, julgava, na miha, que não saudava como era habitual. Aqui me enganei e redondamente! Contra a minha expectativa, surpreende-me em cheio, batendo no meu ombro, com leve jeitinho e desfazendo-se logo em amável sorriso, que me deixa estupefacto.

Algum desdobramento de personalidade? Não achava crível que fosse ali o mesmo sujeito! Entretanto, as palavras que solta eliminam a dúvida!
Sabe, senhor fulano, já trabalho agora, por conta própria!A rranjei um sócio e fundei uma Agência."Quando eu precisar, bater-lhe-ei à porta!
Caí das nuvens! Belo cartão elucidativo salta-me para as mãos.
Vicissitudes da vida! Que fizera mudar o jovem taciturno e, geralmente,
de rosto carregado?!

Ser já patrão e querer impor-se, ao mesmo tempo; achar disponíveis os que precisar- Numa palavra: o factor intersse é que o leva a tanto.
Não se tratasse da mola real que tudi impele!

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Amadora
24-7-1989 Uma Avó. Filhos mais novos que os próprios netos!
Nunca tinha visto, que me lembre agora. Apesar de tudo, a mobilidade extrema, na esfera linguística e as suas alusões chamavam a
atenção!
Falava no auto-carro, ouvindo-se claro em todo o veículo. Isto, por fim, despertou as atenções. Pobre de mim, que estava logo perto! Houve-de acalmar,aguardando impávido os seus dizeres, com forte ressoar.

Repimpado no colo sustentava ela um meúdo com três anos , que era
seu filho e dormia calmamente. Entretanto, a mãe extremosa olhsva-o com enlevo, cheiinha de ternura.

O objecto do monólogo, que todos escutávamos, era na verdade o que o petiz fazia e quanto expressava, por meio da linguagem.
No rosto dela íamos nós lendo a sua feilicidade.
Vivia sozinha, desabafava ela, mas o bom Deus enviara-lhe já uma bela companhia.
Sozinha porquê? O marido que tinha enganara uma cigana e havia fugido; o filho de 20 anos andava na tropa; a filha, de 27, casara feliz e dera-lhe netos.

Aquela mãe idosa, descrente em extremo e desiludida, em questões de amor, encontrara um íman que fortemente a prendia, se é que, de facto, a não subjugava, fazendo suas delícias! Vivia inteiramente para aquele meúdo, pensava nele e nas suas palavras; ia arquitectando um porvir maravilhoso, que já estava sorrindo. Era feliz.

Só a família opera, de facto, milagres destes!

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Amadora
25-7-1989
Os Pardais do Jardim.
Ocorreu o facto, na bela Praça, Afonso de Albuquerque. Sentado num banco, à sombra deliciosa de árvores amigas, lia interessado um livro francês de Pierre Hermann que fora dominicano, antes de escrevê-lo.

Nas minhas locubrações e vários considerandos, noto logo perto,
desusado pipilar, enquanto de asas leves, trementes, agitadas, um dos pardalitos esboçava movimentos, que chamavam a atenção. Não era pequenino o tal pardalito! Coberto de penas e de vulto quase igual ao dos
outros companheiros, mal o distingui dos outros circunstantes.

Não sabendo, exactamente, o que ele manifestava, fixei-o por momentos,
com grande atenção.Foi neste comenos que o pai ou a mãe, possivelmente,
correu para ele, metendo-lhe vermes no bico enorme, que se abria largamente. O facto repetiu-se, por várias vezes,
.
Cá para mim, cheguei a censurá-lo, por tamanha preguiça!
Já criadinho, não era afinal para tratar da vida, sem incomodar os seus
progenitores?! Os pais, no entanto, acorriam céleres, prestando auxílio!
Grande mistério o da paternidade!
Enternece a fundo e leva a pensar! Até nos seres brutos é maravilohosa!
A Providência divina a tudo se estende!

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Amadora
26-7-1989
"Território pequenino que é pertença de Espanha!"
Aconteceu ontem, no programa "Às dez!" que foi emitido pela
Televisão.
A jornalista , Patrícia, de origem mexicana, fala Português e vive em Portugal, com marido português. Foi interrogada, sobre pontos diversos,
um dos quais vem a seguir: " Que ideia aproximada fazem, à data, os Mexicanos, acerca de Portugal?!
A resposta dada encontra-se no princípio deste Diário.
Patrícia acrescentou: " Esta ideia errada já foi corrigida, pois o meu papel
é, exactamente , crisr outra imagem no meu país. Nos programas diversos
que tenho organizado, houve, da minha parte esse mesmo objectivo!

"Pequenino!" Mais pequeno era o Lácio e a própria Atenas! E que foi,afinal, o que originaram?! Quanto a nós, fundámos um Império que foi
certamente o maior deste mundo!
" Parte da Espanha!" Respondo com a frase do nosso Heitor Pinto: " Pode Vossa Majestade meter-me em Espanha! Meter a Espanha em mim?! Isso nunca!"
Reinava então FilipeII.
Como bem se vê. a Espanha, embora grande, não pode conter o nosso Portugal!
Foi o que dissemos ao orgulho espanhol, cujas pretensões ficaram sempre logradas!
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Amadora
27-7-1989
"Obrigada!"
Nunca havia sucedido. Por esta razão, foi grande a surpresa. Acontecera antes, mas com senhoras, dizendo "obrigado" para um cavalheiro. O que estou expondo era habitual. Entretanto, lá diz o povo:
" Aprender até morrer!"

Primeiramemte, ouvi "obrigada " a certo motorista, dirigindo-se então a uma senhora. Até aqui, o erro vulgar. O caso. porém, abrangeu outras áreas, ainda por explorar. É que, de momento, dirigindo-se então a um cavalheiro, empregou "obrigada". Era este um caso, para logo citar o
provérbio latino: " Hoc opus hic labor est!

Em tradução avançada, iria dar isto: "Aqui, realmente, é que a porca torce o rabo!"
Sejamos práticos. não fazendo má figura!
Agradece um cavalheiro? Dirá então "obrigado! Agradece uma senhora, cabe dizer "obrigada!"
O cortejo, porém, não cessou ainda! Para maior desgraça, falando sobre Angola e os vários portugueses que lá trabalham. elucida ele, referindo-se a um amigo: Esse dito sujeito é lá "corporante"!

Que vamos nós fazer?! Uma nação de quase mil anos vai, por este passo, encontrando-se às portas do século XXI?

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Amadora
28-7-1989
Outra surpresa! Desta vez, sim, é que foi bombástica! Recebo um telefonema do Hotel-Jardim. melhor dito, com certeza, Tivoli-Jardim, Este nome composto ressoou familiar aos meus ouvidos. Escutara-o já antes, possivelmente, havia 4 anos! Entretanto, quedei-me confuso e algo hesitante!
Perante o facto, esclarecem logo, do outro lado: é a Julieta, filha do casal, Belmiro Fonseca.
Então, sim, deliro a fundo! Ia chegar uma prima que posso dizer, nunca eu vira ou então que não vira jamais, após os dois anos. Decorreram, pois, 69 anos! É obra!

Claro! Tendo ela 4 , e eu só 2, era, na verdade, como se, de facto, nunca nos víssemos, Estava em Portugal Felicidade Fonseca, de quem eu, em menino, ouvira falar.
Meu pai embalava-me com seu irmão Zé, que estava na América; a cunhada Laura, nascida na Guarda; a prima Felicidade!...
Estas recordações ficaram para sempre, não sendo o tempo capaz de eliminá-las!
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Amadora
29-7-1989 Cont.
Ia, pois, realizar um sonho de longe, embora não total, uma vez que os tios já Deus os levara e os tem consigo, no reino da glória.
Apesar de tudo, fiquei logo em brasas. De tal modo reagi, que nada me rendia o labor que tentava.

Pelo telefone foram perguntas e vieram respostas, Houve uma delas que me fez resgir:" Só hoje ou amanhã,pdemos visitá-lo, aí na Amadora, uma vez que, wém 29, partimos já para o Algarve.

Ouvindo isto, procurei acelerar o ritmo sas coisas, dizendo com ânimo: venham já hoje! Aguardo-os aqui, ond e me visitaram. há 4 anos.Até já!
Neste comenos, demando o rés-do-chão, onde permaneci mais tempo do que esperava.

Afinal, haviam estacionado o meio de transporte aqui bem pertinho. No entanto, perguntando pela rua 27 de Junho, encolhiamos ombros, dizendo as gentes que não sabiam. Isto fê-los atrasar, pendando já que não davam com o sítio. Mas, finalmente, aparecem risonhos 4 elementos: dois casais!

Destes 4, apenas 2 eu vira antes. Belmiro Cruz e Felicidade eram desconhecidos. Os dois últimos encontram-se já na casa perigosa dos 70 e
80! A filha Julieta e o Engenheiro, José vão ser avós, mas ainda são novos.

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Amadora
30-7-1989
Uma vez em presença, vèm logo abraços , cheios de calor e vozes de ternura, com sorrisos de envolta, Seguem perguntas, acerca da origem, a restante família dos Estados Unidos; outras pessoas que julgo amigas.
Entretanto, convido-os a subir ao 3º andar. A Felicidade tenta eximir-se, mas animei-a um pouco,e ela então encheu-se de coragem. O mais velho de todos, o primo Belmiro, é seu marido, já com 78. Apesar de tudo, subiu à maravilha! As suas belas cores, dum vermelho carregado e um tanto vivo, para a sua idade, falam de saúde, aspirações e bem-estar!

Personagem curiosa! Olhar vivo, penetrante e ágil, é bastante cómico, algo charadista e bom companheiro. Gostei imenso dele! Inspira simpatia, com seu espírito um tanto jovem, desentranhando-se em ditos que provocam alegria.
É, de facto, uma ventura, quando alguém como ele faz parte dum lar, em que deixa a marca da jovialidade! Tenho imensa pena de não havê-lo conhecido, muitos anos atrás,
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Amadora
31-7-1989
A prima Felicidade é que era para mim o elo principal! Desejoso de vê-la, havia já anos, nunca fora possivel realizar a aspiração. A nossa avó referia-se a ela com muito carinho.
Um belo dia, saiu-se com esta:"Olha lá, Pedro, hás-de casar com a Felicidade!
Nessa altura, andaria, talvez, pelos meus 10 anos! Ouvindo aquela frase, logo estremeci, agitando-me, ali, bem fortenente. da cabeça aos pés.

A palavra "casamento" e outras que tais à maneira de amor, fado, sexo e o mais, não podiam ouvir-se, no contexto familiar. Julgava até que era pecado! Além disso, minha santa mãe tinha enorme cuidado em que nada manchasse o coração do menino!

Nessa data, era a munha aldeia bastante sã, embora houvesse algum exagero, uns laivos de fanatismo e algo de maniqueu, em certos lares. Coisas da época! Mais valia assim que desandar para o lado contrário.

O meio termo é que estaria certo! Por estas razões, ouvindo a sugestão da nossa avozinha, caí de muito alto, apressando-me a dizer: que minha mãe não saiba, pois de outro modo, já eu tenho decerto uma sova exemplar!

Apenas acrescentei: quando tiver os meus 17, falaremos então, a respeito disso
Episódios de longe, que marcam a vida, enchendo-a, não raro, de poesia e sonho! Havendo conversado, por algum tempo, descemos novamente em busca de sítio, para jantarmos. Preferimos aqui perto, o que
chamam " Principal", a caminho da Estação.

Depois, foram para Liaboa, e eu subi, de novo, ao 3º E. onde recordei
o que havia ocorrido, nessa formosa e bela tarde!

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Amadora
1-8-1989
Um Caso
A menina X tem nesta data, 24 anos. Nada lhe falta do que é invejável às filhas de Eva: qualidades morais e adornos físicos. Tem,
além disso, um Curso bom e meios de vida que outras, de facto, jamais alcançaram.
Atendendo a isto,iríamos dizer que ela é feliz. Pois não! Bem ao
contrário! E inditosa, de nada servindo quanto a distingue de muitas outras!
Meteu-se o diabo na sua vida íntima, segundo consta, impedindo assim a reslização de seus altos ideais.

Gostaria de orientá-la, caso aderisse e eu vivesse perto. Dói-me bastante que tudo assim vá, pois a conheço, desde pequenina, sendo vizinhos, em tempo recuado
Passo agora a expor algumas circunstâncias que chegaram até mim.
Namorava ela certo rapaz, que muito a prendia. Simultaneamente, fazia-se a ele outra donzela que, facilitando , veio a conceber rechonchudo bebé.

Este facto inesperado alertou para breve os avós da criança, que tudo fizeram para vê-los casados. Isto aconteceu, ficando a primeira em extremo desolada
Que sucede então ?! O recém-casado não abre mão dela, fazendo-lhe ver que tudo o que fez foi contrariado e que, afinal, todo lhe pertence!

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Amadora
2-8-1989 Cont,
Consequências graves desta situação.
Imprevisíveis? Quantas vezes sucede! Uma coisa, no entanto, é assaz provãvel: não haver bom fim. É uma fonte perene de funda inquietação, que perturba a vida; um remorso pertinaz que não larga a vítima; um nó perdurável, forte, violento, que força a garganta.

Do casamento havido brotam rebentos : são as crianças! Esta barreira é intransponível! Rouba-se o pai àqueles inocentes, que ficam desamparados?! Comete-se adultério, levando outra parte a igual situação)!

Como se vê, é um nunca findar... um cortejo enormíssimo de horrores e vinganças, despeito e mal-estar!
Não havendp paz, adeus felicidade! O caminho a trilhar, antes de mais, é
renunciar a tais loucuras. Afastar.se, o mais possível, não permitindo o mínimo contacto! Por outro lado, que pode surgir de tais situações, em que duas mulheres , levadas por ciume, recorrem a tudo?!

A que tiver mais senso, haja embora mais razões, é que deve afastar-se, no mínimo de tempo!
No caso exposto, há-de ser, como julgo, a que não é mãe, já que apenas ciúme despeito e vingança entram em confronto.

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Amadora
3-8-1989
Será o homem animal de imitação?
Vi-os ontem apenas, viajando no auto-carro. Eram reês. Ao que parece, hão-de ser os pais e o primeiro rebento, que andará, talvez, pelos três anos, ainda incompletos.

O meúdo, agora, vai ao colo da mãe, olhando fixamente, para o longo comboio, que chega à Estação. Enquanto o faz, aponta insistente com o indicador, comprazendo-se os pais em dar atenção e olhar também.

São todos felizes: a mãe carinhosa, que o beija enternecida; o pai, enlevado, que olha comovido a cena adorável; o ditoso petiz, que se vê acarinhado e com segurança. Eu, ali, encontrava-me perto e acompanhava atento a sequência dos factos.
As crianças encantam-me: são como feitiço, de que eu, na verdade, não posso libertar-me.! Enternecem-me, a valer, as mostras dos pais.
Enquanto me detenho, fixando o meúdo, com grande enlevo, o pai abre a boca, desmesuradamente, facto banal que não passa despercebido ao lindo petiz.
Presenciando isto, imita seguidamente o autor de seus dias.
Ora, o que veio seguidamente foi, na verdade, um "o" pequenino e mal esboçado, por não ser natural.
Apesar de tudo, era quase de magia a posição dos lábios! Jamais esquecerei aquela imitação: mais parecia uma letra maiúscula!

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Amadora
4-8-1989
" Até me envergonho de ser português!"
Isto, exactamente, dizia um sujeito, algo desesperado, junto à paragem dos Transportes Públicos.
Encontrando-me perto, quis logo saber a razão do seu dito.

Volve o cavalheiro, arrebitando o nariz, e dando à fala um tom
doutoral: " Não vê esta gente a fugir dua paragem, buscando logo outra?! Se o carro 51 não pára aqui, por que razão aqui se detiveram?!"

Eu ouvi silencioso, não aceitando, por modo cabal, a sua discordância. Pois não acontece haver dois ou mais carros que sirvam para o mesmo, tendo eles embora cifras diferentrs?! Entretanto, deixei-o desabafar, muito à sua vontade.
Para mais, era um tanto surdo! Por fim, interpelo-o, do modo seguinte: preferia, talvez ser castelhano?
--" Ai, não! Isso nunca! Deus me livrasse! É que eles são ainda mais estúpidos! Para aí, jamais! Antes ser cão!"

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Amadora
5-8-1989
Profunda razão da má vontade aos nossos vizinhos.
É corrente, em Portugal. o seguinte rifão:" De Espanha nem bom vento mem bom casamento!"A primeira parte é da própria Natureza (agentes climáticos), pois o Norte e o Leste que formam testada com a nossa Pátria,
brindam-nos sempre com ventos secos. Por esta razão. absorvem humidade, em vez de originá-la. São ventos nocivos!

Quando eles actuam, por longo tempo, geram calamidades!
A questão do casamento é já de outra ordem. Alude, por certo, àquelas desavenças, que gera sempre o temperamento, por ser diferente.Influi
também a natural discórdia, motivada em geral, por má vontade, reinante em ambos
Resta, pois, descobrir qual é o motivo deste azedume, que nasce com as gentes. Se eu bem discorro, vamos encontrá-lo na tendência absorvente do povo castelhano que se habituou, já de longa data, a acorrentar os outros povs da Península ibérica.
Foi o caso da Navarra ( país basco). em 1516; o da Andaluzia. em 1492; e assim por diante!.

Tentando fazer o mesmo ao reino de Portugal, nunca lá chegaram!
O período triste 1580-1640 iludiu os Castelhanos, aguçou o apetite, mas a rigor não tirou a independência: conservámos a língua, a bandrira e a moeda. Também não é estranha a partilha do terreno, aqui na Europa,(rixas entre irmãos) e o avanço normal dos Descobrimentos, que deram aos Lusos
fama iniversal
******.
Amadora
6-8-1989
Javardices.

Frente ao Museu dos Coches, aguardava eu que chegasse minha irmã,, coisa habitual. pelas 7 e 15. Emtrementes,, dilatava o olhar, pelo arredor, condrguindo assim, distrair-me um pouco, durante o lazer. Nisto, varrendo a testada, mais uma vez, na Praça Albuquerque, depara-se um homem, de costas para mim. tentando agilmente libertar o nariz, do imundo conteúdo

Era junto do gradeamento, lugsr preferido,para as gentes se encostarem.
Ora, o dito cavalheiro esforçava-se ao máximo, afim de aliviar o conteúdo do nariz, bastante oprimido. Má respiração, mal-estar e incómodo? Fosse o que fosse, ele bem puxava, uma vez e outra, recorrendo aos dedos . Debem forma de tenaz.
Debruçado ali, no parapeito metálico, deixava grosso monco , no lugar exacto, onde outros, depois, iriam encostar-se!
Deu-me aquilo no goto! Até porque , em seguida, puxou do lenço,
afim de limpar a mão ensebada! Aonde nós chegámos, já no final do século XXI?!
Apurando o olhar notei edtranho o sujeito em causa!

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Amadora
7-8-1989
Très anos e tal?
Se não era exactamene, julguei-o assim. À distância enorme, a que eu me encontrava, a meúda enxergada parecia um pigmeu. Eºe, um gigante! De facto, era tão sensível a diferença, que me chamou a atenção este caso singular! Entretanto, não foi precisamente o aspecto em causa o que mais
surpreendeu.
Isto era banal.Uma nota houve, que fundo me chocou! Brincavam os dois sobre o relvado, na Praça, Albuquerque. Uma pequena bola, feita de borracha, era o bastante, para os distrair. O pai, brincalhão, simulava corridas, para chegar primeiro e captar o objecto. Ela, no entanto, é que ganhava, sublinhando a façanha, com gritos de a legria.

O mundo envolvente não contava para eles! Eram um do outro com as almas fundidas, numa só unidade! Perante o caso, fiquei extasiado, procurando, ali, descobrir a causa desta realidade. Não foi longp, não , o
tempo de pesquisa. Encontrei-o, realmente, no factor adaptação, produto de amor e, juntamente, de psicologia..

É o que falta, nos casais, para serem felizes: adaptação constante e bilateral, ao longo da existência
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Amadora
8-8-1989
Contraste
Logo perto de mim, relaxava os nervos certo cavalheiro, a quem o facto aludido passava em falso. Quanto a idade, játeria em cima uns bons 70! Sentava-se ele muito à-vontade, alargando as pernas de maneira tal, que
ocupavam o banco, deixando-me apenas magra extremidade

Gordo e anafado, abria larga boca, frequentes vezes, dando a impressão de que estava em causa o seu apetite..

Um bom gastrónomo, um S ancho Pança, em terra portuguesa, a quem só agradava comer e beber?! Apenas a matéria ele via de bons olhos?! As coisasa do espírito, a Arte, a Beleza, o mesmo Bem pareciam realidades a que andava alheio! Pois se tinha em frente um quadro tão belo, que falava de amor, enlevo e carinho!...

Nada lhe dizia?!
Velho Sancho Pança, em terra lusitana, que é que t e enleva, nessas banhas untuosas?! Andarás tu cego, para as grandes realidades que eu tanto carinho?!
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Amadora
9-8-1989
Exploração do homem por outro homem!

Quando estava em África, ouvia, tantas vezes, dizer aos Chefes: " Vamos acabar, de uma vez para sempre, este cancro social -- ser o homem explorado por outro homem!
O tempo foi rodando, ao passo que eu, preocupado em extremo, observava atento o agir de tais líderes, alcandorados já, no trono do poder!
Eram presidentes, reis, imperadores; primeiros ministros, cúpulas do mundo!
E que foi então o que eu apurei?! Coro de o dizer! Com bem poucas excepções, notei horrorizado, que eram esses mesmos os grandes vampiros
dos povos nascentes!
Palavras mentirosas! Alcançado o poder, abusavam dele, segundo o capricho! O povo infeliz é que paga tudo, abandonado ali à triste situação,
por outra pior!
Entretanto, não julguem os Pretos que apenas os Brancos eram exploradores, em ordem aos nativos! Cá na Europa, entre elementos da mesma cor, sucede igual coisa!

É triste reconhecê-lo e mais ainda revelá-lo!
Agora, a ambição e a crueldade; o empedernimento do próprio coração; a
falta de honradez; carência de escrúpulo; escassez de piedade bem como o
abandono dos princípios cristãos fazem igualmente que o homem vil explore o semelhante, seja ele da mesma cor, profissão e credo!

Casos já eu vi que são mais espantosos, uma vez que sucederam, entre membros de família! O que é mais inteligente, astuto e sagaz, recorre a seus dons, afim de amarfanhar o pobre semelhante!

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Amadora
1o-8-1989
Bichas compridas e malas de mão.
Parece, às vezes, não haver relação, entre certos dados. No entanto, bem vistas as coisas, acha-se algures, quando menos se pensa! É o caso de agora.
Antes de mais, devo elucidar um ponto básico: não se trata afinal, de bichas que mordam: antes filas de pessoas que esoeram sua vez. No caso presente, aguadam, na verdade, que chegue o auto-carro.

Como se deslocam, dum lugar para outro, acomodam os precisos em malinhas jeitosas, que levam no braço. Qualquer peso, no entanto, sendo persistente, é causa de moléstia. Não diz isto, afinal, a máxima popular: "Saco de penas, ao longe pesa?!" É de facto assim!

Ora bem. Para descansar o braço fatigado, ou se muda para o outro ou se poisa no chão o dito objecto. A última saída é que tem preferência.

Para isso, é deveras necessário que o chão esteja limpo!
Ora, que é que sucede, ao longo das bichas? Uma coisa triste e assaz de lamentar: em frente das pessoas, avulta e perfila-se um cordão de saliva.
misturada com escarros, pontas de cigarros e outras coisas mais!

Sendo isto assim, pergunta-se então: onde colocar a pobre malita?
Vamos colocá-la sobre a lixeira?!
Que tristeza imenda e que grande atraso!

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Amadora
11-8-1989
Valerá bem a pena sentar-se alguém nos bancos de jadim? A resposta a dar é afirmativa.
Em abstracto, não vou discordar. Efectivamente, qual é o fim que mantém ali os ditos bancos. tendo por dossel a copa das árvores? É, na realidade facultar às gentes um lugar aprazível, onde haja conforto e
sombra deliciosa.
Como é agradãvel, por forte calor, passar confortado as horas escaldantes,, tendo por ajuda um livro bem escrito, que nos vá instruindo e tornado melhores! Mas, para isso, exigem-se, obviamente, certos requisitos.

É o que falta em Lisboa, onde eu, às vezes, permaneço também. durante breve tempo! Sucede, por vezes, erguer-me à pressa, barrando o vómito!

Nem falo do excremento da nocturna passarada nem do lixo abundante, ali depositado pelos pés de alguém! Há quem troque as posições, ficando mais alto, para todos verem a sua estupidez! O que mais enjoa é, na verdade, o que ali se nota, à volta de nós! Escarros e saliva, pontas de cigarros, cascas de frutos, papéis imundos, latas de conserva, restos de comida e o mais que falta!
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Amadora
12-8-1989 Cont.
Sei muito bem que a Câmara de Lisboa vem lutando pelo asseio, boa arrumação e ordem nas coisas, como nas pessoas. Entretanto,
os frutos são lentos e pouco visíveis! Está bem provado que, entre nós, portugueses, não bastam palavras! É como nas aulas, em ordem aos alunos!
Exactamente!
O nosso Camilo que era bom psicólogo, fez certos reparos e deu conselhos que merecem atenção! Observa ele, de maneira arguta, que é melhor não punir, utilizando outros meios. Apesar de tudo, acrescenta , a
propósito, que os alunos portugueses devem convencer-se e que é possível. às vezes, serem castigados.

Conhecia, a rigor o terreno que trilhava.
Seria muito bom imitar os Espanhóis que, além da campanha e das boas palavras, encarregam a Polícia de vigiar as pessoas, obrigando-as no acto a depositar as coisas no devido lugar.
Já fizeram isso a bons portugueses que atiraram para o chão as pontas de cigarros!
O chão não é, afinal, para sujar!
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Amadora
13-8-1989
Como é possível o que vi fazer?!

Diz o velho adágio: "Quanto mais vivermos mais ainda veremos!"
É isso exacto! Os factos diários vêm confirmar o velho anexim.
Se alguém me contasse o que eu presenciei, duvidaria bastante, mas se eu
próprio vi!
Era uma mulher que viajava comigo, na Rodoviária.
A páginas tantas, faz-nos surpresa: tira-se de cuidados e, sorrateira, cospe no veículo. Caí das nuvens, qiando tal verifiquei! Apurando melhor a observação, não fosse enganar-me,, fico sem fala! Era verdade!Lá estava no chão o corpo de delito! Desfazem-se as dúvidas! Fica o espanto!

Naõ será lastimoso que isto ocorra, no século XX?! Às portas já do século XXI?! Num povo famoso que é dos mais antigos, cá na Europa?!
Gostaria imenso de ver a morada, onde ela habita! Sou levado a crer que ganhou tal queda, fazendo cá fora o que pratica decerto, no próprio lar! Que javardice! Gera náusea tal agir!

Os utentes da viatura ficaram enjoados, com gana funda para vomitar!
Vamos bem atrasados, pela via do progresso! Muito ainda temos para realizar!
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Amadora
14-8-1989
Data Memorável!

Por via de regra, quando uns cantam, logo outros choram! O pior de tudo é que tal choro se faça a expensas daquele regozijo!
Estão agora no alvo Castelhanos e Lusos. Onda enorme de alegria percorre o país. de Norte a Sul, por havermos ganhado a batalha fwmosa de Aljubarrota, que assegurou com firmeza a independência do nosso. País.

Em razão disto, goi justa a nossa luta, em que bons Portugueses se bateram como heróis, cobrindo-se de glória.

É de lembrar D. João I e o nosso Nuno Álvares!
O êxito alarmante que levou a derroto a um grande exército, muito superior e mais bem armado, foi decerto humilhar os nossos vizinhos, matando assim a ambição desenfreada, que os levou, mais tarde, a integrar pela força,, os outros reinos da Hispania ( Península Hispânica ou emtão Hibérica.
Isso veio, mais tarde, criar-lhes problemas, que hoje são candentes: a
Catalunha, o País Basco.etc.
Moderem, pois, a sua ambição, procurando agir como bons vizinhos e imãos cordiais! Outro caminho só les traz dissabores!

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Amadora
15-8-198 Assunção de Maria
Levada ao Céu, em corpo e alma, pelo próprio Deus; Ascensão -- levado ao Céu em corpo e alma pelo seu próprio poder ( nosso Senhor Jesus Cristo). Por esta razão, se distingue o Incriado do ser criado ( Nossa Senhora) . Apesar de tudo, foi grande privilégio: isenção da corrupção, no seio da terra!
A crença arreigada na Assumpção da Virgem vem já dos primeiros tempos do Cristianismo. Entretanto, só neste século ( 1950) é que Pio XII
proclamou (ex cathedra) este dogma de fé.

É curioso observar que os Ortodoxos não ficam decerto abaixo dos
Católicos, na devoção àVirgem Maria. Parece-me até que dão mais pompa
às suas festividades.
Quem fica abaixo, muito em baixo, são os Protestantes, para quem a Virgem é mulher como as outras, sem distunção!
Pela Santa Escritura que eles seguem à risca, foi na verdade uma figura apagada.
Entretanto, por sua virtude e desígnios do Céu, é que Ela realmente,
viveu sem brilho nem fama universal, nos primeiros tempos.

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Amadora
16-8-1989 Chanada Telefónica.

Foi ontem o caso. Insistira, várias vezes, mas sem resultado. Já de noite, já de dia, a horas diferentes, era tudo a mesma coisa: o calado em resposta ou que não estava.

A princípio, respondia Odivelas, pelo gravador: "o número antigo foi alterado: onde está 98, ponha 93, sendo o resto igual,"
O tempo decorria, urgindo um contacto com o José Duarte. Finalmente, lá fui encontrá-lo, na sua própria casa, sita em Odivelas. pelas 21 horas ou um pouco mais.
Fiz-lhe então saber da preocupação, com o meu original, entregue à
Europress, com vista imediata à publicação, caso lhe interessasse, comercialmente..
Decorreu já um ano, sem nada transpirar!
Diz ele, por fim:" Na quarta- feira, dia 16, encontro o editor. Ficarei a saber o que está resolvido. Depois, telefono!"
Aguardo, pois, ansiosamente, que venha o resultado: negativo ou positivo.
Hoje será!
Este original, Diário vivo de 1975, escrito em Angola -- anda em consultas,vai para três anos. Creio não me enganar, dizendo, a propósito que, no mês de Outubro, iniciou ele a caminhada inglória

Vamos ver se passa, ao menos desta vez. Os outros irmãos aguardam a sorte que vai caber-lhes também. É que, saindo bem o primeiro lançado, vão compartilhar da sua vitória
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Amadora
17-8-1989
Na Rodoviária, trocavam impressões três damas lutuosas que, pelos modos, eram bem fiéis a costunes cediços. Todas concordes no assunto que as prende, figuram três peças dum só mecanismo.

O tema em discussão era certa jovem que eu não conheço, mas avaliando pelo que ouvíamos, apoiado vivamente por todo o grupo, deve ser teimosa, recalcitrante e senhora absoluta do seu nariz!

Ignoro, realmente, se ela pertence a qualquer das três. Até julgo que sim. Bom. Estando ao pé de mim, que eu o não quisesse, tinha de ouvir as recriminações, embora não fosse dado intervir no diálogo.

Dizia-se à boca cheia: " Se fosse minha filha eram logo befetadas, que empolavam as bochechas!
Sublinhava a segunda: "A importância dava-lha eu! Olha a 'desanvergonhada' Já umamulher e o que se atreve a fazer!"

Neste comenos, avança uma terceira:"Eu cá , era logo de principio! De pequenino é que se torce o pepino! Mas eu garanto: se tivesse a ousadia de levar a dela avante, nem os Santos lhe valiam! Partia-le a cara! Olha a figurona!
Assim decorreu o processo da manhã, fazendo-me lembrar os hábitos da aldeia!
Isto. assim .não é educar! Donesticar, isso sim! Processo igual se aplica aos animais! Não é pela força, mas pelo amor, a partir da convicção.
Seguindo na vida o trilho das danas, só teremos revoltados, elementos inúteis, em tudo vãos!

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Amadora
18-8-1989
Evocação!
Vem agora ao de cima o 24 de Agosto, que deixou na minha alma o perfume da infância! Com ele de permeio, surgem, desde logo. formosos vultos, que a morte cruel retirou, para sempre, dos meus caminhos, cá neste
mundo, pois que no outro espero encontrá-loser ficar para sempre em sua
sua companhia.
O S. Bartolomeu é o último dia da feira anual, que se realiza, na vila de Trancoso. Durava uma semana, o que levava, pois, a iniciá-la, no dia 17 ou então 18.
Decorreram muitos anos, mas a lembrança aviva-se em mim.
Quem marcava presença era meu pai. Como ele vibrava, em dias assim! Por via de regra, vendia e comprava. O forte dele e as suas preferências iam iam decerto, para o gado bovino, que tinha o seu auge, no dia 21 como 22.

Além disso, não punha de parte o gado equíno.
O entusiasmo do pai adorado, as grandes aspiraçõres cuidados, comunicavam-se a todos, no lar idolatrado

Nós, os meúdos vivíamos a fundo esses dias felizes,, devido às surpresas que nos aguardavam. Poe estas razões, uma vez a caminho o chefe de família, os nossos olhitos dilatavam-se breve, na extensa paisagem, até se
perderem, na linha extrema do horizonte distante...
Que funda ansiedade então nos invadia!

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Amadora
19-8-1989 Cont.
Nesses anos remotos, o percurso inteiro era feito a pé. Saía-se, pois, de Vide-Entre-Vinhas,, ao cair da tarde, para chegar a Fiães, por noite cerrada. Para trás, ficáva-nos já Celorico da Beira, a Estação do Caminho
de Ferro e os Banhos da Emília. Após estes, a subida em torcicolos, que leva da estrada à povoação se Fiães.

Aqui pernoitava aquele Pai adorável.
Comid o farnel que uma pinga de vinho ajudava a engolir, dormia tranquí-lo, em velho cabanal, onde havia muita palha.

Ao outro dia, logo cedinho, a derradeira etapa que era já breve.
Os pimpolhos e a mãe haviam ficado, no Carvalhal, Da velha casa, espraiavam-se os olhos, aguados e saudosos, vasculhando caminhos e
seguindo pela estrada que nos levava a Freches.. Ao longo dela, corriam pressurosos veículos sem conta!

Para chegar mais cedo, não viria o paizinho em um dos tais?!
Como podia ser, não havendo estrada para a velha aldeia?! Por outro lado, as novas reses tinham, por força, de vir a pé!

Tais pormenores passavam ocultos à nossa imaginação!
Cerrava-se a noite que era já segunda! Num momento qualquer havia de ele chegar! Por esta razão, fugia pata longe o sono habitual! Entretanto,
as horas sucediam~se e os olhos impotentes, da enorme fadiga, deixavam lentamente que Morfeu bondoso os pusesse em descanso!

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Amadora
20-8-1989 Aqueles Beijos.
Julgará o leitor serem, por ventura, beijos escaldantes, verificados já,
nas tele-novelas? Destes, afinal, vêem-se a montes, inúmeras vezes, em cada dia.
Toda a gente sabe qual é, de facto, a sua natureza. Artificiais e exagerados, procurando mostrar a pronta efervescência da carne em fogo e um falso amor que, de facto, não existe, caem à toa, atropelando sempre as regras da decência.
Um beijo autêntico, amoroso e leal, generoso e sincero, é sempre moderado, nunca em desdouro, fúria, destempero.
Basta ver, na verdade, como são geralmente os beijos das mães. Foi isto mesmo o que hoje observei, no cemitério da Ajuda. Uma senhora velhinha, encostada à bengala e amparada ali por duas amigas, olhava para a urna, cheiinha de angústia.

Ao vê-la aberta, avança pressurosa, enquanto vai dizendo:" Filho da
minha alma e do meu coração! Aih! Em seguida, inclina-se tremente, afim
de beijar, pela última vez, cá neste mundo, um rosto cadavérico, para ela sagrado!
Que suspiros fundos arrancava do peito! Que lágrimas ardentes brotavam de seus olhos! Que beijos amorosos, sentidos, verdadeiros ela
depunha nas faces álgidas e hirtas do filho estremecido!
E eu olhava fixamente aquele rosto de mãe, aiquebrada e torcida, que via, consternada, separar de si própria, o filho tão querido que gerara,nas entranhas!
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Amadora
21-8-1989
" Quando se tem filhos"

Ouvi eu próprio este membro de frase, na Televisão. Arranhou-me o ouvido, pelo que ntão me pus a magicar. Após isso, a dúvida aumentou,
chegando à conclusão de que não é aceitável a concordância do verbo.

Vieram logo ao de cima frases similares, melhor diria, membros de frases, tais como estas: compram-se casas;erguem-se prédios, dão-se esmolas;
renovam-se contratos; retêm-se bens; aguentam-se malogros; detêm-se malandros; contêm-se iras; têm-se maneirar que não desagrada; etc,

Vê-se claramente que o sujeito delas é o substantivo que e stá junto ao verbo
Trata-se, afinal, da voz passiva, formada ali com a palavra "se" que
apassiva o verbo: compram-se casas ou casas são compradas. O agente
da passiva fica indeterminado: por alguém; por muita gente; por poucas pessoas.
Na cláusula do topo, o verbo ter significa possuir, ter de seu.
Construindo a oração como foi ouvida, equivale ao Francês: Quand on a des enfants.
Nesta língua, porém, está correcto. Sujeito: on; predicado:a; complemento directo: des enfats
"On" deriva do sbstantivo latino "homo" (homem).

Nenhum clássico nosso abona a connstrução que se vê ao alto.
Refiro-me, claro está, aos grandes Mestres da Língua Portuguesa , como
Castilho, Herculano, Vieira,bernarde,Sousa, Garrete e outros

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Amadora
22-8-1989
"Tudo bem?"
Ouve-se a rodos esta pergunta, ao longo da jornada.
Quanto a mim, não sei porquê, nunca sucedeu cair-me em graça. Embirrava com ela, não a perflhava e até, por vezes, chegava a irritar-me..

Perante o caso, pus-me a estudá-la, fazendo então por extrair-lhe toda a substância. Uma vez assim , veio a conclusão: é uma expressão, vazia de conteúdo: hipocrisia, sim, é o que revela.

Jogos de palavras que o mundo utiliza, sem atender ao significado?
Como pode ser o que a frase encerra? Alguém haverá a quem tudo corra segundo o seu desejo?! Sendo isto assim, a que propósito vem a citada
pergunta?Não diz o anexim :" ninguém estã contente com a sua sorte?"

Razão tinha eu, para não acarinhar os dizeres referdos!
"Comment ça va?"-- como usam os Franceses ou o"hoe gaan dit" dos
Sul Africanos, ainda se toleram!

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Amadora
23-8-1989
"O prazer foi todo meu!"

Hora a hora, se ouve esta frase, mais que banal! É chapa jã gasta, como a anterior. Debrucemo-nos, pois. sobre o conteúdo,analisando-o bem. Logo à primeita vez que alguém rematou, por esta maneira, fiquei indisposto
Foi um prazer encontrá-lo aqui!
-- O prazer foi todo meu!
Perante a saída, egoísta em excesso, quase me fui abaixo! Nada para mim! Tudo para os outros! Assim, não é viver!

Se me disessem: "Para mim também!"nada objectava! Equilibravam-se as doses. Tudo por igual!
Evidentemente, querendo tudo alguém,, nada fica pwrw os outros!
Toda a gente o emprega? Não tenho culpa disso!

Entrou, possivelmente, nos hábitos da Língua? Não devia ser!
O egoísmo é um dado negativo, que devemos combater! Opõe-se ao amor! Ora, sem ele, não há felicidade!

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Amadora
24-8-1989
Ainda o " Tudo bem?"
Claro se deixa ver que é, na verdade, uma frase hipócrita! Sendo isto assim, por que a ouvimos, a torto e a direito?! Será emtão admissível que pensemos de um modo, impingindo o oposto?!

Jogar deste jeito é não ter dignidade... ser aldrabão e meter em seu jogo as outras pessoas.
Querendo provas maiores de tal falsidade, vamos encontrá-las, na Sagrada Escritura! " Omnis homo mendax" ( Todo homem é mentiroso).

Se tudo corresse bem, era o discípulo muito mais que o Mestre! Este
sofreu pelos nossos pecados e nós, em troca, gozávamos a vida?! Tomaríamos parte na Paixão do Senhor?!

Se Paulo de Tarso, inspirado por Deus, escreveu o seguinte: "Completo no meu corpo aquilo que falta à Paixão de Cristo!"

Correr tudo bem, segundo o conceito do mundo pagão, é gozar a vida, não tendo barreiras que vedem o prazer... não achando espinhos no seu
caminho nem entraves, por igual, em suas aspirações.

Como se vê, é pois anti-cristã a pergunta usual que vemos ao alto.
O Apóstolo S. Paulo tem outra frase, mais arrepiante: "Castigo o meu corpo e reduzo-o à escravidão, para que não suceda que, tendo pregado aos outros homens, eu me venha a condenar"

O sofrimento, a cruz e a dor bem como a angústia, fazem parte da vida e
ninguém, por mais pintado, é capaz de furtar-se a este plano, gizado no Céu, para nós, pecadores!
É que todos nós somos réus de culpas. Ora bem: ofendendo ao Senhor, ficamos devedores.

Que acontece a quem deve?! Tem de pagar! Ora, um dos processos de satisfazer é levar cada um a cruz da vida. Não há repontat nem tentar eximir-se. A lei é geral, estendendo-se, pois, a toda a Humanidade.
No Pai- Adão todos pecámos, A isto acrescem as faltas pessoais.

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Amadora
25- 8-1989 Deserções

A curiosidade afecta o ser humano, sendo apesar de tudo uma fonte prodigiosa de conhecimentos e fautora de progresso. Às vezes. porém. tem aspectos malsãos ou se envolve em malícia, com vista à destruição.
Não é desta última que intento falar; sim, da primeira. Vem agora a pêlo a atitude do clero ( não todo, certamente, nem a maior parte, ao menos por agora!)
Refiro-me, já se vê, aos que abandonaram o exercício das Ordens, pedindo a redução ao estado laical ou afastando-se pura e simplesmente, sem pedido à Santa Sé, para efeito de dispensa.

É de notar ainda que alguns dentre eles pediram também, sem ser atendidos. Outros ainda obtiveram parte, ficando obrigados a guardar o celibato, Situação encravada esta derradeira! Direi até inadmissível!
Bom. Prossigamos, então.

É incontestável que muitos milhres saíram das fileiras. uma vez que,da primeira leva, foram logo 8o.000! Este é um facto que ningém, por ousado, se atreve a contestar.
A sociedade olha para isto, com reacções diversas, encarando a seu modo o caso em foco.
Vou-me fazer eco de várias opiniões, já dentro já fora da Igreja Católica, para finalmenre, apresentar a minha, procurando alicerçá-la nas
Ciências Humana hoje em grau avançado, embora a Roma Papal não´dê aceitação a estas achegas de carácter científico.

As Congregações, ditas Romanas entram logo em pânico, ante esses
dados, tentando obstar ao que vai demonstrado e se torna irreversível.
Juntarei tanbém as minhas observações e bem assim a experiência adquirida, pois que, sendo atingido, me assiste o direito de argumentar,
a partir, claro está,da minha vida pessoal.

Os meus problemas somente eu os conheço e tenho de resolver! A sociedade encontra-se à margem Por isso, tenho ao que julgo, o direito
inalienável à minha integridade, no aspecto afectivo, social e psico-
lógico, humano e sexual. Foi assim, realmente, que Deus me criou!

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Amadora
26-8-1989
Interpretação nos meios católicos.

Porquê, afinal, tanta deserção?! Há várias razões,mas olho agora apenas a uma: a que tem a ver com a própria fanmilia, o amor e o lar bem como o sexo, Este, pois, o lado concreto que vou focar!
Antes de mais, ouçamos o que dizem, nos meios católicos:" É falta de fé!"
Eu contesto veemente, provando o contrário. Outros persistem e porfiam ainda, noutras razões: perda de vocação; esfriamento na vida de piedade; falta de prudência; exposição ao perigo; e assim por diante.

Num caso ou noutro, pode ser isto, no todo ou em parte, mas a causa profunda, geral e amarfanhante não se encontra aí! Muito nais longe temos de procurá-la! Situa-se ela nas próprias raízes da alma humana.

A Igreja Católica há-de confessar que errou os meios, para formar o Clero. A prova real encontra-se à vista. Obrigou os jovens a viver como velhos, de modo artificial, preparando-os logo, para viver nos Conventos, em regime de clausura.
O caso presente é deveras assombroso!Jovens ainda, com maneiras de velhos é, na verdade, artificialismo e funda punhalada no ser humano.

Antes de prosseguir, quero fazer já inportante distinção: vocaçao genuína para o matrimónio e para o sacerdócio, ao mesmo tempo?!
Não foi assim que o Fundador Celeste encarou o problema?
Que fizeram os Apóstolos, seus continuadores?

Não deram o Sacerdócio a homens casados?!
Fez Jesus Cristo algum reparo?!
O primeiro Chefe da Ugreja Católica, por Ele escolhido, não era casado?! Refiro-me a S. Pedro,cuja sogra foi curada, segundo a Escrutura.

A vocação como a Igreja a encara, é sem matrimónio.
Destas vocações que os homens criaram, procurando impô-las, à custa de tudo, é bem forçoso que haja muito poucas, uma vez que se opõem, de maneira agressiva, à condição natural do ser humano.
PERGUNTO: -- O que Deus faz pode ser aperfeiçoado pelos homens deste mundo?!
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Amadora
27-8-1989
Dizer simplesmente que é falta de fé ou perda lamentável da própria vocação é, na verdade, estribilho já gasto que não satisfaz e nada resolve! Sacudir talvez a água do capote? Não querer admitir a realidade eloquente de factos comprovados e a crueza dura das situações? Caprichar sem termo em ideias obsoletas, marginalizadas, ao longo dos séculos?

É ver somente o que escreveu Le Bras, com aquela probidade que todos reconhecem! O mesmo se passa com Rops Bardy.

Negar a evidência é ter olhos sãos e não querer ver!
O obsoleto estribilho " que ça ne se sache pas"! Foi chão que deu uvas!
Na Idade Média, ainda servia, Época de fé, o Clero Católico tinha ainda
prestígio e aura bastante, para atenuar as mazelas morais!

Que seja falta de fé? Como pode acreditar-se, vendo nos templos, esses mesmos "traidores"a dar provas claras dessa mesma fé?

Que diz o povo? " O amor e a fé nas obras se vê!" É máxima antiga!
Sim! Vejo-os ir comungando, assistindo à Missa... Fazem as leituras, ensinam a catequese; rezam o Terço; angustiam-se imenso, ante a incompreensão de certas pessoas, quer dentro da Igeja quer fora dela!

Isto não é fé?! Perderiam eles a vocação? Qual? A que Jesus exige ou a imposta à força, pelos homens deste nundo que só agravam os fardos, em vez de aliviá-los?!
Quanto a exercícios, na esfera da piedade, por via de regra, conservam o mínimo.

Casos se encontram de saturação, devido, naturalmente ao proceso errado,
seguido no Seminário. Chuva abundante que não penetrou! Erro de aplicação! Processo de trevas, segundo Condillac, o método sintéctico, na educação1
O analítico, sim! Guiar, mas não levar; dirigir, mas não forçar, como diz Garrete, no seu belo Tratado " Da Educação"

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Amadora
28~8-1989
Perguntava, sorrindo, o Dr. Dion Swart, protestante convicto e Reitor do Liceu, onde eu era profssor, em terras da Namíbia: " Por que é que os vossos padres abandonam em massa o exercício das Ordens, optando assim pelo casamento?!"

O sorriso dele intrepretava-o eu, com bastante clareza. Significava apenas que eles timham razão, há 400 anos, pois tantos já faz o Protestantismo Era realmente como se dissesse: "Vós, a rigor, é que estaid caminhando, com rumo a nós!"
Eu, por minha parte, esmerava-me então em fazer-lhe compreender que se trata apenas de questões disciplinares. Estas, realmente, podem sofrer algumas alterações, pois não fazem parte do sistema doutrinal. Até
porque o celibato não é, realmente, de origem divina.!

Os Santos Apóstolos seguiram o Mestre, no seu agir.
Perante as reacções, a voz da História, ao longo do passado. e os factos eloquentes da nossa época, tiramos conclusões que se impõem por si.
É uma corrente que não pode travar-se! Nem o Pontífice o pode fazer!

Tentando isso, ficará esmagado! É irreversível esta arrancada...
este reconhecer do logro fatal... este longo martírio que vai esboroar-se,
por ser contrário à voz da natureza, criada por Deus.: " Crescei e multiplicai-vos e dominai a Terra".

O Criador não fez excepções e dotou os seres todos de quanto precisam, para viver o amor, fundar um lar e ter família. Jesus em Pessoa teve uma família. e quando à mesa, em Cafarnaum, era ali servido pela própria sogra do primeiro Papa. Assistiu ainda às bodas de Caná. Tratava-se então dum casamento.
Os snais dos tempos são, neste mundo, a voz de Deus. É a consciência que fica iluminada, vindo porfiar em que seja criada forte oposição, logo que a Natureza sofra algum dano.

João XXIII deu o grande passo; Paulo VI imitou-o depois; João Paulo II vai recuando, mas perde o comboio. Já o não apanha!
A Natureza tem os seus direitos que são intocáveis e de respeitar.
Estas grandes certezas levaram a reflectir e a sérias conclusóes.

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Amadora
29-8-1989 Cont,
Onde mergulham as grandes raízes de taata deserção? Terão validade? Será posta em causa a formação do lar, ministrada em Portugal e bem assim a continuação, em nossos Colégios e Internatos, sejam estes Seminários? É o que vamos ver.

Não vou defender que só a imaturidade, sexual e afectiva possa justificar os casos todos. mas porfiar, sim,em que grande parte deles ( a maioria absoluta) têm de facto, ali , a sua raiz ou causa verdadeira.
As Ciências Humanas que surgiram, neste século. provam-no à evidência~.
Os casos lamentáveis que se tornaram famosos e correram mundo,
como por exemplo o do Padre Desnoyers e outros mais; aqueles muitos que ficaram ignrados; outros ainda que não chegaram jamais a consumar-se,
constituem uma prova que é exaustiva e incontestável.

É preciso descer aos recônditos da alma, examinando ali as razões gritantes que levaram muitos a deixar o Sacerdócio. Analisando as causas, quero dizer, a vida afectiva e sexual, chegamos sempre à mesma conclusão: a imaturidade, já sexual, já mesmo afectiva é que está na raiz.

Não basta dizer que perderam a fé... que foram infiéis à graça de Deus ou se intimidaram, ante as dificuldades. Não satisfaz chamar-lhes traidores ou
ainda desertores, cobardes ou monstros! É urgente pesquisar e fazê-lo com esmero, paciência, afinco.

Também não aceito que se ponham à margem, como excomungados,
pois eles. na verdade, não sáo culpados! Fê-los assim, por modo geral, o sistema vigente, quer no próprio lar, quer seguidamente nas Casa de "Formação" O termo próprio é "Deformação"
Traídos foram eles e meras vítimas de má preparação que não actuou, por ser errónea e contra-indicada.
Porque este problema é tão delicado e levou à tragédia, devemos tratá-lo com muita diligência e compreensão

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Amadora
30-8-1989 Cont.
A vida afectiva, A criança. em geral, tem fundas exigências que hão-de ser satisfeitas.
Caracteriza-se a fase pelo egocentrismo. O ser humano vive para si, exclusivamente. Tudo carreia em sua direcção:alimento e afecto. apoio e seguramça. De si, realmente, é que nada transborda!

Além do mais, não pode ser privada nem sequer defraudada, no
tocante às carências, nomeadamente o afecto. Urge proporcionar-lho naquela medida , em que ela o exige, caso contrário, dobra-se ela sobre si,
gerando situações, deveras lastimosas: o narcisismo (afecto mórbido à sua pessoa).
Em tais circunstâncias, a pobre criança, porque foi bloqueada, no todo ou em parte, desforra-se isolada, sem fonte de afecto. Tal situação origina, a longo prazo, habitual masturbação. Acostuma-se ao prazer, sem nenhum parceiro, adquirindo vícios que marcarão a sua vida. Pode ser o caminho para o grande abismo, a homossexualidade. Outros efeitos podem seguir-se: conservar, ainda, pela existência fora, traços vincados de infantilismo.

É que, na verdade, as fases da evolução não seguiram jamais o seu curso normal. A criança em causa não evoluiu. Contou anos apenas e experiência, decepções e maus hábitos: nada mais que isto! O que vem depois a caracterizá-la é, afinal,a insegurança e o próprio medo; o bloqueio total dos meios de conquista: a negação absoluta da afirmação de si mesma.
Tudo isto ocorre, porque sendo adulta, não evoluiu, acompanhando a idade e o mesmo físico, na psicologia, afectividade e sociabilidade.
Tal situação levará o rapaz à instabilidade e ao adiamento do próprio matrimónio.
Chegado o momento, em que descobre o outro, não se decide, pois estacionara, na fase anterior. De nada vale chegar à puberdade, em que é feita a descoberta dum terceiro especial, uma vez que o rapaz ou a rapariga se fixara com firmeza, estacionando, talvez, para todo o sempre ( ao menos seguramente para muito depois).

Passando quase em vão a descoberta do "outro", entra deste modo pela fase adulta, sem que os traços antigos, vincados de infantilismo, se tenham apagado.
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Amadora
31-8-1989
Cont.
Em tais circunstâncias, é um ser inepto, que não pode realizar-se: não!
Sem segurança nem liberdade nem individualidade para fazer opções: a isto o conduziu o próprio lar, que falhou o alvo, preparando um infeliz. Decisões firmes e esclarecidas, já para o Sacerdócio já para o casamento ou a vida religiosa não pode tomá-las !É incapaz! Impotente, direi, para fazer tal!
Mais! Sendo levado e não guiado; forçado e não dirigido, adapta-se a outrem, renunciando a si próprio, o que é um desastre! "Todos os conselhos tu ouvirás: só os teus não deixarás!"

Não é assim a máxima popular?! Qualquer passo que dê, não é certamente o educando em pessoa quem actua ali: são antes as pessoas que lhe insinuaram a via a seguir, repetindo-a muitas vezes, para ele se adaptar. Não foi ele, de facto quem escolheu: outros o fizeram..

Consequências más? Fatal desacerto? Se tomou compromissos, apoiado nos outros, como vai executá-los?!
Descobrindo o "outro", a mulher-esposa, já tardiamente, não pode recuar. Será responsável?! Quem foi o culpado?
Para assumir alguém a responsabilidade, é mister, naturalmente, que passe desoprimido, livre e seguro, pelas fases todas que a vida apresenta.
Daqui se vê bem que a responsabilidade cabe aos próprios pais e outros Superiores.
Eles, sim, é que urdiram a teia que envolve o infeliz, o que nem sempre acontece!
A quem aproveitarão estes seres inditosos que ninguém compreende e todos condenam?! Também Deus o fará? Julgo que não.
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Nyangana-Namíbia
\977-.09-01 Professor- charlatão.

Tem este Diário traços iguais ou, pelo menos, semelhantes a outros, que julgo haver escrito. No entanto, há certos pormenores, que o tornam diferente, Quanto a semelhanças, apraz-me, agora,
repetir o seguinte: efectuava-se em Roma a aula de Dogma, sendo
Catedrático um grande professor, eminente e culto e profundo teólogo - o Cardeal Biot.
Depois de S. Paulo e Santo Agostinho, ocupará talvez o terceiro lugar, na esfera teológica.

Ora, um dia memorável, em que o grande teólogo expunha, com brilho, o que julgava oportuno, sobre o mistério da Santíssima Trindade, Agostinho de Sousa, que era já então o urso do Colégio, pediu licença ao Mestre abalizado, para expor ali uma
séria objecção.
Autorizado que é, clareia o pensamento, deixando o Mestre em sérios apuros. Recolhe-se, pois, durante longo tempo, de braços apoiados na tribuna de professor, descansando a cabeça, amparada nas mãos.
Na ampla sala. onde havia alunos de várias nações, não se ouvia sequer o zumbir dum insecto. Ambiente pesado, de enorme expectativa e quase ansiedade se cria prestesmente! Só os olhos fulguram, levados da Agostinho até ao Cardeal!

Por fim, soa a campainha e só então é que vem à fala: " Sinceramente confesso não haver passado pela minha cabeça
objecção de tal ordem!. Peço 8 dias, para resolvê-la!"

Haverá ou não professores charlatães?! Considero tais os que nada sabem ou muito pouco, divagam e discorrem, sobre assuntos banais, para iludir e atirar poeira.!
Convido os tais a meditar, sobre este caso.
O professor "sabe tudo" ou nada sabe,,às vezes"; o charlatão é sempre ignorante.
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Nyangana
1977-09-02
Revendo agora dada Novela, que há muito iniciara, para logo abandoná-la, tenho imensa pena de não haver continuado. Efectivamente, só 12 capítulos estavam delineados.,Arrependimento, assaz extemporâneo! Lá diz o rifão:" Burro já morto, cevada ao rabo! Não há remédio!

Esta mágoa, porém, assalta-me frequente, não logrando fugir-lhe! Que eu, agora, quero rematá-la e não acho fácil! Barreiras diversas erguem-se a pique, diante de mim! Escrevo, é certo, com mais fluência; arredondo a frase e empresto-lhe ainda mais harmonia,
Entretanto, o grande problema é que sinto diferente!
Dizem os fisiólogos que todo o nosso corpo fica renovado, ao fim de 7 anos. algo semelhante, em ordem ao espírito e seus objectivos?!

Serei, na verdade, um ser diferente?! Bem parece que o seja!
Não fico surpreendido, ao reler o que pensava, meditando sobre o modo como então sentia?! Que denota. a rigor, a minha surpresa?! Fui eu, na verdade, que pus aquilo em letra redonda?! Não posso negá-lo! A vida é assim! Continua mudança!
Já o nosso poeta o havia dito: " Todo o mundo é feito de mudanças!" Só Deus não muda, por ser eterno e omnisciente!
Os seres criados são inconstantes, volúveis, efémeros! Hoje, querem sim e amanhã já não!
É tal a confusão, que nem o próprio se entende a si mesmo!
Isto que aí fica leva a concluir : só em Deus do Céu há-de pôr-se a confiança!
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Nyangana
1977-09-05
Finalizaram ontem, já pela tardinha, os Exercícios Espirituais. Foram realizados aqui na Missão. Havia sacerdotes e também religiosos de ambos os sexos. Duraram apenas 48 horas.
Para mim, é sempre alarmante e sujeita a pesquisa a maneira exacta como decorrem. Habituado como estava ao retiro fechado, mudo e pesado, faz-me impressão, aliás agradável, o modo atraente como ele se processa.
Havia alemães e alguns holandeses. Antes de mais, olhei para o horário, Tem 8 alíneas, 4 das quais para refeições, incluindo a primeira, Laudes e dejejum. As outras 4 respeitam a conferências e Eucaristia.
Deitam-se eles, à hora que lhes apraz. Durante o dia, falam normalmente, sobre vários assuntos, mesmo profanos; lêem livros, a capricho, revistas e jornais, passeiam onde querem e mais lhes agrada ; bebem e fumam. Resumo o facto nestas palavras: encontro amigável e recreativo, com breves orações, rezadas em comum.

Este modo, afinal, é tolerável, humano, atraente! Olha, de igual passo, a corpos e almas, realidades palpitantes que não podem ignorar-se. É horroroso imaginar crianças, moços ou jovens, em retiro fechado, ao menos habitual! Um horário denso, com tudo em pormenor; lábios cerrados, duranta vários dias;; leituras uniformes;
contactos proibidos; orações prescritas, em grau exagerado.

Qual o resultado? Esperar ansioso que o acto expire e criar má vontade a essas exigências. Desta maneira, vemos transformado em meio de imperfeição aquilo exactamente que devia ser caminho de alta perfeição!
Amarram-se a costumes, velhos e bafientos, impróprios da época e da pobre natureza! Quem os convence a fazer mudanças?! "Recreio espiritual", dizia com graça um padre holandês!

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Liceu Linus
1977-09-06
Está decorrendo a prova de Alemão, Standard 8. Levará
três horas, a primeira das quais, vigiada por mim: são as Frequências, que põem já termo ao terceiro período. Alguns alunos fazem seu exame que será verificado, no próximo Outubro pela Inspecção. O ano precedente, creio não ter vindo.

De amanhã a oito dias, finalizam as aulas, para haver uma pausa,que dura 11 dias. Logo em seguida, vem o 4º período, que remata, de vez, o ano escolar, em 8 de Dezembro.

Os jovens finalistas somam 19. Estão cheios de euforia, pois já melhoraram a craveira social e vêem chegada a hora feliz da independência. Como vai ser o futuro breve desta região? Deus o sabe! Estamos apreensivos e muito inseguros, Enorme interrogação se ergue ante o mundo, todo em alvoroço! Jamais foi vista igual convulsão!
Se Deus não tem dó, incutindo nos homens o respeito devido e mais sensatez, o mundo sossobra! Agora, são crimes a rodos, com violências frequentes, rapinas, extorsões, com tortura e despotismo, inveja e doblez, hipocrisia, e só mentira!

Amanhã, (quem sabe?),talvez a guerra química, destruidora da vida que só a Deus pertence! Por que intenta o homem destruir, para sempre, aquilo que não faz?! Ambição e loucura, inveja e ódio, inferno e mil diabos, que pensarão realizar, neste mundo conturbado?!
Eu tenho fé viva que Deus não dorme e se encontra vigilante.
Apesar de tudo, para que o mundo acorde e se erga prestesmente, consente, às vezes, um banho de sangue! Do mal tira o bem!

O homem de hoje parece um louco, voltando as costas a seu benfeitor, para renunciar ao belo destino a que Deus o chama!

A mensagem de Fátima é claraia comunista espalhará seus erros,
lançando a Terra em grande confusão, donde surgirá a maior desgraça! O caso triste do Império Português foi uma prova.

O mundo actual está em convulsão, Há fome de pão, fome de justiça. fome de amor! Não foi isto, exactamente, o que disse a Virgem, na Cova da Iria, há 60 anos?!

O mundo sofre, geme e agoniza mas, se não abre os olhos, vendo as coisas à luz de Deus e tirando lições, maior vai ser o castigo iminente!
Que Deus generoso mova os corações e clareie a inteligência, para que o mundo reflita e repare o mal feito. Somente
depois é que teremos paz, felicidade e bem-estar.
Rezemos, pois, e façamos penitência, por nós e pelos outros!

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1977-09-07
Nyangana
Vai Setembro em quarto! Aproximam-se as férias. Para mim, afinal, estas não existem. Não fico eu triste, batendo-me à porta?! É que, tendo aulas, absorvo-me nelas, passando o tempo, sem aperceber-me! Exercícios e lições, provas de frequência e algumas cartas não me deixam escape, em que sinta enjoo.

Aguardo as férias, sem entusiasmo, encerrado como sempre e incomunicável?! Em vez de prémio, alvoroço e repouso, é mais punição e angústia de alma!

Tudo lembra então e o passado emerge, com todo o seu cortejo de belas realidades, Pátria e família, amigos provados, lugares saudosos, que embriagam a alma, só de os lembrar; paisagens deslumbrantes, cativando os olhos... céu que enfeitiça,
ao mirá-lo ,com afecto! Tanta coisa linda, para conforto e alegria do meu coração!
Isto, porém, não encontro nem busco, em terras do Cavango!
Aqui, a solidão faz-me companhia e, logo muito perto, o soar dos canhões... Angola e Rodésia... Pode isto embalar?!

Senhor dos senhores, que governas o mundo, estás acaso dormindo?! Não vês a amargura que vai pela Terra?! Tanta desolação e gritos de angústia! Tanta lágrima escaldante!

Acorda, Senhor! Vem depressa libertar-me. Traz-nos a paz com a firme esperança de melhores dias! Move os corações
inclinando-os ao bem!
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Liceu Linus
1977-09-08
Após 4 meses, esperando ansioso pela caderneta que o Banco retinha! Chegou ontem, por fim, Veio. na verdade, mas trouxe enjoo, registando menos do que havia levado. É tudo assim, em terras estranhas! O rogado Permit ainda não chegou, quando na verdade, o fim do ano já está próximo. Prisioneiro fico, por mais uma razão.
Voltando à cdaderneta, a diferença é já respeitável! Excede os 20 contos! Amanhã, irei eu ao Rundu para lavrar o meu duro protesto, expondo o assunto, Maçada tremenda, inquietação e o meu exílio!
Ser refugiado é já um estigma! Olham para nós como entes de segunda!... cobardes e lorpas que não lutaram, pois fogem ao perigo! Só Deus entende a situação infamante e sente piedade!
O homem é mau, servil e hipócrita, egoísta e perverso!

Sacrificar-se pelos outros irmãos, renunciar ao que é seu,
embora extorquido, não é com ele. Por isso, acontece o que o mundo está vendo e o faz amargurar!: ódios e lutas, convulsões de ordem social, assassinatos bárbaros, espancamentos, violências e roubos... É mal? Sim, na verdade, mas resulta necessário, de tanta injustiça, depradação e abuso.
Quem me dera já, em solo português, onde tudo é meu e sou de facto compreendido! Psicologissa assaz diferente, costumes que não amo... idioma estranho!

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Liceu Linus
1977-09-o9
Ontem, pelas 9, desloquei-me ao Rundu. para nada obter ou melhor ainda, para convencer-me de que alguém, no estrngeiro é sombra apenas! O ex travio de dois che ques, de que eu não tive culpa fazem enervar-me, sem nad a have r lucrado, até
ao presente! Se a culpa é nossa, a ninguém nos atornamos,, sofrendo resignados o efeito necessário.
Ma s neste caso...
A viagem ao Rundu é autêntico martírio que nada pagaria! Chega-se à noite, de corpo num feixe! Tão moido eu vinha, que não pus olho, ao longo da noite!A estrada é horrorosa! Aquilo, a rigor, não é
estrada! Um caminho dos piores! Até o carro do Liceu, que afinal é sólido e bem acomodado, faz pena vê-lo e mais ouvi-lo! Parece, na verdade, um monte de latas! Nada tem que não bata!, quando em movinento!.
Além disso, devido aos buracos e largas e largas depressões, ao longo da via, é guinada para um lado, arremesso para o outro e
saltos que enervam. Doí-me a cabeça!

A niveladora passa, de vez em quando, mas é sol de pouca dura!. Os carros do exército, grandes e pesados, inutilizam breve, a precaria via! Já não falo nas poeiras que são enorme perigo e martírio constante
Chega-se ao Rundu. Impossível agora andar a pé! Asx ruas a uso, na capital do Cavango, não são alcatroadas, aglomerando-se o pó, em tal quantidade, que a gente se enterra , fazendo da marcha quase aventura! O ar é tão denso, que se corta à faca e a mesma respiração a custo se faz.

As espinheiras parecem caiadas... o calor então , é sufocante!
Isto é o Rundu! Para mais, sem pensões nem hotéis,! Fujo e enlouqueço, de pensar no assunto. Para distrair, fui ter sem demora, com a família André. O nosso diálogo , deveras animado, recordando o que fomos, levou-me o tempo, sem grande incómodo.!
Às 5 menos 15, buzinava o angolano, junto à moradia. Aqui,
durante várias horas, cavaqueámos e rimos, contando nossas l
mágoas, falando de projectos e fazendo comentários.

O Vasco André arranjou trabalho, como simples pedreiro, mas ganha bastante: 1 rande e 5o, em cada hora. Dá isto em resultado ganhar tanto como eu, no fim do mès! Afinal de contas, de que serve um Curso que dizem 'superior'?!

Ele tem apenas dois ou três anos de Escola Técnica. Frequentara as disciplinas, em Nova Lisboa..Assim vai o mundo! Que ele precisa
mais que eu! Deus o ajude e a mim não falte! Eles são 4!
Vigio, nesta hora, o Teste de Africânder, Standard 8, último ano do nosso Liceu.
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Nyangana
1977-09-10 " Esta é a minha casa!"

Em 9 do corrente, viajava para o Rundu, sendo condutor um preto angolano, de nome Abanus. Como a picada apresenta buracos, desabafou ele: "O caminho num stá bô!"
Buracos e covas, juntamente com o gado, assustam Abanus. Não admira! O azar, por vezes, origina desgraças !

Este nosso condutor fala Dirico, Língua nativa, deste lado e do outro! Também sabe Africânder e entende Portuguès. Já não é mau, para a classe dele! É refugiado, ganha dois randes, por um dia de trabalho e queixa-se muito de que o dinheiro não chega.

De facto, sendo casado e custeando as despesas, se a mulher não ganhar, há-de ter problemas e, portanto, razão!

Como dizia há pouco, íaamos avançando, caras ao Rundu
. Ele conversava, bastante animado, com um preto do Cavango que prestava serviços , no mesmo Liceu. Chama-se Christoph e é escriturário. A páginas tantas, abranda a marcha, desviando o camião para a berma da estrada.

Olho então para ele, um tanto surpreendido e, como ele notasse que eu estava interrogando, embo ra sem palavras, apressa-se a dizer:"Esta é a minha casa!"

Olho em redor, que há outra vivendas - tudo cubatas - e fico em branco! Acto contínuo, sai do lugar, encaminhando-se logo para a sua habitação.
Fico inteirado,! Serão apenas dois metros quadrados, se é que lá chega, a exígua área. Aqui se levanta o que ele, com orgulho, diz "minha casa!"

Realmente, comparada às outras, é muito diferente! Mais sólida até! Quanto a dimensões, não avulta mais! Quanto a solidez, excede as outras, sansivelmente! Ao passo que as outras mostram capim a servir de anteparo, na exígua cobertura, a do Abanus orgulha-se de zinco., a toda a extensão!

Como porta de e ntrada, não serve uma esteira, mas autêntica
porta, feita de tábuas, a qual é pintada a cores diferentes!
Logo à entrada, avulta um degrau, feito de cimento!

Como fechadura usa o Abanus um forte cadeado com chava reluzente! Caso único, no quimbo! De facto as outras portas utilizam cordas ou cascas de árvore a segurar o tapune!
Terá o Abanus razão justificada para o seu orgulho?!

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1977-09-11
NYANGANA Psicologia do Refugiado

Ser estranho é este que sofre duramente, por mais de uma razão: o drama pessoal e a aitude dos outrtros, que não viveram a grande tragédia. Vendo rir alguém, fica espantado e não acha razão, para que tal aconteça. Ele não ri: traz a alma ferida, reputando coisa estranha , se não ultrajante que alguém o faça.

Se ouve cantar, estremece fundo, pois os seus ouvidos não estão habituados. A sinfonia do costume é feita, a rigor, de sons dolentes, funéreos e macabros, entremeados sempre com o troar dos canhões, o esfuziar dos morteiros e o deflagar das granadas!.

A música sonante é esta sempre: matraquear incessante de armas automáticas... galopar furioso de carros de assalto... arrastar
,cavernoso, pesado e lúgubre dos tanques de guerra...voar sibilante e harto sinistro de caças e migues... suspirar de multidões que estão bebendo o cális da amargura!
Enquadrado neste fundo, não entende os que o rodeiam, parecendo-lhe estranhos e sem coração!. Traumatizado, um nada o faz chorar!, alegrando-lhe a alma atitudes gents, delicadas em extremo e generosas!
Se vê alguém de pé, fica logo estarrecido, pois o seu viver arrastou-se, em geral, por matagais, ao longo de muros e barreiras protectoras., Estas o livraram de ser fuzilado. Mesmo em sua casa, rastejava no soalho, debaixo de mesas ou objectos desalinhados,, desviando o corpo da metralha infernal! Outras vezes, passava o tempo encostado, entregando-se, pois, a muros protectores!

Como é triste e inditoso o pobre refugiado! Espoliado de tudo, perdeu, para sempre a alegria de viver! Vê pão e conduto, na mão do semelhante, como ele já teve, mas ao presente, se olha para as suas, nada lá encontra! Banido que foi, inconsolável e nu, Vê os filhos chorar, â míngua de pão
Se recorda o passado, erguem-se diante os vultos adorados que as armas prostraram
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Nyangana
1977-09-12 Remédio eficaz

Os colegas do Liceu levavam para as aulas a varinha do costume, dizendo eu logo não ser prerecisa, com excepção da aula de Matemática, para apontar no quadro!. Entretanto, os Sul-Africanos eram constantes, no uso da vara. Deixei passar dois anos seguidos. 76 e 77, sem que eu fizesse udo da mágica varinha.
Estando ao quadro, lembrava-me dela, mas decidir não era comigo! Apesar de tudo, lá de vez em quando, havia ruídos,, ao princíoio da aula, de modo especial prolongando-se estes, com exagero. Isto era nocivo ao proveito escolar, porque a duração ia
somente a 35 minutos, chegando o meio tempo, sem nada fazerem.

De vez em quando,, estudavam eles o que mais agradava, esquecendo o meu Inglês! Outras vezes, por motivos ignorados, não podia aturá-los!
Chegado a este ponto, examinei a questão, por maneira devida. Primeiramente, usei a persuasão, que não deu resultado, pois a maioria não fez caso disso!

Ante a minha reacção e nervosismo, deixavam-se rir,o que mais indispunha o meu espírito.
Analizando o caso, psicologicamente, cheguei então à verdadeira causa. A raiz principal do que sucedia estava no seguinte: os outros professores iam para as aulas armados e fardados. aeu
somante é que não!

Sendo isto assim, eram as minhas aulas qual derivativo, para os nervos deles, que ali se relaxavam, prazenteiramente!
Para mim, então, verdadeiro martírio que me arrasava os nervos! Conversando então com os meus botões, disse eu então: só um caminho me pode valer! A varinha mágica!

Assim aconteceu!. Ninguém já dormiu, como às vezes sucedia.
Pareceu um milagre!
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Nyangana
1977-09-13 Mais só!

Diz-se, geralmente, haver adjectivos que não admitem graus. Tais são, na verdade, os que pela natureza expressam estado,
matéria ou substância de de que é feita uma, coisa.
Se alguém á casado ou ainda solteiro, não pode ser mais ne menos do que é, na verdade!
O adjectivo 'só' inclui-se na regra. ano entanto, agora, estou mais só! O amigo padre Hermes saiu para férias. Como exil ado estou mais só! Foi Deus certamente que o pôs no meu caminho!

Como é triste a solidão! Não há portugueses nem tenho familiares! Há pessoas e Línguas, mas estrangeiras! Tudo, tudo longe de mim!
Como bom filho, não ode agora, ocupar-de mim! É natural,
compreensivo e humano! Um horrendo cancro pôs sua mãe entre a vida e a morte! Estão fazendo agora um tratameto esperançoso, a urãnio e cobalto. Costumam salvar-se 45%
Deus seja com ela!
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Nyangana
1977-09-14
Repartia-se o correio, na sala de professores. G rande ansiedade, no peito de todos, enquanto os olhos inquietos e sedentos,, estudavam os gestos, fixando as reacções dos que tinham cartas e liam confidências.

Tudo era vida, expressão, entusiasmo e esta onda subia,
transbordava até, fazendo-se riso, delírio e canto!
O que são na vida as vozes da alma, esses vínculos fortes que
nenhuma sociedade, seja ela qual for, poderá extinguir!

Foi ontem de manhã, às 7 e 15, antes das aulas.
A minha pessoa estava presente, mas agia tão longe!
Surpreendeu-me ali tamanha alegria, perguntando a mim próprio se eu era ddste mundo!... Porquê, então?!

Os Sul-fricanos tão hilariantes e eu tão pobre, alheado e só?!
Acaso o sol da alegria não surgiu para mim?!
Por que é que eu olhava, aguado e rendido, esmagado e sem vida?! Por que era excepção, quando todos, a meu lado, se julgavam felizes?!

Qual foi o me crime, para que o desânimo se pintasse no rosto, subjugando-me à dor que os outros não sentiam?!
Quem foi o culpado?! Sentirá remorsos da sua crueldade?! Vai
doer-lhe a condciência de haver sido criminoso?!
Educar alguém é ser verdadeiro, respeitando os outros!

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Nyangana-Liceu
1977-09-15 Descanso merecido

Começam as férias, para um certo repouso! Onze dias apenas! Em 27, voltamos à liça, para a quarta assentada, pondo assim remate ao ano escolar. A 8 de Dezembro, têm seu início as férias grandes. que, afinal, são pequenas! De facto, em Janeiro, 19, do mês seguinte, reabrem os Liceus.

Já vou para férias, lamentando a situação! Igual monotonia...
sempre a mesma coisa... nada que fale à alma! Se ao menos o rio fizesse desníveis, para as águas ressoarem! Mas não! O Cubango é lento, sonhador, misterioso!! Às vezes, ponho-me a olhá-lo, não sabendo, ao certo, para onde caminha!

Não ignoro, decerto, que vem da Bela Vista, em solo angolano, sendo por isso que descubro o rumo. Porquê tal mistério, à volta das águas?! Serão talvez os factos horrendos que Angola presencia?! Virá ele horrorizado, com a luta fratricida que jamais tem fim?! Ou receará o destino inglório que suas águas vão ter , no
deserto imenso do Botsuana?!

Existe alguma coisa no ddestino do rio... Que será?! Ignoro a resposta! e fico cismando, junto das margens.

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Nyangana
1977-09-16
Aproveitando um carro que vinha de Andara, deixei Nyangana, para visitar o padre Roosmalen, que é um bom amigo.
Havia conferência, na Missão do Sâmbiu, razão pela qual
achei oportuno. Fiquei satisfeito, pois ia quebrar a monotonia.

Além diso, encontrei bons amigos, no dito local: o padre Manfred, a
quem devo atenções, foi um dentre eles. Entrando em contacto,
forneceu-me, a propósito, dados valiosos, sobre o Cuangar e sua Missão. Juntou ainda que ontem, precisamente, se apoderou a UNITA de Nova Lisboa, após dura refrega.

A respeito do Cuangar, destruição e ruínas, incluindo a Missão.. O harmónio da Capela, que era tão bom, ficou numa lástima.! Custódia e cális, espalhados pelo chão! Paramentos dispersos, no meio do capim, entre a Missão e o rio Cubango!

A estátua da Virgem, com os dedos cortados, incluindo no ultrage uma das mãos! Que bárbaros! Revelam, deste modo, o que sentem na alma! e o que pode esperar-se num futuro próximo!
Outro episódio, referente ao Cuangar. Após a derrota do MPLA, este pôs-se em fuga mas, volvido algum tempo, fez novas diligências, para regressar.

Os homens da UNITA aguardaram a chegada, a 200 quilómetros , além do Cuangar, entre o Caiundo e o lugar do Sava,
destruindo ou capturando todo o material, após haver desbaratado o exército inimigo!. Tanques eram 10 e camiões 24!
A UNITA ,assm ,vai de upa em upa!

Hoje, durante a viagem, passaram por nós, carrões militares. Segundo ouvi dizer, vinham para norte, dirigindo-se ao Caprivi: UNITA e MPLA.
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Nyangana
1977-09-17 O Famoso Capuchinho

O Padre Pio, famoso de estigmas, que morreu, se não erro, em 1968, pusera esta frase, na porta do seu quarto: "Das Kreuz ist immer bereit, Es erwartet dich uberall".A cruz e stá sempre preparada; espera por ti, em todo lugar!

É curta a frase, mas extraiem-se dela pode rosas lições! Para
avaliar-se, é preciso olhá-lacom vista aguda e sobrenatural! O Comunismo não pode nem quer entender-lhe o sentido!; mund anos e gozadores não lhe acham godto; e tentam desconhecê-la; os falsos cristãos ignoram.na também.

A verdade, porém, a cer tíssima verdade é que tal frase se aplica a todos. Não é certo e provado haver Jesus Cristo morrido podo por todos?! Nõ é indiscutível haver sossobrado ao peso da cruz?!
Precisava disso?! Não! Se Ele o fez, foi por amor! Ora, sendo Ele o Mestre, devemos imitá-lO!
Demais, é fazendo assim que arranjamos no Céu um lugar de ventura, após a morte!

Que vem a ser a referida cruz?! Tudo o que aflige e causa em nós angústia de alma, durante a vida, nnão importando que a dor seja física ou então moral!. Espreita-nos ela, saja onde for e chega até nós, por vários caminhos!

É alarme e aviso; toque e rebate, para chamar a atenção!
Afinal de contas, é na verdade uma prova de amor! Ditoso aquele que sabe aproveitá-la, convertendo-a pront em chave do Céu!
Ninguém há no mundo que se exima à cruz! Todos sofremos!

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Nyangana
1977-09-18
Esta noite, por sorte, quebrei, sem de tença, a monotonia, sendo mais acompanhado. É bem verdade que ao triste exilado não basta o alimento, abrigo e vestuário!! Muito mais necessita, para suportar a dura existência! Compreensão, afecto.
aceitação, algum interesse,, além do trabalho! Problema humano, hoje candente,muito mais ainda que em tempos idos!

A frequente violação dos direitos humanos, ambição e tirania,
ingerência abusiva de potências estrangeiras, em negócios de outrem, mentira velada, rancor e fúria originaram presres milhares e milhões de tragédias e dores
Avalio, a rigor, o sofrimento do mundo, porque vi, palpei e senti a minha própria dor e a dor alheia. Como é doce o lenitivo,
quando surge alguém que nos ama e acarinha sem fins inconfessáveis, trazendo conforto, paz e alegria ao nosso coração!

Foi serão amigo, jantando fora, em plena rua, junto do Hospital.
As duas Irmãs, Rita e Maria, vieram até nós,, em fim de semana, para distrair. Elas, em pessoa me fizeram o convite que eu, muito grato, logo aceitei.
Às 19 horas, acendia-se fora, bem ao ar livre, uma bela fogueira,
alimentada com achas, há muito cortadas. À volta dela, postavam-se bancos, cadeirões e cadeiras, avistando-se, atrás. jeitosa mesinha, com talheres e bebidas, sandes e pratos.

Dentro em pouco, surgem os covivas que, afinal, somos todos. À data em curso, parte da nossa gente encontra-se fora.
Notam-se, entretanto, diversas presenças: o Irmão Van Dick, branco de Andara; o Irmão Eusebius. preto de Nyangana; as Irmãs brancas; Maria Schneider, Margaret, Maria, Rita etc e as Irmãs pretas: Constança e Rosária.

Em volta da fogueira, atarefa-se a valer a nossa Doutora (Médica alemã), activando a fogueira e pondo na grade os bifes de
cabra, que pretende assar. Após os de cabra, vêm os de porco.

Entretanto, as cervejas circulam, notando-se logo a melhor camaradagem. Há também coca-cola, e não falta, por igual., a água-ardente velha. As línguas uadas são em número de 4: Inglês e Alemão. Africânder e Dirico. A última é nativa e fala-se também do outro lado do rio (Angola),

Senti-me à-vontade, nesta companhia, Do meu peito, levanta-se viva a flama da emoção, pelo mero facto de ser lembrado! Se não fora assim, recolheria ao quarto, de paredes insensíveis, continuando a solidão, após um longo dia, passado sem alma, entre velhas paredes.
Havia já anos que não comia carne, pelo menos ao jantar, mas fiz excepção! Atirei-me a ela: estava apetitosa e não caiu mal.
Estou admirado, por não ter dores, durante a noite! Entretanto, a digestão foi lenta e um pouco difícil.

Houve muito à-vontade..Gosto imensamente de coisas informais; uns descalços, outros ainda, sem meias ou peúgas! Quase todos fumam! Só eu é que não, fazendo ali papel de membro obscuro e
desumanizado, numa sociedade em que não me integro nem me compreende.
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Nyangana
1977-09-19
Oito e quinze. Fresca manhã de céu embaciado, que anuncia,para breve,o início das chuvas. No planalto do Bié
começam em Setembro. Aqui, no entanto, segundo me parece, é
um pouco mais tarde!.
.Segndo me consta, faz excepção aquela zona, onde fica situada a
Missão de Andara.
Tais elogios ouvi tecer-llhe, que hoje não resisti: peguei de
mim e fui apreciá-la com os meus próprios olhos. É lugar
inesquecível, rincão florido , em plena desolação!

Embora a região não seja desértica, apresenta visos
semelhantes a isso: vegetação rasteira,, avultando apenas grandes
espinheiras. Algumas destas vão a 200, 300 e mais anos! Apenas
chove bem. ao longo de 3 meses, no princípio do ano. Sendo isto
assim, lamaçal nas chuvas e poeira nos calores.

Como isto sucede, agrada sobremodo estanciar umas horas,
na Missão de Andara. É lugar privilegiado, no meio da aridez, em
região semi- desértica. Vegetação luxuriante, à volta do rio; a ilha
solitária, em frente da Missão; rochedos enormes, parecend
fortalzas; plantas exóticas de alto porte; água cristalina,
ressumando ali, por toda a parte; hortas viçosas, à beira do
Cubango...
No meio de tudo isto, oculta na folhagem, à maneira exacta
.de ninho mimoso, a Missão Católica, onde lidam com afã, dois
zelosos Missionários: o padre Bauer e o padre Bonifatius.

Diferentes na cor, são iguais na caridade e nos seus ideais.
O Irmão Van Dick é deveras excelente e conhece a região, dum
extremo ao outro. Sua vida habitual decorre ao motor, nas longas
estradas, que percorrem a Namíbia

A dita região, à volta de Andara, é terra de bosquímanos,
sendo interessante a Língua que utilizam.. Para nós, europeus,
é quase impossível, pois com a língua dão estalidos, à medida que
falam. Estes ocorrem no meio das palavras. ou mesmo no fim.

Tais estalidos, feitos com a língua,apoiada no palato ou região
alveolar. equivalem a sílabas ou então a palavras.Algumas vezes
, é só um estalido; outras vezes, são dois ou mais.
Esta raça curiosa distimgue-se dos pretos. Ignora-se a origem
de tais aglomerados ( talvez da Sibéria ou do Turquestão)
São diferentes em tudo e o seu género de vida é curiosíssimo.
De pequena estatura, são argutos e hábeis, salientando-se na
caça.
Nada cultivam nem nem criam animais.Casas não têm
, Vivendo na pré- história, é difícil fixá-los!
Curam as doenças, com produtos vários, extraídos das
plantas.
A aspiração duuma jovem é casar brevemente com um bom
caçador! Peles de animais ou cascas de árvores resolvem a quertão
do seu vestuário, Alimentação: carne de animais, raízes de plantas
ou frutos silvestres,. À falta de água, extraiem-na das plantas.

Como recipientes: ovos de avestruz. Depois de arrumados,
fazem belos colares, para uso pessoal.
Assim vive este povo que, afinal, é ditoso, à margem do
progresso! São eles ainda os melhores pisteiros
Os bosquímanos de Angola eram bons amigo do povo
+otuguês.
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Andara
1977-09-20 Maria Agusta

Ontem, ao almoço, caldo de couves.! Estranhei bastante! Os
povos da área não comem sopa ou coisa no género! Os Sul-Afri-
canos, esses então, nem por sombras!

A Portuguese soup . diz o padre Bonifatius!, nativo do
Sudoeste!
Fiquei intrigado! Vendo o meu espanto, apressou-se a esclarecer:
"it's a portuguese cooker! She came from Angola!
Oh! I see, remato com agrado!
Hoje, pela manhã, regressando ao quarto, surge do lado o padre
Bonifatius, chamando bem alto a Maria Agusta." A portuguese
father!"
Aproveito o momento e didrijo-lhe a palavra, conversando
algum tempo, sobre o caso de Angola. Fala Português tão bem
como eu, o que muito apreciei! Alguns exprimem-se bem, mas
utilizam termos africanos, o que torna a Língua um tanto
desagradável.
Ela, porém, fala o idioma como se, na verdade, houvera
nascido, lá na Europa. É oriunda de Sá da Bandeira, conhecendo
apenas mais duas cidades, além daquela: Lobito e Benguela.

Casou pela igreja e serviu muitos anos patrões de Lisboa a
quem. se afeiçoara. Interrogada por mim, sobre a maneira como era
tratada, respondeu, sem demora, que tinha boas lembranças dos
antigos patrões que sempre a estimaram. Revelou muita pena de
haverem partido!
Fiquei satisfeito, de encontrar Maria Agusta e ouvir-lhe
referências que muito exaltam os bons Por tugueses. Afinal, a
propaganda malévola, que se fez longos anos, contra os Brancos
do Império, não tinha fundamento! Tenho ouvido, por cá, centenas
de testemnhos!
Pois a Maria Agusta voltará para a sua terra, quando tudo
serenar! E la como todos mostra grande pena e tem saudades
dos bons portugueses!
É certo, realmente, que a mentira lançada alcançou o
objectivo, mas com o tempo, descobre-se o jogo, brilhando a
verdade!
Sobre o padre Bonifatius, que é nativo do Sudoeste e cursou
Teologia, no distanre Lesoto, guardo óptima impressão!! Até me
parece que será bispável!
Passámos o serão falando Inglês, sobre assuntos teológicos.
Discorre muito bem, é sensato e comedido, e fala várias línguas.
com muita exactidão!
Neste campo, é de levar em conta o Inglês fluente, assim
como o Alemão e até o Africânder, em plano de iguldade.
Já nem falo agora das línguas nativas, que sabe a fundo!
Teremos aqui um futuro bispo? Deus é quen sabe, todavia palpita-
me!
Quanto ao local, isto é excelente! Hoje, de manhã,estando no
leito, notei-o, igualmente! A passarada manifestou-se ruidosa, à
primeira claridade! Como as avezinhas distinguem prestes a beleza
natural e se agrupam, diligentes, para cantá-la, em belo uníssono!

Admirável sonfonia, em louvor da natureza, pródiga aqui!
Como Deus é grande, portentoso e bom, para dar-nos mostras
da beleza infinita , que é timbre divino! Sinto-me bem ! Esta
digressão tornou-me eufórico, realizando cabalmente o fim a
que aspirava: achar carta da mana, jornais em Português e
ambiente acolhedor!
Deus seja louvado, por haver-me concedido momentos
agradáveis!
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Nyangana
1977-09-21
Regressei da visita que fiz a Andara. A minha estadia não foi desagradável: o problema reside
somente na deslocação! Chego desconjuntado ao fim da
viagem! Efectivamente, são tantos os balanços, que perdemos
a vontade! É impraticável esta 'picada'! Nem que haja
paciência, o corpo não aguenta!
Ora para a esquerda, ora para a direita! Solavanco para ali,
arremesso para além!

É Primavera, mas tão desmaiada,, que mal a notamos! Hoje,
porém, houve algo de novo: início das chuvas, coincidindo
exactamente com a estação do Outono, lá na Europa! Choveu
pouquinho, mas já bastante, afim de evitar as densas poeiras, ao
longo da estrada.
Olanos que ficam em Andara, até ao fim da guerra..
Andam muito ocupados, erguendo as palhotas,, tanto mais que as
chuvas ameaçam de perto! A Missão católica ajuda-os
prontamente, naquilo que precisam.

Oriundos, segundo eles, de Sá da Bandeira, houveram de
fugir, como tantos outros, abandonando tudo! Vivem assim,
espalhados pelo exílio, sem saber da família! nem de seus amigos!
Terrível coisa a guerra e o ódio!

Por que vivo eu, aqui, no Sudoeste?! Não tenho igual motivo?!
Segundo informaram, a UNITA buliçosa acaba de atacar
algumas cidades,.entre as quais mencionaram: Nova Lisboa, Kaala
e Serpa Pinto
Por que vivo eu aqui?! Que venha a +az, o mais breve possível,
afim de t oda a gente reg ressar a seus lares!

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Nyangaa
51977-09-22
Regressei do Rundu, para onde rumara , às 6 da
manhã.Resultado: nada a mais!.Quanto a refeição, serviu a de
ontem. Passeio e diversão também não houve, porque a via
detestável e cheia de buracos, estava alagada!

O pateta do gerente, se há-de ele trata os casos de extravio!...
Tenho para mim que foi ele o culpado! Não está certo! Depois,
mostra-se indeciso e não toma direcção!

Entretanto, vai dizendo que devo escrever, expondo o
assunto, afim de obter outros substitutos! Um belo arranjo!
Sem culpa nenhuma, em país e strangeiro,, dão esta
recompensa: passar as férias, ao longo da via,, sem nada fazer!.
Confesso, desde já que é pouco engraçado!
Em Portugal, nunca sucedia,pelo menos comigo!

O Banco Barclay reteve-me a caderneta, durante longo tempo
(4 ou 5 meses!), enquanto eu, depositário, na minha boa fé,,
mandava os cheques, para ser em registados. Ando nisto, há um
mês ou coisa que o valha, para nada obter!

!Como podem extraviar-se os ditos cheques?! A senhora da Missão
que os levou para o Rundu, garante e porfia que foram entregues...
A quem prestar crédito?! Como vinham em meu nome, apenas eu
é que posso levantá-los! Ainda assim, estão dando quezília e
maçada enorme!
Os meus problemas já eram bastantes, para ser engrossados,
na forma expressa!
Costuma dizer-se: o que não tem remédio, remediiado está!
Hoje, queria o gerente ficar outra vez, com as duas
cadernetas ( avelha e a nova).

Já opus resistência! Perguntei, de chofre: necessitando dinheiro,
num lugar qualquer. podrei obtê-lo sem caderneta?
Devolveu-me então a do balanço.
Terá ele experiência?!
Hoje, não houve pó, mas teve substituto, ainda mais
incómod:o: os poços de água! Não dá gosto nenhum ir à capital!
Apenas me agrada a conversa animada, com a família A ndré.
É realmente o que salva a minha situação! .

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Nyangana
1977-09-23
Pessoas amigas aconselham, de novo, que não deixe o
, Sudoeste, regressando a Porugal, Razões em barda apresentam
para isso: carestia de vida que assusta os Porugueses; impotência
do govefrno, para erguer e conservar a economia do País; a falta de
empregos. Ignoro até que ponto a razão chegará mas não sei
porquê, tenho confiança no governo actual.

Enganado, talvez?! O tempo o dirá! Caso seja diferente,
ficarei penalizado Francamente, não gosto dos extremos!, quer
seam direitso!, quer esquerdos também.

O Socialismo, sendo equilibrado, em regime demosrático,, é
para mim o sistema ideal!. Respeitando a liberdade e os direitos
básicos da pessoa humana,, conservando também o direito à
propriedade e, bem assim, a inciativa privada,; nacionalizando
apenas o que é essncial `a nossa economia e ao bem-estar do
povo portuguès, garante para todos um viver mais humano.

A r iqueza da nação fica repartida e as classes humildes
podem subir, partilhando, igualmente na vida política. Seria, pois
agradável que o Partido socialista, embora em rude prova, fosse
bem sucrdido, em terra portuguesa, para conforto profundo e
grande alegria do povo lusitano,.

Seria também meu vivo desejo que o Partido Comunista se
desligasse da Rússia, transformando-se logo em Partido nacional.,
ser bem acolhido por todos os Portugueses. Demais, há exemplos
disso, atravás da Europa, incluindo em tal número a mesma
Espanha. Ideais alheios nada têm a ver com os nossos ideais!

A nossa alma é bem diferente como também a nossa tradição,
costumes e origem!, O fato de outrem não me assenta bem,, por
não ser talhado, segundo os nossos contornos
Em Partido nacional, quero dizer, um movimento de cunho lusitano,
tendo sempre em vista o bem da nação, com incidência nas classes
humildes, nem os próprios inimigos poderiam contestá-lo!

Dependente como é de potências estrangeiras, seguindo os
movimentos da sua batuta, ninguém confia nele, por ser na
essência, anti-nacional Em fins de 78 ou já 79. regressarei prestes à
minha Pátria. Terei eu a sorte de a ver já erguida? Terá então
acabado a vileza e o opróbrio em que vive mergulhada?!

Terão cessado, lá fora, comentários desdenhosos, sobre a
inépcia alarmante do povo português?!Terá emudecido a língua
mordaz que aponta Portugal como faixa exígua, obscura e nula?!
Ainda haverá, na minha nobre Pátria, descendentes genuínos
dos antigos heróis?! Onde estão agora os heróis do Mar?!
Apraz-me julgar que são realidade e que, na hora ''h", sairão do
anonimato !
Bons Portugues es, a Pátria não morre, s enós todos, bem f
irmes, cerrarmos fileiras, pela sua unidade e pela verdade! Não é
desfazendo ou minimizando! A destruir, nada se consegue!

Do nosso passado, há certos valores que devemos
conservar, pois fazer de outro modo é negar Portugal! O velho país
do extremo europeu surgiu cristão e Deus protegeu-o no volver do
tempo! As suas raízes mergulham na verdade Ignorar tal aspecto
ou minimizá-lo é ser mau portugês... é negar-se a si msmo!

É servir o estrangeiro! É perder a confiança dos bons
Portugueses! Lá de fora, aproveitemos apenas o bom e aceitável.
Jamais, por fim, o que for contra Deus ou não se ajustar à nossa
psicologia como ainda ao bem nacional!

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Nyangana
1977-01-01
Mercê do Pai Celeste, mais um ano se depara. Que ele
seja, na verdade, portador de ventura, paz e alegria, um ano
jubiloso de prosperidade! Desde há tempos, jamais houve, que eu
saiba, ódio tamanho e rancor tão fundo . É o mundo um braseiro
que ameaça devorar os que nele se encontram!

Injustiça de uns, ambiçao de outros, incúria de muitos e
incompreensão fazem da vida um calvário sem fim!
Chegámos a um ponto em que nada se respeita! A vida
humana que é tão preciosa, em nada já conta! Mata-se um homem
como a vil insecto! Com razão ou sem ela, atenta-se amiúde ,
contra direitps que reputo sagrados!

Ensina-se a matar, havendo instrutores, com patente para
isso! A fome e a penúria assolam o mundo!; a incapacidade e a
ignorância, por falta de meios, nada representam!!

A receita dos povos é gasta em armas, investindo nisso
milhões e milhões! Pode até afirmar-se que o grosso do orçamento
se encaminha para aí!
Falta pão e vestuário, habitação e conforto, mas abundam os
, tanques ,os carros de assalto sem faltarem canhõea!!
Em vez de ofertarem à pobre Humanidade, vias e meios de
comunicação,, eficaz segurança e maior conforto, origina-se antes
um ar irrespirável, em que o mundo sufoca, morrendo, a breve
trecho!
Valei-nos, Senhor e moveo os corações, com o dom da vossa
graça!
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Nyangana
1977-01-02 A Ilha de Amdara.

Lembrando, uma vez mais, o passeio da semama à
Missão de Andara, apraz-me desde já fazer manção grata da Ilha
fronteiriça..
Eram 11 horas, quando o preto Laurentino se abeirou do
velho remo, para atravessarmos o rio Cubango.. O calor tropical
sentia-se em cheio , dado que o Sol, nessa hora da manhã, estava
quase a pique. Devido, porém, ao amigo padre Bauer, eu levava
chapéu que foi boa protecção!, De outra maneira, voltaria sem
pele, a ornar a cabeça!
O Laurentino é hábil remador e, para ele não há problemas!
Sabe apenas Dirico, sua língua de origem. Por isso, ali, recorríamos
mimica.Transposto o Cubango, na velha canoa,, onde estava um
banquinho, para me sentar, subimos à Ilha.
Que viço e pujança. por todo lugar! Dali, a vista da Missão é
coisa soberba! O vermelho dos telhados e o branco dos muros f
azem esgafres, através da folhagem. de um verde mimoso!

Nesse momemto, ocorreu-me Lisboa, vista de Almada. A
riqueza vegetal levou-me a Sintra!
Maravilhosa estância, para fazer poesia ou entrar a fundo, em
longa meditação!
Seguindo Laurentino, preto calculado, atravessei, pois, de
lés a lés , a Ilha fluvial.Dou-lhe um quilómetrp, a toda a largura.
O seu comprimento não pude calculá-lo, mas é enorme, atingindo.
por certo vários quilomegtros..
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Nyangana
1977-01-03 Cont,

Caminhos pela Ilha é coisa inexistente. Avstmos sendas, trilhos e
carreiros, onde muitas vezes cabe só o pé. De vez em quando,
aparecem gogos, o que traz à mente que o leito do rio já foi por ali,
em época remota. Habitações não vi nem mesmo culturas..

Entretanto, nem um palmo se divia que não tenha plantas.
Aqui e além, surgem de frente árvores majestosas, de caules
gigantescos, vendo-se amiúde outros caules enrolados, no tronco
das maiores. Chamou-me a atenção esta bela ocorrência!...
Arbustos enleados, tão unidos e firmes, que nem fortes vendavais
conseguem desp rendê-los!,

Não é curioso?! Numa África em fogo, onde tudo é instável, e
nada encontramos que ofereça firmeza, torna-se objecto de fundo
cismar! Que abraço tão forte, em longa espira, desde o colo, na
raiz, até ao cimo da planta! Que intensa união e belo convívio!
Intimidade e auxílio, afecto acrisolado e compreensão hão-de por
força. reinar ali!.
O contraste flagrante que notei, do outro lado, ( Angola!) feriu
a minha alma de angústia mortal! Quando vejo seus filhos odiar-se
de morte, a semear vastos campos de mortos insepultos,profundo
gemido se ergue de meu peito, enquanto as lágrimas irrompem
atrevidas, abundantes e quentes!
Que pena eu tenho dos pobres Angolanos!

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Nyangana
1977-01-04
Ontem, após o jantar, disse ao padre Dutman:
aufwieder sehen! A isto, sorri, dizendo em seguida: Ich gehe auch.
Já suspeitara que havia função, durante a noite.

Arrisquei, pois, no meu Inglês: Is it a party, by the sisters?
"Yes,it' s a party by the sisters."
Bom, disse eu logo para os meus botões: é outro serão, talvez igual
ao do fim do ano! Fora em Nyangana. Não está mal, embora eu
prefira o horário habitual. Deitar às 22, levantar às 6 ou um pouc
antes, havendo trabalho. Isto durante as férias, porque, em tempo l
lectivo, a coisa é bem outra!.
Vou com o padre Hermes, deixando a Missão e rumando logo
para a sede das Irmãs.Juntaram-se lá vários convivas: o padre
Bauer, da mimosa Andara; o auxiliar do Tondoro; a Irmã Rita, Any e
outras.
Não esteve mal!
Em Angola, designam por 'farras' estes serões. Houve boa pinga,
anedotas e histórias, em várias línguas, cantos e discos... grande
animação! Deu isto por efeito acamar à meia noite

Passara já o momento do sono! Bem me apercebera, mas
que fazer?! O padre Bauer, que é, na verdade, um autêntico
pândego, tira desde logo o sono a todos. Dá vida e cor a tudo o que
;expóe; junta-lhe mímica e, seguidamente, reanima tudo, com
risadas estrepitosas. Impagável!
A poética Andara. lugar privilegiado, sobe-lhe à cabeça!
Ainda bem que em zona tão árida, surgem, por vezes, momentos
assim!
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Nyangana
1977-01-05
Ontem, por volta das 13, chegámos ao Tondoro. Foi
, grato o passeio e muito aprazíve, pois de regreso, levei para
Nyangana as coisas de minha irmã: máquina de costura, fogão e
frigorífico, sem esquecer a mala das roupas.
Ajudar minha irmã, nas presentes circunstâncias, é dever
fraterno e dá-me praze. Várias razões me traziam satisfeito a este
lugar. Entretanto, ao olhar para a porta, que se abria, noutro tempo,
à minha chegada, um gelo de morte logo se instalou no meu
coração
Cerrada ficou e, na minha loucura, olhando para ela,
insistentemente,julgava ser possível um novo milagre. crianças a
correr, na minha direcção, para me beijarem... Palavras sinceras de
afecto e júbilo, que se gravam no peito, de maneira indelével! Vivo
sorriso em lábios frementes e olhos cintilantes, dardejando bem
querer! Tudo morrera! Aquela porta que estava fechada, nunca
mais se abriu nem vi uma cadeiraà sobra da árvore, para me
sentar!
Presenças amigas que me encíes de gozo, por onde
vagueais?! Que tristeza imensa infunde o Tondoro, que tanto
apreciava Nem cunhado nem irmã! Tudo se apagou!
Ficou solitário este sítio para mim!
O bom do padre Hermes p^-la em frente da porta, afim de a
não ver! !
Hoje, precisamente, vamos embora e jamais voltarei à Missão
do Tondro.!
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Nyangana
1977-01- o6
Após a alegria, vem logo a tristeza.! Não bastaria a saudade e a amargura que se registaram, no último Diário?!
Outra coisa veio que, além do mais, trouxe abatimento!
Fizemos a viagem ao Tondoro e Nyangana,vencendo a 'picada' ao
longo do Cubango, por uns 200 quilómetros! Maçadora que ela foi!

A estrada apresenta, com muita frequência, enormes buracos
e largas depressões.Em sentido transversal é toda um canulado!
Provoca isto enorme trepidação, causando mal-estar! Entretanto, o
pior não foi isto! Feito o percurso, um tanto demorado, porque
obriga a paragens, no sítio das Missões - Bunja, Rundu e Sambiu -
chegámos ao destino, por volta das 18.

Vinham muitas coisas juntamente com as minhas e outras
ainda tinham sido entregues, nas várias Missões e Hospitais
anexos. Ao chegar aqui ao nosso Hospital, o amigo padre Hermes
tira os artigos, destinados às Irmãs e, logo após vem ter comigo,
dizendo, com tristeza: Bad news for you!

Pensava eu se tratasse provavelmente de alguma avaria, aqui
na Missão ou de morte inesperada! Afinal, a máquina de costura é
que estava em causa. Não sei bem como, vinha em 3 partes. Havia
sido fixada a um dos lados, mas caíra no soalho a parte superiori e
uma peça de madeira,, sita ao meio.
Fiquei sem respiro e muit abatido!, embora tentasse disfarçar
um pouco.
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Nyangana
1977-01-07
Ontem or moite, saudei festvo o padre Bonifatus,
sacerdot nativo que agora se encamynha a Grootfontein..
Juntamente com ele, vinham dois rapazes, cuja finalidade é serem
, ordenados, em Maria Bronn. Eram, pois, três diáconos para a zona
de Andara.
O Tonoro tem 1,o Bunjia 2 e o Sambiu 1.! É uma enchente!
Analisando facto, vejo as coisas assim: os nossos presbíteros, à
maneira antiga. vão escasseando, por modo alarmante,
Dizem as estatísticas que poucos se ordenam e muitos dos
velhos pede a redução ao edestado laical.
Estas são, pois, as razões pelas quais os presbíterois se vão
apagando.
Perante o caso, a Igrja Católica toma providências. ordena
diáconos.. estes fazem quase tudo! Só não celebram nem
confessam!
Com o tempo a rodar, vai o povo cristão recebendo a ideia ,
enquanto se acomoda, gradualmente, aos diáconos casados. Nessa grande evoluão, que vai fazer a Igreja? A rresposta é
simples: confere o presbiterado aos diáconoa casados.Começará
e depois continuará, fazendo escolhas.pelos solteiros, se alguns
houve.
É natural que haja selecção!.

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Amadora
2004-04-21 Último Invasor

Em 712, Árabes e Berberes invadiram a Hiispânia (P. I.),
com forças militares agigantadas e poderosas. bem organizadas e
já portadoras duma civilização mais adiantada. Nestas
circunstâncias, apenas um caminho havia a seguir-se - o do recuo,
té que os povos da Penínsuja Ibérica se organizassem

Iniciava-se a Guerra da reconquista, voltando os habitantes
desta Península às terras que eram suas.
O ideal dos invasores era muito outro, no tocante à religião. à
bandera e moeda, trdições e usas, folclore e história, sentir e
pens
ar. Para longe pois, aceitação da Língua e da religião! Diametralmente opostas! Fusão, nem por sombras!
A arabização foi juito incompleta!, pois além do mais eram
diferentes as etnias e a língua própria não tinha afinidades com a
dos povos ibéricos, o que não acontecera na romanização. em que
as línguas e as etnias tinham afinidades, a partir já da civilização
ibero- lígure, donde procederam.

Estes idiomas originaram depos vários dialecto que. por sua
vez se turnaram línguas.
Aguerridos como eram os povos da Hispânia, todos se
uniram, lutando fortemente, contra o inimigo. Os combztes
frequentes obrigaram o inimigo a recuar, gradualmente, da
província do Algarve.
Foram 5 séculos de lutas ferrnhas.
Os nossos vizinhos prosseguiram na luta, conseguindo escorraçá-
-los 2 séculos depois.. Estava libertada a Andaluzia!

Por várias razões era dif´´icil afastar os Árabes. A lgumas
delas já foram apontadas. O plano de início era submeter a Europa
inteira, mas Carlos Martel,, na batalha de Poitiers, infligiu-lhes tal
derrota, que alteraram o plano, fixando-se na Hispânia. donde maiis
tarde foram escorraçados.

Foi-lhes muito penoso largar a Hispânia: daí a dificuldade em
os correr de cá, em tempo breve.
O novo plano, agora, é assegurar a posse da Hispânia e
defendê-la da cobiça alheia..

Pela sua dureza e trato desumano, desiludiram os povos da
Hispânia, que haviam lidado com os Romanos. de forma admirável
e cordial..As circunstâncias eram diferentes, Com os Romanos,
havia, decerto afinidades sanguínias e outros factores de
aproximação. pelas etnias. Por tudo isto, travou-se entre os povos
uma guerra de morte, até se conseguir a sua expulsão , de terras
peninsulares.
Como já foi dito, só volvido séculos, se tornou realidade, na
P.I. o fim da guerra. Cerca de 8 sécilos andaram eles por cá
Um dos grandes obreiros desta nobre empresa foi o nosso Rei,
D.Afonso Henriques.
Terminada a guerra da Reconqusta, tentaram os povos
refazer a su vida, organizando a defesa e delimitando os seus
territórios. segujndo o Direito, o pensar e sentir, a Lingua própria,
usos e costumes e velhas tradições

Os povos ibéricos libertaram a Península e julgaram-se todos
com direito igual. à liberdade e à independência. Potr isso, vão~se
definindo os vários núcleos, constituindo Distritos, Condados e
embriões de nacionalidades: Condado da Galiza; Condado de
Portugal, Reinos das Astúrias e de Leão, e assim por diante.
Estão eles todos em pé de igualdade e todos defendem e
todos defendem os seus pergaminhos.

No que respeita a nós, o nosso viver é na faixa ocidental
cujos habitantes ( os luso-portugueses) têm por igual o pensar e o
sentir, Língua e tradições, religião e costumes, a caça e a pesca
bem como o pastoreio, com o tempo a rodar.

Começa, desde logo, a manifestar-se clara a ambição
desenfreada do pequeno Reino, de nome Leão. Com tal objectivo,
intenta breve subestimar o nosso Condado, colocando-o
presesmente, sob a sua dependência. Surge pela proa o invencível
guerreiro, Afonso Henriques, autêntico "Leão", para defrontar o
outro Leão. Estão frente a frente dois leões façanhudos e
respeitáveis!
O"Invencível" é quem vai talhar o destino do Condado,
readquirindo as fronteiras que já tivera antes, quando habitado
pelos Lusitanos, antepassados dos Portugueses. Nessa data
recuada, ia a Lusitânia, desde o Algarve, ao sul, até ao Mar
Cantábrico, no extremo norte, segundo Estrabão, geógrafo
grego, no século I da era cristã..
Abrangia, pois, a Galiza actual, prolongada ainda um pouco,
para oriente.
Se não fosse o desastre de Badajoz ( perna partida),
seriam estas as fromteiras actuais do nosso Portugal

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Amadora
1004-04-22 Riscar Portugal

Alegava adita História, em língua espanola, que eram
duas, realmente, as grand es causas d e uma união ( integração?)
ibérica: uma histórica, outra de cunho geográfico. Eu contesto-as
ambas, reduzindo-as a nada! Perdoem os leitores e as minhas l
leitoras, que eu já tratei este assunto!, não há muito ainda, mas
apraz-me voltar,, vincando mais e mais a argumentação!

Comecemos já´pela primeira.
Historicamente, prova-se o contrário., pois as escavações, no alto
dos montes onde houve castros, ópidos e citânias be
como fortalezas, acrescentando o estudo das velhas necrópoles,
( cemitérios de recuadas eras), garantem o contrário da Hisyória
espanholla
Mostram os estudos, realizados por Sarmento e Alberto
Sampaio, os caracteres étnicos e antropológicos,, apurando assim
este facto notável e surpreemdente: há coincidência com os do
povo português. Segundo Estrabão, escritor grego do século I da
era cristã, que a árvore genealógica do povo lusitano é a mais pura
dos povod da Hispânia ( P,I .) ,

Daqui inferimos que não é poluída a ascendênca portuguesa.
Portanto, as nossas raízes abrangem certamente o Quaternário
médio, se não já uma fase do Terciário.
Em 1886, o arqueólogo portuguès, Carlos Ribeiro, encontrou
ferramenta do homem primitivo ou do seu precursor,nos aluviões do
Tejo e do Sado. Trata-se de machados de pedra-lascada.
A ser isto verdade, ( a pedra foi encontrada), ficava a impressão de
ser anterior a Adão e Eva, portanto contrário à Bíblia.

Ainda que seja apenas do Quaternário, médio, já essa criatura
é contemporânea dos fenómenos geológicos. Ora, a que vem tudo i
sto? Tende a provar que o povo português não apareceu fundido
no reino de Leão, mas lhe é anterior milharesde anos. em sua alma,
identidade, coração e ânimo, realizações, obras e vivència.

Nao se trata, pois, dum povo moderno, como disse Alexandre
He rculano que não conhecia os dados importantes das
excavações, feitas nas montanhas e nas acrópoles.

Vamos ao caso da Geografia.
Não há montanhas nem vales profundos como ainda um grande
caudal , mas não é isso, acima de tudo que serve de marco e
linha divisória, entre nações., como entre povos. O que sempre e
em toda a parte separa os povos, é a sua alma, os seus projectos,
a religião como a própris língua, o pensar e sentir, motivos iguais
para a dor ou o júbilo, a profissão, os de vida, as aspirações, a
Arte e a cultura, etc.
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Amadora
2004-04-23
Apesar de tudo, os meios geográficos não são
inexistentes. Que estão fazendo as linhas de água? Não somente
os rios, mas os afluentes?! O próprio regime do terreno irrigado,
sempre no curso já terminal, enquanto em Espanha se precipitam
osrios, de altas montanhas, regra geral.

Que dizer também, quanto à índole de ambas as nações?
Inteiramente diferente e, às vezes oposta .A gente portuguesa é
amorosa, sentimental, indulgente e compassiva,, avessa à
crueldade, fácil no perdão e não odienta. Não é isto verdade?!

É ver o que fazem, os Espanhóisl, em suas touradas!
E se comparamos a poesia lírica de ambas as partes?!
Voltando aos touros: os nossos vizinhos fazem delas meroa
objectos que não sentem nem sofrem!! Valem-se até da sua
impotência e da crueldade, par a se divertir!,

Que fizeram eles aos Astecas do México?! E aos Incas
do Peru?! Queimaram vivos os diversos membros das famílias
mperiais! Alguma vez os Portugueses fizeram coisa tal?! Nada
conheço dessa natureza!.
Não precisamos de vales profundos nem altas montanhas ou
rios caudalosos, para ser virem de marco, entre as duas nações!
Basta a alma! São, pois, falsos e tendenciosos os motivos
alegados pela História de Espanha!
Como tais os condeno,, repilo com ânimo e os tenho em nada!

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Amadora
2004-04-24
Alguém julgar á, por estes dizeres, que .se anicha em
minha alma, calo e rancor contra os Espanhóis! Não é verdade,mas
considero ofensivo, inadequado e censurável,para não dizer
impróprio de cristãos e bons vizinhos o que foi praticado, ao longo
dos séculos, em ordem a Portugal

Porquê? Não temos o direito de viver a nossa vida, em paz e
sossego, pondo de parte a mania incurável de quererem reduzir-nos
à inexistência?! Se Deus nos criou livres, dotados e capazes de
gerir a nossa vida e de nos realizarmos! Não é isto verdade?!

As páginas mais belas da História da Humanidade foram
escritas pelos Portugueses, nos séculos XV e XVI
A nossa Epopeia - os gloriosos Lusíadas - bem o assegura:
" Se mais mundos houvera, lá chegara!"

Qual a minha posyção, ante a nossa vizinha? Viver cada povo
em paz e harmonia, sem vistas cobiçosas,, ultrapassadas,
inconvenientes, inadmissíveis! Matar esse verme que persiste
corroendo os nobres fundamentos que asseguram a paz!

Haver boa união, convergência de interesses, ante povos
estranhos, que prejudicam; desculpar os defeitos , esquecer os
agravos; sepultar o orgulho, a soberba,vaidade e o patriotismo,
quando seja exaltado e nocivo ao próximo!

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Amadora
2004-04-25
Nos quadros parietais da minha Escola Primária
havia legendas com figuras variadas , assaz desprimorosas para os
Castelhanos, mercê de atitudes, maneiras e acções. que
prejudicaram o nosso psís. A sua eitura e reflexão despertavam
nas almas grande má vontade, contra os nossos vizinhos.
Nem outra coisa era de esperar! Este azedue perdrava e
crescia, ao lohgo da vida. Era como chaga, bastante dolorosa que
jamais nos largava!
Um dia mais tarde, chegou-me à estante um livro de Sardinha,
nome presigioso deste nosso escritor. Li-o com interesse e bastante
prazer!. Atrás dum livro, outrps mais vieram co mesmo autor. Fiquei
deslumbrado e mudei o pensar, no tocante aos Espanhóis. Era um
convertido, não para fusões ou integração, mas para criar novo jeito
de sentir!, em ordem aos vizinhos.

Mais tarde, chegou-me então às mãos a referida História,
adoptada em Espanha. Voltei quase ao passado! A culpa não é
nossa! Prefiro, no entanto, as boas rrelações, mas o exemplo deve
part ir da outra parte.
Agora, o noso ilustre Garrete, que o bom Camilo tanto
admirava : chegou a dizer que, nao havendo em Portugal um vulto
vulto insigne como Castilho, seria Garreta o verdadeiro pontífide d
as Letras Portuguesas.

Que é que se passou em sua vida, para ser chamado, neste
lugar? Uma coisa bem simples, mas interpretada erradamente!
Notemos para já esta afirmação que saiu da pena: " ´
Espanhóis somos nós todos"

sábado, 17 de Outubro de 2009

Memórias 31

Amadora
1989-01-01
Após o intervalo que subiu a dois anos, cá estou, de novo, reatando os laços que me prendem à escrita. Nem eu sei, realmente, como isto ocorreu. De facto, se foram mais de 20 anos, escrevendo assiduamente, ,a ponto de não falhar um dia sequer, que não lançasse notas, sobre os factos mais notáveis , poderei justificar uma pausa tão grande?

Verdade seja que não perdi o tempo nem depus a caneta! Desforrei-me à larga, revendo uma vez mais todos os escritos. De tal modo o fiz, que cheguei ao final, havendo percorrido esses anos, em peso!
Depois, não contente com isso, empreendi, com alento, nova digressão, ao
longo dos mesmos anos

Como fruto do esforço, estão arrumados os seguintes volumes de Memó-rias: de 1972 a 1986. Já são mais de 14 volumes, por haver duplicações.Em breve me ocuparei da sua revisão.
A estes, junto mais 8, a que dou o nome de "Consulta da Tarde;resta a Novelazinha, denome provavel," Sonho Fascinante, " Perfaz-se um total de
23 volumes.
Como deixo claro, não estive ocioso, já que levo a meio a segunda volta. Palpita-me agora que alguns desses números vão ser desdobrados
Para já, lembro-me de 1986. Nao gosto, afinal, de livros muito grossos..

Estou, pois, lançando uma nova arrancada, para dar sequência àquele género que a todod prefiro.
A interrupção foi também originada, ao menos em parte, por uma conversa com o meu amigo, Dr, José Duarte, Actuou sobre mim, de maneira tal, que perdi logo o gosto de escrever. Não que ele o visasse, tenho para mim!

Veremos , depois, se este renascer da " chama antiga"vai tomar fôlego, com
vista a prosseguir! Gosto imenso de ler e também de escrever! Assuntos não faltam!
Não será boa estreia, para o início do ano que agora começa?!
É verdade como punhos que nasceu a ralar-me, pois me acordou, à meia-noite!, estrondeando nos ares! Apesar de tudo, relevo-lhe a falta, para ficarmos sem ódio e tudo correr bem.

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Amadora
2-1-1989
Hoje, por má sorte, matei a cabeça, para descobrir onde estava
errado um cálculo feito. Nisto de contas nunca fui ás! Vivi para a Arte, amei a Filosofia, aprofundei as Línguas, de modo especial a que bebi com o leite, deliciando-me em extremo, a Filologia bem como a Hermenêutica e a sagrada Teologia.
As Matemáticas nunca me atraíram. Jamais tercei armas, por essa matéria! Apesar de tudo, a méda obtida chegou a 13, por arredondamento
e não houve, que me lembre agora, nenhuma negativa.

Bom. Voltando ao tema que abre o Diário, é já o terceiro dia que ando a braços tensos, com números e contas. O essencial já o consegui! Dou-me por feliz, pois foi resultado que bastante me agradou. Para mais, levou-me a pesqisa a tomar conhecimento do que não esperava: ter eu em depósito 100
contos a mais do que julgava!
Valera a pena o esforço dispendido, uma vez que militou, em meu favor!
Quem as pagou foi o meu Diário. Com efeito, moída a cabeça, e já
descontrolada,, avanço na escrita, com dificuldade!E não foi só isto!
O frio acompanhou-me, ao longo da tarde. Nada lucrei, esfregando as mãos, com grande presteza!. É por esta razão que não sai coisa boa! Mal seguro a caneta, de mãos a tiritar, fazendo garatujas que são de estarrecer!

Por que não interrompia a tarefa da busca,, elaborando com tempo,este pobre Diário?!
Bem,! Isso é verdade! Poderia tê-lo feito, mas é timbre meu jamais desistir da obra começada ou deixá-la em meio!

Aproximam-se as 18! Quer isto dizer: chegando aqui às 13 e 3o, não fiz mais nada! Nem sequer aproveitei o calor da varanda, que mandei fechar, em tempo devido!
Havia uma saída: recorrer, neste caso, a um bom irradiador, que funcionasse a óleo. O certo, porém, é que o não tenho! Encontra-se em
projecto.
Ao 25 de Abril e seus continuadores ( estes, principalmente!) é que devo, a rigor, a minha situação!
Veremos, depois, se consigo alcançar o que assaz desejo e tanto preciso
Escusado é dizer que não acho possível trabalhar eficazmente, com a
temperatura que agora se regista!

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Amadora
3-1-1989
Encontrei-o em Lisboa, por volta das 13. É de meia idade ou talvez um pouco mais. Entretanto, acho-o envelhecido e assaz desinteressado, em ordem à vida.
Chamado à fala, não hesita nem pensa. Semelha um vulcão, arrojando a lava em todos os sentidos!
As palavras ferventes brotam-lhe da alma, saindo em tropel, sem nexo algum! Do impulso inicial, precipitam-se logo, desfazendo-se no ar,
com insólito ruído!

Notando o seu estado, procuro acalmá-lo e saber, em pormenor, o que o vai consumindo. Bem prestara atenção a dizeres e razões, mas fora impossível
distinguir-lhe as palavras. Desfeitas em sons e largadas dos lábios, corriam desencontradas , mostrando claramente o abalo do sujeito
-- O meu amigo, acaso está doente?!
-
- Olhe, senhor, doente, sim, e mais do que isso! É que eu já não vivo! Perdi o interesse, por quanto me liga às coisas da vida! Ando saturado! Não posso mais! Fiz tudo o que podia, sem nada lucrar! Rebento de paixão!
-- Mas veja bem! Nada aí´há que não tenha remédio! Preciso é calma, tempo, orientação!
-- Como posso ter calma, perante um filho , como eu tenho, à data?!
Nos estudos, perde o ano, por faltas! Só televisão, futebol e diversões!

Para a cama, vai noite fora! Ao outro dia, o que faz é dormir! Isto, sim, faz ele amiúde, em qualquer posição: deitado, em pé ou sentado! Note bem:
quando lhe pergunto o que deseja ser, no próximo futuro, responde somente encolhendo os ombros!
É isto viver?! Corpo de homem... pensar de criança! Se morrem os pais ou então se inutilizam, que viver será o dele?! Veja bem como sou infeliz!
-- Olhe, bom amigo, ele não é tolo! Por isso, há-de ter propensão
para alguma actividade! Pelo que tenho visto, ele anda contrariado. O
segredo está, pois em acertar com alguma tarefa! Observe-o bem e, quando
souber, deixe-o caminhar, nessa direcção. Deste modo, ele será feliz, não
criando problemas de qualquer natureza.
Chegado a este ponto, não fará oposição, que ele singrará.

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Amadora
4-1-1989
Três funerais, ao longo do dia
Raro acontece, ao menos agora, quer dizer, há coisa de dois anos, até aos
nossos dias. Anteriormente,era usual, havendo ocasiões de mais ainda.
O caso é devido, se eu bem avalio, à carestia da vida actual. Estando
uma pessoa fora deste assunto, nao chega de facto a compreendê-lo, o que não admira!
Significará isto que morre menos gente? A questão é outra! Há mais
gente disponível, afim de atender serviços fúnebres.
Encarecem os artigos? Maior diligência, para prover às necessidades.

A propósito do assunto, ouvi ontem comentários, acerca da Jugoslávia. Se bem me recordo, 70% da receita do país vai para a comida.!
É pasmoso! Neste caso e outros semelhantes, ou ainda mais graves, recorre-se a tudo, afim de obter o que é necessário. Em última análise, o mais que se pode!

O nosso caso não é igual, bem entendido! Muito longe disso!
Apesar de tudo, vai para a comida, uma parte notável do nosso rendimento.
Voltando ao assunto que abre este Diário, eram três senhoras que estavam em causa: Emília, Celeste e Líria.

Os dois primeiros nomes são bem conhecidos e muito usados.
O mesmo não digo, quanto ao derradeiro! Ouso até afirmar que é desconhecido, o que me levou a estranhar um pouco, havendo problemas, ao ser comunicado. Há o nome Lídia, isso sim, que é familiar, há muito já.
Como eu não fixava, pronunciando mal, houveram de escrevê-lo,
pondo assim termo à situação criada!

A morte importuna ronda mais perto das pessoas idosas. Sendo invernal a quadra presente, o frio intenso bem como a chuva, actuam
furiosos sobre corpos débeis.

Entretanto, ocorre um facto que me faz cismar. Há inúmeras mortes,
em gente de meia idade ou então pouco mais! Enfartes do miocárdio,
suicídios em drogados e o terrível cancro!
Já nem falo na sida que põe o mundo em pânico!

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Amadora
5-1-1989
O caso não foi há muito, que hoje mesmo ocorreu!
Viajando como é hábito, entre a Amadora e a capital, após o meu labor,
sucedeu então o que passo a contar

Não houve altercação nem sequer discordância. O facto em causa
deu-se no silêncio, em que eu, nessa hora, imergia, por inteiro
Junto da janela, entretinham.se jogando três jovens raparigas e também um moço da mesma idade. Tenho para mim que eram estudantes.
Em anos de existência, andarão, provavelmente, pelos 17 ou então 18.
Se bem concluí, tratava-se de sueca. Não faziam alarde nem chamavam a atenção. Tudo sempre normal.
De mesinha, faziam os joelhos, com um livro enorme. em cimadeles. Quem estava em redor, olhava atentamente, cheio de curiosidade, afim de

observar as multiplas reacções e notar a destreza bem como a sensatez dos 4 jogadores.
Entre os primeiros ficava também eu que seguia atento o desfecho da partida.
Interessava saber se eram bons jogadores., aplicando as regras que a sueca impõe: não sinalizar, de qualquer modo; não falar jamamais nem
seguir um "código"; atender às puxadas, quer do parceiro quer dos adversários; levar o jogo contado; dispor as cartas na mão, de tal modo e jeito, que logo as abranja de uma mirada.

Para tanto, colocar desde início, os naipes separados, ordenando as
cartas pelo seu valor. Devem, igualmente, levar bem contados os trunfos que saíram; jogar os ás todos, logo de início. O primeiro ;a sair é logo o de trunfo; havendo terno e duque, jogar aquele e não este, em caso de puxada:
não repetir qualquer dos naipes,, sem que haja, primeiro, uma rodada geral.

Nisto me ocupava, quando surge uma gaiata, dos seus 16 ou 17 anos.
que, atraída ali pelas colegas, se encaminha, prestesmente, para junto delas.
Coisa natural! Como na Física: matéria atrai a matéria... Velhos com velhos; jovens com jovens! Isto, na verdade, o que é uso dar-se, embora
realmente não seja ideal!

O separatismo deve banir-se.
Chegamos agora ao ponto culminante. A última personagem tirou-me a visão, de maneira total. É que ela fixou-se ao lado, ficando inamovível!
Como eu, realmente, estava sentado, e ela de pé, nada já via. Foi este o caso.
Perante o sucedido, fiquei alarmado! Como é possível dar-se tal coisa! Fosse eu embora simples criança! Entretanto, um de nós o era!
Que viragem foi esta?! Não se atende a nada! Baniu-se a educação e a mesma sensatez?!
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Amadora
6 -1-1989
Chamara... chamara! Ela, porém, é que não atendia.
A filha dedicada mantivera-se ali, como fixa no lugar! Isto, uma noite e quase dois dias! Sentada imóvel, no cadeirão, figurava uma pedra, não vendo nem sentindo! Imersa, talvez, em graves pensamentos,.. Mergulhada
num abismo, donde só a custo é possível emergir? Os seus olhos,dados agora a outras realidades, que ninguém suporia, viravam-se para dentro.

O mundo exterior nada contava. Esta a razão que me fez concentrar.
perguntando ali aos meus botões: ninguém que chore, gema ou suspire?!
Infeliz defunto que não era amado!
Estendido no ataúde, mostrava-se indiferente, insensível, alheado. Que
havia-de fazer?! O espírito deixara-o, seguindo o seu rumo, a caminho do Além. Imortal como é, ficava mais l,livre, sem o corpo a tolhê-lo.

Apesar de tudo, aquele homem vivera, tinha decerto amado, recebendo igualmente provas de amor. À data, porém, agia em tudo como ser ausente.
Seria, por isso que a filha se doía? Dar-se-ia o caso de estar ensimesmada, lamentando o proceder de quem fora seu pai? Incriminava-o
talvez, poer deixar de atendê-la?

Decorreram breve as orações fúnebres: veio a comunhão; finalmente,
a encomendação
Apenas silêncio, negrume. solidão! Coisa estranha! Nada que nos fale, em
voz comovente! Nem um gesto sequer... um suspiro abafado... o mais leve
indício dum peito em ferida!

Entretanto, chega pressurosa a Agência Funerária, Acomodam as floores e ajeitam as rendas, à volta da urna. É o momento culminante!
Quando o Agente vai para fechar, irrompe do lado alguém tremente, de olhar minaz, ordenando firme, com altivez; " Não fechem! Papá! Não
acordas? Não me vês? Não me falas?!

Enquanto diz assim, descontroladamente, roça com o seu o rosto do finado e vai gritando, por modo lúgubre. A gritaria, assaz descompassada, é horripilante!
Nunca eu ouvira coisa semelhante! As pessoas afastam-se, apertando
a cabeça e fazendo visagens que mostram confusão. O vozear hululante
insinua-se no peito e arranha os ouvidos!

Eu até julgava que tivesse enlouquecido
Não pude ver mais! A minha cabeça estava aturdida
Teria acaso fé na vida eterna! Acreditará na ressurreição?
Sem estas alavancas, não é possível encarar a morte, de ânimo frio.

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Amadora
7-1-1989
Passaram os Reis que, segundo o costume, tinham dia santo, em eras passadas. Em nosso tempo, o caso é diferente, pois esse privilégio foi já suprimido, como sucedeu a mais trê ainda: o de S, José, o da Ascensão e o de S. Pedro.
Por esta razão, foi ontem, na verdade, um dia como os outros
Sendo eu criança, em pouco ou nada ele dideria da festa natalícia
Beijava-se o Menino; pelo dia fora, pediam-se osr"reis", em casas amigas;
pela tardinha, reuniam-se as crianças no velho presbitério.

O amável Prior de Vide-Entre-Vinhas ia dar-nos os "reis, pequena moeda - 1 tostão ou 2. Cabia a cada um esta exígua lembrança, que o Padre Zé Maria recebera na igreja, ao beijar do Menino
Como então delirávamos, ante a perspectiva, que se antolhava magnífica! Um pobre tostão, apenas 10 centavos, tinha o condão de fazer-nos felizes!
Em longa bicha, aguardávamos todos que chegasse o Pastor. Ao
surgir ali,, com ar bonacheirão e sorriso nos lábios,, era como o Sol a erguer-se no horizonte do nosso viver!

Quem dera vibrar hoje tão sinceramente, com razões tão simples,
eficientes e modestas! O perfume dos Reis, embora a distância o haja
debilitado, ainda vem, nestes dias, revolver um pouco a minhsa alma saudosa!
Pudesse eu retornar a esse tempo ideal, em que tinha a meu lado, os
grandes amigos, sempre dedicados e tão leais!
É o tempo mais ditoso, verdadeiro e genuíno! Uma vez sem eles, fiquei destroncado e já sem apoio. Apesar disso, alenta-me a certeza, deveras confotante de os encontrar novamente, no dia grandioso da ressurreição!
******
Amadora
8-1-1989
" Faz-se Disparates "
Fiquei horrorizado, ouvindo tal coisa! Para mais, foi a locutora que todos
apreciam e gostam de escutar, julgando afinal que sabe Português como ninguém! Até eu aprecio, mas estes baldes,com água gelada, fazem alterar
a temperatura! Que decepção! É mancha negra, em pano alvo!

Qual dos nossos Mestres usou, alguma vez, tal construção?!
Encontra-se, acaso, em Herculano, Garrete ou Castilho, no doce Bernardes.
Vieira ou Sousa assim como em Latino?!
Não me parece!
Notemos o seguinte: "faz-se" é forma verbal, do número singular,enquanto
" disparates", sujeito da oração, é do número plural!
Há, como vemos, grave transgressão! Verbo no singular e sujeito no plural!

Logo, concluímos: Fazem-se disparates.
Não se venha agora com a frase francesa: On fait des Bêtises! Neste idioma, o sujeito ´é "on" ( do Latim homo). Portanto, a frase está correcta.

Atenda-se a Camões:" Por segredos que homem não conhece."
Na frase inicial, o "se" não é sujeito, mas partícula apassivante (são feitos).
Veja-se o Latim popular: virtus "se" amat e virtus amata est.
Equivalência: Disparates são feitos por...

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Amadora
9-1- 1989
Motorista berrão, vaidoso e presumido, modelar e fanfarrão..
Vejamos, em pormenor, uma parte da cena, ocorrida em auto-carro,no qual eu me encontrava
Após a introdução,começa o discurso de auto-elogio e crítica mordaz. Dizia o sabichão, incomodando os presentes, que apertavam a cabeça
: " Eu, aos 5 anos, já dizia obrigado, se faz favor e outras coisas mais
que denotavam boa educação. Além disso, era extraordinário! Calculem só:
No meu exame, para a condução, fui tão brilhante, que recebi, sem delongas, um belo convite, para ficar instrutor

Já podem ver o grau de inteligência! Mal fiz eu, não tendo aceitado!
Bem pena tenho! Havia de estar melhor do que agora estou!
Isto de educação é uma coisa bonita!
Custará talvez alguma coisa dizer ao motorista: Senhor Motorista, faz
favor de me dizer se este carro, afinal, passa em Queluz! "

Não vou agora repetir as palavras soezes, brejeiras e calculadas , que
adornavam seus dizeres.

Salpicada assim a arenga espontânea que bastante alarmou todos os circunstantes e os pôs num inferno. cabe perguntar: um povo inteiro, com História longa, longa, de 3506 anos, bem documentada (Vilas do Norte de
Portugal, por Alberto Sampaio), avança tão pouco, na linha do progresso?!

Merecerá, realmente, que tratemos por senhor um sujeito deste género, que enxameia os dizeres, com palavras escurris, próprias de muleteiros, almocreves e arreeiros?!
Oh tempora! Oh Mores! Assim dizia, no Lácio, o famoso orador, de
nome Cícero.

"E levanta-se um padeiro, logo de madrugada, para alimentar quem
tanta asneira, sem o mínimo respeito, pelos utentes da Rodoviária?!
Apelo veemente para quem de direito, afim de pôr cobro a tais
desconcertos! Até porque há motoristas que são exemplares e dignos modelos,de imitação.

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Amadora
10-1-1989
Chegou, finalmente, o dia suspirado!
Pois não é hoje que saem de Angola os primeiros Cubanos?! Cinquenta mil homens, num país estranho! A fazer o quê?!Quem deve, afinal,guardar a nação, defender o governo e prover a tudo hão-de ser os naturais, os filhos de Angola!
A tropa mercenária não inspira confiança!
Foi dito, em Luanda que saem os cubanos, de cabeça erguida e punho cerrado.
Não sei porquê! Por evitarem, talvez. a invasão de Angola?! Por defenderem o seu territorio da África do Sul?! Por esmagarem a tropa da UNITA?! Sim. Que fizeram eles, em terra angolana?! Nada! Ou melhor:
somente asneiras e latrocínios!

A UNITA, que eu saiba, ficou sempre na Jamba, em terra nacional!
Quem a desalojou? Ninguém! A África do Sul entrou em Angola e ficou por ali, quantas vezes foi preciso e lhe aprouve repeti-lo. Portanto, que fizeram l´
É de notar que a temda vzinha não precisa de Angola!
Como ninguém, tem ela em barda quanto necessita. O que ela não quer é ter maus vizinhos!
Onde brilha a vitória? Para mim, é ponto assente: só na África do Sul e na própria UNITA.
Que tinha dito Savimbi? Que não descansaria, enquanto em Angola
houvesse um cubano! E no tocante à África do Sul? Que daria a liberdade e a independência à chamada Namíbia,, sob condição: evacuarem Angola os
soldados cubanos.
Que é que lucrou a nação mártir? Viu sair para Cuba as suas belas divisas (pagava em dólares); sofreu espoliações e toda a natureza, em
alfaias agrícolas, materiais cirúrgicos, viaturas e o mais, que Portugal deixara, para uso, sim, mas dos Angolanos!

Valeria a pena? Oh! Tudo se escoou para a Ilha remota! Não foi vitória, mas sim derrota!
O sonhado cerco, uma vez premeditado, à África do Sul, ficou gorado!
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Amadora
11-1-1989
O que se ouve ou lê e assim também o que vemos, hora a hora,
deixa de ter graça, passando geralmente despercebido, em seus pormenores. Para despertarmos, é preciso um repelão, algo violento, que nos faça reflectir, encarando o assunto como se fora a primeira vez, a ser tratado.
Vem isto a propósito do Evangelho de hoje, Narra-se ali a cura
miraculosa da sogra de S. Pedro. Estava de cama, retida com febre.

Não havia, talvez, quem servisse à mesa. Jesus, porém, remediou logo a situação. Pegando-lhe na mão, convidou-a a levantar-se, o que ela fez logo,
começando a servi-l!O.

Este é o fato, mil vezes ouvido, muitas comentado e outras ainda ,lido pessoalmenta e revivido. Admira-se ali o poder de Jesus. que mostra
ser Deus. Embora seja muito e constitua o cerne da presente questão, algo
lá existe que passa despercebido. Ninguém atenta no caso em foco, olhando
com agudeza e tirando conclusões. Foi esta a razão do presente Diário.

Vejamos então. Designa-a o Evangelho por sogra de Simão.Quer isto
dizer: S. Pedro, Apóstolo, chefe visívem da Igreja de Geus, era casado.
Equivale a dizer: o primeiro Papa, escolhido por Jesus, era de facto um homem que tiknha um lar seu.

Viu nisso Jesus algum obstáculo à sua missão?! Notamos que não!
Verificamos. pois, que nos séculos seguintes, alguma coisa se fez, que se
apresenta logo, em franco desacordo.

Deduz-se claramente, que não há oposição nem impedimento,mercê
do matrimónio. O sumo cargo, na Igreja Católica, foi concedido a um homem casado. Jesus Cristo achou isso bem.
Notemos o seguinte: se houvesse, realmente, algo a corrigir, tê-lo-ia
feito, como sucedeu, no caso do divórcio. " Não separe o homem aquilo que Deus uniu!"
Desta maneira, ratificou Jesus as palavras do Génesis: "Não é bom que o homem esteja só!"
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Amadora
12-1-1989
Shop Peter's

Vi isto algures, ali para o Seixal, distrito de Setúbal. Fiquei embasbacado
e maior seria a minha surpresa, se não tivesse exercido, por mais de 20 anos, o cargo de professor de Língua Inglesa. Apesar disso, tive um choque forte. Se acaso a meus pais houvesse acontecido, que fariam eles'! Certamente ficavam intrigados! Pois se aquilo, realmente, não é Português!

Em território nosso, manda o bom senso, o nacionalismo, a conveniência e a própria razão, usar termos lusos. Estava assim julgando, vem-me logo ao
de cima terrível suspeita. De facto, não era Inglês nem Português!

Que era,afinal?! Salada russa! Genuína salgalhada!
Atentemos de perto. e a rigor, Português não é, que os termos são ingleses.
Shop, inglês, significa, decerto," loja de vendas"; Peter equivale a Pedro.
O apóstrofo em Peter indica, naturalmente, o caso possessivo ou
genitivo saxónio, equivalente, em Porrtuguês, a um determinativo ou restritivo.
Aquelas palavras significam: loja de Pedro
Entretanto, Inglês autêntico não é também, porquanto exigia a seguinte posição: Peter's Shop.
Quer dizer: as duas palavras são realmente inglesas; a sua posição é portuguesa; o genitivo saxnio é, de facto inglês!

Grande marmelada! Afigura-se charada! Quem entende isto?!
Por que é que as autoridades, competentes, na matéria, não põem termo
a estes desconchavos?!
Em terra nacional, só termos portugueses! Todos os outros devem ser eliminados! Não seguindo este rumo, desfigura-se a Língua, cuja pureza deixa a desejar!
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Amadora
13-1-1989
Dentes

São eles, agora, a minha canseira!A partir dos 28, o cortejo prosseguiu, sem
intermitências. Nessa altura, furou-se o pré-molar, inferior direito, Decorreram já 42 anos. Ao longo deste tempo, quanta maçada, graves incómodos, noites sem dormir!Casos tive eu que foram horrorosos! Um molar, esquerdo inferior e o do siso. O derradeiro ficou incluso.

À data presente, rondando os 71, pois em Fevereiro já se perfazem,há outra ronda, mais devastadora, Começou o arranque, nos finais de Dezembro. Em fins de Janeiro, terei o meu caso quase resolvido. Ficarão apenas 5:
três em baixo e dois em cima.

Com eles, suportarei as placas esqueléticas, aguardando assim que venham as novas, já definitivas.
Hoje,sem falta, às 11 e 30, foi extraída a raiz dum canino, sendo ela a terceira. A camada inferior está quase dizimada. No dia 16, pelas 10 horas,
vai ser desalojado o suporte da esqueléctica. há mais de 20 anos.
É o segundo pré-molar. Sem ele.pois, restam apenas os que vão ficar!

Em seguida, vamos aos de cima: os dois da placa e mais uma raiz.
-- a do canino esquerdo.
É muita coisa, em pouco tempo! Não tem corrido mal! O odontologista,
de nome Seabra, é cauteloso e muito prudente! Além disso, manifesta dextreza e muita habilidade.
A raiz do canino que hoje me extraiu, é que ofereceu alguma resistência. Penetrava fundo no maxilar de baixo. Por esta razão, estou
a sangrar e com dor de cabeça!
Oxalá, pois, que esta situação não vá influir, em sentido negativo, no
trabalho escrito.
Escrevo, na varanda, em cima dos joelhos. A estas horas, a luz do Sol vai já escasseando, pois faltam 25 para as 18. O Sol declinou,
havendo-se ocultado, atrás do casario que se ergue em frente.

A tarde foi bela, com ser Janeiro! O pior é de noite, que arrefece bastante! Por esta razão, anda tudo engripado, o que me toca em cheio!
É a segunda vez que tal me acontece, a partir de Setembro de 88.
Depauperamento? Sintomas do fim?
Após esta vida, aguarda-nos breve outra me,lhor,Façamos por isso!

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Amadora
14-1-1989
Como são as minhas horas.

Estar ocupado é ponto assente, no meu viver. Várias razões me levam a tanto. Que, afinal, procedi igualmente, ao longo da vida. Uma questão de
hábito? Apenas isso? Não! Mais e muito mais!

Tenho sempre em vista fazer coisa útil, para os meus semelhantes.:
instruí-los sempre no que é possível; pôr-lhes ao alcance o fruto sazonado da minha experiência; falar por eles, quando não sabem ou têm receio;
apontar razões que eles ignoram e podem militar em seu favor; destruir, sem piedade, noções falseadas e hábitos cediços, que perderam a vez;

chamar a atenção para as injustiças e bem assim para os ultrages à liberdade; erguer alto o estandarte, que eles, hesitantes, apenas soerguem,
por timidez; encarar de frenteos grandes opositores, eliminando breve
suas falsas razões, alegadas com ênfase, ao longo dos séculos;
contribuir, em suma, para que haja liberdade, sem a qual, decerto, ninguém é feliz; dessacralizar, banir os mitos e reduzir o homemà sua dimensão; destronar, forçoso, os bem instalados, como ainda os parasitas; eliminar prontamente a discriminação.
É nisto que eu lido.
Ao mesmo tempo, sinto enorme gosto em cultivar a minha doce Língua, que desejo respeitada e sempre erguida.

Se critico a sociedade, em seu labutar.é porque ela abusa, pisando
os fracos ou ignorando-os, pura e simplesmente. Este é, de facto, o grande incentivo, para o meu trabalho. Não quero apenas vegetar, neste mundo.

Desejo, a valer, que fiquem vincados os sinais de meus pés, ao
trilhar em desacordo os caminhos pedregosos deste mundo hipócrita.
Nesta ordem de ideias, começando ao meio dia, o longo trabalho das minhas revisões, para 85,( Diário ) vou agora acabando esta humilde exposição, que é desabafo duna alma sequiosa.

Para as 18, faltam apenas 19 minutos, Sirvo-me ainda da luz natural,
mas vai escasseando, aqui na varanda. Quem me dera já, naquelas tardes
longas, em que posso trabalhar, sem luz artificial, até às 21. Esse tempo
chegará, se Deus for servido. Bem o aprecio!
Após 71, vão ficando arrumados quase todos os Diários (já muito mais de 15 volumes!)
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Amadora
15-1-1989
Um Sonho

Já falei dele , por várias vezes, de modo especial, a partir de 85,
Trata-se, é claro, do primeiro original que intento publicar, mas que, por culpa doutrem, não chego a ver impresso.
A primeira Editora a quem o entregara, com o fim de apreciá-lo, reteve-o 10 meses, com grande enfado, cá para mim. Não seriam bastantes dois ou três meses?!

Fugiam de mim; evitavam, ao máxiimo, trocar impressões... Uma carga de trabalhos! Por fim, esgotada a paciência, ameacei com a Polícia

Chegado à mão o dito original, encaminhei-o breve para a Europress,
com sede actual em Santo Adrião (Póvoa)..

Ocorreu isto, no mês de Agosto. É tempo a mais, sem darem troco! Como posso aguentar espaços tão longos, com 7o anos, já feitos em Fevereiro do ano passado?! Gostava, sim, que dessem resposta, fosse qual fosse, para eu agir, noutro sentido. Neste marasmo é que nada luz! Será tanto o azar, que leve o mesmo tempo, sem nada concreto?! Que triste sorte! Com tantos volumes para dar à estampa, não haverá maneira de alguém esboçar o pontapé de saída?!

Havia um caminho: fazer eu próprio os custos da edição! Os montantes é que assustam, a valer! Nada há barato! Além disso, é um risco que pode sair quente! Não sendo conhecido, criaria problemas que seriam
escaldantes!
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Amadora
16-1-1989
Apresentei hoje as minhas condolências à Dona Narcisa, pela morte da mãe. É um facto usual que sempre ocorre, entre gente amiga.
O Sr. Almeida, que é,nesta data, o dono prestigioso da Agência Funerária.
Baptista Filho, não estava presente. Encontrei, no entanto, o filho do casal, que já entra em função, caso seja necessário.

Impunha-se, de facto. este grave dever, que são bons vizinhos lá, em
Alcântara e lhes devo atenções. Até aqui, nada há, realmente, que saia do normal e já esperado. Uma coisa, porém, excede o comum, sendo esta a razão deste meu Diário.

A falecida cavalgaria breve os seus 90 anos, sendo isto o motivo, Até se diz segundo o costume de esperarem a morte e menos sofrerem os que ficam ainda :" Oh! Já tinha muita idade! Foi um alívio! Redunda em esmola! Não fazia já falta!"

Isto e mais ainda ouvimos nós, amiúde, em casos semelhantes.
O facto de hoje foi bem diferente! Por isso, exactamente, gerou logo em mim profunda emoção.

A Dona Narcisa, com lágrimas quentes a brotarem de seus olhos,
referiu-se à mãe com tal vivacidade, carinho e saudade, que fiquei abalado!

É que eu, realmente, aprecio imenso que honrem os pais os seus descendentes. E então a mãe, a sacrificada , a maior amiga, a heroína do lar, a bênção de Deus, aqui neste mundo!Pois é verdade! A dita senhora dizia comovida: " Minha mãe,com letra grande, criou 9 filhos!

Imagina, acaso, o enorme sacrifício que isso representa?! Atendendo às circunstâncias em que tudo ocorreu, foi na verdade uma mãe ideal! Nem
haveria quem a igualasse!"
Gostei imenso de a ouvir falar assim1, pondo na voz um acento
desusado! Senti-me feliz, nessa hora ditosa! É que minha mãe correria a par!
Óptimo sinal que um filho elogie , exalte e imponha o nome dos pais e seu actuar
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Amadora
17-1-1989
Ainda mais uma greve, para 20 do dorrente! Será geral? Será parcial? Anuirão, talvez, as duas sindicais? Trata-se, como sempre, de reivindicações. Alguns anos atrás, eram greves políticas e, por isso mesmo, injustificadas. Agora, não sei bem.

Cavaco Silva diz claramebte não haver razão, para fazer uma greve, o que ele justifica, por várias razões.Uma dentre elas e a seguinte: o Governo Português está dialogando com os vários parceiros, no campo social

Quanto a mim, não aceito a greve como se tem feito, cá em Portugal.
Por tudo e por nada, entrava-se em greve. Acho quase estúpido fazer assim!
Só por causas graves, havendo-see esgotado os recursos todos!.Ainda assim, apenas simbólica! Nunca total e menos geral!

Quem é que mais sofre comm essa atutude? São os humildes. Na verdade, os outros dispõem de carro ou têm recursos, para alugar novo transporte. Ponho o caso em mim. Já paguei o passe honradamente. Se não houver transportes. vou pagar outra vez?! Quem vai indemnizar-me do prejuízo
causado?!
Cidadão do país, tenho deveres e direitos sagrados que devem respeitar os outros cidadãos. Entretanto, havendo uma greve, eu nada conto!
Como é então isto?! Ninguém entenderá esta grande charada?! Por
outro lado, eu não posso defender-me, assegurando também os meus direitos. Quem o deve fazer? ´o próprio Estado, garante da paz, bem-estar e liberdade, para todo cidadão!

Desconcerta-me o caso! Dadas as circunstâncias que têm rodeado as
nossas greves, sou levado a pensar que se trata dum abuso: falta de respeito
às outras pessoas; ingerência na paz e bem-estar dos outos! Um cancro social! Parecem dois governos! Dois galos emproados, na mesma capoeira!

Para todas as coisas é preciso consenso, devendo este alcançar-se,
com boa vontade e moderação, olhando ao futuro e às necessidades da
época actual.
De outro modo, vomito as greves e aqueles que as sustentam.
Há-de ter-se em conta o bem da nação, o bem comum e a bela harmonia de todos os Portugueses
Mais uma vez eu pergunto ainda: quem atende ao meu caso, quando
sofro dano, por motivo de greves? Que é que está errado na trama da vida?!
Algo está mal! ´
É preciso agir.

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Amadora
18-1-1989
Ontem, o " Diabo" trazia uma epígrafe, cuja leitura me deixou estarrecido e quase sem fôlego. Gostaria de saber que houve um engano...
que não é verdade o que vinha ali. O dito jornal chega até nós, à terça-feira.

Diz o povinho que terças e sextas são dias de bruxas. Eu cá, navego noutras águas! Que diz Garrete, nas suas "Viagens", acerca do caso?
Belíssimas coisas, não haja dúvida, pois contrariam a superstição. Entretanto, para brincar, vamos repetindo a "música velha"

Perdoe o leitor que me haja desviado, moendo-lhe a paciência!
Que dizia o Semanário? Se eu bem li, que foi de passagem, pelo Calvário,. em Alcântara (Lisboa), trata-se de um desvio de montante astronomico, na
Caixa G. de Depósitos. Eram tantos os zeros, que preenchiam ali espaço a
valer! Seriam 9? Talvez isto, reduzido a escudos: 1ooooooooo$00. Será´
assim'
Fiquei espantado! Ao que nós chegámos! Fora de casa, tem havido
assaltos, mas dentro dela, em Firmas do Estado?! Como pode ser?! Já não temos, de facto, quem nos ampare e mantenha seguro o fruto amargo de
tantas privações?! Falo por mim. O pouco, afinal, que já depositei, é o que não comi nem pude vestir, há já 15 anos

Tais factos são incríveis e bradam aos Céus!
É urgente sanar estes casos... esta oisadia e reles postura! Nós, depositantes,
precisamos defesa, protecção e amparo! O Governo tem de inspirar inteira confiança, tanto a nacionais como a estrangeiros.

Sejam os gatunos chamados brevemente à responsabilidade e logo
punidos, segundo a lei. Caso contrário, será preferível irmos para a selva!

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Amadora
19-1-1989
A Mulher gárrula

Falar demais ou o que é pior, com voz tonitroante, é sempre desagradável. Faz-se má figura, criam-se reparos, geram-se breve dasaprovações.
O caso deu-se ontem, na Rodoviária, "Amadora-Belém".
Logo de manhãzinha, com frio de rachar, todos se encolhiam, dentro da carruagem. Uns , ensimesmados, remoíam na cabeça o que tnham a fazer;
outros ao lado, menos conturbados, pareciam, no entanto, alheados a tudo o que perto suceda.

Eu, no entanto, querendo evdir-me para ideias pessoais e coisas do meu labor, não pude consegui-lo. Sempre aquela voz, matraqueada e potente, sonorosa, impante! Que grande sarilho! Valia no caso a lembrança acolhedora e assaz deleitosa de que, em breve espaço, não voltaria a vê-la!

Autêntica gralha, só ela falava ,assumindo-se ali como última palavra e figura graduada com o número 1!
Para inferno em vida, nada já faltava! Entretanto, aspectos havia , muito mais delicados!, Se não vejamos: a vida e o futuro de centenas de pessoas,
pendentes em cheio daquela insensata!

Havendo uma desgraça, causada por distracção, quem iria sofrer?! Os utentes em massa e bem assim as famílias respectivas. Ninguém disse nada, ao menos que eu notasse! Apesar de tudo, era enorme o rancor e até o despeito que as gentes mostravam.
Foi um pesadelo p ercurso de ontem, devido à estupidez da sijeita presumida, leviana, imprudente!
É criminoso distrair o motorista ou ainda enervá-lo. Na verdade,ele é responsável por todas as pessoas que se encontram ali e procuram maneira de ganhar o seu pão.
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Amadora
20-1-1989
Greve!

Esta palavra irrita-me os nervos, só de lembrá-la! Tão grandes são os efeitos dela,, nas camadas subalternas da gente portuguesa, que chega a pôr em causa a sua legalidade.Dizem, porém: " É o único processo de fazer, entre nós, justiça social!"
Assim, também eu o aceitava! O que noto, afinal, é má compreensão,
inveja e cobiça, despeito, retaliação! Detém-se ela nos justos limites? Não
ultrapassa as barreiras legais, compreensivas e bastante humanas? Não puxam demais as partes em litígio, sem visos, para já, de chegar a um
acordo?
O que noto aí é falta de paz, serenidade e até bem-estar, nos mais
humildes! Todos a correr, sem destino marcado... sem hora nem caminho,
para chegar ao trabalho. Nem dormir sossegado nem comer que aproveite!

É isto a vida?! Não pagaram eles, honradamente, o passe social?!
Vão pagar outra vez?! Alugar um táxi? E dinheiro, então, para comer?! Só
isto leva em peso todas as receita!

Se agora olho para os povos de Leste, onde a inflação é de várias centenas,, mais descreio ainda! Algo está mal, aqui entre nós! Estatizar e
matar a confiança no chamado credor, é o mesmo que banir qualquer investimento! Sem este, adeus progresso! Falta o emprego, vem o desinteresse, junto ao mal-estar
É consequência fatal do chamado Socialismo, quando já extremo
(Comunismo)
Seria desejãvel aquilo que designamos por "meio termo".
Patronato e Sindicato limitarem, ao máximo as pretensões e a ambição.
Desta maneira, chegaríamos talvez a pronta solução
Partindo, porém, de normas suspeitas, desconfiança e mal de inveja, nada
fazemos, quanto a inflação, postos de trabalho, paz e bem-estar.

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Amadora
21-1- 1989
Escola e Drogado ( E.U.A.)

A grandeza enorme dos Estados Unidos torna volumosos todos os factos, ocorridos ali. Para bem ou para mal, tudo forçosamente é desmesurado.
Noticiaram os jornais um caso lastimoso, cruel, intolerável: um rapaz drogado, com 24 anos, entra numa Escola, munido com arma e
atira, alarvemente, sobre as crianças. Tremo e sucumbo, de lembrar tal cena. Infelizes criancinhas!

No princípio da vida! Flores em botão! Esperança radiosa dum porvir
maravilhoso! Que angústia a dos pais, ao saberem do caso!
O dito assassino matou algumas delas e feriu muitas outras. Este, realmente, é o facto deplorável.
Em tempos idos, matavam por vingança, atingindo somente os julgados criminosos.Fazia-se o mesmo, em legítima defesa. A inocentes ou
indefesos, quem é que fazia mal?! A uma criança!

Em nossos dias, são os inocentes, as pessoas de bem, as Autoridades
ou endinheirados que são alvo de ódio, rancor e vingança. É ver o que se passa, no desvio de aviões e, bem assim, na preferência de certos reféns!

Pode tolerar-se o mundo actual?!
Voltemos ao drogado, Foi criminoso. Terá ele, de facto, responsabilidade?!
Se a não teve no acto ( não posso julgar) teve-a decerto, no tempo iinfeliz,,
em que ele iniciou o uso da droga, conscientemente.
Como eliminar este grande flagelo?
Tudo tem remédio! Sujeitar a duras penas aqueles que vendem ou passam
drogas!
Primeiramente, fazer constar, por toda parte, as medidas severas que vão ser tomadas. Em seguida, pena de morte para os infractores

Que se faz a um membro do corpo humano,.estando gangrenado!
Afim de evitar a total destruição, cortamos essa parte, para salvar as que restam ainda.. Daqui não se foge! É caminho único!Duro? Sem dúvida que sim. Entretanto, não há solução, por via diferente.
A morte inesperada, cruel e brutal de inocentes criancinhas que vem
dizer-nos?!
Para grandes males, grandes remédios!

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Amadora
22-1-1989.
Lupanar e Droga
Segundo informações, eram 9 as mulheres de certo lupanar. Estas infelizes
alugavam os corpos a machos desembestados, para cevar a luxúria, à maneira cavalar. Triste situação! Fazem-me pena mulheres desta vida!

Desonram-se a elas, envilecendo; desonram o sexo de que fazem parte; ultrajam a Deus, que morreu por todos, no Monte-Calvário, para lavar, com seu próprio sangue, os nossos pecados; são a vergonha das suas famílias.
Sem lar nem amor, fazem-se realmente dignas de dó!
Assim viviam aquelas de que fiz menção. Um dia, porém, chega um drogado que as obriga a despir e,havendo saciado as paixões degradantes,
assassina-as a todas.
Coisa horrvel! Que maneira arrepiante de acabar esta vida! Não seria
já bastante a sua desventura?! Que mais juntar a tamanha desgraça?! Faltava ainda a suprema angústia, a mais refinada e maior humilhação!
Após o concúbito, finalizam a vida como tinham surgido, cá neste
mundo! Queixamo-nos, às vezes, da nossa má sorte! Que nos diz este caso?'
Que os passadores da horrível droga, a começar pelos maiores, devem ser enforcados!
São eles os responsáveis por estas misérias e casos lastimosos.
Que Deus lhes perdoe, se for caso disso, mas a sociedade mão pode fazê-lo.
Seria assinar, de mão beijada, a própria ruína.
No campo da Moral, como seria o fim das 9 infelizes? Não é dado sabê-lo.
Apenas Deus é que tem o segredo! Que terá ocorrido, no último momento? Quem sabe?
O tal drogado suicidou-se também! Assim acabam as vidas
miserandas!
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Amadora
23-1-1989
No Hiper-Mercado.
De vez em quando, passo por lá, na mira de comprar o que mais preciso, com menos dinheiro. É voz corrente haver amiúde enormes
descontos. Eu em pessoa tenho aproveitado, em certos dias.

Entretanto, devemos ter presente o rifão português que diz o seguinte: "Cria fama e deita-te a dormir".
Havia-me esquecido, mas hoje recordei-o! E que desilusão! Fora eu lá por farinha pensal, cuja embalagem custava menos 40$00. Isto, é claro, por unidade! Dera-se o facto, meses atrás. Tomando-lhe o gosto, quis repetir, mas já não havia o artigo em causa. Tinha-se esgotado.

Bom! Perante o facto, decido então preferir Weetabix. É constituído
por trigo integral, glúten e gorduras, fibras e o mais. Trata-se, afinal, dum produto inglês que dizem ser bom. Tem hidratos de carbono. proteínas, etc.
Verificado o preço - 300$00 - retiro, desde logo, 4 embalagens,
entregando por elas : 11o8$00. Regressei feliz, julgando, ingénuo que tinha poupado.
Em seguida, entro logo aqui no Super- Mercado, ao rés-do-chão.
Comparando os preços, noto sem delongas que era mais barato, cá na Amadora. Grande negócio! Mais 10$00 em cada embalagem! Valeu bem a pena!
Não sei agora se lá voltarei, ao menos, sem ver os preços aqui por fora! Após o facto, no Hiper-Mercado, alguém me ajudou a arrumar as embalagens Um senhor gentil, de boas maneiras, com palavras doces, muito acolhedoras! Tão pouco se vê! Olhei-o com afecto, agradecendo logo, harto penhorado.

Nisto, remata ele: "Deus o abençoe!"
Não esteve mal! No entanto, achei imensa graça! É que as ditas palavras ficariam melhor, na minha boca do que na dele! Sou bastante mais velho e tenho por missão, entre outros deveres, o de abenço,ar!

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Amadora
24-1-1989
Em conversa informal com um padre, Capelão, veio logo a pèlo o celibato do clero, verificando prestes ser o colega da minha opinião,
quer dizer, contrário à lei que o torna odioso. Admitimo-lo, sim, mas como facultativo: nunca imposto! Assim o entendeu o próprio Deus, que ordenou
sacerdotes homens casados., entregando a chefia da Igreja Católica ao Apóstolo Pedro, que era casado.

Amarrando o padre com o celibato, emendam a Deus e julgam-se até
superiores a Ele. Além disso, fazem algo avesso à própria natureza e aos
direitos básicos da pessoa humana.. O amor e o lar, assim como a família, são efectivamente, de direito natural e inalienável.

A meio do diálogo, interrompe, com tristeza:" De momento. o Papa já recusa, pois não concede a chamada redução ao estado laical.
A isto juntei eu: se adoptou o nome João PauloII, não pode recuar: apenas
continuar.Caso contrário, deve escolher um nome diferente.

Como pode alguém recuar, neste campo?! Os males originados são incalculáveis! Quem roga a dispensa é porque, na verdade,não se sente feliz
nem realizado. Considera-se amarrado! Ora, o dever da Igreja não é cercear a liberdade à pessoa,mas defendê-la .

Que faz, dentro dela, um padre constrangido? Além disso, crendo-se com direito à fundação dum lar, atira-se logo para o acto civil, uma vez
manifesta a oposião de Roma.
Quem é o causador?
Pelas ditas razões, entendemos nós que o Papa actual se encontra de facto em mau caminho, neste particular. O movimento contrário é irreversível! O comboio passou e Roma à data, já o perdeu! As palavras do Génesis têm, de facto, valor eterno:" Não é bom, não, que o homem seteja so!"

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Amadora
25-1-1989
Outubro - 87; Agosto - 88; Fevereiro - 89.

O que fica exarado, ai cimo da página representa já uma longa caminhada.
Não falta muito para dis anos. Passados 9 meses, nasce uma criança.
Passados 24, ainda não chega, para nascer um livro. É que o longo percurso vai sendo percorrido pelo meu Diárrio de 1975, " ASegunda Noite", escrito em Angola.

É a segunda Editora que o vai apreciando, comercialmente.
Chama-se ela Europress. A primeira referida dava pelo nome de Meri Iberica Liber Esta dizia que o publicava, mas agia tão morosa, que eu
desisti.
Quanto à segunda, espero transmitam o que está planeado. Tenho para mim que é já bom tempo de saber alguma coisa. Daqui a pouco, há
meio ano. Bem diz o rifão:" Quem espera desespera"

Quanta ansiedade! Quantas horas desoladas, sem nada me dizerem!
O que houve já, quanto a conjecturas e poss´veis situações
É muito aborrecido não haver meios próprios! Nem esperava eu nem fazia esperar. Era limpinho! Assim, porém, de asas cortadas, que posso fazer?!

Esperar somente e depois morrer talvez, sem nada feito! Isto, realmente, faz-me cair! É, na verdade, como se eu, afinal, esperasse um filho, não
chegando a vê-lo! Que pena me faz tudo quanto digo!
Será de crer que chegue, brevemente, Fevereiro 19, sem ao menos um clarão, a indicar o futuro?
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Amadora
26-1-1989
O Rapaz do Funeral.
De vez em quando, ouvia referver, com jeito moderado. O caso repetia-se, bastante amiúde, subindo o ruído,ao fazer a recolha. Perante o sucedido, perguntei a mim próprio: não terá lenço o pobre do rapaz?! Pudera eu nessa
hora, emprestar-lhe o meu! Entretanto, não podia fazê-lo, que andava engripado!
Entre nós ambos, havia contudo enorme diferença: ele, rotineiramente, fazia ali a absorção do muco, obrigando-o logo a inverter o sentido. que é sair pelo nariz. Nem se apercebe de que o seu lidar não é
aceito. Sentia-se feliz, por estar à frente, em lugar bem visivel. A força do
hábito inibia-o de pensar ou julgar-se carente, fosse do que fosse!

Reflexão, neste caso, não era com ele!
Curioso, não é? Eu, no caso dele, não seria feliz.. Preocupado e cheio de vergonha, fixaria no chão os meus olhos tristes, pela má figura que estava fazendo, ante aquelas gentes. A ele, porém, nem o coração podia bulir-lhe.

Eu, porém, incomodado embora, com aquele ferver e logo referver,
notei visivelmente, a grande ventura daquele rapazinho, que não era já
criança. Catorze ... quinze anos! Andaria por ali!
Para ele, afinal, foi um dia feliz. Vivendo à margem das misérias da vida, passa no mundo, sem se aperceber do que é reprovável e perturba os outros
Um factor de ventura?
Em pólos opostos é que nós estávamos. Também vim duma aldeia, em que
os narizes albergavam, geralmente, espessas camadas de muco nauseabundo.
Hoje, o tempo é outro. Há lenços em barda, muito mais higiene,
cuidados especiais, afim de evitar qualquer desdouro.
A verdade, porém, é que, postos frente a frente, constituímos um calvário, em que as duas partes ficam atingidas, sofrendo muito mais a que mais evoluiu.
Coisas amargas da civilização! Boa é ela, de facto, mas traz dissabores e cria problemas
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Amadora
27-1-1989
O Motorista
Aprecio bastante o cargo de motorista, quando é exercido, com habilidade,
muita dextreza e boas maneiras. É que nele reside, efectivamente, a paz dos utentes,, a boa disposição bem como a segurança. Uma companhia, deveras amável, dá logo prazer e traz conforto
Sendo Inverno, lutamos com o frio, arrostando com a chuva, que nos
visita agora, bastante amiúde. Porque assim é, torna-se a viagem muito mais pesada. Entretanto, lá vamos aguentando, o melhor que podemos.

O caso em foco teve surgimento, daqui para Lisboa.
São 20 minutos o que levam, geralmente, os breves quilómetros que nos têm separados da nossa capital. Repito o mesmo, logo de manhã, antes de nascer o astro amigo e faço isto diariamente. Ainda hoje correu o facto.

Às sete e um quarto, arrancava ansioso, do Largo da Estação. Para tanto,
ali manda estacionar a Rodoviária,
Como ia apressado, julgando talvez não achar banco, afim de sentar-me, despachei-me breve, aproveitando logo o banco da frente, que ficava
pertinho do nosso motorista. Não é preferido, ao menos de Inverno.

Isto, por ficar exactamente rentinho à porta. Mas, enfim, lá me ajeitei, envolto no sobretudo. Resignando-me ali, por ser breve o percurso,
ia confiado e cheio de esperança. Nisto, precisamente, vem a surpresa tomar-me de chofre: o motorista prepara um arremesso, a lançar pela janela.
Fico atarantado! Não estava eu perto?! Não corria o perigo de ser
atingido?! Fazendo recochete, por causa do vento, que podia suceder-me?!
Infeliz que eu sou! Fosse apenas uma vez! Chegava já e era bastante!
Aquilo horroriza-me! Enche de pavor, nojo e espanto!

Às portas já, do século XXI e nesta miséria?! Que tristeza imensa!
E foram 8 vezes, da Amadora até Lisboa!
Não haverá remédio para tal calamidade?!

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Amadora
28-1-1989
O volume XIII das obras de Garrete, Edição Disco-Livro, traz
em dada página, o Andrómetro de Spencer. Ora, acontece, realmente, que
põe a maturidade, entre os 29 e os 35 anos.
Vem isto a propósito do prersbiterado, que exige maturidade, sem
que haja aparência , motivada por entraves.
Antes de expor o meu ponto de vista, intento exarar alguns considerandos.
Para se verificarem os dados de Spencer, é necessário que o ser humano, em sua evolução, não haja tido quaisquer barreiras. É que, neste caso, aos 29 anos, poderia encontrar-se, com 5 apena.,
Faz impressão a muito boa gente que, aos 24 ou 25 anos, um homem
qualquer não esteja preparado, convenientemente, para assumir a responsabilidade e tomar compromissos!. A verdade, porém, é muito
outra!
Em primeiro lugar, dista enormemente do Andrómetro de Spencer.
Em seguida, pode ainda encontrar-se na segunda infância (3-5 anos). Há
casos em barda, por esse mundo fora.
As Ciªencias Humanas, que estão em pujança, na época actual, esclarecem tais casos. Infelizmente, a Igreja Romana, por escassez de informação ou algum preconceito, ainda não aceita o belo resultado que vem da pesquisa
O certo, porém, é que não podem negar-se, os efeitos obtidos: estão
docomentados, com muita seriedade, havendo precedido proba investigação.
O barrar da evolução que deve ser contínua, livre e firme pode ser
ocasionado por vários factores: o pai ou a mãe; outrem de familia; pessoa
estranha, muito dedicada; Escola Primãria ; o Internato; de modo especial o mesmo Seminãrio, como era no meu tempo; pressão exagerada, proveniente que seja do mesmo Superior


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Amadora
29-1-1989 (cont.)
O maior travão, no caso entre mãos, brota da mãe, com vista
ao menino.É assaz curioso e digno de nota. Quem mais ama o próprio filho
e por ele se entrega, de corpo e alma, é que pode lesá-lo, de maneira apavorante!
Tornando-se invasora da pobre criança, esta não passa de mero objecto que ela tem presente, e a que não renuncia. Sendo isto assim,
o menino é possuído e não toma iniciativas, quando o tempo chegar; depende inteiramente da fonte de seus dias.

Ela, por sua vez, tudo lhe faz, limando-lhe arestas e tornando-lhe a vida um mar de rosas. O querer do petiz dilui-se inteiramente no querer da mãezinha!
Quando chega a adolescência, continua infantil, porque não evoluiu.
O desenvolvimento que acompanha o ser vivo foi-lhe barrado pela própria mãe. Enquanto esta viver, nunca passará à fase seguinte, em que o adolescente pensa no "outro"Foi coarctado e assim continua. Para fora, jã ele não volta! Remete-se ao "casulo!

A outra fase, provavelmente, não surgirá. Teremos nós um invertido,
embora inconsciente? Um homossexual, embora em potência? Um marido infeliz, vindo a casar? Um pobre homem, sem maturidade?

Como poderá tomar compromissos?! Assumir, para logo, a responsabilidade? Sem liberdade, impossível se torna a responsabilidade!
É menino, sim, mas de sua mãe! Depende dela! A sua vontade não conta
para nada! Ele será sempre o que ela quiser!
Aqui reside a causa de muitas defecções, na vida profissional

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Amadora
30-1- 1989 (cont.
Tomemos em conta um facto indiscutível: o ser humano
evolui, sendo constantes as fases da vida. Não podem sobrepor-se ou deslocar-se. Sem que uma se realize, não começa a outra!

Julgarão ar mães que esta doutrina se opõe ao amor que votam aos filhos? Não é verdade que haja isso em mira! Não tenho em vista esse despropósito. Trata-se apenas de alertar as mães, chamando a atenção para um caso muito grave, que as Ciências Humanas vieram descobrir, já recentemente
Está em jogo a ventura do próprio ser humano À margem total desta prevenção, temos no mundo uma série de infelizes!
São três, de facto, as fases basilares: 1. a criança, primeiro, vive para si; 2.
o adolescente descobre o "outro,"com quem e para quem passa a viver; 3. o ser adulto
volta de novo a viver para si. São irreversíveis estes estádios.

Incumbe aos pais, aos professores, bem como aos psicólogos, tutores e mentores, aos conselheiros e directores nada oporem que vá interferir em
tais realizações. É que elas,na verdade, estão incrustadas nos seios da alma.

Foi o Criador que assim destinou.
Internatos e Colégios podem também afectar gravemente as fases da vida.
Claro se deixa ver que, havendo obstrução, o ser estaciona, psicologicamente e sexualmente, voltando à carga, muito mais tarde, já sem
controlo nem proveito algum.

Fixemos agora o caso da mãe que domina inteiramente a existência do menino.
É toda cuidados; substitui-o em tudo; vela em exagero pelo seu bem-estar; ela não admite, por modo nenhum, que alguém o acarinhe ou
lhe dê mostras de sincero afecto; não pode estar longe do ser que gerou;; não admite a hipótese de vir a perdê-lo ou perder o seu amor; não o larga um momento;
o ciúme de outrem é espinho acerado; no caso em foco; vigia-lhe
os passos, com toda a atenção; selecciona até as suas companhias; impõe-lhe os lugares que há-de frequentat; espia solícita e mete de permeio gente a colaborar.
Pelo que vemos. este pobre menino vai ser infeliz! A mãe invadiu-o: é exagerada em alto grau; A criança não vive a sua própria vida, mas a da mãe. Está decerto, no plano inclinado. Barra-lhe o crescer , na área psicológica e sentimental, já que a autora de seus dias de vida está exorbitando.
Desta maneira, vai dar contributo para mais um infeliz. Ensimesmado e harto diminuído, viverá o narcisismo... gastar-se-á sobre si
Um futuro invertido... um homossexual, (ao menos latente), seja consciente
ou inconsciente.
A quem atribuir a culpa de tudo?
Continuando infantil, não se encontra livre, para tomar decisões.

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Amadora
31-1-1989 (cont.)
Suponhamos agora que essa mãe invasora o destina ao sacerdócio, Este menino jamais conviveu. Era preciso e até urgente, evitar,
a rigor, as más companhias. Por isso, exactamente, viveu isolado.Sendo ele
o mais velho, esse isolamento foi sempre total e assaz desumano.

A piedade materna, sincera embora, mas algo fanatizada, (pelo menos vendo mal, em inúmeras coisas), tomava a peito desviar a criança
de tudo o que é humano, requerido também e necessário aos anos do filho

A vida infantil desdobrava-se, pois, só entre adultos.
" Possuída" pela mãe, a pobre criança não via mais nada
Em sua casa, evitava-se tudo o que pudesse manchá-la. nem atitudes nem
sequer palavras que originassem dano! Vida angelical e não humana!

O menino avançava, em anos a contar, mas ficava infantil, angelical e um ingénuo. Acerca da vida, nada ele sabia. Guardado, espiado, seguia o caminho de maneira estrambótica! Um ser infeliz, que não era deste mundo
nem tinha, afinal, vontade própria. O seu querer havia-se diluído na vontade materna..
Desviando-o de tudo, ele era empurrado, mas não guiado.
De modo nenhum ali há um carácter: por isso, exactamente, não pode haver
qualquer opção, chegada a hora de escolher o rumo. É a mãe que o faz..
Já o preparara, desde longa data.
Estamos assim, ante uma vontade, em que a outra se abisma.
Só igreja e orações; seminaristas e padres; catequese e reuniões; diálogos constantes e algo tendenciosos, vincando sempre o mesmo assunto.. .batendo a mesma tecla.

Esta criança nada mais viu... nada mais soube: foi o que aprendeu!
O conceito da vida é errado em globo! temos presente um ser artificial...
uma vocação, imposta à força, ( embora com jeito e modos especiais)
Não é ele quem escolhe,mas de facto a mãe!

Chegado que foi à sua adolescência,, não se apercebeu de que havia "outro", com quem e para quem iria viver. Quer isto dizer que ele estancara, ficando infantil.
Uma vez assim, vive para a mãe, depende dela... é o seu "objecto"
Está já pronto e bem preparado para o narcisismo.

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Amadora
1-2-1989
Já fiz alusão às fases do homem, que são, na verdade, em número de três. Para maior clareza, vinco melhor este mesmo assunto.
1.Introversão; 2. extroversão; 3. introversão.
Diria, talvez, com mais propriedade: fase do eu; fase do tu; fase do eu.
Ou ainda;.fase de recepção; fase de doação; fase de recepção Recebe,
primeiro; dá seguidamente; volta a receber.

Estas épocas da vida vêm todas seguidas, ao longo do tempo e
surgem, por força, invariavelmente, não havendo obstáculos, Não há aí saltos nem sobreposições.
Agindo a criança, em inteira liberdade e não havendo peias ou distorções, provenientes dos pais, tudo se processa, em grande equilíbrio.
A primeira época prepara s segunda, que tem seu início com a puberdade.

Acabada, pois, a terceira infância, ( 7 anos ) vem a adololescência,
que, entre nós, surge mais ou menos pelos 12 (meninas) e pelos 14.

O rapazinho, que viveu como egoísta, recebendo apenas (amor e
carinho; estima e afecto; solicitude, amparo,etc. descobre o "outro".
Nesta fese, se não foi barrada a evolução natural, pela mãe absorvente e
autêntica invasora, que não é capaz de renunciar nem de ser possuidora,,
começa o rapaz a dar do que é seu ao movo elemento, fora do lar.

Vai dar-se à noiva que será talvez a esposa do futuro; dá-se igualmente à prole que surgir..
Lançados ja na vida os filhos da união, vem a idade madura ( 43 a 49 ) que
o aproxima dos 50 anos.

Começa a terceira época., a que segue brevemente o declínio da idade (57 a 63 ), vindo logo a velhice (64 a 7o .
Na última fase, começam as moléstias, surgem os incómodos, leventam-se problemas.O casal requer auxílio, de toda a natureza.
Entretanto, havendo factores que impeçam este curso, a pessoa estabiliza e
fica dibinuída, sem capacicdade para assumir encargos e ser responsável.

É um ser inepto para o casamento e para o sacerdócio

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Amadora
2-2-1989
O Internato.
Imaginemos, pois, que se trata, afinal, de seminaristas, quer destinados ao clero regular quer ainda ao secular, Reportando-me agora aos anos 30, ( 1930 ) que senti realmente pesarem fundo sobre os meus ombros, o rapazinho ia da aldeia, para iniciar vida comunitária, fora do seu meio.
Admitamos também ser um dos muitos, já recrutados, por falta de meios. Para o Liceu, isso é que não! O Seminário convinha! Era gratuito
ou quase o seria. Tratando-se dum jovem que adora a mâe, na qual somente
deposita confiança, ouve tudo o que insinua ou chega a pedir a fada e autora de seus dias na Terra.

Escoou-se a adolescência, fase da vida em que ficou parado. Invadido pela mãe, que não prescinde do filho, criou o rapazinho igual necessidade. Continua, pois, sempre infantil. O "outro" não surgiu! na sua
vida íntima. A mãe, a rigor, é tudo para ele e continua ainda na mesma situação, já no Internato.

Aqui mandam nele como num abúlico: não tem vontade própria. É
mera peça do "grande mecanismo!

Os seus problemas a ninguém interessam. Obrigam-no a agir como se fora já padre. velho sisudo e angelical!. Este rigor mais e mais lhe vinca
os traços da mãe,. Por isso, em férias, apega-se a ela, com toda a energia,
acentuando-se mais a sua dependência.
Nada ele faz que posssa desagradar-lhe! O seu mínimo desejo é sempre adivinhado, pondo-o logo em pronta execução

Dados estes factos, o pobre rapaz não tem vontade própria nem vive a existència, Critério pessoal isso não existe! É manipulado! Sem ser padre ainda, obrigam-no a vestir e viver como tal!
Mercè dos hábitos, criados no lar, entrou no Seminário, ainda infantil
A secura e solidão a que agora é votado, aumentam as carências, próprias da criança.
Entrado em férias, sente-se bem, continuando infantil, pois vê saciadas ,em toda a linha, as suas aspirações.

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Amadra
3-2-1989
Os sintomas da absorção e posse total acentuam-se mais, ao longo dos estudos, subindo ao rubro, em dois momentos, que direi criciais:
ordenação dele e morte da mãe,

Primeiro momento: alegria sem par , de haver proporcionado a quem
deve tudo a maior ventura. Que poderia, afinal, essa mãe desejar que ele não fizesse?! Imolaria cordeiros, em todos os altares, para essa criatura se
crer ditosa. Sacrificaria a própria vocação, desde que ela sorrisse e o não abandonasse!
Desta maneira, está ele preparado, para ser um inútil, diria até indesejado, no meio da sociedade. Ainda preso à mãe, como em tempos de criança, continua assim, pela vida além. Nenhum dos dois pode estar sem o outro! Separação imposta, seria para eles verdadeira tortura!

Entretanto, um dia chegará, em que a morte cruel vai bater à porta da
mãe adorada, a quem sacrificara a própria ventura. O caso triste apresenta-se agora a cores lutuosas que o tempo e a vida não logram apagar!

A suprema angústia desce para logo ao chagadp peito desse adulto-
criança! Agonia com espanto, medo e prostração, eis o quadro tétrico, onde
a sua figura se apresenta logo, em primeiro plano

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Amadora
4-2-1989
Greve geral dos nossos transportes.
Ocorreu ontem ou seja no dia 3. Também eu a senti, no corpo e na alma,
podendo assim exprimir os efeitos maléficos por ela causados
Não quero negar o direito de defesa àqueles que trabalham. Muito
longe disso! Todos têm direito ao que é fundamenttal, para viver neste mundo, por modo condigno. Demais, eu vim de baixo! Pertenço igualmente à classe trabalhadora, visto que meu pai era lavrador e agricultor.
Entretanto, discordo profundamente do processo utilkiizado!
Por tudo e por nada, ameaça de greve! Ora, isso é que eu não aprovo! Além
do mais, os grandes torturados são os mais humildes... aqueles que de facto não têm voz... os que todos ignoram e não poden defender-se! A greve é feita, pois, à custa deles

Quanto a mim, paguei honradamente o " passe social", ainda antes de iniciar este mês É o L1. Já fica dispendioso. Tinha, pois, satisfeito os meus compromissos, afim de garantirem a viagem habitual, Amadora- Lisboa e vice-versa. Entretanto, com a greve, que veio a suceder?! Tive de ir a pé uns 4 quilómetros, aos 71 anos!

Para alugar um táxi, pagava duas vezes o mesmo percurso! Será isso
justo?! E logo uma greve de 24 horas!
Segundo opino, essa atitude há-ser simbólica, O mínimo de tempo e nunca por nunca, em horas de ponta.

É simplesmente dar um sinal, visível para todos! De outra maneira, torna-se
a greve horrível pesadeo! Não se dorme, já previamente, receando perder o dia... Uns dizem que há... outros, que não! Ao longo da jornada, bichas sem fim... gente desesperada... comentários azedos, palavras arranhantes... atitudes agressivas!

Por que é que os Sindicatos bem como o Patronato não resolvem a questão, chegando a consenso?! Palavra de honra que chego, por vezes, a desadorar tal meio de agir!

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Amadora
5-2-1989
O número 7

" A este número atribui-se malefícios!"
Ouvi esta frase a certa locutora da nossa televisão. Não preciso dizer
que perdi a calma! Em razão disto, foi~se o entisiasmo e o próprio interesse pelos asuuntos focados. Esvai-se igualmente a boa disposição. Quando tal sucede, fico paralisado, É qual enfermidade que logo me afecta.
Causará estranheza a minha impressão? Sendo o caso assim, pior ainda!
Não se trata,afinal, de grande punhalada no cerne da Língua?! !Notemos, desde já, que é um erro sintáctico! Por esta razão, a culpa agrava-se!Muitíssimo pior que mero termo, rebuscado fora! Denão vejamos!, Olhando bem para a estrutura da frase, (embora incompleta),
nota-se logo o decalque lastimoso da sintaxe francesa!

Alguém dirá: mas, se é bom Francês, é igualmente bom Porrtuguês!
É o que vou intentar no Diário seguinte, mostramdo. a rigor, que não
paralelo, entre as duas línguas, no caso em foco.

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Amadora
6-2-1989 (cont.)
Em Framcês, é correcto: está segundo a Gramática: o verbo concorda com o sujeito, em número e pessoa. Sujeito no singular, verbo no singular!
On dit des mensonges ( dizem-se mentiras). Sujeito: on, que deriva do Latim homo ( homem); predicado: dit, no singular,como on.; complemento directo: mensonges.
Neste passo, lembremos Camões : " Por segredos que (homem) não
conhece
Dizem-se mentiras. Predicado: dizem-se (voz passiva= são ditas;
sujeito:mentiras; agente da passiva: indeterminado (por algém; por alguns)
Vamos agora à frase, em que entra o se, junto do verbo, fazendo-o equivaler ao on francês (erradamente).

Para já, o se da frase que vem no topo, deriva duma palavra latina que nem sequer tinha nominativo /caso do sujeito\. O on francês provém do Latim - homo, caso nominativo,que serve de sujeito.

A frase correcta, na língua portuguesa, é a seguinte: A este número
atribuem-se malefícios.
Sujeito: malefícios; predicado: atribuem-se. Trata-se, pois, da voz passiva,
equuvalente a "são atribuídos."
Desta maneira, há já concordância, entre o predicado e o sujeito.
O agene da passiva é indeterminado ( por alguém... por alguns ).

Após as razões, quer etimológicas quer ainda históricas, vem o firme apoio dos nossos grandes clássicos e Mestres da Língua: Vieira e Bernardes,
Herculano e Sousa, Castilho e Latino, etc, etc.
Nunca, em seus escritos, se nota uma frase de tal construção.

Nota: na língua portuguesa, encontramos exemplos, em que a textura sintáctica é igual à da língua francesa ( on dit des mensonges , Vejamos um caso, rebuscado em Camões: " Por segredos que \ homem\ não conhece".
Latim: homo (nominativo); francês on; português: homem

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Amadora
7-2-1989
Viajar nos Transportes

Trabalhando em Lisboa, desloco-me à cidade, ainda cedinho. Levantar às 5 horas, preparar, como é devido, o que tenho a meu cargo e, por volta das 7, rumar a Lisboa. Para tanto, uso por norma o passe social. Dá bastante jeito,
como é de supor: posso utilizá-lo quantas vezes for preciso, durante o mesmo dia. Tanto leva um percurso, como dois ou mais. No que visa isto, o caso está bem.
Há, no entanto, um aspecto lamentável, que muito nos humilha e enche de tristeza: sendo muitos ali os utentes da estrada e poucos os veículos ( refiro-ne aos auto-carros ) sucede habitualmente o que é de esperar e que não se deseja. Os carros em foco vão super-lotados.

Empilham-se as gentes como trastes sem uso, dando isto origem a má disposição e até, por vezes, a palavras grosseiras. Lamento, ao vivo, que estas coisas sucedam, porque vêm aumentar o nervosismo existente. Acontece, não raro, sofrerem-se maus tratos, balanços repentinos, encontões chocantes, abalos profundos! Não haverá remédio, para esta
situação?
Algumas vezes, ouve-se dizer:"Se não está bem, alugue um táxi!"
Não concordo! Onde está o dinheiro?! Pagar duas vezes?! O que eu
entendo é que estes casos merecem estudo, com vista à solução.
As pessoas não são animais e, muito menos, trastes sem uso! Merecem respeito! Exigem atenção!
Gostava, realmente, que pusessem fim ao grande mal-estar, que toma, dia a dia os utentes da estrada.

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Amadora
8-2-1989
Novo Encontro

Havia já um ano, que deixara de a ver. Quanto isso me custava! Que saudade imensa, no cerne da alma! Dias e noites, horas sem conto, lembrando seus encantos, sem poder avistálos ou deles ter novas!
Como é doloroso viver deste modo!.
Cismando noite e dia, recordava arroubado seus doces eflúvios que, não raramente me faziam delirar! Seu ar fagueiro e meneios curiosos deliciavam-me a alma. Ao vê-la dee perto, renasccia a vida em meu coração!
Qual aurora radiosa, espancando as trevas ela actuava, dentro de mim. Em companhia dela , sentia-me diferente e os agudos espinhos, tao dilacerantes, não causavam já dor! Outra luz, outro fogo ardia vivamente, no centro do peito. Pesares e vilezas tudo se afastava, para viver o momento que era sem igual!.
Encontrara-a em Fevereiro, de 1988. Após esse mês, de novo a perdi.
Retirou-se o encanto por maneira subtil e, devido a isso, não houve despedidas! Ou seria, talvez, que não me apercebi, de enlevado que andava?! Podia acontecer! O certo,porém´é que a sua ausência veio penalizar-me!
De novo, pois, estava sozinho! Desfizera-se o encanto e o prosaico da vida instalou-se em meu peito!

Assim vivi eu, durante largos meses, sempre desditoso, pensativo... melancólico! Entretanto, a 1 do corrente, ao passar em Monsanto, irrompe
dentre as árvores, ostentando nos lábios um sorriso de encantar!
Benvinda sejas tu, ó linda Primavera!

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Amadora
9-2-1989
Acabei, agora mesmo, a segunda revisão, (melhor diria) a segunda, após a última, de 1971). Trata-se, claro está, do meu pobre Diário.
Tantas horas gastas! Tanto sacrifício!Tamanhas canseiras!
O meu objectivo é publicá-lo mas ,ao que vejo, há tanta dificuldade! Não acho maneira de pôr isto a andar! É que nem o Diário de 1975 foi possível editar! Por não ser conhecido, as editoras receiam.

Desisti logo da Meri Ibérica Liber; agora, encontra-se em campo a Europress. Isto, já desde Agosto! Não era bom tempo de entrarmos em contacto?! Mas não! Mudos como ratos! Chego a desanimar! No meu entender, bastariam dois meses, para se inteirarem, dando, em seguida, o seu parecer!
Este problema traz-me desgostoso, mercê dos largos anos que já pesam bastante! Além disso, cá na minha óptica,era promissora a época actual, pois me ocupo de Angola, cuja história política, militar e económica
vai sendo remodelada ou, pelo menos, em vias disso.
É um dos problemas da época actual a requerer mediação, com toda a urgência. Outros há. certamente. Entretanto, o da África Austral é dos maiores e mais candentes. Por estas razões, impunha-se, de facto, que saísse o Diário, elaborado já, há 14 anos, aproximadamente.

Poderia acontecer que o leitor o recebesse, preparando o caminho para assuntos iguais ou mesmo diferentes
Pela última vez, estão já revistos, do ano 70 a 86. O número de livros é sempre superior ao número de anos. Tem de haver desdobramentos, para evtar livros grossos e pesados na venda. Um ano somente vai a dois ou três livros.
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Amadoa
10-2-1989 Outra Surpresa

Quando agradável, sabe e consola, mas ao invés é harto amargosa! A que vou descrever pertence, de facto, ao número triste e indesejável. Quanto eu
daria, para fugir-lhe a tempo! Mas adivinhar?! O problrma é esse, exactamente. Ontem, por noite, assistia, deliciado. ao noticiário das 21 horas.
Até porque, na verdade, a nossa locutora satisfaz plenamente., gostando, por isso, de ouvir seus dizeres. Po r não ler jornais, habitualmente, dou enorme atenção àquele noticiário, que tem mais volume. Bom! No melhor da festa, havendo terminado a pessoa entrevistada, ouvi a senhora dizer assim: " Muito obrigado!"

Isto irritou-me, produzindo mal-estar! De facto, julgava eu tratar-se
de mulher, quando afinal o caso é diferente! Se ela pôs "obrigado" no masculino, que devo concluir?! Que eu andava enganado, como toda a gente!
Reflectindo, pois, sobre este caso, chego sem falta a esta conclusão: não devo confiar, seja em quem for! Só Deus, afinal, merece confiança! Vamos lá dar crédito ao que os outros dizem, pensam ou sentem! Do pé para a mão, elas aconttecem!

Não se trata, afinal. de mulher disfarçada?! Mas para quê enganar o público?! Não percebo o artifício! Nem vamos dizer que ela, de facto, ignora a concordância! Não creio nisso! Qualquer principiante da quarta classe faz a concordância, por maneira acertada. Ele diz: " obrigado"; ela diz "obrigada!"
Onde está o problema?! Quem agradeceu foi a locutora!

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4Amadora
11-2-1989
Falar Português.
Este programa foi introduzido recentemente, o que deu a todos enorme regozijo! Não fazia sentido que a nossa televisão guardasse má vontade ou emudecesse, a tal respeito!
Desde António Freire, docente universitário que tanto agradou ao público em geral, nunca mais, que eu saiba, alguém ventilou assuntos do género.
Ora, sendo a nossa língua o instrumento de trabalho, para transmitir o que amamos e queremos ( ideias, sentimentos e também voliçóes), impõe-se, realmente, que seja cultivada por todos em geral. Para tanto, requerem-se exposições, feitas, já se vê, por alguém competente .

Em razão disto, dou os parabéns à TV portuguesa, pela ideia feliz.
Quanto aos programas, que sigo com atenção, acho-os úteis e muito práticos para as classes mais humildes, às quais, muitas vezes, ninguém atende,
Este aspecto é defensável Entretanto, há senões que passo a expor:
1. o tempo disponível é exíguo em excesso. Por vezes, gastam-se horas em programas banais. Por que não dar maior duração ao programa linguístico?
2 . Intervêm nele duas personagens. Pergunto agora: para quê, se nem para uma dá tempo a matéria?!
Acho, pois, que devia ser apenas, um dos locutores, a expor o tema.
3 .Não ponho em questão o saber das pessoas que nele intervêm. Se foram
convidadas e elas aceitaram, é porque são idóneas.

A partir daqui, interrogo novamente: por que mostram elas certo acanhamento, de modo especial, a parte masculina?
Gera, de facto, má impressão, e cai bastante mal no público ouvinte.
Pode alguém interpretar, de maneira errada!

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Amadora
12-2-1989
Desabamentos.

São de temer fenómenos destes, pelos graves efeitos, que podem causar. De muitos deles já todos sabemos quanto mal originaram: mortes funestas; graves mutilações, desgraças inúmeras! E quando são barragens que se arrancam pela base ou então grossas penedias, a rolar medonhas, por uma vertente?! Deus nos livre de tais situaçóes!
Só temor e espanto na multidão!

Hoje, porém, assisti penalizado, a um desabamento de outra natureza. Tal coisa, afinal, deu-se no auto-carro, sendo eu paciente, e uma senhora a agente do facto. além de molestar, indispôs-me em extremo, pois aquilo não se faz nem a gente o admite!

Imaginem os leitores um monte de banhas ( dois almofadões, virados para mim), atirando-se impiedosos sobre o meu pobre flanco!
O incómodo foi grande. A outra faceta que deixei entrever, prende-se ao lado que virou para mim!
A parte mais nojenta do corpo humano, que serve, realmente, para as descargas!
Só a mim, por má sorte, acontecem coisas destas!

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4Amadora
13-1 1989 S, Tomé

Foi parte integrante do Império Português, sendo hoje uma nação que espera revigorar-se e gizar o seu destio, como povo livre. Com
isto regozijo-me, pois sinto na alma profunda alegria, o que sucede, afinal
se as partes dispersas do mundo Português se tornam progressivas, lutando
a valer por um futuro melhor.

Um coração português vibra intensamente, quando tal sucede. A que propósito veio este belo assunto? Muito simplesmente. Ouvi, há pouco, na
Televisão e li nos jornais, uma bela notícia, referente ao Arquipélago.

Decretou, finalmente, o Governo santomense que fossem recolocadas, nos devidos lugares, várias estátuas daqueles Portugueses que se tornaram famosos , por feitos singulares.
A Revolução, de tipo iconoclasta, em Abril 74, fizera apear o que fosse português ou lembrasse o passado. Como eu lastimei que tal sucedesse! Mas acho desculpa!

Esse ódio figadal havia sido instilado no peito dos nativos,. por velhos inimigos do nome portugês, os quais, na verdade, eram invejosos e
nutriam ambições que Salazar barrara.

A guerra do Ultramar foi levada a cabo, não contra S, Tomé ou outras partes do grandr Império, mas contra os intrusos e grandes inimigos do Velho Portugal como também dos próprios nativos, cujas riquezas eles cobiçavam.
Quinhentos anos de bom convívio deixaram marcas no peito das gentes! Nada se apaga! Os Santomenses reflectiram um pouco, chegando breve a conclusões que julgo acertadas

João de Santarém, Pedro Escobar e João de Paiva já se encontram, de novo, em lugar de honra!
Quem levou, de facto, a civilização aos povos da Terra? Não foi Portugal?!

Que mal haverá, em ser colonizado?!,
Portugal foi colonizado pelos Romanos.Foi isso uma desgraça? O nosso instrumento de comunicação com o mundo inteiro foi-nos enriqueci e afeiçoado por eles, Muitos outros benefícios nos vieram de Roma!

Parabéns,, S,Tomé! Foste pioneiro, o que eleva o teu mérito.
Que os outros irmãos sigam o teu exemplo!

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Amadora
14-2-1989
Duas saias, na verdade, não sobrepostas.

Não julgue o leitor que é fantasia o que deixo exarado! Se eu, passoalmente, observei o facto! Que diz o rifão? "Contra factos não valem argumentos"
Neste passo, alguém objectará: " lado a lado ou não sobrepostas, é isso comum! Que tem o caso de aspecto invulgar?!"
Uns monentinhos, com algo de atenção, que eu ponho as coisas em pratos limpos! Não se trata agora de duas pessoas. Uma somente é que entra em cena. Em sobreposição podiam ser mais. O caso, porém, é muito diferente.

Na mesma jovem, duas saias penduradas e quase talares,! Afigura-se impossível?! Não é coisa vulgar? Facto insólito? Cada um dos leitores pense a talante o que lhe aprouver! O certo, porém, é que o facto existe.
Quando o notei, quedei-me embasbacado, perguntando aos olhos se não havia algum erro.
Nisto, reparo melhor e que vejo, em seguida? Eram calças tão longas e avantajadas, como nunca eu vira, em dias da minha vida!

Tanto assim era, que uma só das pernas daria fazenda para inúmeras saias, já ultra- mínis que vejo por aí a certas donzelas.
Pois foi isto! Aprender até morrer! Se mais vivermos, ainda mais veremos!
O caso é autêntico e, queiramos ou não, temos de aceitá-lo!
É contra a estética? Depõe ele negativamente, em questão de bom gosto?

Não é agora tempo de carnaval?! Ainda há mostrengos,em fim de século? Pensem a capricho o que for do gosto, O facto é verídico, Julgum-no lá como entenderem!
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Amadora
15-2-1989
Reacendeu-se a luta

Recusadas agora pelo governo luandense, as propostas da UNITA, voltaram os soldados a pegar em armas, contra Luanda e as tropas cubanas.
Ficaram gorados todos os acordos, já realizados, nos últimos tempos.
É pena e lástima que tenha ocorrido esta decepção!! Houve grandes esperanças, julgando-se, a propósito que nova era se abria, na História de Angola.
Começaria agora a reconstrução, unindo-se as gentes e fazendo progredir a nova nação.
Perante o facto, surge a pergunta: " Quem é o culpado? A resposta certa vem logo de cima. Ninguém ignora que as propostas de Savimbi são
bastante razoáveis, e, ao mesmo tempo, as únicas possíveis, em ordem à paz.
Governo de transição, duranta dois anos, integrado, já se vê, pelas duas facções, MPLA e UNITA, seguindo-se por fim o que é designado por "eleições livres"
Luanda reagiu, dando em resposta:" Isso nunca! Amnistia, sim, após integração no regime vigente, Um só Partido, com inteira submissão de todos os grupos, com assento em Angola.

Esta posição representa um insulto para os bravos lutadores do aguerrido exército, apoiado pelo povo, de ser nacionalista.
Mais de 2o anos, sofrendo na mata,, como estrangeiros, na própria casa, para deporem as armas, ingloriamente?!
Quem o faria?!
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Amadora
16-2-1989
Nunca o vira antes nem ele a mim.
Hoje, porém, houve de escutá-lo, pois ia sentado, em lugar de reserva, logo á minha frente. Juntinho a ele estava a consorte, que falava convicta, acerca do marido, Ao longo da conversa, destinada às vizinhas, inquiria o velhote
cerca Clínica, sita na Reboleira, apertando amiúde,sobre o lugar, omde havia de sair.
Dizia com vaidade:" Conheço melhor as vias de Moçambique. onde trabalhei, que as desta cidade.
A nota dominante eram três pneumonias que o iam limpando. Ocorreram todas em curto espaço, havendo sido operado à próststs em crise
Estou já no fim -- acentuava ele -- mas com 82 anos e as minhas cautelas, vou indo benzinho e faço muita coisa!" Porfia também no bom entedimento com a amorável esposa, que partilha com ele não só as alegrias como as tristezas, há 58 anos.

Deu-me que pensar o bom do marido, cuja esposa o estremece, de maneira igual. Ela conta pormenores que o marido confirma, referidos, em globo. à vida, no passado
Mulher singular!Dela não fala.Cetra-se toda na existência longa do fiel esposo. Cinquenta e oito anos em boa camaradagem! Isto hoje é raríssimo! Tanta separação! Tanton divórcio!

Por qujue será tamanho descalabro? ostaria de ouvilo, a tal respeito! Mas... impossível! Cheado à Reboleira, sai prestesmente, rumo à Clínica.
Seguia direito, com passo bem firme, enquanto no olhar se via bem claro brilhar ao vivo a luz da esperança

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Amadora
17-2-1989 " Está boa?"
No século passado, era ofensivo dirigir a senhoras a pergunta do início. Ninguém se conformava com esta maneira de saudar uma mulher. Hoje, porém, de tal modo entrou no uso diário, que ninguém estranha!.
Vejamos, a propósito, se havia razão, para não aceitar aqueles dizeres. " bom ou mau", referidos a pessoas, dedenotam por certo qualidades morais, boas ou más. <<<< Saudando alguém, não temos em vista as suas qualidades, as suas atitudes, como também sentimentos pessoais. Indagamos, sim, da maneira como vive... se tudo corre bem ou então vai mal. Em razão disto, a forma correcta há-se ser esta; Está bem? Está mal?

Fixemos agora os seguinte dados: em vez da pergunta, com os termos adequados," bem ou então mal", empregava "bom ou então mau"
Ficaria assim: "Está má? Imaginemos até que a dita senhora estva desmaiada, Que levaria a gente a perguntar-lhe logo: a senhora está m´? Ou antes: a senhora está mal?
Apesar de tudo, creio não me engano, digo afoitamente que o caso em foco pegou de raiz. Sendo assim, tornou-se pertença da fala habitual, nada aí havendo que possa obstar. A razão, por ém, está do outro lad Deveria dizer-se: a senhora está bem? A senhora está mal?
Valerá bem a pena discordar ainda?
Quem é que emenda a palavra " saudade " que está mal formada. Entrou há muito nos h+abitos da l´lingua!

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Amadora
18-2-1989
" Levem os vossos livros"
Construções iguais ou algo semelhantes ouvem-se amiúde, tanto na Radio como na Televisão. Horrorizo-me sempre e fico mal disposto, quando ouço os locutores perpetrar,sem rebuço, dislates assim! É uma dor de alma fazerem salçadas como essa que aí fica! Não se admite!

De facto,"levem" é forma de cortesia, pois se encontra na terceira pessoa; "vossos" ao contrário, é da segunda pessoa.
Como pode conceber-se tal disparate?! Na mesma frase, em iguais circunstâncias, empregar a segunda, misturada ali com a terceira?!
Para estar correcta a frase apontada, havia de ficar segundo o que segue: levem os seus livros. Neste caso "seus! ( dos meninos, dos senhores,
etc, é pronome adjunto da terceira pessoa. Nada a objectar, pois é correcta a sua estrutura.
Tratando por tu, ficará deste modo: levai os vossos livros-
Na língua portuguesa, o tratamento cortês exige sempre a terceira pessoa, tal como na Alemã. Por esta razão, leva os pronones ( absolutos ou adjuntos) nas mesmas ppessoas
Notemos, agora, para mais clareza,:" leve os teus livros"
Dizem-me logo que a frase está errada! Então. assim, vêm dar-me razão!
Esta frase, a rigor, é igual à primeira. Uma está no plural; a outra, no singular.
Que dizer, pois? A segunda está mal? Também a primeira!
Portanto: leve os teus livros ou leve os seus livros?!
Daqui não saímos!
É necessário evitar estes erros que são nódoas infamantes, no idioma português!
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Amadora
19-2-1989
Após um dia, assaz trabalhoso, estou na Amadora, aonde regressei, depois do almoço. Às 16 horas, havia chegado, Deixei Lisboa, onde almoçara, para rever os meus papéis. É uma tarefa que jamais tem fim! As horas disponíveis são para ela, provocando isto alheamento e olvido, em outros assuntos.
Hoje, ao almoço, recebi cumprimentos, pelos meus anos. Se nao era isto, nem me lembrava!

Honraram-me a presença: o cunhado Martins, Carlos Alberto ( engenheiro) e Maria Regina. A mana Agusta lidava,nos Jerónimos, prestando serviço, razão pela qual nem dequer a vi. Esperava uma chamada pelo telefone, mas
anda absorvida pelos cuidados e afazeres que tem a seu cargo.

O Isaías esteve à mesa. Apesar de tudo, não sedeu por achado. Não o fez por mal, pois ele é bom rapaz. Amanhã, passa também o aniversário dele, mas eu não vou esquecer-me!
A estas vozes, já referidas, juntou-se, há pouco, a da Ção Lopes, natural do Sameiro. Gostei de a ouvir, embora `distância.
Foram 4 as pessoas que hoje me lembraram. É basstante exíguo este pobre número!
Tantos me cercavam, em dia de anos, quando era professor! É assim a vida. Tudo vai esquecendo, ao lobgo do tempo. Por outro lado, a vida profissional, os vários problemas que surgem pela frente, bastarão, decerto para desviar a nossa atenção, das pessoas amigas.

Que Deus me não esqueça e a todos ajude. isto bastará, para suprir quaisquer deficiências
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Amadora
20 -2-1989
Rescaldo
Ontem, afinal, foi para mim um dia singular. Achei-me diferente.Havia alguma coisa a travar os movimentos, O mesmo espírito
ficou deprimido. Tentando reagir, não consegui, de maneira cabal. Tristonho, melancolico, assim decorreram as horas ocupadas. Foi muito
bom haver sérios cuidados, que todo me fixaram! Mal dei pelo tempo. Se
fora de outro modo, não sei que seria!

Ensimesmado, viria a urdir-se uma teia enfadonha, cujas malhas densas trariam incómodo. Passaria em vista decepções e abandono, azares e mau
êxito. É que eu, de facto, embora em família, senti-me isolado

Em dias como este, precisamos de ambiente que forneça carinho e gere calor! Exige-se convívio e bem assim palavras de conforto.Acontece,
porém, que os membros da família se qcham ocupados, cada um no seu trabalho. Isto, de facto, origina o vazio, em tempo de aniversário.

Quanto a mim, duas causas houve que assaz me chocaram: o número de anos e a frieza do ambiente.
No tocante à idade, com seus contratempos, moléstias e perdas, ela só bastaria, para fazer-me pensar. Já fiz 71! É o primeiro degrau, na escada breve, que me leva aos 8o, caso lá chegue! Isso, afinal, pouco me afecta!

Arranco do planeta, quando Feus quiser e me vir preparado.
A segunda causa teve mais peso, que me fez lembrar os tempos de outrora,
em que tantas vozes e número igual de corações amigos vinham rodear-me!
O círculo aperta-se, não haja dúvida!
Entretanto, se Deus me ajudar, segundo firme esçpero., nada temerei!

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Amadora
21-2-1989
" A gente fazemos muita asneira"
Esta frase ouvi-a hoje, no auto-carro, a certa mulher que falava trovejando. Se ela, ao menos. o fizesse mais baixo! Mas assim, com voz rompante, ficámos a saber que é ignorante, assz presumida, harto estúpida e bstante malcriada. É que a sua voz, aguda e metálica ,entrava nos oividos, arranhando e ferindo!
Voltemos à frase que é incorrecta. A forma aceitável é a seguinte: "A gente faz muita asneira". Exige, pois, o verbo na terceira pessoa do número singular. Ela empregou a primeira do plural (nós).

Alguém objectará: a pavra "gente" designa pluralidade, envolvendo assin mais que uma pessoa.
No Poruguês arcaico, era obrigatório o número plural. hoje, porém, não se faz isso. Fosse ainda permitido usar o plural, não podia ser a primeira pessoa., mas a terceira.

Condenáveis se julgam estruturas como estas: a gente não sabemos...;
a gente não comemos....; a genta despedimo-nos...
É um caso lastimoso, por se tratar de falhas sintácticas. Atingem muito mais o nosso idioma que meras palavras de alfabetos estranhos..

A sintaxe é a alma da Língua.
Convém respeitá-la, com todo o cuidado e o máximo rigor.

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Amadora
22-2-1989
" A gente semos parvos"

Novamente censuro a pessoa e o número do verbo utilizado, pelas razões, apresentadas já, no Diário anterior.
Agora, outro aspecto: a forma verbal. Devido a um caso de analogia, o que sucede muitíssimas vezes, usa o povo a forma "semos" em vez de somos. Acontece ainda que se ouve, a par, a forma "samos"

A que vem no princípio é, como insinuei, fruto de analogia.Na mente popular, surgem outras formas que são correctas: vemor temos; hemos e provemos; devemos e outras. Levada por isto, a gente rude aplica o mesmo, onde fica mal.
A forma devida é apenas "somos" que vemdo Latim, com leves mudanças ; "sumus". Deu-se o reforço do u em o. A lei do menor esforço é uma constante da evolução fonética. A labial m tornou mais abertos os sons vizinhos
Por sua vez, o a de samos fica ainda mais aberto qie o e de semos
As formas portuguesas andamos,dançamos,amamos, odiamos e outras mais também influíram, por analogia.
Quanto mais rude e até ignorante for a pessoa, mais e melhor aplica estas leis, embora o faça inconscientemente e, às vezes se engane

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Amadora
23-2-1989 Roedores
Entre os roedores, encontram-se os ratos, que dispõem já de uma dentição, acomodada ao caso. Devido, sem dúvida, a tal ajustamento, penetram breve em arcas e arcazes, moradias e armazéns.

No arranque das batatas, encontram-se muitas já bastante desfalcadas. .
Penetrando em bibliotecas ou meras livrarias, são, na verdade ,autêntico veneno: desfazem o papel em exíguos pedaços, afeiçoando-os a ninhos, para a crriação. Vê-se, portanto, que nada lhes resiste.

Roendo, roendo, continuamente, alcançam, por fim, o objectivo. Nem quero falar do enorme prejuízo por eles causado!

Outro dado necessário: o mau cheiro da urina é insuportãvel e deveras espantoso, se não alarmante! Por mais anos que passem, não chegamos nunca a eliminá-lo, completamente, usemos embora desodorizantes e vários perfumes.

Toda a gente sabe como são indesejáveis , por muitas razões.
Interessa-nos agora o aspecto roedor. Como se não fossem bastantes, em número,vejo-os aumentar, assustadoramente.Há outros maiores, cujas habilidades eu desconhecia.Causam-me espanto! Serem roedores fez-me pensar!

Ultimamene. foram em barda os casos topados.
Embora destituídos, em questão de dentes, adaptados à função, o certo, porém, é que eles actuam, levando o caso muito a sério!,

Vejo-os nas ruas e nos auto.carros bem como nos electricos, onde se atiram ao próprio corpo! Quem iria pensá-lo?!
Declaro, para já, que tenho nojo e medo, quando tal sucede! É que as umhas sujam-se fácil, reunindo porcaria! Medo também não falta!

Sabendo nós estarem viciados tais roedores e roedoras, que intentarão fazer, após haver destruído as unhas próprias?! Atiram-se às de outrem!

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Amadora
24-2-1989 " Está boa?"

No século XIX, era ofensivo perguntar às senhoras se estavam boas. Creio até, ser entre todas, a maior ofensa. Hoje, porém, já entrou nos hábitos e pegou de raiz! Quem é que ousaria dizer assim?"

Como as coisas sâo! Aqilo que era mal deixa de o ser?! Será incorrecta a forma actual? Sendo isto assim, qual é a razao?
Antes de mais: a forma correcta que devia, também hoje, servir nos cumprimentos, é a seguinte: Está bem? A senhora está bem? O senhor está bem? Deve servir não de adjectivo, mas de advérbio. Aquele implica decerto uma qualidade, existente no sujeito.Tratando-se de coisas, denota realmente que o objecto é útil, prestável e de preço.

Cumprimentando, não queremos saber se a pessoa é boa ou então má. Têm-se em vista as circunstâncias, em que alguém se encontra.
Atenda-se a isto: como está?
-- Bem, obriada!
Não vem, pois: Boa, obrigada!
Nota-se, portanto, grande incoerência.
Vejamos ainda o que tenho a dizer. Empreguemos o antónimo de boa ou de bom. Bom dia, minha senhora! Está má? Bom dia, Doutor, está mau?
Que tal parece?
Ninguém usa tais dizeres, que seria logo vaiado!Normal seria, pois; a senhora está mal? O senhor está mal?
Pelos dados expostos, verifica.se bem que tais expressões estão erradas. Além disso, notamos incoerência, quando ela responde; bem, obrigada!
Há coisas erradas que entraram já no uso da língua: saudade, em vez de soidade; os patronímicos, escritos com s, em vez de z: Antunes Fernandes, Lopes,Nunes, Vasconcelos, etc. em vez de Antunez....como fazem os Espanhóis.
Do Latim, Antunici ( filho de Antunes) só podia vir Antunez
Se o caso referido entrou, de facto no uso da Língua, por que diz ela: bem,
obrigada? Deveria dizer, haveno lógica: boa ,obrigada!

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Amadora
25-2-1989 Cães
Não me vou pronunciar, ao menos desta vez, sobre a utilidade e serviços notáveis que prestam ao homem. Por demais conhecidos, não precisam de encómio. Encarecê-los também não é preciso. Basta, de facto, a sua dedicação, para estimarmos esses bichinhos que levam , por vezes, muita vantagem a certas pessoas

Entretanto, o que tenho em mira, neste momento é outro assunto que, afinal de contas, redunda em censura, não para eles, que são irracionais, mas para os donos que são negligentes ou até irresponsaveis, qando os abandonam.
O que intento focar é o aspecto lastimoso que Lisboa apresenta, por
causa do à-vontade que inúmeros cães manifestam, por aí.
Encontro-os sozinhos,, ao longo dos passeios,, urinando aqui, estercando além
Vêem-se também grupos a dois, quando não mais, correndo livremente, por estradas e passeios ou ainda farejando, nas Praças e jardins
da nossa capital.
Há pouco tgtempo, fixei-os por momentos, na Praça Albuquerque,
frent ao Museu. Quanto lastimei o que vi fazer-lhes! Bancos e assentos, para descanso, os mesmos cestinhos que recebem os papéis, cascas de frutos e outras coisas mais serviram ali, para eles se ocuparem, levantando a pata e molhando. em seguida!

Pergunto agora: quem vai sentar-se, tranquilamente, à sombra das árvores, no tempo do calor?! Toda a gente sabe quanto é incómodo o cheiro da urina! Os objectos jacentes ou próximos do chão ficam impregnados,
afastando assim os veraneantes bem como os turistas ou outros quaisquer.

Nas suas diligências aproveitam ainda para aliviar os próprios intestinos. Quem limpa os dejectos?! Quando bem calha, aderem " meias solas" ao nosso calçado!
São abandonados? Então resolva o dono o problema de direito! As
autoridades têm de empenhar-se, nesta cruzad!
Cães abandonados devem apanhar-se, dando-lhes um rumo
Como isto agora anda é que não pode ser!

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Amadora
26-2-1989
" Vocês têm a vossa maneira de ser!"

No programa "Às dez", que eu estava seguindo. pela Televisão, deparou-se-me aquela frase, que vemos ao alto. Confesso, à puridade, que fiquei alarmado! É que foi o locutor quem infrngiu as regras da Gramática .Fica a Língua uma salsada que ninguém já entende! Este solecismo é imperdoável e inadmissível.

Uma grande parte do povo português é iletrada. Por esta razão, precisa de aprender! Ora, que é que sucede? É o televisor um meio excelente de aprendizagem. Mas se espalha o erro, é isso exactamente o que o povo aprende!
Não me conformo com estes disparates! Os nossos locutores são obrigados a falar correctamente. É uma exigência de carácter nacional,
Quando um cego conduz outro cego, que vai originar-se?

Pois é verdade! Foi um locutor que deu tais provas!
Gente para o cargo só deve aprovar-se, com testes inequivocos de grande competência, no ramo preciso a que se destina!
Dentre as alíneas, a mais delicada , urgente e necessária é esta exactamente.
Vem agora a propósito deixar eu aqui a forma correcta Vocês têm a sua maneira de ser! Só esta se admite! O resto é, decerto, facada no idioma!
qe deve merecer-nos o máximo respeito! Não se pode transigir, fazendo vista grossa!, A Língua Portuguesa é a respiração da alma lusitana .

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Amadora
27-2-1989 Cont.
Tocando no assunto, há-de haver leitores que gostam, naturalmente, de saber as razões da minha afirmação. A esses, pois, me dirijo agora,, para
fazer luz, sobre a questão.
"Vocês têm a vossa maneira de ser!"
Foquemos o sujeito, relaconado ali, com o predicado ( têm ): vocês têm. Até aqui está bem. Sujeito: vocês; predicado:,têm. Sujeito no plural; predicado, no plural. Vocês, terceira pessoa (não segunda!); verbo, por igual, na terceira também. Nada a objectar, quanto às palavras que são basilares.
Onde a frase claudica é na palavra "vossa" Como sabemos, encontra-se o termo na segunda pessoa, por se tratar realmente, do pronome adjunto "vossa". Ora, como vimos, o sujeito da oração e o seu predicado estão, a rigor, na terceira pessoa, o que obriga, desde logo, a usar a terceira, em vez do termo "vossa"

Se quiséssemos, de facto, usar a forma "vossa", podíamos fazê-lo, ,mas era necessário alterar, a rigor, outras palavras.Tal oração daria em resultado: vós tendes a vossa maneira de pensar.
É correcta. Tratando alguém por tu, não merece reparos.

Acontece, porém, que "vocês têm" reproduz o tratamento cortês, por
se encontrar na tercera pessoa.
Dá-se a mesma coisa que noutras expressões, como por exemplo: Vossa Excelência; os meninos; as meninas; os senhores, as senhoras; os meus amigos; e assim por diante.

A nossa Língua usa,de facto a terceira pessoa, no tratamento cortês.
Em conclusão: na frase inicial, trart-se por senhor, no sujeito e no predicado, finalizando por "tu", na forma "vossa?"
Não façamos miscelâneas! Ou tudo por tu ou tudo por senhor!
O termo "vocès" é condensação de " vossas mercès" que se foi alterando. através dos tempos.: vossemecês, vomecês e vocês!!

Há também um aspecto, deveras curioso, a notar aqui. No Português europeu, já se não usa, para Superiores ou pessoas mais velhas. Fazê-lo
alguma vez, é falta de respeito! Só para iguais ou subalternos!
OBSERVAÇÃO
À data presente (2oo4), mercê da influência das novelas brasileiras, a fase evolutiva já regrediu, empregando-se "você" a torto e a direito!

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Amadora
28-2-1989 "Obrigado nós!"

Se bem me recordo, foi na TV que ouvi dizer isto. Claro! Fiquei mal
disposto. É que, nestas coisas, não devemos transigir! Ai de um idioma, quando tal aconteça! Em pouco tempo, ficava reduzido a montes de incongruências, irregularidades e manchas sem fim!
Não basta, afinal, ser locutor! É preciso preparação, ser aprovado,
estudar sempre!
Há milhares de olhos e tantos ouvidos, a registar o que se vai passando.

Por outro lado, havendo embora muitos ignorantes,( os mais prejudicados com certos locutores) a participar, nos programas diários,
já temos, felizmente quem ame a sua Língua. e até a cultive esmeradamente
Não basta, pois, seguir velhos hábitos, inconscientemente e utilizar chapas degradadas!
Necessita o locutor de ser um bom Mestre, sempre actualizado e pronto em
conhecer! Sendo ao invés, torna-se desde logo, assassino da Língua!

Voltando àquela frase que se encontra ao cimo, tenho reparos que aponto, desde já,.
O pronome "nós " é da primeira pessoa e do número plural. Isto, exactamente, obriga, sem dúvida a fazer a concordância. Como ali há um adjectivo verbal (particípio passado), temos de fazer os ajustamentos.
Quem agradece é que fica obrigado,-a,os,as.
Claro se deixa ver que, sendo mais do que um, não pode usar-se a palavra "obrigado", no singular! Será, naturalmente: obrigados-as.
Em conclusão: obrigado eu; obrigada ela: obrigados nós; obrigadas
nós.

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Amadora
1-3-1989 A grande Caminhada
Após 74, deixei logo de o ver, Era um bom amigo, o José Ricardo!
Nestes 15 anos, que pareceram mais, fui curtindo saudades que recrudesciam, com a marcha do tempo. Lembrava-me dele, a toda a hora e momento, entrando pela noite o meu longo cismar, que se ocupava de cenas, episódios e factos, ocorridos entre nós.

Deixara-o em Angola, cidade Silva Porto, donde eu parti, cheiinho de angústia, dor e martírio, pelo muito que ficava, em amor e sentimento.
A nossa despedida foi, desde logo, regada com lágrimas, sinal evidente de grande amargura, que esses dias tristes vieram causar-nos.
O silêncio pesado, envolto em suspiros é que tinha a palavra, qual
forma de expressão! Quando houve de partir, rumo ao Sudoeste, deu-me um abraço, daqueles abraços fortes, longos e frementes que faem estremecer as entranhas da alma!

Por fim, articulou, de espaço, os dizeres seguintes: Meu bom amigo,
urge, desde já, separar as nossas vidas. Caminhamos agora para o desconhecido!..
Eu, para a Namíbia como pobre exilado! Vou indo sozinho,, sem
família nem amigos! Recursos materiais... os mesmos que tu, pois a Revolu tudo levou!. É triste, de facto a sorte adversa que nos cabe esperar! A minha decerto pior ainda que a tua!

Línguas novas, pessoas e usos de raças diferentes; paisagens belas talvez, mas que não me falam; trabalho inseguro; futuro incerto!
Uma emboscada, em terreno hostil ... e adeus, minha vida, amigos e família! Entretanto, preciso de trabalhar, para obter meios, que ajudem prestes a solucionar problemas graves!

A família sem nada... os mortos queridos que jazem longe, em terra africana! Um ror de coisas que tanto pesam, na minha existência! Que Deus
bondoso seja connosco!
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Amadora
2-3-1989 Cont.
Foi deste jeito a nossa despedida. Os anos passaram e junto com eles,
fizemo-nos velhos. O traumatismo causado, os vários problemas que surgiram no caminho, as provações e contrariedades foram actuando, continuamente.
De vez em quando, vinha tudo à lembrança, acorrendo prestesmente a figura amiga do Zé Ricardo. Sentia cá dentro uma voz de murmúrio, a dizer. em segredo: "Confia a valer, que ele há-de voltar! Se a guerra o poupar e Deus o proteger, um dia virá, para juntos recordardes esses tempos infaustos e assim, à distância , já livres de perigo, expandirdes vossas almas!"
Eu deleitava-me neste imaginar e aderia a fundo. Era quase um sonho que figurava arroubar-me!

Um belo dia, na Praça Albuquerque, meditava eu, à sombra de uma árvore,surge ele inesperado, já pela tardinha. risonho e feliz, de haver-me encontrado. Os olhos fuzilavam e os lábios trementes abriam-se em riso,
enquanto as lágrimas ( agora de alegria ) lhe sulcavam as faces. Vieram pronto as grandes efusões, a viva expansão das nossas almas, transmitidas logo em frementes abraços!
Como eu lhe pedi me contasse breve a históiria longa do seu viver,
em peregrinação, por terras da Namíbia, não se fez rogado, começando logo a sua exposição.

Olha, meu amigo, vais enfadar.te, com a história longa das minhas andanças. É muito extensa, pesada e triste.a fase horrorosa que fui atravessando. Mil trabalhos diversos me estavam esperando... casos bem
difíceis houve de resolver ... problemas intrincados e cenas desagradáveis.

Em conclusão, autêntica odisseia que vivi a fundo!
Mas, já que o pedes, vou relatar, com grande minúcia o que sucedeu, ao longo destes anos.
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Amadora
3-3- 1989
Logo que arribei ao Sudoeste Africano, fiz o balanço, então
necessário, para verificar receitas e despesa.Em carteira, restavam apenas 4000$00! Insignificante,não é verdade? E tive muita sorte, porque, geralmente, depositava tudo, no Banco de Angola.
Sendo tão pouco, devia gastá-lo muito habilmente, caso contrário, ninguém me valeria.

Nem tu imaginas a grande apreensão que logo me invadiu, nessa hora amarga! Num país estranho, sem influência nem amizades, tudo era nebuloso na minha cabeça! Quanto a despesas, tinha logo a pagar o
combustível do Taunus e também o imposto de circulação. Foi deste modo uma baixa notável no remanescente!
-- E apenas com isso fizeste face a tudo?
-- Remediei bastante mal! Quando não havia, tinha de bastar-me!

Quantas vezes sucedeu passar fome e sede! Mas enfim, lá fui andando, com
todos os trabalhoos!
-- E cá, no país, não tinhas numerário que pudesses transferir, para essa região?!
-- Isso tinha eu, mas nada consegui. Era a Torralta, em que eu confiava. Entretanto, já intervencionada e em mãos do Estado ( era em (1975!) foi-me espondido: " Não pode agora levantar seus juros nem capital!
Isto desorientou.me, enchendo-me de asco pelas Instituições.
Calcula tu! Num campo imenso de refugiados, à espera da morte, já por inanição, já por ataque, permanecíamos lá, cheios de aflição!
Ante aquela resposta, dei o meu caso por dsarrumado e propus
trabalhar, sem fazer escolha, para garantir o que fosse necessário para a subsistência.
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Amadora
4-3-1989 Cont.
Conseguido o emprego, serenei bastante, embora na verdade me sentisse infeliz. Nenhum português ali se encontrava. Tinha, pois de utilizar idiomas germânicos; Inglês e Alemão ou ainda Africânder

O maior problema vinha certamente da alimentação, que nao era
suficiente. Só em fim de semana e durante as férias! Nos outrs dias, leve
refeição, peloo meio-dia. De manhãzinha até à noite, iludia a fome, com estreita provisão. Algumas vezes, nada tinha j+a, para comer! Outras ainda, comia uma laranja ou coisa no género. Por várias vezes, houve dias seguidos, em que nada comi!
-- Mas isso era horrível! Como subsistias?!
-- Com muita dificuldade Ganhando pouco, não podia alargar-me!

O meu objectivo era conseguir o que fosse necessário, para arribar à Pátria
e, antes disso, ajudar a família que partira sem nada, para a Europa.
Efeitos maléficos do 25 de Abril!
O programa de vida que levei por diante, era o seguinte: labutar, `saciedade; gastar dia a dia o mínimo possível e acumular o que fossepermitido.
-- E não tiveste ajuda?!
-- Alguma houve, sem d+uvida, mas tudo era ex´guo para as necessidades! Que eu restringia tudo: comida e vestuário; viagens e calçado; as próprias férias, bebidas e o mais.
-- E podias fazer isso?!
-- Que remédio havia! Necessidade obriga! Demais, embora com dureza, era-me agradável, para alcançar ali os meus objectivos.: dinheiro
bastante, para o meu regresso; magras economias, para a velhice e um
pequeno auxílio aos meus familiares, caso precisassem.

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Amadora
5-3-1989 Cont.
-- E lograste, finalmente, aquilo que desejavas?
-- Em parte, sim. Tudo envidei, no mesmo sentido. Quanto a bebidas, ninguém, decerto, fazia como eu. Via os outros colegas recorrer ao ordenado, para comprar cerveja ou outras bebidas, adequadas ao tempo. Ofereciam até, muito admirando que eu não aceitasse!

Não me recordo, se bem que pense nisso, de ter alguma vez comprado uma bebida, fosse embora grande a sede que me apertasse!. Bem insistiam os colegas amigos, mas eu porfiava em manter a posição.

O rio Cubango passava ali perto. Era ele, de facto, que me provia, quando tinha sede! Como deves calcular, a água era morna, por ser em zona tórrida aquela região. Apesar disso, bebia sempre dela, não hesitando.

Nestas circunstâncias, o bar não lucrava, com a minha presença!
Quanto a vestuário e ao mesmo calçado, ia recorrendo ao que outrem deixava. Para isso, acorria ami+ude aos contentores, onde estavam depostos, para fins não humanos É fácil de ver que andava mal vestido!
Por mais que tentasse ajustar ao corpo artigos alheios, não caíam bem
Se eles, realmente, não tinham sido feitos, à medida exacta do meu próprio corpo, algo debilitado! Enfim, coisas do Demo!
-- E agora já prescindes?
-- Vou iniciando essa caminhada! Se bem contamos, vão já passando 15 longos anos! É muito tempo, vivendo assim!

Por Deus cá cheguei, um dia mais tarde, encontrando os meus,, para ter, finalmente, boa companhia! Não foi muito aquilo que trouxe, mas alguma coisa, fruto bem amargo de porfiado labor, retenção e poupança!

Há conta bancária, embora fraquinha e bastanta módica!
É que os anos voaram e eu sinto-me débil!
Se nada tivesse, estava desgraçado! É pouco, sim, mas há-de bastar!

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Amadora
6-3-1989 Cont.
Pois, meu amigo, chegado que fui à terra-pátria, fiquei desapontado,
olhando ao que via. Já me bastavam os casos pessoais! É que eu, a rigor, era outro homem! Elas não matam, isso é verdade, no entanto, moem!
Atendendo, in loco, ao custo de vida, sérios problemas se ergueram logo! Casa disponível, para habitar; precisos, para adquirir e hospedagem completa.
Juntando a isto a falta de emprego, já fazes ideia, acerca de tudo!
Houve de trabalhar, mas à sobreposse. Umas vezes melhor, outras vezes pior, cheguei ao presente, com certo desafogo! Contudo, jamais consegui, apesar do meu esforço, repor tudo no lugar. Quer dizer: a situação antiga não pude reavê-la!
Lembra-me agora a quadra popular:... O pouco com Deus é muito! O
muito, sem Dus é nada!!

E eu creio, realmente, que é de facto assim! Continuava, deste modo, a minha odisseia.Claro! Não havia, a bem dizer, outra saída, O maior obstáculo era a minha idade! Após os 50, começar vida nova?! Para mais,
um trabalho diferente! Não é aconselhável nem se deseja! Não obstante os
contras, lá fui rompendo, sempre confiante. Deus ajudou-me e eu colaborei.

Não olhava a sacrifícios. A ninguém dizia "não"!
Férias para mim era coisa estranha! Diversões e nutrição, o mínimo possível! Com tudo isto, sentia-me alquebrado, bastante deprimido e assaz
fatigado! Nesta data precisa, em que entrei já na velhice, verifico, satisfeito,
que lucrei alguma coisa, embora a expensas da própria vida!

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Amadora
7-3-1989
Como vês, não foi delicioso viver assim!
-- Agora, porém. estás contente, pois conseguiste, ao menos parte, o grandeobjectivo.!
-- Sim, verdade seja dita! O que granjeei, se o Demo o não tirar, vai sero meu recurso, nos anos que faltam. À data presente, já não posso trabalhar.
A pensão de reforma é insuficiente, e os gastos são enormes! Basta,
de facto, a alimentação! Não obstante o que exponho, fixo confiado o peculiozinho, que vai dar ( tem que dar!)para os precisos!
É natural que suscite inveja e até mal-dizer mas, se for isso,, quem der à língua não tem razão!. Que fizessem como eu!

Fatigar o corpo; subtrair muito aos gastos da comida; privar-me de tudo quamto era possível! Não exagero, se disser o que segue: desde 1975,
levei um regime de sub,alimentação.
-- E quanto a bebidas?
--Oh! isso pior ainda! Sabes qual era o meu fornecedor? O rio Cubango! Calcula tu! Em zona tórrida, a beber daquela água! Sempre, sempre morna e, às vezes, turva!

Deus é que sabe quanto lá sofri! Foi, na verdade, grande pesadelo
quanto passou! Ainda bem que certa calmia desceu â minha alma!
Por Deus do Céu que me olha com agrado, passarei o final, em paz e sossego!
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Amadora
8-3-1989
"Vocês têm a vossa maneira de pensar!"
Sempre batendo a mesma tecla! Isto obriga-me, decerto, a repetições!
O leitor perdoará, se puder fazê-lo!
Ouvi aquela frase na Televisão! Já não é, de facto, a primeira vez!
Fiquei espantado, com tal disparate!

Cultivando a minha Língua, com tanto desvelo, atenção e cuidado, ao longo já de 5o anos, não tolero nem aguento que se dê tal coisa! E para
mais, na Televisão! A fonte universal que o povo julga impecável, certa e
segura!
Que vai depois fazer a gente iletrada?! A mesma transgressão. Quer
isto dizer: os disparates crescem, multiplicam-se até, alastrando no país,
fazendo todos as mesmas asneiras!
Pobre Língua de Camões, Vieira e Castilho, Garrete e Bernardes e Frei Luís de Sousa, sem omitir o académico Latino!

Olhemos para Cícero, expoente máximo das Letras lainas,sublime orador e grande filósofo. Que fazia no Lácio o insigne pensador?
Lia assiduamente os que ele julgava mestres da Língua Latina.


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Amadora
9-3-1989
Aproveito agora e corrijo a frase, repondo as coisas, no devido lugar. Fi-lo decerto, anteriormente, Apesar de tudo, mais uma vez! A forma
correcta é a que segue: Vocès têm a sua maneira de agir e pensar!

Serve este ensejo, para esclarecer a minha posiçaão e justificá-la.
Empregando alguém o pronome "vós", em lugar de "vocès, que é condensação de vossas mercês, vossemecês, vomecês e vocês, já se constrói a frase de outra maneira: vós tendes, sem dúvida, a vossa maneira de pensar e agir
A forma usada vocês, com o dito verbo na 3ª pessoa, exige a rigor,
tratamento cortês. Neste, como é sabido, não pode entrar a 2ª pessoa,mas a 3ª.
" Vossa" é tratamento de tu".
Em conclusão: vocês, os meninos. as meninas, os senhores, as senhoras, vossas excelências,o senhor Doutor etc, etc. têm "a sua maneira de pensar e agir "
Que pena me faz que os nossos locutores não saibam, a fundo, a
Língua Portuguesa! Por que não astudá-la com o máximo empenho?! Por que não exigir dos nossos alunos as noções adequadas às necessidades?!
Na África do Sul, onde fui professor, antes da independência, é eliminatória a língua africânder. Reprovado nessa língua, fica o ano perdido.

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Amadora
10-3-1989 Dentes
Assunto bem vasto, para ser tratado em simples Diário! Entretanto,
somente um aspecto agora me interessa. É que ontem, na verdade, ocorreu um facto, que é relevante na minha existência.
Esquecida já a primeira dentição ( a de leite) e deteriorada a que chamam segunda, houve de recorrer a uma nova série, que é já terceira.

Desta vez, porém, vieram de fora os dentes em causa, pois são artificiais. Sucede, portanto que, aos 71, já estou dispondo de placas dentárias, onde foram implantados os novos dentes. Para outros que naão eu, é facto banal.

Comigo, porém, o caso é diferente. Senti-me bem e quase feliz, atendendo, já se vê, às magnas dificuldades, por que fui passando, a partir de Novembro.
Dez dentes extraídos, ao longo destes meses! O que tal representa,em cuidados e nervos, como em dor e ate apreensões!
Em seguida, a enorme dificuldade, já para comer, já para falar, sobretudo em público! Nem quero lembrar-me

Acontece, pois, que me vou habituando ao novo sistema. Leva o seu tempo, como é natural. São corpos estranhos, dentro da boca, provocando,
na verdade, um pouco de mal-estar, pelo menos agora, nos primeiros tempos.
As sibilantes é que dão nas vistas. São muito acentuadas.
Já me disseram que, após algum tempo, se vão modificando e ficam
normais.
Oxalá, pois, que seja como dizem

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Amadora
11-3-1989 Cont,
Foi bastante longa tal preparação. De facto, havendo seu início, em
final de 88, só agora termina!
O odontologista não quis apressar-se: fazia tudo, com grande calma!
Um dente apenas, cada vez que lá ia! Além disso, intervalos sensíveis, entre as extracções..
De nome Seabra, lê-se . à entrada, não é dentista, como julgava!
Apesar de tudo, não desgostei. Anestesiava primeiro, com todo o cuidado
A 1 de Fevereiro, acabou a intervenção, pois o último dente a ser extraído, foi nesse dia. Os mais renitentes e enfadonhos foram, decerto, os incisivos
aos quais se juntaram os próprios caninos.

Estes, afinal, dispõem de uma raiz que é um pavor! Compridíssima!
Quanto aos molares, se têm duas raízes, oferecem também alguma dificuldade
Bom. Terminada esta parte, decorreram então, umas 5 semanas,
período amargoso, para comer e falar. Em seguida, recorri sem demora ao protésico dentário, que reside aqui, na Miguel Bombarda, número 15. 2º
direito. É Miguel Prieto.

Esta acção revestiu dificuldades, ao menos para mim. É o caso da língua! Não cheguei a acertar, conforme ensinava
Repetiu várias vezes, dizendo paciente: " levante a língua para o céu da boca! Se o não fizer, devidamente, ela puxa decerto o molde para a frente,
gorando-se tudo!"
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Amadora
12-3-1989 Cont,
Bem tentava ali o amigo protésico mas, afinal, eu não conseguia o que ele procurava: um molde rigoroso, certo e exacto. Não queria, por certo, deformidades!
Eu até me envergonhava de fazer má figura! Semelhava então um aluno vencido e, para logo, desclassificado!
Era necessário que ele observasse o lugar exacto, onde as tais placas, melhor direi, os dentes superiores incidiam ali nos inferiores.

O que é a vida! Tanto sacrifício, de lucro zero!
Bom. Aquilo passou e, volvidos 8 dias, segundo fora ajustado, fui então à prova. Havendo afastamento, quer dizer,não incidindo exactamente uns sobre os outros, ele ia acertá-los o melhor que pudesse.

Assim procedeu. Logo depois, seleccionou a cor: não muito brancos nem dissemelhantes dos que ficam ainda, no maxilar inferior, tendo sempre em vista fixarem a placa.
Uma semana depois, chegou finalmente, o dia da entrega, sem faltar a dolorosa: 33900$00.
Não achei muito, olhando já se vê à caresta de vida. Com material de 2ªclasse, podiam ser apenas 28 mil e tal. Eu, no entanto, preferi o primeiro.

De momento, estou.me adaptando à nova dentição. Não é muito fácil! No entanto, para falar, é já muito bom!. O acto de comer é que vai lentamente.
Ando a aprender!
Bem certo é; " De velho se volta a menino" Acontece agora.

Já os tiro bem, para fins de higiene. Cortar alimentos com os incisivos é que não vai! Será, de facto assim ou, com o tempo, normaiza-se o caso?! É o que estou para ver!
Irei procurar a quem tenha experiência,, afim de esclarecer -me.

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Amadora
13-3-1989
Poluição
Esmeram-se as gentes por dar a conhecer os perigos enormes que origina para o homem, Podemos dizer, para todos os viventes. De facto,
a intoxicação produz mal-estar, ocasionando até a própria morte em todos os casos
Por estas razões e outras ainda que não vou enumerar, é que os homens se preocupam, levando as pessoas a tomar cautela, em devido tempo, afim de evitarem graves contratempos!
Sendo eu criamça, eram as mulheres assaz meticulosas, em precaver-se contra a poluição e, ao mesmo tempo, em evitar ainda. que ela surgisse.
Pena é, de nosos dias, que o mesmo não suceda!

Discordará o leitor do que fica aí? Isso, então, obriga-me, desde já, a ser mais claro, para que a dúvida não ganhe terreno.
Apos o ano de 1972, ignorava tudo o que foi sucedendo, cá em Portugal.É que eu embarquei em Julho de 1972, regressando apenas, em fins de Dezembro de 1979.
Neste lapso de tempo, que durou mais de 7 anos, dois factos ocorreram que se prendem, a valer, com a poluição, originada pelas mulheres. Como se torna óbvio, antes de 72, eles não existiam.
Qualquer dos dois é harto reprovável, inconcebível e assaz lastimoso, pelo
efeito deletério que vai ocasionar!

São eles, pois: o ruinoso tabaco e a racha profunda, na própria saia,
ainda que seja na super- mini!
Como assunto candente, é de tomar em conta!
Não podendo tratá-lo, neste Diário, fica para o seguinte.

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Amadora
14-3-1989
Comecemos, desde já, pelo uso do tabaco, vindo em seguida a racha da saia. Aqueles que fumam não se apercebem do cheiro molesto que exalam de si. O que mais irrita são, justamente, as exalações que provêm dos brônquios e assim da traqueia. Os resíduos abundantes que se vão acumulando, com o tempo a rodar, é que originam ambiente irrespirável.,de
todo repelente, impossível de aguentar!

No acto de fumar, nem todo o cheiro é repelente! Alguns deles há, que vêm com aroma, para disfarçar!
Não é muito raro ser o outro semelhante ao de giesta verde, já em combustáo.
Bom. Provado está que é mais um foco de enorme poluição, existente na atmosfera. O que mais horroriza e merece, para logo, severa
condenação, é que a mulher comete assim um crime nefando: o primeiro
atingido, pelas emanações, ainda antes de vir para a luz, é fatalmente o próprio filho que traz no ventre.

Fica logo drogado e, sendo impotente, não pode barafustar nem usar medidas, que o afastem pronto do ambiente deletério. Se for já de mama, dá-se exactamente o mesmo caso, sucedendo, pois, que a sua protectora vira assim inimiga e logo causadora de enorme ruína.

Em conclusão: a mulher portuguesa que nunca fumava, quis imitar o que viu lá fora e lhe foi apresentado na Televisão. Grande pena!
Imitar o que é bom óptimo é; fazer ao invés, é condenável!
Não bastavam já as fontes naturais de poluição?!
Além disso, prejudicam os estranhos que, não fumando, harto se angustiam e têm de afastar-se
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Amadora
15-3-1989
Vem agora a propósito s racha da saia. Também esta, igualmente, será na verdade, fonte de poluição? Com certeza que sim, pois o é, s duplo título Se n-ao, vejamos.
O que talvez não lembre a todos os leitores , vou eu despertá-lo, porque é realidade. Trata-se, claro está, de uma espécie nova de poluição,
que é interior, uma vez que actua, nos domínios da alma - a poluição moral!
A primeira, que se nota claramente. pois é bem vis´vel, provém do seguinte: por não haver barreiras ou ainda anteparos, todos os produtos,
emanados do corpo, vão para a atmosfera. Não será esta decerto,uma fonte de poluição das mais avantajadas?! Tanto assim é que a dita racga termina ,
exactamente, no lugar do "escape" É pasmoso! Como pôde chegar-se a tal descaramento?!

Por este andar, virá, por fim. a supressão da saia! Que ela já o não é!
Um resto de saia lhe podemos chamar! Foi preciso atrevimemto!
O que era mal, em tempos idos, jão não será?!

A princípio, olhando para a racha, ainda me convenci de que era um aviso, para a gente incauta usar de cautela.
Aqueles que tiraram a carta de condução sabem-no bem: o chamado triângulo é sinal de perigo! Ora, na verdade, foi esta realmente a ideia primeira que logo me veio. mas depois reflecti, chegando a conclusões.

O que valeria era uma legenda, com a palavra "perigo". Não é, de facto, o que vemos nas estradas ?!
A gente lê, a tempo, e dá-se a cuidados!
De facto, a racha, olhada grosso modo, figura um triângulo
Entretano, que importa isso, não havendo tempo de a gente fugir?! É um bico de obra a tal descoberta! E, para mais, num lugar daqueles!

Não é dali que procedem, afinal, os cheiros piores?!
Torna-se urgente uma boa campanha, muitíssimo a sério, afim de evtarmos que alastre o mal.

Tenho agora em mente que alguém proponha a supressão total ou ainda a sua inversão, quer dizer: voltar a barra para o lado contrário!
O que lembra às mulheres (não a todas, claro!) não lembra ao Diabo!

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Amadora
16-3-1989
Vem agora a propósito a segunda poluição, que não é visível,
pelo facto de actuar, no íntimo das almas. Havemos-de convir em que não é decente vestir daquele modo! Indecente e provocante isso é que ele é!

A mulher pode ser, na verdade, um apoio seguro da moralidade, pela sua modéstia, decência no trajar, compostura de maneira e jeito do corpo.
Claro e seguro que todos os factores se tomam em conta!Como pode alguém manter-se impoluto, sendo provocado com tal descaramento?! Se fosse impecável! Mas não é! Por ser pecador, conta decerto, com a boa vontade dos outros elementos que formam a sociedade!

"A ocasião faz o ladrão!" É a máxima antiga!
No caso entre mãos, a ocasião é, pois, a desfaçatez de certas gaiatas que se armaram em pernaltas!. Só se vêem pernas a falar-nos de sexo!
Muito mal estariam as mulheres portuguesas, se estribassem o valor nessa exposição!
O que o homem,de facto, aprecia na mulher, muito para lá do próprio sexo., é o aspecto moral. As belas qualidades que podem adorná-la: exemplar modéstia;; espírito nobre de sacrifício; religiosidade (sem fanatismo); amor de família;; uma longa paciência,, não esquecendo um espírito são e de boa vontade.
Aliados a estes, há outros predicados; amor ao trabalho; economia sã; boa compreensão.
Enganam-se, pois, as que julgam, tolamene, ser causa de apreço mercê de algum homem lhes fixar as pernas!
Se bem atentamos, fazem assim, aproximadamente, os próprios cães.
É um domínio puramente animal. Olhar para as pernas, denota só instinto e animalidade! Mas o homem tem, como é sabido, um destino excelente, superor ao dos cães.
Onde há só paixão ou pura animalidade, não há razão bastante nem apoio firme, para cimentar qualquer união!
Por isso, é claro, há tantos divórcios e causas em barda para discórdia.
Claro se torna que para os divórcios pode haver outras causas

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Amadora
17-3-1989
O pobre jardim da Praça Albuquerque

Esta bela Praça estende-se amplamente, face ao Museu dos Coches.
Assaz primorosa, o 25 de Abril não a tratou com a estima devida.
Refiro-me, agora, mais directamente ao que se passa, no seu interior,
nomeadamente o jardm bem como os lagos que o desprimoram. Já direi porquê.
Quanto ao monumento, é desonroso e pouco abonatório que se mostrem nele as habilidades , tentando alcançar o topo do conjunto. É má educaçao e falta de chá, denotando grossaria da mais selvagem.
Dói-me em extremo ver tais abusos. Claro! Nao havendo educação,
é preciso dá-la! Até lá, impõe-se vigilância,, guarda solícita que abranja em globo, não só o monumento e as outras estátuas, mas também os canteiros do próprio relvado e os cestos diversos, para recolha de tudo..

Por que não fazemos como os Espanhóis?!
Que alguém se atreva, lançando ao chão uma simples beata! Verá logo o polícia aproximar-se altivo, ordenando ali:" Haga Usted el favor!"

Tem de apanhar, imediatamente, deitando o lixo, no lugarr próprio.
Que resultará dos abusos aludidos, ao começo do Diário? Riscos, pela certa, escoriações, que não devemos, por modo nenhum, consentir ali!
Uma das estátuas ( o nosso povo chama-lhes bonecas) tem a mão amputada.
Que dirão os estrangeiros, quando tal virem?! Censuram o povo e as
Autoridades!
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Amadora
18-3-1989
Agora o Monumento
Gradiosa ideia! Feliz também a concepção desta obra-prima! Era digno dela o insigne Capitão! Tão alto subiu, no exercício do cargo, que
é tido, sem favor, como um dos maiores, a titulo mundial!
Vem logo a seguir ao grande Aníbal e Alexandre Magno. Claro está
que ficam abrangidos o Júlio César e Napoleão!

O nosso Albuquerque não foi grande somente como Cabo de Guerra, pois também primou nos outros ramos do seu agir: amor á Pátria , simbolizada no Rei que era o seu representante; amor aos homens por quem tudo fez; firme lealdade que nunca desmereceu; nobre sacrifício que ele mesmo se
impôs; desaires enormes a que foi sujeito, quer por ambição, quer por inveja.
Por que é que o Rei o mandou substituir?!
Pois o monumento assenta em padestal de enorme altura, no cimo do qual está colocada a estátua do herói, voltada para o Mar.
No seu discorrer,era o Mar distante a grande expressão, no Continente Asático. Ouso até dizer que ele foi o senhor do Continente-Gigante. Ormuz, Goa e Malaca, eram decerto, a chave segura dessa mole imensa!
O estilo usado é de traça manuelina. Nele se encontram os sinais denunciadores: cordas e âncoras, mastros e vegtação e os próprios animais dessas zonas longínquas.
Fixando, cá de baixo, o herói do Oriente, o grande incompreendido,
se não aviltado pelo Rei, Dom Manuel, que fez a mesma coisa a Fernão de Magalhães e Duarte Pacheco, fico deleitado, por ver claramente que o vulto dele não foi amesquinhado. Bem ao invés, permanece hirto, aprumado, inexorável, ante os criminosos; pai, amigo e serviçal de todos os infelizes, que, após a sua morte iam rezar-lhe à campa fria.

Se ele fosse traidor ou ambicioso, levantaria o Oriente contra a sua Pátria, como antes fizera o próprio Coriolano, quando Roma era senhora.

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Amadora
19-3-1989
As estátuas do Jardim (Lisboa- Belém). para mero adorno, estão afeadas. A primeira vez que tal observei, deprimiu-se logo o meu coração! São, evidentemente, estátuas femininas, cujo sexo denunciam
inequívocos sinais..

Sefosse em África, lá entre os cafres, não figurariam tais desacatos!
Os iconoclastas não foram concebidos e dados à luz por uma mulher?!
É esse ultrage a devida recompensa?! É deste modo que traduzem, no país, a sua gratidão os cafres europeus do século XX?!

Que liberdade é esta que ultraja, a fundo, a maternidade?!
Qual será o comentário, feito por estranhos, ao fixarem os olhos, altamente
curiosos, nestas obras de adorno?! Invade-me a tristeza que logo me prostra! As suas obras são, em todo o tempo, dignas de atenção. amor e respeito!
Não foi o Diabo o autor da mulher! A Sagrada Escritura é muito clara, sobre este assunto.
É, pois, necessário que as autoridades tomem posição, repondo as coisas no devido lugar e proibindo se repitam ultrages que fazem corar, pela maldade que pronto revelam tais desacatos.

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Amadora
20-3-1989
Perfaz-se hoje um século e mais três anos que meu pai nasdeu.
Não podia, claro está, deixar no olvido, este facto relevante, pois se trata, afinal, do autor de meus dias. Se os pais, na verdade, são os grandes amigos! Depois que nos deixaram, bem contra seu querer, só aderindo, por
amor a Deus, tudo no tempo nos foi adverso!

Faltavam, realmente, as grandes barreiras, que o génio do mal haveria de romper! Não seria fácil conseguir o objectivo! Meu santo pai era um lutador. porfioso, incansável, no grajeio dos meios que serviriam o lar
Depois de Deus, para mais nada agiu e viveu senão para isto.
Mercê do exposto, recordo a sua vida bem cmo o seu exemplo que é luz
ainda, nas trevas deste mundo!

Que o Deus de misericórdia o tenha em sua glória,, peço hoje eu, lembrando emocionado o dia maravilhoso do seu nascimento, que foi exactamente, a 20 de Março de 1886, na freguesia de Prados - Celorico da
Beira, distrito da Guarda.
Alenta-me a certeza de torná-lo a ver, no dia glorioso da Ressureição!
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Lisboa
21-3-1989
Embalado como ia no verde-mimoso dos nossos jardins, aqui
nomeadamente, na soberba Praça, Afondo de Albuquerque, margem direita do rio Tejo, face ao Museu dos Coches, até olvidava a minha própria doença e o grande sofrimento que, há 8 dias, me prostra, a valer!

Desta vez, a minha decepção elevou-se ao máximo.
É que, das outras vezes, passava em pé a gripe e o mais.!Nem me lembrava de que não sou jovem! Esta a grande realidade!

Aconteceu, pois, quma gripe assanhada veio ter comigo, rindo talvez da minha ingenuidade! Aos 71 anos, haveria razão, para tanta confiança?!
Era ousadia e firmeza a mais!
O tempo decorria sem qualquer melhora, e eu esmagado, ia drfinhando, a olhos visto!. Por outro lado, quase me persuadia de haver algo mais a complicar a